Redes de cuidadores: mediadores (familiares e contratados) humanos e não-humanos
2.1. Mediadores humanos
2.1.1. Cuidadores familiares e contratados
2.1.1.6. Cuidadora contratada “informal” (Caminha) 59 Zuleide
A última cuidadora a ser apresentada chama-se Zuleide, e é o único caso que conheci de cuidadora contratada “informal” em Caminha. Zuleide tem 67 anos, declarou-se branca e católica. Nasceu em Caminha e foi criada pelos pais que tiveram 8 filhos (5 mulheres e 3 homens). Contou que “deixou de ser criança” aos 14 anos, quando começou a ajudar a mãe no campo, na limpeza das casas e da sua própria casa. O pai era pescador. Zuleide não teve oportunidade de seguir com os estudos, pois já aos 14 anos também trabalhava na cozinha de um Lar, servindo refeições a 35 idosos. Casou-se aos 20 anos, grávida de um homem que trabalhava como pedreiro na Espanha, onde ela morou por alguns anos. Contou que cuidou, com a ajuda das irmãs, da mãe que sofria de diabetes e precisou amputar as duas pernas. O pai foi assassinado e o marido faleceu há 20 anos, em decorrência de um câncer. Explicou que não cuidou do marido, porque ele tinha uma amante e abandonou a família quando os filhos tinham entre 14 e 5 anos. Quando adoeceu, ele tentou uma reaproximação e Zuleide o rejeitou. Teve com ele quatro filhos, um homem e três mulheres, com idades entre 47 e 25 anos. A situação financeira deles é bem instável e Zuleide falou do quanto se preocupava em não poder ajudar
59 Esta cuidadora mantinha um contrato com seu empregador (o filho da idosa que cuidava) diferente das
cuidadoras contratadas do apoio domiciliário em Caminha -- formalmente contratadas por instituições que prestam serviços de cuidado de idosos no domicílio –, e das cuidadoras contratadas que conheci no curso de cuidador de idosos, em Salvador, que tinham registro na carteira de trabalho como empregadas domésticas. Como precisava destacar essa diferença, chamei essa cuidadora contratada de “informal” porque, segundo me contou Zuleide, a negociação foi verbal e não havia um documento legal que assegurasse as regras desse contrato.
aos filhos tanto quanto eles precisam. Disse que uma das filhas nunca lhe pede nada, já a filha que mora em Lisboa sempre precisa de ajuda. Ela ajuda também o filho desempregado e a filha caçula. Falou que um dos netos precisava de botas especiais para corrigir um problema nas pernas, vivendo preocupada com todos, filhos e netos. Gostaria de juntar algum dinheiro para poder ajuda-los melhor, porque o valor de sua aposentadoria não chega a 500 euros. Para garantir sua sobrevivência, abastece os cafés da região com salgados e se viu obrigada a aceitar o trabalho de cuidadora da idosa que acompanhava na época em que conversamos. Contou que sempre trabalhou nas cozinhas dos cafés e a ideia de ser acompanhante de idosos à noite surgiu da necessidade e da oportunidade, já que ela mesma tem medo de dormir sozinha e tem sempre as noites livres. Zuleide mora sozinha e costuma alugar um dos quartos da casa no verão. Seus filhos e netos, primas e sobrinhos também moram no concelho.
Entretanto, ao longo de sua trajetória, Zuleide cuidou de outros idosos. Aos 17 anos, quando morava em Lisboa, cuidou de uma senhora. Depois dessa primeira experiência, há 20 anos cuidou de um casal de vizinhos, proprietários de um café. Mais recentemente cuidou por 3 anos de uma senhora brasileira, que há poucos meses tinha sido institucionalizada pela família. Nunca fez cursos de capacitação, nem tem interesse em fazer, segundo afirmou. Quando a conheci, estava vivendo uma situação complicadíssima: ela estava “presa” a uma idosa de 87 anos que, após um tombo na rua, foi levada ao hospital onde o médico diagnosticou que ela sofria de Mal de Alzheimer. A idosa morava sozinha e Zuleide tinha sido contratada há 1 ano apenas para acompanhá-la às noites. Até a queda, a idosa parecia bem, ainda que um pouco atrapalhada com algumas tarefas do dia a dia. Zuleide não sabia que ela sofria dessa doença e depois de conversar com o médico, investigou os medicamentos que a idosa tomava e entendeu que os parentes já sabiam do diagnóstico, apenas não havia informado a cuidadora contratada. Zuleide estava atordoada com o quadro de saúde da idosa que se deteriorou com muita velocidade após a queda. Seu trabalho que antes se resumia a dar apoio à idosa quando precisava se locomover e, sobretudo, fazer-lhe companhia à noite, tornou-se uma avalanche de tarefas para as quais não havia sido contratada para realizar, atrapalhando sua rotina como fornecedora de salgados aos cafés da região. Tamanha era a mudança na condição de saúde da idosa, que Zuleide precisou deixar sua casa para instalar-se no domicílio da idosa até que seu único filho retornasse da França para definir aquela situação. A cuidadora estava muito desgastada física e emocionalmente quando conversamos, chorando muitas vezes durante a entrevista.
Disse-me que os filhos se preocupam muito com ela, Zuleide, porque é hipertensa. Teve um desmaio na rua e acordou no hospital em Viana, mas não sabe explicar o que teve. Toma
remédio para coração, hipertensão e tireoide. Costuma ir ao médico, faz exames regularmente e segue as recomendações médicas. Não faz adaptações porque tem medo. Na época em que nos conhecemos, contou que costumava jogar cartas aos fins de semana com mais 12 amigas e que hoje quase todas estão mortas. Então já não havia esses encontros com muita frequência. Não costuma fazer visitas, mas recebe muitas visitas de filhos e netos. O que mais gosta de fazer é cozinhar, mas aos 57 anos começou a ter dificuldades de conseguir emprego como cozinheira. Voltou ao Lar de idosos onde trabalhou na cozinha aos 14 anos, mas frustrou-se com a impossibilidade de emprego e me disse: “sinceramente, antigamente eu servi e era uma criança. Agora que eu sei fazer de tudo, já não sirvo. E isso não é só em Portugal, é em todo canto”. Normalmente, quando tem algum tempo livre, assiste tv e adora novelas. Afirmou que apesar dos seus problemas de saúde e das circunstâncias delicadas envolvendo o trabalho com a idosa que cuidava naquele momento, sentia que essa é a melhor idade de sua vida, pois não está presa a nada. Mesmo o problema com a idosa era visto como uma questão temporária, bastando o filho chegar. Zuleide disse que aquele seria seu último emprego como cuidadora de idosos. Como vendia salgados em muitos cafés e tirava um bom dinheirinho com isso, disse que não dependia do trabalho como cuidadora. Tudo que queria era voltar à sua casa o mais breve possível e estar com seus filhos e netos.