Redes de cuidadores: mediadores (familiares e contratados) humanos e não-humanos
CAPÍTULO 3 – Cuidando de idosos no contexto domiciliar
3.3. Práticas do cuidado
3.3.2. Demandas dos idosos: dependências e carências
Enfocando as dependências e carências dos idosos, apresento a seguir alguns casos que evidenciam como podem ser variáveis as demandas e carências dos mais velhos e as práticas de cuidados executadas nas diferentes circunstâncias. Somado aos aspectos já mencionados, relacionados a cuidar de idosos no ambiente doméstico – especificidades desse contexto, acesso diferenciado a recursos materiais, humanos e afetivos, bem como as responsabilidades e limites das cuidadoras contratadas --, as condições de saúde dos idosos emergem como determinantes para os tipos de atividades que os cuidadores, familiares e contratados, precisam realizar.
Começo expondo os casos em que os idosos dependem dos cuidadores para algumas situações, mas preservam significativa autonomia. Essa era a situação de um casal de idosos em Itaparica, que vivia em sua própria casa, cujos cuidadores familiares mais atuantes eram seus filhos mais velhos, que também eram seus vizinhos106. Os pais administravam a própria
renda – ambos são aposentados -- pagavam suas despesas e não precisavam de ajuda financeira dos filhos. Não usavam fralda, não precisavam de ajuda para tomar banho, se deslocar ou para
105 Abordando o problema da falta de sintonia entre cuidador, idoso e familiares na definição de uma rotina de
cuidados, a professora avaliou que o menos importante pra família costuma ser o idoso, o que ele quer: “o problema é que nós, os cuidadores, e as famílias também, coisificamos o idoso. É como se fosse ali um espectro que eu manipulo, mexo pra lá, mexo pra cá, dou alimentação, medicação, como se fosse um bonequinho, um bebezinho ali. É como se ele não tivesse sentimento, nem vontade, não tem nada. Nós somos humanos!” Nesse sentido, a professora voltou a enfatizar a necessidade de investigarmos a vida dos idosos com os quais trabalhamos para entendê-los melhor, além de programarmos atividades com as quais eles tenham afinidades ou façam algum sentido para eles.
106 O domicílio do casal está localizado na rua principal com uma bela vista para o mar. Ao lado da casa, um
estreito corredor leva a uma espécie de vila, com muitas casas menores conjugadas, habitadas por parentes do casal idoso. “Aqui é tudo família”, explicou-me o filho mais velho, Everaldo.
tomar os medicamentos e viam os filhos diariamente107. Além da hipertensão, a mãe, de 76
anos, sofria de “problemas do útero” (não ficou claro o quê). O pai (78 anos) também era hipertenso e tinha “problemas pulmonares e na próstata”. Teve um coágulo no cérebro e precisou passar por uma cirurgia. Depois da cirurgia, ficou mais debilitado. Era uma pessoa mais ativa, jogava baralho, dominó e bebia com os amigos. No momento da pesquisa, a dupla de filhos cuidadores o percebia mais debilitado, mais esquecido, aéreo e menos comunicativo. Segundo os cuidadores familiares, os pais saem pouco de casa, apesar de ainda possuírem muita autonomia. Os filhos estão sempre atentos às necessidades deles, especialmente relacionadas à saúde e, quando consideram necessário, levam os pais ao geriatra.
Em Caminha, encontrei Marta, uma senhora de 83 anos que, embora fosse atendida pelo serviço de apoio domiciliário, mantinha ainda relativa independência. Solteira e sem filhos, morava sozinha em seu apartamento, localizado no mesmo edifício da irmã, Mariana, sua principal cuidadora familiar. A idosa sofria com sequelas do AVC e, ainda que tivesse recobrado parte dos movimentos dos membros inferiores, os membros superiores continuavam com a mobilidade severamente comprometida, especialmente do lado direito. Também ficou com uma afasia108. Não fazia uso de medicamentos. O serviço do apoio domiciliar contratado
englobava o fornecimento das refeições, higiene pessoal e habitacional. Precisava de ajuda para tomar banho, mas tinha bastante autonomia ainda, conforme contou sua cuidadora: “veste-se, despe-se e vai à casa de banho sozinha. Só usou fraldas logo depois do AVC, mas depois conseguiu conter”. Não costumava sair de casa, nem recebia visitas com frequência109.
107 Everaldo, o filho cuidador, avaliou que os pais tiveram um estilo de vida saudável, comendo muito peixe e
frutos do mar frescos, morando na ilha e por isso são muito fortes e saudáveis. A mãe é muito ativa, disse-me rindo: “na cozinha ninguém vai, é só ela. Quando [minha irmã] vai lá fazer a comida pra eles, ela se queixa que não está boa. Tá sem sal!”. A filha mais velha, Elvira, também cuidadora dos pais, confirmou o relato do irmão sobre a busca por autonomia da mãe, explicando que ela trabalhou como empregada doméstica por toda a vida e sempre foi dona de casa. Hoje, apesar de não ter as mesmas condições físicas de outrora, não se conformava em ficar parada. Quer lavar roupa, cozinhar. Todos se oferecem para fazer as tarefas domésticas e recomendam que ela descanse, que não há necessidade de fazer trabalho pesado, mas a mãe insiste em fazer e isso preocupa um pouco os filhos, por conta da hipertensão – doença que a levou a se aposentar por invalidez.
108 Mariana disse que Marta sempre gostou muito de falar e hoje faz esforços para se comunicar, mas a cuidadora
acha muito difícil entendê-la. Procura ter paciência para escutá-la, mas é sempre complicado. Explicou que quando a irmã mostra intenção de falar algo, tenta descobrir sobre o assunto, a pessoa, enfim, sobre o que ela quer falar. Vai perguntando e a irmã acena com a cabeça e pouco a pouco descobre o que Marta está tentando dizer.
109 Quando acompanhei uma das rondas da equipe que lhe fornece o serviço de apoio domiciliário, notei que, na
segunda visita feita à sua casa naquele dia, as cuidadoras foram lá apenas para fazer-lhe companhia: uma delas lixava as unhas de Marta, enquanto a outra sentou-se ao seu lado para assistir um pouco à novela que passava na tv. Elas se comunicavam com carinho com a idosa que permaneceu em silêncio, parecendo habituada àquele momento na sua rotina diária.
Quanto às demandas e carências dos idosos mais dependentes, que vivem acamados à mercê de seus cuidadores, é importante destacar que podem ser temporárias ou permanentes110.
Olívia, uma aluna do curso, cuidava há um ano de um senhor de 63 anos que vive acamado. Ele precisa de ajuda para realizar a maior parte das atividades. A cuidadora contou que o estimulava com exercícios para mobilidade dos membros inferiores, dava-lhe banho, preparava e servia as refeições dele. Contou também que antes eles também saiam de casa para passear no shopping e ir ao cinema, mas hoje o idoso prefere ficar em casa porque acha que dá muito trabalho esses passeios e não gosta de usar a cadeira de rodas. Sobre sua condição de saúde, Olívia explicou que ele tem tendência a depressão e muitas vezes fica calado, sem vontade de conversar111. O
idoso não tinha problemas para se comunicar e contava com um bom rendimento, oriundo de sua aposentadoria por invalidez (era funcionário da Petrobrás quando sofreu o acidente). Entretanto, diversos relatos da cuidadora contratada indicavam que os filhos dele não reconheciam sua autonomia para tomar decisões, especialmente em relação aos seus bens112.
Em Caminha, encontrei muitos casos de idosos com problemas de demência atendidos pelo apoio domiciliário e também tomei conhecimento de outros tantos através dos relatos das cuidadoras contratadas. Os relatos sobre os tumultos provocados pelos pacientes de transtornos mentais eram muitos e frequentes.
Ao longo do trabalho de campo, encontrei idosos com variados graus de dependência, conforme suas condições de saúde. Quanto às carências, muitas estavam relacionadas à necessidade de melhores condições materiais para executar tarefas que podem proporcionar bem-estar aos idosos. Contudo, a carência que mais se destacou foi a de companhia. Em Caminha, a solidão em que viviam muitos dos idosos atendidos pelo apoio domiciliário era facilmente perceptível. Quando acompanhei rondas das equipes, visitei idosos que passavam o dia inteiro sozinhos, sendo a única visita que recebiam a das cuidadoras contratadas do apoio domiciliário.
110 Luciana, uma idosa que vivia com o filho e a nora, em Caminha, por exemplo, passou um período vivendo
acamada. O filho, Laerte, contou que foi uma época muito complicada, porque ela tinha dificuldades para falar e teve problemas intestinais que exigiam a intervenção da cuidadora do apoio domiciliar para ajudá-la. Em três meses, a idosa se recuperou e, ainda que dependa do filho e da nora para realização de algumas atividades, suas demandas e carências diminuíram bastante se comparadas ao período em que passava o dia inteiro no leito.
111 Sofreu um acidente aos 27 anos, no qual fraturou a coluna em três partes, mas ainda andava, mesmo com
dificuldades. Quando fez uma cirurgia de próstata, deixou de andar definitivamente. Perdeu o equilíbrio e a força nas pernas.
112 Na época em que conheci Olívia, ela relatou que eles forçaram o idoso a fazer a partilha da herança. Por outro
lado, os comentários que essa cuidadora contratada fez ao longo do curso também apontavam para ela como alguém que não respeitava muito as escolhas e decisões do idoso – era ela quem definia a rotina de cuidados sem consulta-lo, proibia-o de assistir a filmes pornôs, entre outros exemplos de perda de autonomia associado à alta dependência física.
Os serviços oferecidos pelas instituições englobavam higiene pessoal e habitacional, troca de roupas, controle do serviço de lavanderia, entrega de refeições e companhia. Entretanto, como pude observar, o período em que fazem companhia aos idosos acaba sendo muito curto. Uma das cuidadoras contratadas, Raquel, concordou com minha observação, complementando que tem consciência de que os idosos desejam e precisam de mais companhia, mas não é possível por causa do ritmo de trabalho. Comentou que o preenchimento do registro de ocorrências de cada domicílio também consome tempo e atrasa um pouco o serviço. No caso da equipe que esta cuidadora integra, 10 domicílios eram visitados duas vezes por dia, todos os dias da semana. Ela disse que sentia que muitos idosos precisam de mais atenção, mas pelo fato de terem uma rotina de trabalho em diferentes domicílios, localizados em pontos diferentes, torna a jornada de trabalho muito corrida e nem sempre é possível dar essa atenção a mais que eles precisam113.
Em Salvador, as alunas do curso de cuidador citaram inúmeros casos que retratavam a solidão e abandono de idosos em seus domicílios. Uma delas, Odete, que entrevistei tempos depois da conclusão do curso, foi contratada há quatro anos para cuidar de uma idosa, na época com 76 anos, que sofria de depressão há 5 anos: “cada vez que um filho casava e saía de casa, ela piorava”. Suas responsabilidades incluíam, além de cuidar da casa como empregada doméstica, administrar medicamentos, preparar refeições, dar-lhe banho: “só ficava deitada ou sentada. Não se mexia pra nada. Eu pegava ela pelo braço pra levar pro banheiro, porque ela não tinha ânimo de levantar”114. Outra aluna do curso relatou sobre sua experiência de três
meses como cuidadora de uma idosa de 83 anos que sofria de depressão e era muito agressiva, além de ser viciada em remédios. A idosa precisava de ajuda para tomar banho, comer e tomar
113 Sua parceira de trabalho, Diana, também comentou sobre o desamparo dos idosos que cuidam: “falta carinho,
companhia, eles passam muitas horas sozinhos. Às vezes pequenos pormenores pra eles são grandes. Às vezes eles preferem conversar um bocadinho do que tomar um banho, por exemplo. Têm falta de outras coisas”. A cuidadora considerava a ausência da família na vida do idoso um dos motivos que pode leva-lo à solidão e à depressão. A situação dos idosos que frequentam os Centros de Dia – onde passam o dia com outros idosos, sob supervisão das cuidadoras que lá trabalham, recebem as refeições e são integrados em atividades que procuram promover o estímulo e a sociabilidade – também merece destaque. Cristina, uma cuidadora que também trabalhava como motorista em um Centro de Dia, transportando idosos de suas casas para o Centro e vice-versa, falou sobre os idosos frequentadores da instituição, explicando que alguns vivem sozinhos, outros com o cônjuge e outros com seus filhos e netos. Frequentam o Centro para “ter um bocadinho de convívio e não estarem sozinhos em casa durante os dias que os filhos não estão em casa, a trabalhar”. Considerava o serviço oferecido pelo Centro de Dia um apoio à família também, não só ao idoso.
114 Na época em que conversamos, contou que a idosa melhorou muito e Odete continuava a arrumar a casa, lavar
roupa, cozinhar e cuidar dela, mas não como no princípio, quando ela precisava de “um cuidado especial porque ela estava depressiva mesmo, muito parada, não fazia nada sozinha. Hoje, aos 80 anos, ela toma os remédios, come e toma banho sozinha. Só acompanho ela no dia de lavar a cabeça. Quando não é pra lavar a cabeça, eu não sigo [para o banheiro] que os filhos não querem que eu vá, pra ela ir reagindo, melhorando”.
a medicação, mas, para a cuidadora, sua principal necessidade era de companhia: “ela só dormia segurando minha mão e pedia pra fazer cafuné”.