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Responsabilidades e limites das cuidadoras contratadas

Redes de cuidadores: mediadores (familiares e contratados) humanos e não-humanos

CAPÍTULO 3 – Cuidando de idosos no contexto domiciliar

3.2. Cada casa é um caso

3.2.2. Responsabilidades e limites das cuidadoras contratadas

Procurei estar atenta, ao longo do trabalho de campo, às perspectivas sobre as responsabilidades e limites atribuídos ao ofício de cuidadora de idosos, contratada para prestar serviços no ambiente doméstico. Interessava-me não só tentar identificar quais as tarefas reconhecidas como próprias da cuidadora, como também -- tendo em vista as especificidades desse contexto, onde intimidade e privacidade são elementos com os quais a cuidadora contratada terá que lidar – perceber quais os limites impostos a estas trabalhadoras no ambiente doméstico e em suas relações com os idosos e seus familiares93.

Em relação às responsabilidades identificadas como aquelas atribuídas a cuidadora de idosos, o primeiro ponto a destacar é a aparente combinação entre o trabalho doméstico e o trabalho de cuidar de idosos. Em mais de um caso encontrei mulheres que começaram trabalhando como empregadas domésticas e, quando um membro idoso do grupo doméstico precisou de cuidados, se viram, “de repente”, responsáveis por cuidar dessa pessoa – quase sempre acumulando atribuições sem aumentos salariais94. Em Caminha, Magda, ex-diretora de

um Centro de Dia, também mencionou essa combinação, aparentemente muito conveniente aos contratantes, que esperam adquirir dois serviços pelo preço de um. Segundo seu relato, a filha

93 Antes de prosseguir na apresentação de um panorama sobre minhas observações relacionadas a cuidar de idosos

no ambiente domiciliar, indico que não proponho neste capítulo uma análise das questões referentes à regulamentação da profissão, ou seja, as atribuições legalmente reconhecidas, visto que tratarei do tema mais adiante, no último capítulo, destinado à discussão sobre profissionalização e formação de cuidadores de idosos. Outra ressalva importante é de que não pretendo apresentar uma lista pormenorizada dos tipos de tarefas que as cuidadoras contratadas que conheci realizavam, pois mais adiante tratarei das práticas de cuidado com o merecido destaque. Aqui exponho apenas algumas considerações que surgiram a partir do trabalho de campo, nas conversas e entrevistas com as interlocutoras da pesquisa, ressaltando que utilizo a expressão “cuidadora” com grande frequência porque em minha pesquisa só encontrei mulheres contratadas para exercer essa função, ainda que existam homens trabalhando como cuidadores de idosos.

94 Odete, aluna do curso, trabalhava como empregada doméstica e cuidadora de idosos na época em que nos

conhecemos. Quando perguntei se a regulamentação da profissão de cuidador de idosos alterou o relacionamento entre ela e os patrões, declarou que piorou um pouco sua situação. Isso porque, com a lei definindo duração da jornada de trabalho e o direito às horas extras, ela acabou tendo o horário de serviço reduzido – menos tempo para realizar as mesmas tarefas -- para que os patrões não precisassem pagar o adicional: “eu faço dois trabalhos, porque eu cuido da idosa e cuido de tudo na casa. E a remuneração é muito pouca. Com essa lei nova, se eu ficasse mais tempo no sábado, eles teriam que pagar um extra, mas eles não querem. Antes eu saía aos sábados 14hs, mas, depois dessa lei, eu saio meio dia, porque eles não querem pagar hora extra”. Trabalhava com carteira assinada e embora o salário seja reajustado anualmente, com base no salário mínimo, achava que a remuneração que recebia (R$ 583,00) não era justa diante de todos os trabalhos que realizava no domicílio da idosa. Considerava os patrões boas pessoas, mas admitia que eram pobres.

de uma idosa recebeu a equipe de apoio domiciliário explicando que já tinha feito a higiene pessoal da mãe antes de sua chegada e propôs que as cuidadoras “compensassem” o tempo que estava reservado para esse serviço ajudando-a a colher batatas em seu quintal: “percebes o valor instrumental? No fundo o que pensam é ‘estou a te pagar e tu fazes o que te mandastes’. Daí a importância de fazermos um contrato de prestação de serviços”, declarou a ex-diretora. Diana, uma cuidadora do apoio domiciliário, já havia me dito que era preciso manter uma certa distância dos familiares dos idosos, pois “chega um ponto que eles confundem o que nos cabe no trabalho com o que não nos cabe. Nunca pode dar muita confiança porque chega um ponto em que confundem tudo”.

Situações conflituosas podem ser geradas por tais “confusões”, como chamou a cuidadora portuguesa, e, durante o curso de cuidador, a professora recomendou inúmeras vezes que nos habituássemos a registrar as práticas de cuidado executadas no domicílio sob orientação da família do idoso. Considerando as dificuldades envolvidos nas relações entre cuidadores contratados, idosos e familiares que foram discutidas ao longo do curso, ela realmente me convenceu sobre a importância desse caderno de ocorrência para descrever as tarefas realizadas cotidianamente, registrando horários e situações relacionadas ao trabalho e ao comportamento do idoso95.

Outro ponto relevante está relacionado à responsabilidade de administrar medicamentos. No curso de cuidador fomos instruídas a jamais interferir na dosagem das medicações, nem suspender ou adicionar nada. Só o enfermeiro ou o médico podem suspender medicação, disse-nos a professora. Também fomos instruídas a anotar quando o idoso faz uso de remédios caseiros, como chás, porque eles podem interagir com os medicamentos receitados. Entre as estudantes do curso surgiu a dúvida sobre os efeitos dos medicamentos: “se eu perceber que está fazendo mal, eu continuo? E se ele morrer?” A partir dessas dúvidas começamos um longo debate sobre a quem pertence a responsabilidade nesses casos. Uma aluna preocupava- se que “se o idoso for a óbito, haverá um laudo pericial que pode apontar para o médico ou enfermeiro como culpado, mas na prática é o cuidador o primeiro a ser tratado como suspeito”. A professora voltou a reforçar a importância do registro de acompanhamento do idoso, onde deve constar não só as alterações percebidas, como as orientações recebidas pela família e

95 Nele o cuidador deve expressar também suas discordâncias em relação às decisões da família, para que sirva de

evidência no caso de um inquérito policial (na pior das hipóteses) ou numa consulta médica, por exemplo. Uma das alunas demonstrou preocupação sobre a validade desse registro, pois a cuidadora pode ser acusada de forjar informações e sua dúvida me pareceu justificada em certas circunstâncias. Não sei o quanto esse instrumento pode ser eficaz como evidência numa investigação criminal, por exemplo, porque há a possibilidade de tais anotações serem questionadas e o cuidador pode ser acusado de forjar essas informações para se eximir de qualquer culpa.

equipe de saúde, além das informações que são transmitidas a essas pessoas sobre o estado de saúde do idoso.

Uma das responsabilidades apontadas no curso de cuidador, segundo a professora, é a de “aprender para fazer”. Explicou-nos que o curso fornecia uma bagagem básica e, na prática, o cuidador precisaria se manter informado sobre a condição de saúde do idoso que ficará sob sua responsabilidade, sendo sempre necessário atualizar e agregar conhecimentos por conta própria, pesquisando e se interessando de verdade, “para evitar erros, pois se você fizer alguma coisa errada, a família não hesitará em culpar e denunciar o cuidador. Assumindo essa função, você terá que responder por tudo que acontece ao idoso”. A professora completou, afirmando que nos hospitais é a equipe de enfermagem que fica responsável por acompanhar os efeitos das medicações prescritas pelo médico e como a família, geralmente, não conta com esse suporte técnico no domicílio, cabe ao cuidador profissional estudar o caso de seu paciente, procurando entender os efeitos das medicações usadas pelos idosos. Por isso é preciso aprender a ler a bula e entender, mesmo que superficialmente, quais os efeitos das medicações administradas, estando sempre alerta quanto às reações dos pacientes para, quando necessário, informar à família qualquer alteração negativa para a vida do idoso96.

Considerando esses breves destaques que fiz em relação ao que algumas interlocutoras da pesquisa reconheciam como responsabilidades da cuidadora contratada, é importante mencionar que também houve comentários que indicavam que as obrigações não deviam anular a autonomia das cuidadoras. Para especificar o que chamo aqui de autonomia, apresento o complicado caso narrado por Eliana, professora do curso, sobre um dilema vivenciado pelas cuidadoras que ela supervisionava: a filha da idosa que elas cuidavam era médica, tendo esta ordenado às cuidadoras que administrassem três comprimidos de diazepam (10mg) de uma só vez, ordem recusada por uma das cuidadoras, afirmando que a enfermeira havia proibido alterar as prescrições do médico que acompanhava a idosa. A orientação em situações como essa é que

96 Observei também que, entre as recomendações sobre o ofício de cuidador, a professora destacou, em diferentes

situações do curso, que cabe ao cuidador atuar como porta-voz do idoso. Deve assumir uma postura questionadora quando perceber que certas práticas podem ser inúteis ou nocivas ao idoso. Nesse sentido, quando o cuidador, com o seu conhecimento, notar que decisões da família estão trazendo mais prejuízos que benefícios, deve se colocar como uma figura contestadora, conforme declarou a professora: “o cuidador está ali defendendo os interesses do paciente. Não pode ser omisso. Tem que saber entrar e saber sair. Tem que saber como se colocar como profissional capacitado e procurar ter discernimento sobre tudo aquilo que envolve o idoso”. Ao longo do curso a professora pareceu-me disposta a modificar a visão das alunas sobre o idoso, transformando-o em “paciente”, ou seja, percebê-lo como os profissionais da área da saúde o percebem. De certo modo, parecia ter o propósito de catequizar a turma até que todas falassem dos idosos como “pacientes”. Colocando-se nessa condição, a impressão que tive era de que o cuidador deveria se torna uma espécie de “promotor” em relação aos parentes e “defensor” em relação ao idoso, uma espécie de porta voz pronto a acusar a família e defender os interesses do chamado “paciente”.

a cuidadora tenha coragem de negar atender a uma ordem da qual discorda, ou que considera arriscada:

Se ela achava certo dopar a mãe daquele jeito, que ela fizesse sozinha. Se tivesse alguma consequência negativa, a responsabilidade seria da filha. A cuidadora deve estar alerta nestas situações. Isso acontece muito. A filha queria dopar a mãe para que ela parasse de gritar. Ela não enxerga, nem escuta. A única coisa que lhe restou foi a voz. E a filha quer calar a voz dela (Eliana, professora do curso, Salvador).

Tendo explorado alguns aspectos relacionados às responsabilidades da cuidadora contratada, apresento a seguir, algumas questões relacionadas aos “limites” com os quais convivem as trabalhadoras contratadas para cuidar de idosos no domicílio, que dizem respeito ao alcance de suas ações (de certo modo, ao “lugar” que ocupam no ambiente domiciliar – por onde circulam, os locais onde o acesso é permitido ou proibido) e sobre a necessidade de manter um certo distanciamento emocional, tanto na relação com os familiares como com o idoso, afinal, a demissão é uma realidade possível e as cuidadoras contratadas devem colocar limites em seu envolvimento emocional com o idoso, a família e a casa.

O tempo é um fator regulado quando a cuidadora contratada atua no domicílio. Algumas alunas do curso se queixaram do controle que os patrões exercem sobre o uso que fazem do tempo durante o expediente97. Outra questão relacionada aos limites da cuidadora contratada,

conforme indica Bianca, diretora do Lar de idosos em Caminha, é a gratidão dos idosos pelo trabalho realizado pelas cuidadoras formais: “Há muitas vezes trocas monetárias a nível de gratificação pecuniária – cortastes minhas unhas hoje e não era o dia, então toma 5 euros – e se isso começar a acontecer tens um serviço de apoio domiciliário sem qualidade nenhuma”. Ela explicou que estas trocas espontâneas podem trazer complicações tanto para o entendimento do que é o serviço, quanto o que é o papel da cuidadora formal, além de problemas entre as funcionárias do Centro: “porque assim tudo passa a ser possível e a confusão é grande”.

Considero importante destacar ainda o que é encarado por muitas cuidadoras contratadas sobre o “problema” do envolvimento emocional. Convivendo diariamente com uma família que não é a sua, vendendo sua força de trabalho por baixas remunerações, repleta de

97 Uma delas confessou que há períodos em que o idoso que cuida está descansando e não precisa dela, que

aproveita para tirar um cochilo também ou navegar na internet. Sua atitude era tratada quase como um crime pelos parentes, que exigiam todos os segundos contratados, apesar de se recusarem a pagar hora extra quando necessário. Dependendo da condição de saúde, a atuação do cuidador é mais ou menos intensa e isso gera conflitos, seja porque para os momentos de “folga” são atribuídas tarefas que não constam no acordo, seja porque outros cuidadores se sentem prejudicados na partilha das tarefas ou ainda porque parentes veem nesse tipo de funcionário alguém preguiçoso que quer “se encostar”.

responsabilidades (por vezes até levar suas refeições, pois os patrões não consideram a alimentação da trabalhadora sua obrigação como contratante) e limites (inclusive físicos), as cuidadoras de idosos narraram diversas situações em que o envolvimento emocional com a situação vivenciada por idosos e familiares tinham impactos em suas vidas, afetando-as psicológica e emocionalmente.

Em Caminha, entre as cuidadoras contratadas eram comuns relatos sobre saudades de idosos que faleceram sob seus cuidados, deixando-as desconsoladas. Já em Salvador, no curso de cuidadores, eram frequentes os momentos de desabafo e choro entre as cuidadoras. A professora afirmou ser o cuidador de idoso alguém que trabalha em circunstâncias muito particulares e por isso, muitas vezes, se envolve de tal forma com suas atividades que, mesmo querendo se livrar do emprego, por causa das condições ruins de trabalho, tem dificuldades de ir embora, porque sabe que o idoso depende dele, que seria preciso treinar outra pessoa para substituí-lo antes de partir e etc. Tudo isso torna muito complicado o trabalho de cuidador. O sentimento de responsabilidade cresce com o convívio e quando o cuidador percebe que a família o explora e não dá muita importância ao bem-estar do idosos, acaba tomando para si essa missão e fica “amarrado ao idoso”, mesmo quando deseja partir em busca de outra oportunidade de trabalho98.