Os aspectos sociais da vida cotidiana proporcionam uma noção de como era ser surdo nessas comunidades. Ouvintes e surdos se misturavam em todo lugar – em casa, no comércio, na igreja, em festas. A presença de famílias surdas, amigos e vizinhos eram comuns na rotina diária.
Uma ilhoa, aluna do Asilo Americano de Hartford em 1861, escreveu sobre suas memórias natais, e os diretores incluíram seu texto no relatório anual da escola, para ilustrar o sucesso no desenvolvimento das habilidades de escrita alcançado por uma garota surda congênita de 16 anos, em 4 anos e meio de escolarização. O texto, intitulado ‘Sobre um piquenique”, descrevia a tradicional caldeirada8 de Vineyard.
Poderia ter sido escrito por qualquer criança que cresceu na ilha, ouvinte ou surda.
Quando eu era pequena, acho que aos sete ou oito anos de idade... minha mãe me contou sobre o piquenique e eu fiquei contente em poder ir com ela, meus irmãozinhos Samuel, George e Daniel, mas Daniel era muito pequenino. Nisso, nos trocamos e vestimos nossas melhores roupas. Eu usei um vestido rosa. Minha mãe deu dois ou três bolos para os meus irmãos e eu, mas eu deixei os bolos de lado. Foi uma tarde muito agradável e fizemos uma bela caminhada subindo a colina, então descemos até a floresta e vi meus primos e amigos sentados esperando por nós e os outros, mas alguns estavam parados de pé perto das árvores ou caminhando agradavelmente entre eles. Vi que tinha uma mesa longa no chão rodeada por árvores e lá era muito legal. Colocamos nossos bolos doces na mesa e havia muitos tipos de bolos, tortas, laranjas, cerejas, limonada e lindas flores em jarros de vidro sobre ela. Eu brinquei com alguns meninos e meninas na colina para me divertir. Alguns deles me falaram sobre as amêijoas e corremos até um local onde elas eram assadas para que as pessoas comessem... creio que era por volta das três ou quatro horas quando trouxeram as amêijoas para a grande mesa e todos se sentaram à mesa e as comemos. Então comemos os bolos e as outras coisas. Ao terminarmos, caminhamos adoravelmente até o mar para vê-lo um pouquinho ou conversamos uns com os outros e tivemos um piquenique excelente. (Asilo Americano, 1861:39)
Uma das minhas informantes se lembrou de ter visitado os vizinhos:
8 Caldeirada ou churrasco-de-amêijoas (Clambake) é um evento social e culinário tradicional na Nova Inglaterra. Para o prato principal usam-se frutos do mar, legumes e algas em churrasqueiras improvisadas em buracos cavados na areia ou antigas balas de canhão. Aproveita-se o calor das brasas para cozinhar os ingredientes no vapor. Como em muitos lugares é proibido acender fogueiras na praia, a tradição foi adaptada para as casas nos EUA (NT).
Eu consigo me lembrar de ter ido lá, ou meu marido ia se encontrar com a Abigail e a Sara (duas das últimas ilhoas surdas). E muitas vezes, quando estávamos todos na ilha, eles vinham na casa da minha sogra nos domingos de tarde, sabe, e batiam papo em sinais. Como eles costumavam circular pela ilha, acabam parando por lá.
Um homem recordou das noites em casa com sua tia e o marido surdo dela. “Quando éramos mais velhos, eu costumava ir lá, uma noite ou outra com meus amigos. E todos ficavam conversando e contando piadas e tal, e minha tia contava casos e o marido ria. Ele, meu tio, adorava”. Outra recordou com carinho de seu vizinho, que morreu há anos. “Eles costumavam morar bem ao lado de onde meu pai viveu. Eu costumava ir para lá, e ela também vinha a minha casa um pouco para conversarmos. Sinalizar... visitas de vizinhos mesmo.”
A maior parte das memórias das pessoas, no que diz respeito aos surdos, se detém nos eventos em que a inabilidade de ouvir fazia pouca ou nenhuma diferença. “Quando éramos jovens, decidi, certo dia, ir até o mercado à beira da estrada... e junto veio o sr. Jeremiah North com seu cavalo e carroça. Ele parou e pegamos carona, era um senhor gentil. Acredito, sim, certamente, que ele era surdo também.”
Um ilhéu lembrou de um surdo em Chilmark envolvido com a consagrada prática ianque de vender cavalos:
Certa vez tentamos vender um cavalo para o Eben, que morava perto do casarão do Zeke Mayhew na direção de Gay Head e, enquanto ele conversava sobre o cavalo, também o examinava. Esses especialistas entendem de cavalos. Com isso, ele olhou para o espaço entre o osso do quadril e gesticulou esticando as mãos para frete do corpo, indicando uma grande largura e fazendo um intenso movimento de mastigação, significando que cavalo come muito. E era verdade, não era o que se esperava de um cavalo, aquele estava sempre magro.
Um homem, agora com quase 90 anos, lembrou-se do que mais o impressionou a respeito de Obed Parker, um surdo idoso que morreu logo após a virada do século. Trata-se da coisa que certamente
impressionaria qualquer garoto ilhéu da sua idade, o barco.
Quando eu tinha cerca de 14 anos, o senhor Parker tinha um barco em Nomans, Land, um belo barco. Ele o pintou todo e instalou um motor nele. Eu fui até o galpão lá embaixo, que naquela ocasião ficava no lado leste do córrego de Menemsha. Era lá que ele guardava o barco e o estava pintando, a faixa vermelha, o casco branco com fundo verde ou vermelho, e eu o perguntei se colocaria um mastro nele. Apontei o lugar - faz um gesto desenhando uma linha, e ele disse que não, que colocaria um motor (faz o sinal de MOTOR, um movimento circular sentido horário, sugerindo um motor dando partida).
Ele saia naquela coisa, tinha um amigo pelas bandas de Lambert’s Cove, eu não sei quem é, mas ele costumava ir lá visitar. Ia lá visitar o amigo com este barco e voltava. Caso o motor falhasse, ele se orientava pelas vibrações e identificava rapidamente se estava acabando o combustível ou algo assim, e logo consertava. Era interessante de ver, ele era um bom barqueiro, mas não era mais habilidoso que qualquer outro.
Outro homem, nos seus vintes anos na virada do século, lembrou-se da habilidade de contar história do mesmo Parker. “Era um grande contador de histórias, apesar de não oralizar, ele contava histórias em surdo-mudo, e as histórias eram lembradas por todos que o conheciam.”
Sobre Eben Brewer, uma pessoa relatou: “eu costumava gostar de falar com ele. Ele me contava sobre suas saídas para o jardim, capinando e das novidades. Sim, ele plantava bastante.” Uma mulher relembrou que, quando noivou e veio para a ilha, ela se prontificou a aprender a língua de sinais. Uma das primeiras oportunidades que teve para praticar foi com o velho senhor North:
Certa vez meu marido saiu de dóri para pescar em Squibnocket e pegou alguns bacalhaus. Eu estava de saída, indo procurar flores de maio, e ele me disse que, caso eu encontrasse o senhor Joshua North, deveria me certificar de avisá-lo que meu marido guardou no estaleiro um grande bacalhau. O senhor North, de fato, apareceu enquanto eu procurava as flores, daí, eu me aproximei e disse “oi”, e contei sobre o bacalhau no nosso estaleiro. Ele disse “Obrigado, estou sabendo disso”.
Um homem se lembrou que sua vizinha, uma idosa surda, gostava de um “goró” de vez em quando: “Ela gostava de seus pequenos prazeres, e diversas vezes, enquanto meu primo e eu nos preparávamos sábado a noite para sair para compras coisas no Vineyard Haven, vinham umas batidas na porta e a Abigail nos dava uma nota de cinco dólares e uma encomenda de uma dose favorita do seu gin.”