• Nenhum resultado encontrado

“Deaf Shock”

No documento Capitalismo e surdez (páginas 141-145)

Uma nova tendência envolve os estudantes que foram incluídos e estão descobrindo suas identidades Surdas quando se tornam adultos – em geral quando eles entram na faculdade ou quando eles chegam aos seus isolados locais de trabalho. O padrão típico é: eles

21 O item principal do exame para professores de jardim de infância é a habilidade dos candidatos para cantar e para tocar piano.

são convidados ou simplesmente se juntam a círculos de língua de sinais (grupos de pessoas que se encontram para aprender JSL) e, lá, eles conhecem outros surdos, hard of hearing ou “deficientes auditivos” e gradualmente começam a formar uma ideia deles mesmos como Surdos. Junto a essa prática, houve a importação das identidades Surdas dos EUA. Esses jovens estudantes Surdos e adultos estão mais entusiasmados para aprender a respeito de como a identidade Surda dos EUA é organizada em termos de políticas de identidade ou de Surdez cultural.

“Deaf Shock” é o nome de uma organização na área de Osaka. Um de seus membros me contou que esse nome veio do sentimento de choque que o surdo ou a surda tem quando percebe que é uma minoria cultural e linguística, e não meramente deficiente. A expressão em japonês para “Deaf Shock” é uma associação das palavras importadas defu shokku. Os novos grupos são notáveis no seu uso de palavras e sinais tomados do inglês americano e da ASL. Nos seus escritos, eles frequentemente usam o S maiúsculo para designar a Surdez cultural e uma pessoa culturalmente Surda. Eles se identificam como defu e rejeitam tanto roua quanto choukakushougaisha como denominações.

Um dos aspectos interessantes dos membros desses “D-groups” ou “Defu-groups”, como são conhecidos, é que eles não apenas são muito mais jovens do que os membros da JFD, mas também têm muito pouco contato intergeracional e intergrupal com os grupos antigos. Pouquíssimos membros do D-Pro (o grupo inicial de Tóquio) são membros ativos na JFD e na Associação dos Surdos de Tóquio e vice-versa. A separação é mais intensa em relação à frequência nos eventos promovidos pelo D-Pro porque a maioria do público está abaixo dos 40 anos, enquanto o oposto é comumente o caso dos encontros da JFD.

O D-Pro tem sido atuante no convite de proeminentes ativistas Surdos dos EUA para o Japão. O ativista cultural Surdo MJ Bienvenu foi seu convidado no passado e, em 1998, eles convidaram o ativista, linguista e poeta Surdo Calyton Valli. A diferença de idade e a falta

de laços intergeracionais foram bastante aparentes quando Valli chegou porque ele (no fim dos seus quarenta anos) era, de longe, a pessoa mais velha, e a sua audiência quase toda era de uma geração mais jovem.

O D-Pro e outros D-groups conseguiram atrair um número crescente de surdos mais jovens nas áreas metropolitanas. De- fendendo uma perspectiva abertamente norte-americana, eles também ergueram as mesmas fronteiras de definição entre os surdos e os hard of hearing que nós encontramos nos EUA e a mesma definição do Surdo-nascido-Surdo como o núcleo central da sociedade Surda. Eu denominei este processo como a construção de uma “comunidade imaginada” dentro das comunidades surdas no Japão. As culturas erguem suas próprias barreiras linguísticas e identitárias para se definir contra as outras. No interior dos D-groups, a sinalização é feita sem vocalização ou articulação de palavras com a boca. Esse método não era o tipo de sinalização usada pelos membros do grupo D-Pro quando eles ainda eram estudantes colegiais, ou seja, eles passam por um processo de alteração ou de aprendizado linguístico quando se juntam ao D-group. Eu frequentemente ouvi lamentos de professores a respeito de ex-alunos surdos. Um comentário de um professor exemplifica esses lamentos: “Ela tinha uma linda voz antes de entrar pro D-Pro”. O tom do comentário do professor quase sempre faz transparecer que ela considerou o D-Pro como, no mínimo, um culto, assim como muitos dos professores (ouvintes) consideravam-no. Surdos mais velhos também encaram o D-Pro com cautela.

Os D-groups, em especial o D-Pro, surgiram sob duras críticas, principalmente de surdos mais velhos e de ouvintes ligados à comuni- dade surda. O pensamento dos D-groups é muito “norte-americano” e eles simplesmente “copiam o jeito dos Surdos dos EUA”, ou eles são “muito radicais, muito de direita” ou “muito exclusivistas”. Eles são criticados por priorizarem apenas o culturalmente Surdo dentro da comunidade Surda, marginalizando os hard of hearing e rejeitando

os ouvintes. Os líderes D-Pro são conhecidos por referirem-se aos líderes não como surdos, mas como hard of hearing, porque eles não usam a verdadeira Língua de Sinais Japonesa, mas, em vez disso, usam Simcom (Comunicação Simultânea)22.

O comentário mais interessante pra mim foi o de que o D-Pro era “de direita” (feito por um diretor de uma escola para surdos). Ele faz sentido em um quadro político de nacionalismo porque o D-Pro está tentando erguer um novo movimento Surdo nacional. A crítica de que o D-Pro marginaliza os hard of hearing é verdadeira, mas é importante assinalar que o problema dos hard of hearing é um problema quase exclusivamente específico da geração do D-Pro23.

A geração dos D-Pro teve que lutar com a emergência de múltiplas novas identidades e a falta de identidade sentida por muitos surdos mais jovens. Ironicamente, muito dessa luta foi promovida com um grande reconhecimento dos surdos e muito pouco como algo discriminatório contra aqueles que são surdos, vitórias que foram alcançadas devido às atividades da JFD nos últimos 50 anos. Entretanto, assim como todos os novos movi- mentos de identidade, outros estão mais propensos a vê-lo como sendo muito fervoroso, e o processo de construir uma história enquanto um novo movimento desenvolve-se ao mesmo tempo é difícil. Membros do D-Pro lutam para construírem a si mesmos tanto como Surdos quanto como uma geração diferente da anterior. Por exemplo, os eventos do D-Pro sobre “história Surda” abordam principalmente a história Surda nos EUA e na Europa, raramente abordam a história dos surdos no Japão e, em especial, raramente comentam a respeito de quaisquer das atividades políticas da JFD no período pós-Segunda Guerra Mundial.

22 Simultaneous Communication (NT).

23 Em contraste, o D-Pro acusa a JFD de ser de esquerda, comunista (que pode ser mais próximo da forma pela qual os líderes da JFD querem se reconhecer).

No documento Capitalismo e surdez (páginas 141-145)