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Redes de cuidadores: mediadores (familiares e contratados) humanos e não-humanos

2.2. Mediadores não-humanos

2.2.2. Entidades e Artefatos

Durante a realização do estudo, a dimensão religiosa foi ganhando, pouco a pouco, destaque nas falas dos meus interlocutores sobre práticas de cuidado. Fui percebendo que a busca por melhores condições de saúde não se restringia aos cuidados recomendados pelos profissionais de saúde quando os cuidadores (familiares e contratados) e os profissionais de saúde, no Brasil e em Portugal, mencionaram casos em que a espiritualidade e religiosidade eram elementos reconhecidos como necessários para a cura de alguns problemas de saúde. “Deus” foi uma entidade recorrente nas falas dos interlocutores para explicar e consolar as dores vivenciadas, sendo também fonte de esperança e cura pela fé. Assim entidades e artefatos religiosos foram considerados, nas perspectivas de alguns cuidadores de idosos, como importantes agenciadores de cuidado, podendo se constituir em relevantes mediadores não-humanos de práticas de cuidado.

Essas práticas se desenvolvem, em muitos casos, simultaneamente às práticas orientadas por profissionais de saúde. A busca da cura através da medicina tradicional foi uma prática consensual entre os cuidadores familiares e as cuidadoras contratadas com quem conversei, em Salvador, Caminha e Itaparica. A intensidade com que recorriam a essas práticas era variada e a confiança nos tratamentos alopáticos também, de modo que nem todos os interlocutores do estudo recorriam a práticas religiosas ou consideradas “alternativas” -- fitoterapia, acupuntura, meditação --, mas alguns deles combinavam o tratamento médico ao uso de chás, objetos consagrados, entidades consideradas divinas, por exemplo, para buscar cura e conforto espiritual.

Em Itaparica, os casos em que os cuidadores e os idosos combinavam tratamentos médico e religioso/espiritual eram muito frequentes. Na localidade específica em que realizei o estudo, havia um contingente significativo de candomblecistas e um grupo menor de evangélicos, com tendência aparente de aumento desse segmento na região. A equipe da UBS era formada majoritariamente por pessoas evangélicas: apenas o médico era católico e uma ACS (que estava de licença médica) e outro funcionário do posto eram candomblecistas. A enfermeira era evangélica e a ACS Antônia era de família de candomblecista, mas frequentava também cultos evangélicos. Essas duas profissionais de saúde que mantinham estreito contato

com a comunidade atendida tinham percepções um pouco distintas sobre a forma como a população atendida pela UBS se comportava ao combinar tratamentos terapêuticos diferentes. Alice, a enfermeira, afirmou acreditar na cura pela religião e no uso de chás para ajudar os pacientes, ressaltando que quando encontra pessoas que utilizam chás para tratar alguma doença, procura orientar sobre a necessidade de ferver a água primeiro e depois colocar as folhas, senão acabam bebendo as toxinas também: “Se não usar do jeito certo, atrapalha. Tem gente que quer trocar água por chá e eu explico que tem que beber água mesmo e que chá demais pode intoxicar o organismo”. Para ela, as pessoas costumam ir primeiro à Unidade de Saúde, porque são dependentes de medicação e, segundo ela, “querem tomar logo antibiótico”. Alice conhece muitas benzedeiras e rezadeiras da região e me disse que os pacientes não falam que buscam esse tipo de ajuda, mas a equipe sabe quem são as pessoas que tratam usando ervas e rezas e as pessoas que as procuram. Alice afirmou conhecer casos em que práticas religiosas ajudaram a melhorar a saúde de pacientes:

Vejo mais nos pacientes mentais. Como eles vão ou pro candomblé ou pra igreja, eles convivem com outras pessoas, conseguem conversar. Nas igrejas tem muitos grupos. Eles saem de casa, se relacionam com as pessoas. Então é bom. A gente até indica, “procure um grupo na igreja, participe de alguma coisa”. Assim eles têm companhia e tem aquela responsabilidade do compromisso com a fé. Então a religião ajuda a estimular as pessoas (Alice, enfermeira UBS, Itaparica).

Quanto à ACS Antônia, disse-me que antigamente os velhos se fiavam mais em rezas e folhas e que hoje procuram mais a medicina oficial. De qualquer forma, como ela acrescentou, combinar tratamentos, médico e religioso, não atrapalhava seu trabalho como agente de saúde. Entretanto, destacou que quando as pessoas utilizam folhas diferentes, ligadas à religião, podem trazer problemas se não souber o efeito que têm no corpo do idoso, por isso não aconselhava combinações desse tipo sem acompanhamento especializado. Em relação à prática de orações também pode ser um empecilho ao tratamento médico, “porque as pessoas preferem confiar em Deus que no médico. Eles acham que rezar é suficiente pra se curar. E a ignorância também é grande, acham que vacina pra gripe dos idosos é pra matar os velhos e pegar aposentadoria”. Sobre os banhos de ervas, Antônia não vê problema em seu uso. O problema, para ela, era negar o tratamento médico e confiar totalmente na religião. De certo modo, uma perspectiva muito semelhante à de sua colega de trabalho, a enfermeira Alice. No entanto, Antônia afirmou que a população da região onde atua costuma procurar primeiro atendimento no terreiro de candomblé e só depois vão ao posto. Se sair no jogo de búzios que devem procurar o médico, aí eles procuram, mas consultam primeiro os búzios e quando podem, resolvem lá no terreiro primeiro.

Também usam muitas ervas, muitos chás, além dos “remédios de farmácia”: “Mas todo mundo tem no quintal um pezinho de boldo, de capim santo, de erva cidreira”. Assim como a enfermeira, a ACS conhece sacerdotes, benzedeiras e rezadeiras da região e declarou que na localidade havia apenas uma igreja católica e uma igreja evangélica: “O resto é tudo terreiro. São muitos”.

Falando sobre sua própria experiência, quando precisa de ajuda para resolver problemas de saúde, Antônia admite que a religião interfere no cuidado: “Tem gente que prefere não fazer o tratamento médico e isso é perigoso”. Sua família de origem é composta por muitos parentes candomblecistas, com cargos em terreiros da região. A ACS foi criada em um contexto onde o candomblé tem grande influência no estilo de vida e visão de mundo da população. Antônia, na ocasião em que conversamos, me confidenciou que combinava todo tipo de tratamento que estivesse ao seu alcance quando tinha problemas de saúde ou de prosperidade. Afirmou que combinava tratamentos médicos e orientações do pai de santo do terreiro que frequentava e disse que isso é muito comum: “já teve caso de idoso estar internado no hospital e fazerem despacho lá mesmo. Eles pediram autorização no hospital e bateram folha, deram banho e fizeram o ebó”. Contou que já assistiu muitos casos de recuperação através dos tratamentos do candomblé. Entretanto, disse que quando está doente, procura primeiro o médico. Mas se recebe instruções para “fazer limpeza”, ela faz. Além disso, vai à rezadeira e me disse que já foi vítima de feitiço, quando seu barco foi incendiado. Antônia vai ao médico, ao terreiro de candomblé, à rezadeira e também não deixa de colocar um copo com água em cima do aparelho de tv para receber a oração do pastor, através de um programa de televisão que assiste. Depois ela bebe a água abençoada. Explicou que apesar de não sentir grande efeito com essa prática, acha que tudo depende da fé.

Nessa mesma região em que atuam a enfermeira Alice e a ACS Antônia, também destaco a experiência da cuidadora familiar Olga (apresentada no início deste capítulo), que era evangélica assim como sua mãe. Elas frequentavam a Igreja Universal do Reino de Deus e participavam de correntes de oração para a cura de suas enfermidades. Perguntei diretamente à idosa, mãe de Olga, se sentia alguma melhora e ela respondeu: “a melhora que Deus quiser me dar está boa”. A filha disse que a mãe estava já muito conformada e que precisava lutar contra esse sentimento, buscando melhorar a cada dia. Elvira, outra cuidadora familiar de Itaparica, se declarou católica e afirmou fazer uso de chás, mas me disse que nunca fez combinação com tratamentos de cura espiritual. Contudo, como destaquei acima, seu irmão Everaldo afirmou que toda a família é formada por candomblecistas há muitas gerações.

Em Caminha, tanto nas IPSS, quanto nos domicílios que visitei, notei inúmeros quadros com motivos católicos, terços, velas acesas, imagens de santos em diversos ambientes. Todos os interlocutores que conheci nessa região eram católicos e demonstravam até surpresa quando eu lhes perguntava “qual a sua religião?”. Uma cuidadora familiar, Helena, explicou que sua família sempre foi muito religiosa e a avó estava sempre a rezar: “É muito bom, porque a pessoa aprende na catequese como viver na religião. Vou a missa quando posso, mas antes ia sempre. Também assisto pela TV. Fui à Fátima e gosto muito de lá”. Contou que foi à cidade de Fátima em busca de uma “graça”: sofria com dores intermináveis no estômago. Helena rogou a Nossa Senhora de Fátima que tirasse sua dor de estômago: “e não é que de um momento para outro o estômago nunca mais me doeu? Eu acredito em milagres”. Em Caminha e regiões adjacentes há muitas romarias ao longo do ano, principalmente no verão, e elas faziam parte do calendário festivo do município. As IPSS, quando não estavam diretamente vinculadas à uma paróquia, recebiam apoio das igrejas locais.

Para finalizar essa breve discussão sobre como entidades e artefatos religiosos foram considerados, nas perspectivas de alguns cuidadores de idosos, como importantes agenciadores de cuidado, apresento mais dois exemplos a partir de relatos registrados no curso de cuidador de idosos. O primeiro exemplo é sobre o uso da Bíblia e de orações para cuidar do idoso, que observei no relato de uma aluna cuidadora que abandonou o emprego por falta de condições emocionais para lidar com os problemas do idoso. Ela nos contou que ele afirmava ver o Diabo o tempo inteiro e a assustava, afirmando: “não encoste pro lado de lá porque o Cão tá em pé, do seu lado”. A cuidadora disse que rezava o “Creio em Deus Pai” o tempo inteiro, enquanto o idoso contava suas lutas com o demônio durante a madrugada. Ela tentava distraí-lo, puxando conversa: “e como foi a luta? Quem tava na vantagem? Você rezou? ” E ele respondia: “rezei! Chamei por Deus, peguei a Bíblia e aí ele pulou a janela”. A cuidadora tentava animá-lo: “ótimo, significa que foi embora, se acabou todinho”. Disse que isso acalmava o idoso. Nesses casos, interrompeu a professora, “a melhor coisa é a gente concordar”. E, em coro, a turma respondeu “É”. O segundo exemplo é sobre como Deus é considerado uma entidade cuidadora, como notei no relato de outra aluna sobre como “Ele” impediu que a casa onde trabalhava, cuidando de um idoso, fosse incendiada:

Deixe eu contar pra vocês o que me aconteceu hoje e que eu quase morri, mas a mão de Deus impediu. Essa noite eu dormi no trabalho porque ficava mais perto de um compromisso que eu tinha de manhã cedo. Então eu coloquei um frango no forno, no fogo baixo, e saí pra um evento da igreja. Vocês já imaginam o que aconteceu, né? Quando eu voltei que abri a porta da cozinha estava tudo tomado de fumaça. Ainda bem que tinha um exaustor. Deus estava

operando naquele momento, porque podia ser um acidente horrível, né? Meu idoso ria e chorava ao mesmo tempo. Imagine se tivesse explodido o prédio? Eu disse: ‘Meu Deus! Obrigada por cuidar das nossas vidas’. Quando Deus está no comando, ele dá uma ordem, pronto! Não tem jeito. Se ele quisesse que fosse a hora da gente, tinha morrido todo mundo. Mas nem fumaça fez. O frango torrou todinho! (Aluna do curso de cuidador, Salvador)

2.2.3. Animais

A participação de animais como mediadores não-humanos de cuidado não foi uma questão quando elaborava meus instrumentos de coleta de dados. Foi através da observação quando acompanhei as rondas das equipes de apoio domiciliário em Caminha que percebi como animais domésticos podiam ser cuidadores ativos, especialmente nos casos onde os idosos moravam sozinhos. Dois casos me chamaram bastante a atenção porque os idosos, quando recebiam a visita das cuidadoras, demonstravam grande amor e preocupação com seus bichos de estimação. Quando acompanhei a visita da equipe do apoio domiciliário a Sara,uma idosa de 83 anos, não foi difícil perceber o quanto sua cadelinha, pequena e gorducha, Pepa, era sua fiel companheira há dez anos. Ela é viúva e mora sozinha, sofre de diabetes, hipertensão e osteoporose. Apesar dos problemas de saúde, locomovia-se sem grandes dificuldades. Pepita (apelido carinhoso da cadelinha) a acompanhava por todo canto e ela mantinha um diálogo constante com o animal. Quando retornamos no turno da tarde, naquele mesmo dia, chegamos a sua casa e Sara estava sentada em sua poltrona e, aos seus pés, Pepa degustava uma coxa de frango assada, delicadamente posta em um belo pires de porcelana.

Em uma nova visita, dias depois, acompanhei a mesma equipe do apoio domiciliário em sua ronda e quando chegamos na casa de Sara, as cuidadoras sentiram cheiro de gás e perguntaram a idosa se andou fazendo algo no fogão. Ela explicou que estava aquecendo o arroz. Quando começou a ser repreendida pelas cuidadoras, que aproveitaram para queixar-se da sujeira que a cachorra fez na cozinha, Sara virou para Pepa e disse: “Viu como estão todas contra ti, Pepita? Só eu em Portugal gosto de ti”. Achei a idosa muito bem-humorada. Quando uma das cuidadoras reclamou com a cadelinha, Sara a defendeu: “ela não obedece a ordens assim”. Na despedida, ela comentou comigo que Pepa é muito apegada a ela, porque nunca conheceu a mãe: “ela pensa que sou a mãe dela, porque se separou da mãe com dois meses, coitadinha”. As funcionárias do Centro me contaram depois que Sara ficou muito deprimida quando Pepa adoeceu e só se restabeleceu quando o animal se recuperou.

Outro caso foi o de um idoso de 92 anos, chamado Manuel, que vivia em uma casa enorme com uma cadelinha chamada Bilu. No dia que acompanhei a visita da equipe a sua casa,

fui informada de que seus filhos moram nos EUA e sua única companheira é Bilu. As cuidadoras me explicaram que eles querem institucionalizar o pai, que já está muito debilitado, com graves dificuldade de locomoção e sofre de Mal de Alzheimer. O pai se recusou veementemente por causa da sua companheira, Bilu. Pareceu-me bastante confuso quando o conheci, mas me despertou a atenção quando ele se recusou a ser tratado antes das cuidadoras trocarem a água e encherem o pote de ração da cachorra. Repetiu algumas vezes: “Já colocaram a comida de Bilu?” e parecia ter uma certa fixação por ela. As cuidadoras disseram que, no princípio, o animal não gostava da presença delas e latia muito, mas depois se acostumou.

Depois que me dei conta de casos onde animais participam das dinâmicas de cuidado, perguntei a Bernadete, cuidadora do apoio domiciliário em uma das IPSS de Caminha, sobre os idosos que vivem sem parentes e tem a companhia de algum animal, se ela considerava esses bichinhos um tipo de cuidador, ela me respondeu:

Eu até acho mais, há muitos casos em que eles alertam a vizinhança quando algo vai mal com seu dono, se o idoso cai eles fazem barulho. Já vi o caso de um canário que morreu ao fim de tanto chilrar, assobiando todos os dias de manhã a chamar as pessoas, e quando os vizinhos foram ver o idoso estava morto. Acho que esses bichinhos são os melhores familiares que eles têm, porque às vezes um filho, um marido, não dá tanta importância ao idoso quanto um animal (Bernadete, cuidadora do apoio domiciliário, Caminha).