3.4 Dinâmicas do cuidado
CAPÍTULO 4 – Cuidadores e idosos: o cotidiano das relações
4.2. Perspectivas sobre o sujeito do cuidado
4.3.2. De cuidadoras contratadas
Em relação às expectativas das cuidadoras contratadas, a maior parte delas espera contar com familiares para cuidar delas quando estiverem mais velhas. Em Salvador, as alunas do curso apostavam nos filhos. Olívia, que esperava seu segundo filho quando conversamos, disse que contava com eles na velhice. Odete, com 5 filhos, espera que eles cuidem dela no futuro: “claro, alguém tem que cuidar de mim e deve ser meus filhos...” Quanto aos planos para o futuro, seu maior desejo é conseguir uma casa própria para se livrar de vez do aluguel: “É o meu sonho esse aí. Antes meu sonho era os meus filhos. Eu tive 4. Também casei, descasei, já sei o que é homem. Hoje meu sonho é ter minha casa”.
Em Caminha, as cuidadoras do apoio domiciliário se dividiram entre as que confiavam que os filhos seriam seus cuidadores e aquelas que não sabiam ou preferiam ser institucionalizadas. Raquel acreditava que seu trabalho como cuidadora lhe trazia recompensas: “estamos a fazer um bem e sentimo-nos bem. Cuidar de uma pessoa faz eu me sentir bem por dentro. Sou católica, então sinto que Deus me recompensa em muitos momentos por esse
trabalho que faço. Não sei bem explicar, mas sinto que fazendo o bem, ele retorna pra mim”. Por isso ela disse que, em sua velhice, esperava que seus filhos estivessem bem e pudessem ampará-la: “que me ajudem como tenho tentado ajudar aos outros”. Sobre o futuro desejava muita saúde e que nada lhe faltasse: “principalmente a saúde, porque sem saúde não há nada, não há ricos, nem pobres. Tendo saúde, temos tudo. Dinheiro hoje não temos, amanhã já temos, é isso que penso”. Outra cuidadora do apoio domiciliário, Bernadete, falou-me algo parecido sobre o que esperava de sua velhice:
Eu sou católica e acredito muito em Deus. Eu acho que estou a ser muito bem paga. Ganho muito menos do que mereço, mas é muito gratificante porque Deus está a me pagar de maneiras muito bonitas. Todos que não estão mais aqui estão a me dar força. Eu gosto muito daquilo que faço. Eu não sei o que será da minha velhice, se vou estar numa cama, e desejo ter todo amor e carinho que dou a essas pessoas, conhecidos e desconhecidos (Bernadete, cuidadora do apoio domiciliário, Caminha)
Quando perguntei diretamente se Bernadete esperava que alguém cuidasse dela no futuro, ela me respondeu:
Sim, mas não vou estragar a vida de ninguém. Se houver um Lar, que me façam o mesmo que faço, que eu espero um dia que Deus me recompense por isso. Eu já sou muito feliz nisso. Mas não estou à espera de estragar a vida de minhas filhas nem de ninguém, porque hoje em dia se tem que trabalhar e estas instituições são também um lugar bom de se viver (Bernadete, cuidadora do apoio domiciliário, Caminha).
Isso não significava dizer que não esperava das filhas muito amor e que elas conseguissem fazer o que ela sempre conseguiu fazer: “que elas não esqueçam os valores que lhes ensinei”. Sobre seu futuro afirmou que desejava envelhecer trabalhando como cuidadora no Centro: “Já tive propostas de trabalho até para ganhar mais. Foi aqui que eu me realizei e é aqui que quero ficar. Amar e ser amada é a melhor coisa da vida”.
Duas cuidadoras do apoio domiciliário, entretanto, mostraram-se mais pessimistas sobre a própria velhice. Tatiana, solteira e sem filhos, disse que não esperava nada de ninguém na sua velhice, “nem penso nisso”, e falou que não tinha planos para o futuro: “tudo que eu peço é que não me arrependa de nada ao olhar pra trás. Já me arrependi de coisas que fiz na vida e esse sentimento não quero ter mais”. Cristina, por seu turno, afirmou que procurar um Lar para institucionalizar o idoso é sempre um último recurso, mas ela achava que não devia ser visto assim, como abandono: “eu, se calhar, não me importava de ir pra um Lar. Eu preferia estar lá
e passar o sábado e o domingo com meus filhos do que saber que estou a prejudica-los, a dar- lhes trabalho”.
4.3.3. De profissionais de saúde
Eliana, a professora que também é enfermeira, falou com muita franqueza sobre suas expectativas sobre seus possíveis cuidadores. Ela explicou que já pensou diferente, já esperou que os filhos cuidassem dela na velhice. Contudo, sua experiência como cuidadora de idosos alterou seu modo de encarar essa questão:
Nessa minha trajetória como cuidadora de idosos, eu percebi que foi esse tipo de pensamento que levou muitos idosos a sofrerem e muito. Eles não se prepararam e a espera maltrata a gente. Quando você chega nessa fase que precisa que alguém cuide de você, que você se vê incapaz e dependente do outro, você só quer ser assistido na sua situação. Você não está com a cabeça aberta pra pensar nas necessidades do outro. Nessa situação de dependência, você se torna a pessoa mais egoísta do mundo e eu não quero isso pra meus filhos. Já me preocupei muito com isso, mas hoje em dia não. Por tudo que tenho visto nas famílias. Por mais que eu queira que na minha família seja diferente, eu não posso criar meus filhos nessa expectativa, nessa eterna cobrança. Eu não sei o futuro deles, não posso fazer exigências. Não quero que eles se sintam mal se não tiverem condições de me ajudar. Porque é isso que tenho visto nas famílias, aquela eterna cobrança. Quando não são os pais que cobram, são os filhos que esfregam na cara dos pais os sacrifícios que tem que fazer pra cuidar deles. Não quero ser um fardo pra meus filhos, nem quero que eles se sintam culpados por não poderem ou não quererem cuidar de mim. Então não espero nada do futuro (Eliana, professora do curso, Salvador)
Em Itaparica, as profissionais de saúde da UBS que acompanhei, a enfermeira e a ACS, esperam que os filhos cuidem delas quando envelhecerem. Alice é solteira e não tem filhos, mas espera tê-los e que eles cuidem dela, que lhe deem atenção quando ficar velha. Planejava fazer outro curso superior, estudar outras áreas, porque embora gostasse da área de saúde, sentia-se pressionada pela responsabilidade de estar lidando com vidas. Talvez se especializar em outro campo na área da saúde, menos estressante que a atenção, foi o que ela me disse. Antônia, ACS, é mãe de uma menina de dois anos e como disse que não pretende ter mais filhos, afirmou que a filha é quem irá cuidar dela na velhice. Ela explicou, ainda, que não temia a velhice, mas o desamparo. Os avós foram bem cuidados, mas ela não sabia como seria com ela.