Redes de cuidadores: mediadores (familiares e contratados) humanos e não-humanos
CAPÍTULO 3 – Cuidando de idosos no contexto domiciliar
3.1. O ambiente domiciliar e suas especificidades
Escolhi investigar as relações de cuidado dos idosos no ambiente domiciliar porque considero relevante compreender como são executadas as diversas tarefas envolvidas nas dinâmicas do
cuidado em um contexto que, à princípio, não foi planejado ou organizado para tal fim. Nas conversas com meus interlocutores, propus que comparassem cuidar de idosos no hospital e no domicílio, na esperança de compreender como os cuidadores, familiares e contratados, percebiam esses diferentes espaços. Além disso, no caso das cuidadoras contratadas, esperava também conseguir identificar se havia entre elas alguma interessada em buscar formação técnica/acadêmica para cuidar de idosos em instituições de saúde, preferindo trabalhar em hospitais que em residências, por exemplo.
De modo geral, grande parte dos relatos indicaram que cuidar de um idoso no hospital pode ser extremamente traumático, tanto para os idosos como para seus cuidadores. As experiências negativas no contexto hospitalar, entre os interlocutores da pesquisa, foram mencionadas com mais frequência que as positivas. Se por um lado encontrei quem afirmasse, como foi o caso de uma senhora portuguesa, Laura, que “cuidar do idoso em casa é muito diferente porque há muitas coisas para fazer, com as quais não precisa se preocupar quando estão no hospital”, por outro lado, escutei relatos que apontavam em outra direção, como o de uma cuidadora brasileira, Olga, moradora de Itaparica. Contou-me que a mãe ficou internada por 10 dias e nesse período começou a definhar, “pois só ficava deitada numa cama desconfortável”. Achou que a mãe não foi tratada adequadamente e afirmou ter percebido um certo descaso por parte da equipe médica:
O pessoal do hospital, as enfermeiras, tudo, acham que os filhos estão exagerando, incomodando toda hora. Eu sempre chamava as enfermeiras quando minha mãe se queixava de dor e dava pra ver que elas achavam normal, que era assim mesmo. Foi a fase mais difícil (Olga, cuidadora familiar, Itaparica).
Essa época a deixou tão traumatizada que hoje não confia muito nos médicos e considera um risco levar o idoso para o hospital, pois já viu casos em que “o paciente entrou andando e saiu acamado”. Contudo, embora cuidar do idoso em casa seja “o ideal”, reconhece que, havendo necessidade, no caso de hospitalização “a gente tem que ir cuidar lá, né? ”.
Apesar de muitos interlocutores da pesquisa exaltarem os benefícios de cuidar do idoso no domicílio -- ambiente que lhe é familiar, ao qual (supõe-se) está adaptado e onde (espera- se) que esteja rodeado por pessoas que lhe querem bem, dispostas a lhe proporcionar o maior conforto possível --, identifiquei diversas dificuldades de levar a cabo a empreitada de cuidar de uma pessoa mais velha em uma residência. Parte dessas dificuldades foram percebidas nas conversas que tive com cuidadores familiares e contratados, profissionais de saúde e diretoras de instituições particulares voltadas para o cuidado dos idosos, nos dois contextos investigados.
As cuidadoras portuguesas que prestavam serviço de apoio domiciliário em Caminha destacaram que nem sempre cuidar de um idoso no domicílio é a melhor solução, para ele ou sua família. Raquel considerava o domicílio um lugar muito bom para cuidar do idoso, mas sob algumas condições: se os cuidadores tiverem à disposição todos os materiais e técnicas necessárias para prestar adequadamente os cuidados que o idoso precisa e se as enfermidades que o acometem não forem muito complicadas para a convivência familiar. No caso de algumas doenças, ela achava melhor institucionalizar o idoso: “como Alzheimer, é melhor cuidar aqui [no Lar] do que em casa, porque tem algumas situações que o familiar, sozinho, em casa, não aguenta, né? ” Essa senhora também viveu a experiência de cuidar da mãe em sua casa, antes de seu falecimento e, baseando-se nessas recordações, disse-me que foi mais difícil cuidar da mãe que trabalhar no Lar, onde tem mais apoio: “há sempre enfermeiras, médicos, colegas e em casa eu estava sozinha e parece às vezes que o mundo desaba na nossa cabeça”.
Tomando como exemplo um debate que surgiu em uma das aulas do curso sobre “o melhor horário para dar banho no idoso”, gostaria de ilustrar as dificuldades em torno da decisão sobre o que é melhor para o idoso no cuidado domiciliar. Nesse contexto não há regras pré- definidas, devendo o cuidado ser processual, agenciado, observando-se a diversidade de mediadores envolvidos na situação (TAVARES; BASSI, 2015). A professora comentou que é complicado definir o horário do banho “com o paciente em casa” (afinal, no hospital ou na instituição, os horários são preestabelecidos). Se ele estiver lúcido, deve ser consultado. Caso não possa manifestar sua opinião, o cuidador precisa ter sensibilidade e discernimento para não definir horários convenientes exclusivamente para ele, ignorando a possibilidade de estar causando incômodo ou desconforto ao idoso com sua rotina de trabalho80.
Além das diferenças físicas e materiais entre ambientes institucional e domiciliar, nota- se como as variações no modo de padronizar os procedimentos também interferem nas dinâmicas do cuidado. Se no ambiente domiciliar os cuidadores podem encontrar dificuldades para decidir o que é melhor ou conseguir executar com eficácia as atividades planejadas (ainda que, em certos casos, possam consultar os desejos do idoso), nos ambientes institucionais há modelos de conduta para os profissionais de saúde e cuidadores que devem ser aplicados em todos os casos, com pouquíssima flexibilidade em relação aos desejos dos idosos.
80 Uma aluna contou que na casa da idosa que ela cuidava, a família definiu que o banho deve ser bem cedo, cinco
horas da manhã, porque querem que ela esteja limpa e alimentada às sete horas. Observa-se que a rotina do cuidador não é definida exclusivamente por ele e, ou, pelo idoso, pois os familiares – quase sempre os contratantes do serviço – tem a palavra final quanto ao que, como e quando deve ser feito em relação ao idoso. Se no hospital ou no Lar, há especialistas e diretores trabalhando conforme uma hierarquia de comando definida, no domicílio também, sendo que no contexto doméstico os familiares diretamente responsáveis pelos idosos ocupam a mais alta posição nessa hierarquia.
Os relatos da professora do curso, que, como disse, tinha experiência em cuidar de idosos tanto no domicílio, quanto em instituições (asilos) e hospitais, trouxeram à tona ângulos diferentes sobre essa questão envolvendo o ambiente ideal para cuidar de idosos. Por exemplo, ela trabalhou em uma empresa de home care81 e explicou que trabalhar como cuidadora neste
formato tem alguns benefícios, por causa da alta rotatividade de funcionários e pacientes: “em curto espaço de tempo você conhece muitos idosos com várias patologias diferentes e assim você absorve mais conhecimento”. Por outro lado, ao comentar sobre trabalhar como cuidadora de idosos no domicílio, destacou que, em muitos casos, há grande desvantagem em termos de direitos trabalhistas: “além disso, tem um desgaste emocional muito grande, porque mesmo sem querer você se envolve e começa a absorver os problemas daquela família. Isso é muito desgastante e complicado”. A grande vantagem de trabalhar como cuidador efetivo no domicílio, em sua opinião, é a qualidade dos vínculos que são criados com o idoso: “isso é pra quem gosta, né? Tem gente que não gosta, mas eu gosto disso, da amizade, do carinho que vai crescendo com o convívio”.
Cuidar do idoso no domicílio envolve muitas questões delicadas, sejam elas práticas, materiais ou afetivas. Muitos interlocutores se referiram ao ambiente doméstico como ideal para cuidar dos mais velhos, mas é preciso levar em consideração que o convívio com o grupo doméstico, a co-residência, pode ser um fator agravante da condição de saúde do idoso. Quando falta afeto, companhia, atenção nas relações entre cuidadores familiares e os idosos, compartilhar o cotidiano no domicílio pode ser fonte de sofrimento para todos. A ex-diretora de um Centro de Dia que acompanhei durante o trabalho de campo, Magda, comentou sobre o que chamou de “questão ética” sempre levantada em relação aos idosos: quando sair de casa? Quando permanecer no domicílio? Ela defendeu que seja levada em conta a capacidade cognitiva do idoso e a autodeterminação, “como escolheu envelhecer”:
Acima de tudo, eu acho que, ao longo da cultura do que são as famílias, a gente fala muito em crescer, se desenvolver, em construir vida, mas acabamos esquecendo de construir o nosso plano de envelhecimento. Esquecemos que hoje a capacidade que temos não vamos ter amanhã, que é preciso preparar o sítio onde vivemos e as pessoas que vão nos ajudar a realizar nossas atividades, nossas vontades e determinações para estas horas. Enquanto temos nossa capacidade de comunicação, ainda podemos dizer o que queremos, mas quando perdemos essa capacidade ficamos à mercê do bom senso de quem nos cuida e, às vezes, quem nos cuida não é quem queríamos que nos cuidasse (Magda, ex-diretora de Centro de Dia, Caminha).
81 O home care é um serviço de acompanhamento médico particular sem a necessidade de equipamentos
hospitalares complexos, realizado fora do ambiente hospitalar, que pode estar incluso em pacotes de planos de saúde ou pode ser contratado diretamente nas empresas que o oferecem. As atividades são dedicadas aos pacientes/clientes e a seus familiares, frequentemente no domicílio.
Por tudo isso, Magda acredita que para cuidar de um idoso é preciso construir uma relação empática com ele, com zelo e respeito para todas as partes. E que cada um de nós deve pensar sem medo sobre o futuro, para se preparar melhor e viver melhor essa época da vida. A dificuldade de atuar como cuidador de idoso, especialmente no domicílio, é conjugar a vontade do idoso com a vontade da família.