• Nenhum resultado encontrado

VIGOTSKI NOS ESTUDOS

No documento Capitalismo e surdez (páginas 152-155)

SURDOS BRASILEIROS1

Aline Lima da Silveira Lage Celeste Azulay Kelman Maria Carmen Euler Torres

Como campo que pretende abordar a formação do homem, ou sua humanização, os Estudos Culturais tomam emprestado estudos de campos como a Psicologia. Nesse contexto, Lev Semionovich Vigotski tem sido um autor recorrente. Provocadas por Duarte (2001), Prestes (2010), Prestes, Tunes & Nascimento (2013), neste texto pretendemos entender como os pesquisadores brasileiros dos Estudos Culturais Surdos dialogaram com a produção de Lev Vigotski. Tais pesquisa- dores, a própria psicologia brasileira, iniciaram seus diálogos a partir das traduções provenientes dos EUA que omitiram o fundamento metodológico vigotskiano no materialismo dialético, impedindo um melhor andamento nas pesquisas e tendências na Educação de Surdos. Tendo em vista esse objetivo, apresentamos como o mesmo foi citado em três obras frequentemente referenciadas na área (Góes, 1999; Skliar, 1997, 1998) e contra argumentamos com os principais conceitos do autor.

Vigotski estava comprometido com a construção de uma nova sociedade, anticapitalista. Até então os processos de humanização eram interpretados como fenômenos fundamentalmente mentais ou biológicos. A nova Psicologia pretendida pelos revolucionários russos

1 A versão integral deste capítulo foi publicada na tese Professores surdos na Casa dos Surdos: “Demorou muito, mas voltaram” (Lage, 2019). Evidenciamos a omissão da base epistemológica de Vigotski nas traduções no trecho Censura e traição do projeto vigotskiano (Lage, 2019, p. 277-284).

estava disposta a superar esse dualismo. Todavia, a forma original de dialogar com as referências da revolução russa, afastando-o do dogmatismo, provocou um atraso na difusão das suas ideias. Ameaças à Escola de Vigotski começaram em 1929. No ano seguinte, surgiram ferozes críticas à Teoria Histórico-Cultural e em 1931, foi sugerido retirar a psicologia soviética da história do bolchevismo e dos trabalhos de Stalin que formariam o único critério verdadeiro em relação à história da ciência psicológica, inaugurando a “era na psicologia soviética de ‘combinação’ dos trabalhos da psicologia com a ideologia do regime totalitário (IAROCHESKI, 2007, p. 16-17 apud PRESTES, 2010, p. 237). Com o agravamento da tuberculose, em 1934, Vigotski publicou o livro Pensamento e fala, o qual, sem crítica objetiva, foi incluído no rol dos livros proibidos pelo governo. O Decreto de 4 de julho de 1936, Resolução sobre a Pedologia, impediria a divulgação dessa obra e anteriores (PRESTES, 2010). Em 1937, Renè Zazzo (Vigotski [1896-1934] Enfance, de 1989) testemunha que, mesmo após sua morte, Vigotski foi “vítima do isolamento político” (Prestes, 2010, p. 239). Naquele mesmo ano, David Vigodski, primo de Vigotski, foi preso e morto nos porões do Comissariado do Povo das Relações Internas. Em 1954, Zazzo foi procurado por Leontiev, pesquisador do grupo de Vigotski, para ajudar a publicar obras do bielorusso no exterior, o que aconteceu no ano seguinte. Em 1956, na URSS as obras reunidas de Vigotski foram publicadas.

Portanto, a revolução vigotskiana foi contida, para a desventura sobretudo das pessoas mais desprezadas, entre eles os surdos. A censura do governo autoritário da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e a tradução provocaram grande prejuízo científico. A família de Vigotski está organizando sua obra completa porque as tentativas de sistematização existentes não são consensuais (Prestes & Tunes, 2015).

Duarte (2001) comenta obras dos intérpretes de Vigotski e traduções “resumidas/censuradas” (p. 207) que facilitam a assimilação da Escola ao ideário capitalista. O autor enumera 15 títulos publicados de 1996 até 1998, dois números dos cadernos CEDES (de 1991 e 1995), e comenta

as edições, em 1996 e 1998, de coletâneas com textos de Vigotski. Critica o fato dos pesquisadores escreverem muito sobre Vigotski sem se apropriarem daquilo que ele quis transmitir. Duarte (2001) comenta os prefácios que apresentam as notas dos tradutores. Em um deles, admitem: “simplificamos e tornamos mais claro o estilo de Vigotski (...) omissões externas resultaram em uma reestruturação do texto e em um número extremamente reduzido de subdivisões” (p. 208). O objetivo dos tradutores era deixar Vigotski mais “palatável” aos leitores da Língua Inglesa e, em consequência, aos brasileiros. Duarte (2001) avalia que, em muitos casos, não se tratam apenas de omissões, mas verdadeiras intromissões no que Vigotski, em colaboração com seus colegas, construiu.

Como exemplo do que é afirmado acima, Duarte (2001) evidencia como Vigotski lidou com a obra de Jean Piaget. Vigotski aprofundou-se nos estudos da obra piagetiana à época e assim organizou uma crítica a partir das raízes de “todo edifício teórico do jovem Piaget, atacando sua pedra angular” (Duarte, 2001, p. 217); não se trata de descartar Piaget, mas certificar uma divergência no núcleo central, nos fundamentos que orientaram os dois psicólogos. Duarte (2001) atinge-nos quando destaca que há “uma ideia muito difundida no meio educacional brasileiro: a de que tanto Vigotski como Piaget seriam construtivistas, sendo que Vigotski viria a acrescentar o social ao construtivismo” (p. 219), ou sócio interacionismo – o que corresponderia à biologização do social. Durante uma boa parte de nossa própria formação e trabalho com formação de professores, seguimos essa interpretação. Duarte (2001) sugere que os educadores – César Coll, em especial – poderiam se apoiar em Piaget e na Escola Nova para empreender ao projeto liberal de aprender a aprender, em vez de tentar incutir uma leitura distorcida e pós-moderna de Vigotski e sua escola.

Os educadores brasileiros tiveram poucas chances para compre- ender os conceitos vigotskianos e avançar na área que ele mesmo escolheu para atuar – educação de crianças surdas, cegas e com deficiência cognitiva – não chega a ser extraordinário. A seguir, apresentamos um levantamento que oferece indícios dessa realidade

na educação de surdos.

Presença (ou ausência) de Vigotski em três obras

No documento Capitalismo e surdez (páginas 152-155)