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Redes de cuidadores: mediadores (familiares e contratados) humanos e não-humanos

2.1. Mediadores humanos

2.1.2. Profissionais de saúde e cuidadores espirituais

Em relação aos profissionais, apresento os perfis de duas enfermeiras (a professora do curso e a que trabalhava na UBS em Itaparica) e uma agente comunitária de saúde (ACS). Quanto aos cuidadores espirituais, não cheguei a abordar esses mediadores de modo direto, mas identifiquei a presença dessas figuras nas dinâmicas do cuidado em torno dos idosos a partir dos relatos de meus interlocutores e considerei relevante fazer menção aos modos como eles participam das relações de cuidado.

Eliana (Enfermeira e professora do curso)

Eliana tem 35 anos, declarou-se negra e evangélica. Nasceu em Salvador e foi criada pelos pais. Tem duas irmãs que moram em Salvador e 3 irmãos em Jequié: a mais velha é Eliana e o mais novo tem 14 anos. Diz que tem boa relação com a família de origem. O pai vive em Jequié com a segunda família, mas mantem intenso contato com as filhas do primeiro casamento, cobrando visitas e telefonando frequentemente para saber como elas estão. Atualmente mora numa casa de três andares, todos ocupados por parentes: a mãe, a irmã, seu marido e filhos. Eliana reside

com o marido e os três filhos. Contou que teve uma boa infância, apesar da pobreza. Engravidou muito cedo de um surfista, aos 15 anos e, por isso, suas amigas de infância foram proibidas de andar com ela (vista como má influência): “isso estragou um pouquinho minha infância”, ponderou. Ajudava nos serviços domésticos e teve oportunidade de estudar, mas com a gravidez perdeu algumas chances, como um estágio no BANEB. Sua família proibiu que ela ficasse com o pai de seu primeiro filho.

Está casada há 12 anos com um homem de 39 anos que trabalha como motorista, com quem tem uma relação conturbada60. Em sua casa, ela e o marido dividem as responsabilidades

quanto ao sustento da família. Eles têm 3 filhos, dois homens (10 e 21 anos) e uma menina de 3 anos. Eliana, o marido e os filhos moram no 2º andar da casa própria. A mãe dela mora no térreo, enquanto a irmã, sobrinhas e cunhado residem no 1º andar. Também uma tia mora no mesmo bairro. O filho mais velho trabalha como radiologista, mas não contribui com o orçamento familiar. Eliana é enfermeira, tem especialização na área de gerontologia social e terapia intensiva. Trabalha como professora de cuidadores de idosos, preceptora de curso, presta consultoria em saúde e é voluntária no posto de saúde da Carlos Gomes, no centro de Salvador. Sua renda como autônoma é de 3 mil reais. Seu marido também trabalha e a renda da família é de 6 mil reais. Não recebe ajuda financeira de ninguém e ajuda a mãe e a outras pessoas, até alunas do curso que precisam de um dinheiro para o transporte ou lanche. Seus dependentes são seus filhos mais novos e sua mãe. Além disso, Eliana é a única responsável pelos serviços domésticos, o que a deixa ainda mais sobrecarregada:

Quando estou em casa tenho que fazer tudo da casa, tenho que dar atenção a todos os filhos, assistir desenho animado, ouvir as histórias do colégio, e há muito ciúme entre os filhos, especialmente por causa da caçula. Minha relação com minha família é bem complicada e eu me sinto muito culpada por não dar conta de tudo. A maior dificuldade é agradar a todos, conseguir dar atenção aos filhos e ao mesmo tempo trabalhar e cuidar da casa. Eles não entendem como é complicado pra mim (Eliana, professora do curso, Salvador).

Ela começou a trabalhar com 16 anos como babá na casa de uma professora. Depois do nascimento do primeiro filho, parou de estudar. A família de Eliana a manteve cativa durante

60 Eliana me contou que o marido não a apoiou quando decidiu cursar a faculdade e todos os cursos que fez foram

por conta própria: “A gente chegou a se separar por um tempo, quando eu estava grávida da menina de 3 anos, pois ele descobriu que tinha uma doença nos rins e achou que ia morrer logo. Então resolveu farrear, aproveitar a vida como se tudo fosse acabar amanhã e sumiu. Quando minha filha já estava com um ano e eu já estava com outro relacionamento, ele voltou muito doente, com uma infecção grave, e eu tive que cuidar dele. Ele ficou internado 28 dias e pediu perdão por tudo e que queria ser um bom pai para os filhos dele. A gente voltou a morar juntos, mas a relação mudou bastante, porque como ele sabia que eu tive um relacionamento com outra pessoa depois que ele abandonou a família, ele passou a ficar paranoico e controlador. Isso é complicado pra mim, porque ele não acredita na minha palavra e vive me seguindo e vigiando”.

toda a gestação para evitar que ela encontrasse o pai da criança. Contou que foi um parto complicado e quase morreu ao dar à luz a seu primeiro filho (explicou que não tinha feito pré- natal, nem era acompanhada por médico algum). Só voltou a estudar 8 anos depois. Com o nascimento do menino, ele ficou sob os cuidados da avó, porque o avô a tinha expulsado de casa. Nesse período trabalhou em diferentes funções, como garçonete, babá, cuidadora de uma senhora de 92 anos. Quando fez a prova do ENEM, na 2º edição do programa, conseguiu, através do PROUNI, vaga em 5 faculdades em diferentes áreas. Na época, o governo arcava com 50% dos custos, mas exigia renda comprovada para o aluno assumir parte da dívida. Sem apoio da família e do marido, Eliana passou no vestibular de uma faculdade particular para o curso de enfermagem, mas não se animou muito porque não tinha condições de pagar a mensalidade de 700 reais. Com a ajuda de um dos filhos de Aleluia, a idosa que ela cuidava na época e ainda cuida, conseguiu se matricular – contou muito emocionada sobre esse momento de solidariedade. Ela explicou que por isso se sente presa a Aleluia e sua família até hoje.

Há mais de dez anos cuida de idosos. Afirmou que se sente satisfeita em seu trabalho como cuidadora. A situação mais complicada que enfrentou nessa função foi quando a família abandonou uma idosa sob seus cuidados e sem remuneração. O mais difícil para Eliana é a sensação de impotência diante de diferentes circunstâncias:

Não ter autonomia, nem autoridade... nenhum poder pra decidir, pra melhorar a vida do idoso. O conhecimento é uma faca de dois gumes, porque te tortura. Você sabe que aquilo está fazendo mal ao paciente, mas não tem o poder de interferir. Tem o conhecimento, mas não tem o poder (Eliana, professora do curso, Salvador).

Sobre possíveis benefícios em ser cuidadora de idosos, a professora disse que você passa a encarar a vida de um jeito diferente: “parece que a vida passa mais lentamente, não sei explicar o porquê”. Disse também que o retorno é mais afetivo que financeiro e que ser cuidadora de idosos afeta muito sua vida, em todos os sentidos, mas principalmente na relação dela com os próprios filhos61. Afirmou não se sentir insegura para lidar com nenhuma situação envolvendo

cuidado de idosos pois “já viu de tudo”, mas mesmo assim desejava continuar estudando e praticando, para se tornar uma profissional melhor62.

61 Sobre isso, Eliana me disse: “como estou sempre muito desgastada, quando eu chego em casa quero descansar,

mas não posso fazer isso. Porque tenho minha família me esperando, tenho a rotina da casa toda me esperando. Nunca tenho folga, na verdade. Tenho que fazer tudo, todos os dias. Eu queria ter um tempo pra mim também, pra me cuidar, pra dormir direito. Tem um artigo que uma revista me encomendou há seis meses e ainda não consegui terminar, porque pra escrever você precisa estar com a mente fresca, seu corpo descansado”.

62 Eliana contou que tem um sonho: ir para a Europa aprender mais, pois “eles implantaram o SADIS lá que é um

serviço de apoio domiciliar, com apoio do governo, que engloba desde o cuidado com domicílio até o idoso. Um atendimento mais global. Eu queria ter oportunidade de estudar isso, de aprender com essa experiência na Europa”.

Sobre sua saúde, diz ter problemas. Sente que precisa descansar e há nove anos não tira férias. Tem assistência médica particular, mas não costuma ir ao médico. A última vez que foi ao médico foi no seu último parto, há 3 anos. Anualmente vai ao ginecologista. Acha importante ir ao médico, mas explicou: “quem trabalha na área de saúde vive assombrada, com medo de doenças. O conhecimento que a gente adquire assusta a gente e quando eu sinto alguma coisa e sei o que pode ser, evito ir ao médico pra não confirmar minhas suspeitas”. Só faz exames quando o trabalho exige “exames admissionais”. Não tem nenhum problema de saúde que exija tratamento médico regular, nem usa medicamentos. Participa do grupo “Vontade de Viver”63,

mas não costuma sair de casa para passear ou viajar. Tem muitos amigos e procura encontrar tempo para visitar essas pessoas. Também gosta de visitar pacientes das alunas do curso. Quando tem um tempo livre, fica com os filhos, vai ao cinema, à praia e à igreja batista.

Alice (enfermeira UBS, Itaparica)

Alice tem 23 anos, declarou-se parda e evangélica. Nasceu em Salvador, cresceu na Ilha de Itaparica, mora em Salinas de Margarida e trabalha na UBS de Itaparica. Criada pelos pais, tem três irmãos por parte de pai e um por parte de pai e mãe. É a filha mais velha. Disse que teve uma infância maravilhosa, brincou muito e pôde estudar. Não precisou trabalhar fora de casa quando criança, mas gostava de ajudar a mãe em casa. Ela disse que deixou de ser criança aos 16 anos, quando começou a ter responsabilidade e foi morar em Salvador. Morava com um tio e ficava sozinha o dia todo, porque o tio só voltava à noite do serviço. É solteira e não tem filhos. Os pais trabalham e sustentam a casa, onde ela e o irmão mais novo também moram (uma casa grande, em frente ao mar, com 3 quartos, cozinha, sala, 2 banheiros, área de serviço e varanda). Outros parentes moram no mesmo distrito. O irmão tem 18 anos e pouco ajuda nas tarefas domésticas.

Alice concluiu o curso de enfermagem e fez um estágio não-remunerado no PSF por um semestre em Simões Filho (município próximo a Salvador). Ela começou a trabalhar aos 22 anos, tendo experiências no hospital de Simões Filho e no Hospital Roberto Santos, em Salvador. Além disso, acompanhou o pai quando ele ficou internado no HGE. Também fez

Explicou que os europeus já atentaram para as dificuldades da família dar o suporte que o idoso necessita e já existem serviços de cuidado domiciliar que atende demandas que a família não dá conta. No Brasil, isso ainda está em transição, mas a tendência é a mesma. Acha interessante esse modelo de assistência porque assim o idoso não é um estorvo nem para o governo, nem para a família.

63 O Grupo Vontade de Viver de Apoio aos Portadores de Hepatites Virais é uma organização voltada para o

atendimento de portadores de hepatites e seus familiares. Atua na prevenção e promoção da saúde, fornecendo informações, disponibilizando preservativos e realizando palestras e capacitações em saúde.

cursos de capacitação para leitura de exames e medicamentos e na ocasião em que nos conhecemos fazia uma especialização em enfermagem no trabalho. Não tem dependentes. Disse que tem vontade de ter um filho, mas tem muito medo de parir. Explicou que naquele momento estava aproveitando sua liberdade, pois morava com os pais, contribuía para o orçamento doméstico e sua remuneração era suficiente para suas necessidades. Não precisava se desdobrar para trabalhar em lugares diferentes e isso lhe garantia uma boa qualidade de vida. Contou que tem uma vida social muito ativa, passeia muito e se sente satisfeita com seu trabalho.

Em casa, ajuda aos pais a cuidar da avó paterna (82 anos) que teve complicações pós- operatórias (Alice explicou que a cirurgia foi uma hidrocefalia: colocou uma válvula no cérebro, mas o perfurou, provocando uma paralisia no lado esquerdo do corpo da idosa). Entre os familiares que vivem com ela, há uma escala com horários definindo os turnos de cada um como cuidadora da idosa. Com a fisioterapia, a avó está voltando a andar, mas ainda sem firmeza. Na UBS onde trabalha como enfermeira há 1 ano, recebe um salário de 2500 reais. Sua rotina é a seguinte: de segunda à quarta o atendimento ocorre no posto de saúde (o movimento é muito variável e há poucas crianças e gestantes). Terça é dia de consultas médicas e Alice organiza o planejamento e dá suporte ao médico durante todo o dia. Na quarta, pela manhã, são atendidos os idosos, hipertensos e diabéticos, e à tarde são realizadas as reuniões da equipe de saúde para planejar as ações da semana, especialmente relacionadas ao grupo terapêutico. Quinta é o dia destinado às visitas domiciliares, quando Alice atende os pacientes mais idosos, com dificuldades de locomoção, e acamados: “mas, no fim, a visita é quase com a família toda. Todo mundo pede pra verificar pressão, pra dar uma olhadinha e a gente termina fazendo uma visita ao domicílio mesmo, com todos os moradores”. Disse-me que o atendimento de enfermagem é muito simples e rápido: aferir pressão e glicemia, dar orientações sobre medicação e tal. Mas cada sessão leva mais de uma hora por causa das conversas intermináveis e muitos querem desabafar, contar problemas pessoais e da família: “muitos querem apenas conversar”, observou a enfermeira.

Alice tem assistência médica particular, vai regularmente ao médico e faz exames anualmente. Ela afirmou que o trabalho de enfermeira não afetava muito sua saúde, porque ela procura esquecer tudo relacionado ao trabalho quando sai do posto em direção a sua casa:

[...] senão você leva muita coisa daqui. Às vezes fico com o psicológico abalado com alguns casos que vejo, mas chego em casa procuro esquecer, vou pra academia malhar. Você tem que ter outras alternativas. O ruim é que mesmo em casa sempre aparece alguém pra pedir orientação ou pra aplicar

injeção, porque sabe que sou da área de saúde. Mas eu consigo separar as coisas (Alice, enfermeira UBS, Itaparica)64.

Em relação aos cuidados médicos, relatou-me que faz exames regularmente e considera importante ir ao médico e seguir suas recomendações. O único medicamento que utiliza é o anticoncepcional. Participava de um grupo de caratê, teve desentendimentos e na ocasião em que nos conhecemos disse que fazia parte de um grupo de academia de ginástica que se encontra regularmente. Contou que gosta muito de passear, ir a Salvador, ao cinema e a festas. Não costuma viajar para muito longe. Disse que tem muitos amigos e faz mais visitas que recebe, pois ainda mora com os pais. Gosta muito de sair para “se distrair” com o namorado e de ir para academia, onde “esquece de tudo”. Não gosta muito de ir à praia e disse ter pavor de água do mar. Quanto ao tempo livre, faz caminhadas, lê livros e assiste a filmes.

Antônia (Agente comunitária de saúde UBS, Itaparica)

Antônia tem 32 anos, declarou-se preta e católica. Nasceu em Itaparica e foi criada pela tia materna e pelos avós, com quem viveu até encontrar seu atual companheiro. Não foi criada com os irmãos. A tia não casou, nem teve filhos, e adotou Antônia. Explicou que a mãe “não teve condições” (sofria com alcoolismo) e que o pai não a “assumiu”65. Disse que teve uma infância

difícil e apesar de ter, vez ou outra, oportunidade de brincar, precisou trabalhar muito desde pequena, aos 9 anos. Foi quando começou a ajudar o avô na casa que ele cuidava66. Frequentava

a igreja assiduamente com os avós e a tia e acha que foi muito presa, muito cerceada. Brincava com os primos que eram vizinhos. Tem uma irmã de criação, também adotada por sua tia quando a criança tinha 6 anos. Já adolescente, fez todo tipo de curso que surgia: bijuteria, decoração de São João, de Natal, crochê de saco plástico. A principal atividade que desempenhou ao longo da vida foi de faxineira e empregada doméstica67. Concluiu o ensino

64 Ela contou que procura se preservar usando a seguinte estratégia: anota durante o dia o que precisará fazer no

dia seguinte. Retorna à sua casa e apenas no dia seguinte volta a pensar nas anotações. Sábados e domingos pertencem a ela e não trabalha no fim de semana de jeito nenhum, “senão a gente fica com cansaço mental e estresse. Então eu desligo o celular do trabalho no sábado e só ligo na segunda”.

65 Contou que vê a mãe todos os dias, mas não convivem: “não vou na casa dela, não durmo com ela, não como

com ela. E meu pai também. Não tenho relação com nenhum”.

66 Antônia capinava, molhava as plantas e outros pequenos serviços. O avô recebia o salário e dava alguns trocados

a ela. Quando os moradores estavam na casa, ela ganhava algum dinheiro fazendo faxina. Qualquer coisa que desejasse ou precisasse, tinha que trabalhar para comprar.

67 Contou que fez vestibular para Matemática e passou em primeiro lugar, mas a tia que a criou desde que nasceu

disse que não tinha condições de pagar. Fez diversos cursos (SENAI, SENAC): “tenho vários certificados” como garçonete, camareira, turismo empreendedor, “tudo relacionado à turismo”. Trabalhou com o avô, como faxineira e caixa no mercadinho, antes de passar no concurso para agente comunitário de saúde.

médio e morou por 2 anos com um rapaz com quem namorou por 11 anos, perdeu um filho e, tempos depois, Antônia se separou. Com o atual companheiro, de 29 anos, mora junto há 6 anos em uma casa pequena, doada pelo sogro. Eles têm uma filha de 2 anos e seu esposo trabalha como eletricista, mas estava desempregado na ocasião em que conversei com ela. A única renda da família na época, um salário mínimo, era garantida por Antônia que trabalhava há 6 anos como ACS na UBS. Além da filha, cuida de uma menina que foi “dada para criar” aos 6 meses e que hoje tem 9 anos68.

Cuidou da avó que faleceu há dois anos, aos 94 anos. Também cuidou do avô que faleceu aos 96 anos69. Sobre sua atuação como ACS, me contou que não tem apoio de muitas famílias,

mas, em contrapartida, há casos em que é muito respeitada. Fica preocupada com as pessoas que atende e são encaminhadas para o hospital. Desliga o telefone à noite para ninguém ligar falando de gente conhecida que faleceu. Considera o trabalho de ACS muito cansativo e pouco reconhecido70. Antônia me disse que tem boa saúde e só toma medicamento para dor de cabeça.

Procura o médico quando precisa, pois, segundo ela, “por fora pode parecer que está tudo bem, mas e por dentro?”. Participou de grupos religiosos, tanto da igreja católica quanto do candomblé. Foi catequista e adorava lidar com crianças. Por toda vida frequentou o candomblé e, embora não seja iniciada, participa das festas nos terreiros de Itaparica. Todos os parentes são do candomblé e todos têm funções religiosas. Ela, entretanto, não se vê como alguém tão envolvida quanto os outros parentes. Relatou que costuma sair de casa para passear com a filha na ciclovia, toma uma cervejinha na praça e pronto. Não tem muitas amizades íntimas. Viaja só para Salvador, para a casa dos sogros. Gosta muito de cozinhar. Quando tem um tempo livre, vai à praia com o marido e a filha, mas gosta mesmo é de ficar em casa.

68 Disse que quando morava com a tia, acolhia meninos negligenciados por suas famílias. Levava para sua casa,

dava banho e roupa. A tia não gostava, o menino voltava a aparecer nu pelas ruas, mas Antônia não conseguia evitar, porque aquilo a incomodava demais. Sempre gostou muito de crianças.

69 Para ela, cuidou dos avós desde criança. O avô, por exemplo, trabalhava como caseiro, mas já não enxergava

bem e era Antônia quem garantia que as portas e janelas fossem devidamente fechadas. Ela também cozinhava e capinava, fazia todos os tipos de serviço doméstico, desde pequena. Quando adoeceram, ela que cuidou deles, que levava ao médico, limpava, alimentava, vestia. O avô teve problemas na próstata e teve que remover “tudo”. Depois da cirurgia, ficou com uma grave depressão e Antônia que cuidou dele, garantindo sua higiene e bem-estar: “minha vida toda foi cuidando de meu avô e minha avó”.

70 Explicou que quando cuidou de uma família de tuberculosos, estava grávida e, por sorte, não pegou nada. Já

cuidou de pessoas com hanseníase e ao lidar com essas doenças contagiosas não pode mostrar que tem medo de pegar a doença, “pra eles não se sentirem humilhados”. Contou que trabalha mesmo quando está de férias,