Redes de cuidadores: mediadores (familiares e contratados) humanos e não-humanos
2.2. Mediadores não-humanos
2.2.1. Medicamentos e equipamentos
Durante o curso de cuidador de idosos, a professora Eliana recomendou por diversas vezes que fôssemos profissionais curiosas e responsáveis: “a cuidadora deve saber de tudo um pouco. E o que não sabe, deve pesquisar. Buscar informações é uma forma de cuidado”. Nas aulas, foram debatidas questões relacionadas ao uso de medicamentos e equipamentos envolvidos nas práticas de cuidados voltados para idosos e, tendo em vista que em muitas situações será preciso administrar medicamentos e manipular equipamentos, a professora nos disse que o cuidador de idosos deve buscar informações sobre todos os procedimentos que precisam ser realizados. O alerta que fazia referia-se à necessidade de obedecer às orientações fornecidas por cuidadores familiares e profissionais de saúde e, sobretudo, à necessidade de buscar entender para que servem os medicamentos administrados e como atuam no organismo dos idosos.
Questões relacionadas ao uso de medicamentos foram tratadas com maior profundidade em uma aula cujo tema foi a “farmacologia do idoso”, como nos disse a professora, que utilizou alguns slides para abordar o conteúdo da aula e distribuiu caixas de remédios que usualmente são receitados para idosos a duplas de alunas para lerem e destacarem as principais informações contidas nas bulas das medicações71. A professora Eliana começou explicando que
hipertensivos, analgésicos, antiácidos e anti-inflamatórios são os medicamentos mais usados por idosos. Continuou explicando que, no Brasil, estudos indicam que o idoso brasileiro chega a consumir, simultaneamente, dez tipos de medicamentos, sendo que muitos deles com efeitos similares. O objetivo da aula era ajudar as cuidadoras a entenderem as informações básicas contidas nas bulas e a se familiarizarem com a linguagem, dosagem e compreensão sobre efeitos colaterais e interação medicamentosa. Tais informações são importantes na medida em que auxiliam a cuidadora a entender melhor seu paciente, seu comportamento, humor e suas necessidades. Destacando as particularidades da fisiologia do idoso, a professora afirmou: “o
71 Algumas alunas que trabalhavam como cuidadoras na época reconheceram algumas medicações. A professora
comentou sobre os altos custos de remédios de primeira geração. Utilizou algumas expressões como “drogas da moda”, “de primeira escolha” e teceu comentários como “o queridinho para quem tem Alzheimer, como já foi dito, é o Excelon”. Reforçando o quanto custava caro o remédio de uso contínuo (R$ 545,00), a professora criticou o fato do governo brasileiro não distribuir os medicamentos considerados mais eficazes, mas sim os mais baratos. O melhor tratamento, portanto, está reservado aqueles que possuem mais recursos.
idoso é um ser diferente de todos os outros seres que existem”, pois o ritmo de absorção de medicamentos no organismo envelhecido é diferenciado72.
Sobre os problemas relacionados à interação medicamentosa, a professora disse que a cuidadora precisa entender os efeitos de cada droga usada por seu paciente, prevendo também os efeitos colaterais e resultantes da combinação de medicamentos. Isso não significa, entretanto, que a cuidadora possa interferir na administração da dose recomendada pelo médico. Ela relatou o caso da idosa que cuida e que sofre de Mal de Alzheimer. A idosa faz uso de um coquetel muito forte de medicamentos que só a deixam mais confusa, agressiva e nervosa. A família insiste em administrar esses medicamentos porque confia com muita intensidade no efeito deles – receitados por um famoso neurocirurgião – e por não aceitarem a doença da idosa. Eliana afirmou: “eles medicam ela na tentativa de mascarar os sintomas do Alzheimer. Não seria mais fácil aceitar a doença e procurar lidar com os sintomas de um modo mais humano?”73.
De todo modo, quem cuida do idoso no domicílio precisa entender os efeitos das drogas que administra e as consequência desse uso, pois muitos idosos estão sujeitos a combinações de medicamentos compostos por diferentes substâncias, umas que os deixam agitados, outras que induzem ao sono e relaxamento, entre outros efeitos colaterais74. Ao recolher, no final da aula,
as embalagens de medicamentos distribuídas, Eliana ressaltou a importância de seguir as orientações do médico e esperar algum tempo (15 dias a 1 mês) até que o remédio faça efeito, pois, no organismo dos idosos, a absorção é mais lenta (o metabolismo, a absorção, a excreção e a distribuição das drogas estão comprometidas). Além disso, o tratamento não deve ser nem prolongado nem abandonado75.
72 A professora criticou o fato de ser incomum, mesmo nas medicações voltadas para doenças típicas do
envelhecimento, encontrar na bula informações relacionadas ao uso do medicamento entre pacientes pertencente a este segmento populacional.
73 No caso do Alzheimer, a professora recomendou que os cuidadores familiares avaliem a idade do paciente e o
estágio da doença para poder decidir o tipo de tratamento a ser adotado: “um paciente de 50 anos é diferente de um de 90. Imagine uma pessoa de 90 anos turbinada com vaso dilatadores potentes e outros medicamentos que comprometem ainda mais sua condição de saúde – agravando a hipertensão e provocando ansiedade. Será que vale a pena submeter o idoso a esse tipo de situação? ”.
74 A professora acusou médicos de receitarem medicamentos “a torto e a direito”, sem conhecer a condição renal
do paciente, muitas vezes sobrecarregando-o com muitos remédios. Comentou sobre o alto preço de muitos medicamentos voltados para doenças de idosos e insinuou, muito superficialmente, a existência de acordos internacionais entre indústria farmacêutica e Estados para viabilizar testes e venda de medicamentos, independentemente de sua eficácia real.
75 Foi interessante observar o assombro das alunas diante do volume de informações relacionadas aos
medicamentos e a preocupação crescente com os riscos envolvidos no uso e na interação medicamentosa. Muitas alunas declararam nunca ter “prestado atenção” nas bulas dos remédios.
Nos contextos onde a pesquisa foi realizada, a percepção e o acesso aos medicamentos era diferenciado76. Em Caminha, como a seleção da maior parte dos domicílios investigados
dependeu da atuação das equipes de apoio domiciliário das IPSS que acompanhei, quase todos os casos eram de idosos que recebiam os medicamentos em casa, como parte do serviço contratado. As instituições intermediavam a compra, a entrega e a administração das medicações, dependendo de cada caso (se havia ou não familiares a apoiá-los). Os medicamentos eram pagos em sua totalidade pelos idosos. As queixas sobre os valores desses produtos eram frequentes, como me disseram as diretoras das IPSS. Em Itaparica, como abordei famílias cadastradas na UBS da localidade, alguns medicamentos eram entregues gratuitamente nos domicílios, através de um programa chamado MEDICASA. Entretanto, foram frequentes os relatos entre cuidadores familiares sobre atrasos na entrega e falta de remédios de uso contínuo, o que os obrigava a comprar os medicamentos na farmácia, resultando em maiores despesas para os idosos e seus familiares.
Apesar do uso de medicamentos ser uma constante na maioria dos casos apresentados (tanto idosos como seus cuidadores seguiam orientações médicas que envolviam utilização de fármacos), as pessoas que conheci relataram recorrer a outros tipos de remédios e tratamentos. Por exemplo, Olívia, cuidadora contratada que conheci no curso, em Salvador, contou que o idoso que ela cuidava seguia alguns tratamentos considerados alternativos. A sobrinha dele, que é massoterapeuta, aplicava-lhe ventosas regularmente. Além disso, ele fazia sessões de acupuntura que, segundo ela, ajudavam a diminuir as dores. Já a ACS Antônia, da UBS de Itaparica, comentou que atualmente os velhos se comportam de um modo diferente, pois antes eles só usavam folhas para se cuidar: “minha avó era parteira e orientava todo mundo. Mas era muita superstição também. Hoje em dia os idosos procuram mais os médicos”. No entanto, mesmo considerando o seu relato, minhas observações em campo apontaram para a frequente combinação de tratamentos – recomendados por médicos e por outros especialistas –, muito comum na localidade onde realizei a pesquisa em Itaparica. A enfermeira da UBS que acompanhei, Alice, explicou-me que era possível combinar tratamentos diferentes. Afirmou, ainda, que o médico da UBS também recomendava chás e coisas “alternativas” para melhorar a saúde dos pacientes: “ele apoia muito a combinação de tratamentos”. Ela relatou sua experiência na Unidade de Saúde:
76 Um exemplo curioso de como algumas medicações eram percebidas pode ser extraído do relato da professora
do curso em uma das aulas. Ela explicou que as constantes campanhas de vacinação voltadas para idosos e relacionadas à prevenção da gripe não costumam ser bem vistas por alguns idosos e que muitos deles se recusavam a tomar a vacina contra a gripe por suspeitarem ser ela uma armadilha do governo para matá-los e assim diminuir os gastos com aposentadorias e pensões.
A gente faz tratamento com os diabéticos com quiabo. Pinica o quiabo todo e coloca na água e bebe essa água. E tá dando certo. Eu vi no Fantástico e uma senhora me falou que estava fazendo isso. Eu media a glicemia dela e estava sempre baixa. Aí eu perguntei: “como a senhora está tomando o remédio?”, ela disse que tomava um por dia. Trouxe a cartela e eu conferi. Perguntei então o que ela estava fazendo e ela contou dessa “água de quiabo”. Aí eu comecei a recomendar em alguns casos e as pessoas estão notando a melhora, está diminuindo a diabete (Alice, enfermeira UBS, Itaparica).
Além da combinação de diferentes terapêuticas, encontrei situações que consistiam na combinação entre uso de medicamentos e de equipamentos. Por exemplo, uma preocupação recorrente entre as alunas do curso de cuidadores em Salvador era sobre o modo correto de aplicar insulina nos pacientes diabéticos. Esse era um questionamento que envolvia tanto a dosagem da medicação como o uso de seringas ou equipamentos mais sofisticados, como uma caneta aplicadora. Uma das alunas perguntou sobre onde deveria ser aplicada a insulina e a professora declarou que não precisa ser técnico em enfermagem para aplicar essa medicação, até mesmo o paciente pode fazer sozinho. Contudo, é importante saber aplicar a insulina na dosagem certa, com a seringa apropriada, em regiões com camadas de gordura significativas como: braço, barriga e na lateral da coxa. Em relação à dosagem, a professora esclareceu que quem costuma informar ao cuidador sobre isso é a equipe de saúde ou a família (provavelmente orientada pelo médico do idoso). De acordo com o que nos disse a professora, o cuidador não tem que adivinhar nem experimentar nada, deve apenas garantir que as ordens sejam executadas conforme as orientações. Os resultados são de responsabilidade da família e da equipe de saúde. Uma aluna perguntou se, no caso de perceber que a dosagem de insulina pode ser insuficiente ou não está tendo o efeito esperado, seria possível compensar a hipoglicemia com alguma fruta, algum alimento. A professora disse que era preciso medir a glicemia e, constatando a insuficiência da dosagem da insulina para resolver o quadro hipoglicêmico, a administração de água com açúcar poderia ajudar a salvar uma vida.
Sobre procedimentos que ajudam a monitorar a condição de saúde do idoso, Eliana explicou que como quem administra o hipoglicemiante é a cuidadora, ela precisa estar capacitada para fazer uma glicemia capilar. Além disso, manipular um aparelho aneroide para aferir pressão também é fundamental, assim como saber identificar as exigências nutricionais da dieta do idoso conforme sua condição de saúde. Houve uma aula inteiramente dedicada a aprendermos a utilizar o equipamento para aferir pressão77. Foi uma grande confusão, pois a
77 A professora distribuiu kits para aferir a pressão a duplas de alunas, um tensiômetro aneroide e um estetoscópio,
explicando que o cuidador precisa saber utilizar esses instrumentos. Com esses equipamentos, precisávamos obter três valores precisos (com o idoso em pé, sentado e deitado). Alertou que a alimentação, atividade física e outros fatores podem influenciar os valores obtidos. Disse que por muito tempo os valores de referência, 120 por 80 ml
turma era muito barulhenta e agitada, mas ao menos a professora teve oportunidade de apresentar às alunas informações relevantes como a impossibilidade de aferir pressão do modo mais comum nos pacientes que fazem hemodiálise ou que passaram por mastectomia. Uma das alunas disse que “ouviu dizer que” cuidador não pode aferir pressão. A professora negou, afirmando que não só pode, como deve. Em muitas situações ficou evidente a existência de ambiguidades nas atribuições do cuidador na perspectiva das alunas do curso – ora em relação ao domicílio, ora em relação aos aspectos mais técnicos dos procedimentos de enfermagem. Ainda sobre a rotina de monitoramento, perguntei à professora como proceder e ela explicou que, com o idoso ainda em jejum, é preciso medir a glicemia dos pacientes diabéticos e “quando o cuidador é mesmo dedicado, monitora também temperatura, respiração e batimentos cardíacos”.
Embora ao longo do curso não tenhamos tido nenhuma aula prática sobre glicemia capilar, quando encontrei a professora Eliana para uma entrevista, nas instalações onde o curso era realizado, quase três meses após o final do curso, ela estava dando instruções a uma das alunas, Andréa, sobre o teste de glicemia. Dois pontos interessantes na orientação dada por ela (e que foi mencionada também ao longo do curso): informar ao idoso sobre o procedimento que pretende fazer e qual o resultado obtido. Como a aluna demonstrava ainda alguma insegurança para fazer o teste de glicemia e aferição de pressão, Eliana procurou tranquilizá-la, dizendo que com a prática “você entra no automático”. Ela também ressaltou que existem diferentes modelos de aparelho para fazer essas medições e que o cuidador deve procurar conhecer o equipamento que vai usar, ler o manual e procurar tirar qualquer dúvida com a família ou equipe de saúde que acompanha o idoso. O teste deve ser feito antes e depois das refeições e o material/lancetas utilizado deve ser descartado -- ou naquelas caixas amarelas próprias para lixo hospitalar ou num pote de vidro transparente --, mas não deve ser jogado no lixo comum e sim levado a um posto de saúde.
Ainda sobre a necessidade de lidar com equipamentos utilizados pelos idosos, houve uma aula onde a professora falou sobre o déficit nutritivo por deficiência de absorção ou metabolismo. Ela nos disse que, em alguns casos, o paciente precisa fazer uso de sondas –
(12 por 8) de mercúrio, foram considerados o marco de “pressão normal”. Atualmente, entretanto, considera-se 140 por 90 ml (14 por 9) de mercúrio aceitável. Mas esses valores devem levar em consideração o estilo de vida da pessoa, pois os valores aferidos podem ser consequência de hábitos de vida. Quando apresentou os instrumentos para fazer a medição, destacou que além do tensiômetro aneroide, que estávamos conhecendo de perto, existe o de coluna de mercúrio (comum em hospitais) e o digital (que não é muito confiável, segundo a professora, pois apresenta variação de 3ml de mercúrio para mais ou menos, dependendo da posição e comportamento do paciente -- precisa estar com o punho do braço que vai ser verificado na altura do coração e sem fazer esforço algum). Com o estetoscópio, podemos escutar os batimentos cardíacos nos vasos sanguíneos.
nasogástrica ou nasinteral. Recomendando que o cuidador, ao manipular a sonda, esteja sempre com as mãos bem limpas, com muito cuidado, Eliana explicou ser preciso triturar e diluir as medicações. Ela perguntou se alguém tinha experiência com paciente usando sonda e algumas alunas responderam que sim. A professora disse que é um procedimento complicado, pois é preciso retirar todo o ar da sonda e ela deve ser colocada acima da cabeça do paciente. A temperatura do alimento não deve ser nem muito gelada, nem muito quente. O ideal é temperatura ambiente, salvo quando há orientação médica específica. A sonda deve ser bem lavada antes de ser utilizada. Os lábios e a boca do idoso devem ser sempre hidratados e ele deve ser alimentado sentado, sendo preciso esperar no mínimo 40 minutos para deitar. Quando a cuidadora for trabalhar com paciente que faz uso de sonda, deve tirar todas as dúvidas com a equipe médica78.
Em Caminha, a diretora do Centro Social, Joana, me explicou que os aparelhos para medir glicemia e pressão arterial estão à disposição no Centro e são utilizados sempre que necessário. As cuidadoras têm curso de primeiros socorros e sabem utilizá-los. Quando qualquer problema é detectado, acionam o Centro de Saúde. Joana também mencionou a existência de equipamentos que são cedidos a alguns utentes para fazerem uso em seus domicílios, como cadeira de rodas, cadeira apropriada para o banho, camas articuladas. Em alguns casos, são as famílias que adquirem esses equipamentos conforme orientação das cuidadoras do Centro. Como cada casa é um caso, a instituição procura avaliar e ser flexível diante das realidades que encontra. Essa diretora também mencionou um equipamento à disposição dos idosos que, de certo modo, fazia às vezes de “cuidador”: um aparelho, para ser colocado no pulso ou no pescoço (como colar) ligado a uma central telefônica, localizada no Porto, para idosos pedirem ajuda quando necessário, especialmente à noite. Trata-se do serviço de “Teleassistência”, uma conexão 24h entre idosos e técnicos da área de saúde. A central faz uma triagem e orienta o idoso ou envia uma equipe de apoio ao domicílio. Por exemplo: o idoso sofre uma queda, aciona o serviço e a Guarda Nacional Republicana (GNR)79 vai ao domicílio
para leva-lo ao hospital ou Centro de Saúde mais próximo. Esse serviço começou a funcionar
78 As cuidadoras que tinham experiência com pacientes que usavam sonda contaram que os idosos se queixam de
não terem comido de verdade, que sentem falta do gosto das coisas e muito enjoo. Eliana explicou que o alimento administrado na sonda pode ser industrializado ou preparado em casa (no liquidificador e coado), dependendo da orientação médica, e alertou para que a alimentação seja administrada bem devagar, senão corre o risco de voltar tudo: “se o paciente tiver refluxo, corre o risco dele bronco aspirar, baixar na UTI e morrer”.
79 A Guarda Nacional Republicana é uma força de segurança de natureza militar, constituída por militares
organizados num corpo especial de tropas e dotada de autonomia administrativa, com jurisdição em todo o território nacional e no mar territorial de Portugal.
em julho de 2013 e o aparelho ainda não estava à disposição de todos os utentes, por isso procuravam priorizar aqueles idosos que residiam sozinhos.