6.3 PUNIÇÃO DO CORPO
6.3.1 Criatura adestrada: a coletividade do disforme
6.3.1 Criatura adestrada: a coletividade do disforme Figura 08: Criatura adestrada
Fonte: Dados da pesquisa.
O primeiro enunciado do grupo Punição do corpo foi produzido pela aluna Jadiane, estudante do curso de Informática, e foi nomeado Criatura adestrada.
Na imagem, como podemos ver, a aluna pode ser identificada como a representação de uma criatura, quase um animal irracional e, por isso, facilmente dominado, que se contorce por estar sofrendo tortura. O homem/animal aparenta estar sem camisa e veste uma calça marrom e cinto preto. Acima de sua cabeça, encontramos a identificação com o nome da própria diarista. Ao seu lado, temos outro personagem, representando a personificação da instituição de ensino IFRN, conforme podemos ver identificação acima de sua cabeça. A postura deste é altiva e célebre, mantendo a boca aberta e uma das mãos elevadas, enquanto outra se prepara para o ato de violência. Além disso, ele apresenta vestes formais, como colete e chapéu, característicos de domadores de circo. Em uma das mãos, é possível observar um objeto parecido com um chicote.
Em se tratando de corpo, a posição dos dois personagens é muito simbólica. De imediato, é possível visualizar o domador ocupando um espaço privilegiado, mais próximo do leitor, o que o deixa à frente do dominado. A postura de ambos é outro fator de relevância. Enquanto um personagem está curvado, o outro aparece com a cabeça erguida e postura ereta, Isso também sinaliza a posição de desvantagem na qual se encontra a aluna em relação ao seu domador. O movimento corporal dos personagens sugere ainda que a ação da tortura está ocorrendo ciclicamente, ou prestes a ocorrer, uma vez que o personagem agredido parece assustado, obediente e resignado diante do ato de agressão, considerando que, apesar de seu semblante de sofrimento, enquanto o domador se posiciona com o chicote em sua direção, não há uma clara tentativa de fuga.
Ademais, o domador aparenta estar de frente. Sua roupa formal e a profissão associada ao seu vestiário e à sua posição de destaque no papel demonstram que a ação violenta é desenvolvida diante de um público. Ou seja, trata-se de uma violência assistida, objeto de contemplação de uma plateia aparentemente indiferente ao ato de punição, tendo em vista a não interferência de outro personagem no desenho. Portanto, o texto sinaliza para o sofrimento solitário da aluna, provocado pela própria Instituição, assistido e, por que não, aplaudido pelo público que acompanha a cena. Nesse momento, temos a desautorização do discurso estabilizado da escola como lugar de proteção, de segurança e de conforto para os jovens.
Considerando essa relação, o enunciado aponta para a naturalização do sofrimento do sujeito submetido ao sistema escolar segundo um formato que objetiva, entre outras coisas, prepará-lo para possíveis exames seletivos e/ou para o seu futuro ambiente de trabalho. Desse modo, excesso de atividades, cobranças, prazos, noites mal dormidas, falta de tempo são fatores considerados necessários e, por vezes, aplaudidos, pois são vistos como sinais de que aquele sujeito está se esforçando para garantir o “seu futuro”.
Nesse sentido, encontramos uma incoerência se considerarmos a discussão já posta em evidência neste trabalho, voltada para o discurso oficial do Instituto, por meio de seu PPP, que prioriza o desenvolvimento do sujeito em todas as esferas. Para tanto, é necessário que esse sujeito se apresente em plenas condições para acompanhar as atividades escolares propostas.
Por outro lado, quando um enunciado contesta essa visão de educação, produzindo a imagem da escola como uma tortura, somos levados a refletir sobre o discurso que paira sobre grande parte dos sistemas educacionais, de modo oficializado, ainda que não institucionalizado, o qual diz respeito à associação entre sofrimento e um futuro sucesso
profissional, entre grandes sacrifícios e bons resultados, entre situações limítrofes e futura ascensão social. Assim, o futuro que a escola deseja para os estudantes só é possível a partir de situações de “tortura” vivenciadas e naturalizadas no agora. Esse pensamento é consonante com o que Silva (2010) afirma sobre o modo como os adultos costumam enxergar o jovem: sempre um sujeito em processo, que virá a ser alguém e não a partir do que ele já é, secundarizando o seu desenvolvimento, seus sentimentos, suas angústias do presente momento.
O enunciado, portanto, mesmo apresentando a aluna em posição de desvantagem, desnuda em praça pública uma instituição que goza, de modo geral, de prestígio social em seu estado. Essa contradição se faz presente mesmo em uma instituição federal, apesar do discurso oficial e legal, sob influência do que ocorreu ao longo dos anos nas instituições de modo geral, conforme aponta Silva:
Na história da Modernidade, em nome da razão e da racionalidade, frequentemente se instituíram sistemas brutais e cruéis de opressão e exploração. Tanto as estruturas estatais quanto as estruturas organizacionais das empresas capitalistas, supostamente construídas e geridas de acordo com os critérios da razão e da racionalidade, produzem apenas sofrimento e infelicidade (SILVA, 2010, p. 112).
Por essa razão, muitas situações de sofrimento são normalizadas, primeiramente pelos adultos, que se utilizam desse histórico e das situações angustiantes pelas quais passaram na juventude, para justificarem, confirmarem e naturalizarem o sofrimento. Esse discurso também circula entre os alunos, que acabam, por um lado, aplaudindo os colegas que se submetem a situações de extremo sacrifício ou justificando situações de sucesso por meio das situações pelas quais o colega “vitorioso” passou.
Diante de todo esse contexto, temos um sujeito adolescente, enfrentando problemas característicos da idade: construção de identidade, de sexualidade, de opiniões; discordâncias e enfrentamentos com os adultos que o rodeiam, aceitação nos grupos dos quais fazem parte (ou pretendem fazer), entre outros. A escola está, inevitavelmente, inserida nesse turbilhão de sentimentos e situações como mais uma demanda para se dar conta. Além disso, conforme já foi dito, alguns educadores continuam agindo como se a escola fosse o único projeto na vida desse sujeito e desconsideram que, para alguns, ela sequer aparece como projeto, pois eles estão frequentando esse espaço por uma obrigação social. Sendo assim, a escola, como projeto de adulto para jovens, muitas vezes
desconsidera todo esse panorama e, mais gravemente, afasta-se dele quando propõe currículos distanciados explicitamente da realidade de seu público.
Por isso, a escolha pela figura do domador de circo é inquietante e representativa, pois nos ajuda a refletir um pouco mais sobre como essa aluna concebe o papel da instituição na sua vida. Conforme sabemos, o domador tem como especialidade o adestramento e controle de animais. Tanto um quanto o outro podem ser feitos a partir de compensações, quando o animal responde à expectativa, ou por meio de castigos físicos, quando o animal não age conforme lhe foi ordenado. Desse modo, para Jadiane, o Instituto funciona como um espaço que lhe nega certas liberdades de escolha, submetendo-a a situações de sofrimento quando ela não consegue atender às expectativas de aluna ideal.
Conforme Dayrell (1996) nos leva a refletir, precisamos compreender que a escola é polissêmica. Isso faz com que cada sujeito lhe atribua um significado segundo suas experiências de vida (p. 144). Por isso, não podemos considerar que todo aluno do IFRN irá receber todo o suporte, incentivo e oportunidade que a Instituição oferece como suficientes para o desenvolvimento pleno de suas habilidades no ambiente escolar. É necessário também reconhecer a instituição como uma domadora rígida e insistente a intensificar demandas muito pesadas, as quais podem ser interpretadas como chicotes nas costas dos sujeitos em formação.
A escolha pela representação de um personagem que se caracteriza como uma criatura indefinida retoma a representação da máscara carnavalesca. Esse elemento, além de provocar estranhamento e riso, omite o rosto de quem dele se utiliza, funcionando assim como um disfarce alegre. A preservação da identidade do sujeito pode significar, entre outras coisas, que as performances e situações em que está envolvido não se referem apenas a si mesmo, mas a todo sujeito que, por força das circunstâncias sociais, poderia estar ocupando o mesmo lugar.
Uma reflexão propícia advinda do pensamento de que
A máscara traduz a alegria das alternâncias e das reencarnações, a alegre relatividade, a alegre negação da identidade e do sentido único, a negação da coincidência estúpida consigo mesmo; a máscara é a expressão das transferências, das metamorfoses, das violações das fronteiras naturais, das ridicularizações, dos apelidos; a máscara encarna o princípio de jogo da vida, está baseada numa peculiar inter- relação da realidade e da imagem, característica das formas mais antigas dos ritos e espetáculos. (BAKHTIN, 2013, p. 35)
Portanto, mesmo com a identificação do personagem, a criatura tem a sua representação ampliada devido ao modo como se apresenta visualmente: propositalmente disforme, intencionalmente grotesca, tornando-se, dessa forma, corpo coletivo. O sofrimento e submissão do ser domado não é um sentimento individual, uma vez que a indefinição permite que qualquer aluno do IFRN se utilize da fantasia proposta. Assim, o corpo que se apresenta é, ao mesmo tempo, ninguém e qualquer um. No espaço da indefinição e do disforme, o corpo coletivo se encontra e se reconhece.
Há também a possibilidade de considerar a criatura indefinida como despersonalização do sujeito, ato comum nos ambientes educacionais onde cultura do sacrifício ainda permanece. Nesses ambientes, o tratamento padrão conferido a todos os estudantes desconsidera o ritmo de cada um, as formas particulares de aprendizagem mais eficazes para as idiossincrasias dos sujeitos, entre outras especificidades as quais são apagadas em prol de um modelo de estudante ideal.
Historicamente, essa despersonalização ou neutralização das diferenças esteve associada à tortura, inclusive física. Nesse sentido, é importante destacar que, durante muito tempo, os castigos físicos não foram apenas uma metáfora nas escolas brasileiras. Nosso sistema educacional, desde a época do descobrimento, foi construído com base na imposição, no medo e, também, punições corporais. Posteriormente, essas práticas permanecem, embora se apresentassem em outros moldes. Lemos (2012) apresenta um breve histórico dessa realidade educacional, como podemos ver no trecho a seguir:
[...] entendo que nas variedades de formas e modos com que se pune, busca-se obter o normal. Nas escolas da Corte do século XIX, entre os castigos corporais, encontramos alguns que são comumente praticados: o uso da palmatória, da reguada, os bolos e ajoelhar, bem como um caso inusitado, em que a professora colocava rolhas na boca das alunas que falavam muito. Encontrei também, dois casos que foram considerados bárbaros pelos próprios professores e delegados de instrução, como o uso de chicotes e pedaços de bambu (LEMOS, 2012, p. 630).
O trecho mostra situações consideradas absurdas atualmente mas que foram durante muito tempo legalizadas e elogiadas e justificadas com base em uma concepção de boa educação e disciplina ancoradas na manutenção de castigos físicos. Assim, o circo, a escola e a violência, apesar de parecerem elementos distantes, podem se encontrar diante dessa contextualização.
Portanto, o enunciado constitui-se como a representação visual do modo como Jadiane concebe a sua relação com a instituição e retoma práticas não muito distantes temporalmente falando. Porém, conforme a diarista afirma em seu texto verbo-visual, essa relação não é desvantajosa apenas por questão de hierarquias sociais, mas há uma clara culpabilização da instituição por um processo de deterioramento dessa jovem que precisa estar ali para garantir os seus estudos.
Lembremos que o IFRN é conhecido como uma instituição de ensino de qualidade, mas também como um espaço que exige dos seus alunos uma rotina pesada, sobretudo no que diz respeito ao Ensino Médio, que concilia as disciplinas propedêuticas com as disciplinas técnicas de cada curso. Além disso, muitos alunos precisam conciliar as atividades escolares com o trabalho, que às vezes se dá dentro da própria instituição, por meio de bolsas, mas que pode também ocorrer fora da escola. Nos dias de hoje, além, de todas essas obrigações, os jovens são estimulados desde cedo a pensar na preparação para as provas do ENEM, que, geralmente, são parte da realidade do aluno em meados do 3º ano do Ensino Médio, mas que pode ocorrer antes, dependendo da idade do aluno e de seu histórico escolar, considerando que muitos dos que ingressam no instituto já cursaram o Ensino Médio em outra instituição. Todas essas questões, juntamente com outras situações já apontadas neste trabalho, podem estar associadas a essa compreensão da Instituição como contribuinte para um extremo desgaste físico.
O discurso do controle, da imposição e da submissão inerente aos ambientes escolares é retomado no enunciado. Porém, as vestes carnavalescas apresentam-no sob uma nova configuração, tanto subversiva quanto questionadora. É exposta a ambivalência entre choro e riso, pois a menção ao ambiente do circo, espaço de lazer e entretenimento, não foge à situação de tensão provocada pela relação entre os personagens. Nesse caso, tal qual a praça pública, morte e vida encontram-se e entrelaçam-se, proporcionando uma reflexão sobre as habituais relações entre escola e aluno.
O caráter cômico do enunciado também é propiciado por um contexto em que o riso é construído em conjunto com situações trágicas e pelo incentivo ao ato de rir de si mesmo. Atualmente, nas redes sociais, textos verbais e visuais, contrapondo-se ao discurso do sucesso, celebram as derrotas e conflitos do sujeito nas suas interações com o outro e o com o mundo. Nesses gêneros, a grande questão não é apenas rir do trágico, mas rir de sua própria tragédia, que, ao ser exposta, encontra-se com a tragédia do outro e une todos no riso e na dor. Portanto, ainda que a personagem esteja sob situação de
tortura, o desenho manipulado de modo simples simboliza o encontro da aluna com todos aqueles que se sentem torturados pela Instituição.
Para concluir, retomamos um dos princípios de análise de imagem apresentados por Joly (2012), caracterizado pela presença/ausência de elementos no texto visual. Cabe aqui um destaque, nesta análise, para a compreensão de que a ausência de balões de fala no enunciado pode simbolizar que os elementos visuais já dão conta da relação entre os personagens retratados. Ou ainda o silêncio (re)produzido nesta relação, um dos motivos para preservá-la, no ambiente escolar, naturalizada, estagnada.