Enquanto novos movimentos sociais contra o racismo, o patriar- cado e a homofobia estavam ganhando proeminência em muitos países ocidentais nos anos 196051, movimentos de deficientes, com
ideologias e programas mais ou menos coerentes, também emergiram lentamente. Ao contrário de outros movimentos sociais, os vários movimentos pelos direitos de deficientes52 receberam relativamente
pouca atenção de socialistas, ativistas sindicais ou acadêmicos, mesmo nos EUA, onde, indiscutivelmente, existe um dos mais fortes e antigos movimentos pelos direitos de deficientes53. No entanto, um exame de
suas várias trajetórias sugere descobertas valiosas a serem aprendidas e incorporadas por aqueles que buscam desafiar o capitalismo em outras lutas. Na medida em que a adaptação generalizada às necessidades dos trabalhadores deficientes iria necessariamente transformar o local de trabalho e desafiar as expectativas de taxas de produtividade sempre crescentes, o movimento pelos direitos das pessoas deficientes pode ser observado como radicalmente democrático e contra-hegemônico em potencial e escopo.
Uma importante distinção analítica deve ser feita entre organiza- ções de caridade estabelecidas para deficientes – às vezes por pais de crianças deficientes –, e organizações diretamente controladas por deficientes. Na primeira categoria, as organizações, geralmente baseadas em uma categoria diagnóstica vinculada à deficiência, não refletem
51 Epstein, ‘The Marginality of the American Left: The Legacy of the 1960s’, Socialist Register 1997, pp.146-53.
52 Existem vários e distintos movimentos sociais que lutam por políticas de deficiência, incluindo o movimento dos direitos da deficiência física, o movimento dos direitos psiquiátricos, o movimento dos cegos e outros.
53 T. Fagan and P. Lee, ‘‘New’ Social Movements and Social Policy: A Case Study of the Disability Movement’, in M. Lavalette and A. Pratt, eds., Social Policy: A Conceptual and Theoretical Introduction, Sage Publications, 1997, pp.140-60; H. Meekosha and A. Jakubowicz, ‘Disability, Political Activism, and Identity Making: A Critical Feminist Perspective on the Rise of Disability Movements in Australia, the USA and the UK’, Disability Studies Quarterly, vol. 19(4), 1999, pp.393.
necessariamente as opiniões e experiências dos próprios deficientes, apesar de poderem realizar trabalhos ocasionalmente benéficos. De fato, a agenda ideológica implícita dessas organizações paternalistas enxerga a pessoas deficiente como incapaz de se defender em seu próprio nome54. Além disso, o fato de suas demandas basearem-se em categorias
diagnósticas geralmente arbitrárias enfatiza injustificadamente mais questões médicas do que as barreiras impostas pelo ambiente físico e pelo sistema de classes. A fragmentação resultante – dividindo os deficientes em centenas de categorias diferentes, literalmente – também faz a solidariedade entre pessoas deficientes tornar-se muito mais difícil. Outro fato importante é que essas organizações, como as ONGs de outros setores, costumam estar diretamente ligadas ao Estado por meio de acordos de financiamento. Consequentemente, mesmo que estejam inclinadas a criticar a política do governo, sua capacidade fica extremamente limitada, por medo de perder o financiamento e o acesso aos agentes de decisão. De fato, as organizações dirigidas para deficientes ultrapassam em muito o número daquelas controladas por deficientes e recebem verbas muito mais generosas55. As severas
limitações dessa política não surpreendem, dado o registro questionável e cooptado de ONGs em todos os contextos.
Por sua vez, as organizações dirigidas por deficientes têm ao menos o potencial para políticas mais radicais. No final dos anos 1960, o movimento Vida Independente (IL)56 surgiu em Berkeley, Califórnia,
liderado por um grupo de estudantes deficientes conhecido como The Rolling Quads. Esse movimento procurou promover o empoderamento dos deficientes e focou a atenção nas barreiras estruturais impostas pelo ambiente, e não nas deficiências dos indivíduos. O primeiro Centro de Vida Independente (ILC)57, baseado no modelo sócio-político de
deficiência, foi fundado em Berkeley e buscou ampliar as lutas pelo empoderamento para incluir tanto estudantes quanto não-estudantes.
54 Oliver, Politics, pp. 114-5.
55 Tom Shakespeare, ‘Disabled People’s Self-Organisation: a New Social Movement?’, Disability, Handicap and Society, vol. 8(3), 1993, p.260.
56 Independent Living, com sigla em inglês IL (NT).
Em poucos anos, uma rede de centenas de ILCs brotou nos Estados Unidos, assim como em vários outros países, incluindo Grã-Bretanha, Canadá e Brasil58.
O surgimento do movimento IL foi inquestionavelmente um passo à frente para o movimento pelos direitos dos deficientes. O senso compartilhado de consciência promovido pela ação coletiva é um primeiro passo importante na construção de qualquer movimento social. Ao redefinir como questões políticas – que exigem uma renovação da sociedade em geral – aquilo antes visto pela maioria das pessoas como problemas privados (assim como o movimento de mulheres havia feito), o movimento IL forneceu uma base para um movimento social vital;59 e a vitalidade do movimento de mulheres, o movimento pelos
direitos civis dos negros, o movimento gay e lésbico, o movimento Chicano e outros novos movimentos de justiça social criaram uma abertura na qual a causa pela erradicação da opressão da deficiência também poderia ser percebida.
No entanto, houve e ainda há contradições sérias na filosofia do IL. Por um lado, o movimento procura promover a autonomia e a autodeterminação dos deficientes. Por outro lado, aceita implicitamente os fundamentos da ideologia de livre mercado ao conceber o debate em termos do direito das pessoas deficientes, como consumidores, de receberem o mesmo tratamento do mercado. Entretanto, a capacidade de acessar o mercado é desoladora para a enorme proporção de deficientes que vivem em condições de pobreza ou quase pobreza. Em uma sociedade capitalista, afinal, o acesso ao mercado é baseado no poder aquisitivo para comprar os serviços em questão. Uma estratégia de política de libertação dos deficientes inteiramente dependente desse poder de compra é ineficaz a ponto de atender apenas uma pequena fração das pessoas deficientes mais privilegiadas. Também tende a marginalizar os interesses das mulheres e minorias. Ao aceitar os princípios do livre mercado como dados, o movimento IL enfraqueceu
58 Charlton, Oppression, p.138. 59 Fagan and Lee, Social Movements.
seu potencial radical para realmente dar poder aos deficientes. Nos piores casos, alguns ILCs, com medo de complicar a situação e perder financiamentos do Estado, tornaram-se pouco mais do que locais de encontro para aconselhamento entre pares e organização de piqueniques. Somente questionando a própria base das regras do mercado pode haver libertação para os deficientes.
Contudo, sempre houve algumas vertentes do movimento pelos direitos das pessoas deficientes resistentes aos perigos da cooptação do Estado e engajadas em táticas militantes que revelam a possibilidade de resistência e de uma mudança social mais ampla. Por exemplo, décadas antes do surgimento do IL, a Liga dos Deficientes Físicos60,
um grupo de cerca de trezentos pensionistas deficientes de Nova York, engajou-se na desobediência civil durante a Grande Depressão para protestar contra sua discriminação do emprego oferecido pelo Programa para o Progresso do Trabalho (Works Progress Administration)61.
Muito mais tarde, em 1970, foi fundada uma organização chamada Deficientes em Ação (DIA)62, adotando a tática do protesto político
direto. Durante a eleição presidencial de 1972, os militantes da DIA se uniram com os deficientes e quase sempre altamente politizados veteranos do Vietnã – claramente uma base influente de apoio –, para exigir um debate em frente às câmeras com o presidente Nixon. Eles também organizaram uma manifestação no Memorial Lincoln depois que o presidente Nixon vetou uma lei de gastos com objetivo de financiar programas para deficiência63.
Talvez o momento mais memorável na história recente dos direitos dos deficientes dos EUA tenha ocorrido durante a luta de 1977, para a emissão de regulamentos conforme a seção 504 da Lei de Reabilitação
60 League for the Physically Handicapped (NT).
61 Shapiro, No Pity, pp.63-4; Paul Longmore and David Goldberger, ‘Political Movements of People with Disabilities: The League of the Physically Handicapped, 1935-1938’, Disability Studies Quarterly, Vol. 17, No. 2, 1997, pp.94-8.
62 Disabled in Action (DIA) (NT). 63 Shapiro, No Pity, p.58.
de 197364. Os regulamentos deveriam delinear como era ilegal para
agências federais, contratantes ou universidades públicas discriminar com base na deficiência. As administrações anteriores postergaram as regulações, contudo havia uma expectativa de que o novo governo Carter cumpriria sua promessa de emitir os regulamentos. Quando se tornou óbvia a obstrução da pauta pelos dirigentes políticos, querendo modificar substancialmente as regulamentações de modo a permitir a segregação contínua na educação e em outras áreas da vida pública, militantes mobilizaram-se em várias cidades dos EUA. Enquanto a maioria das manifestações terminou rapidamente, em Berkeley o movimento assumiu uma trajetória verdadeiramente extraordinária. Lá os ativistas pelos direitos dos deficientes ocuparam o prédio federal do Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar (HEW)65 por
cerca de vinte e cinco dias, culminando na vitória total: a emissão dos regulamentos sem quaisquer emendas66.
No processo, os participantes da ocupação viram-se transformados pela experiência: descobriram sua capacidade de mudar o mundo através da ação política. Considerando que as divisões por meio de categorias diagnósticas arbitrárias baseadas em uma falha abordagem do modelo médico da deficiência frequentemente criaram sérias tensões na construção de movimentos sociais, nesse caso, pessoas com distintas deficiências foram capazes de se unir em torno de uma estratégia comum e construir solidariedade em um momento decisivo. Também foram estabelecidas relações com outros movimentos sociais. Por exemplo, sindicatos e organizações de direitos civis doaram alimentos para os manifestantes que foram preparados pelo braço local do militante Partido dos Panteras Negras. Entretanto, é claro que os protestos do HEW se basearam no legado deixado pelo trabalho pioneiro do movimento IL, apesar de suas limitações ideológicas e estruturais.
Tanto nos EUA quanto na Grã-Bretanha, um pequeno quadro
64 Rehabilitation Act (NT).
65 Department of Health, Education and Welfare (HEW) (NT). 66 Ibid., pp.64-70.
da militância continuou com a tradição de lutar a partir de baixo. Em 1983, uma nova organização, a Deficientes Norte-americanos pelo Transporte Público Acessível (ADAPT)67, foi estabelecida por
ativistas pelos direitos dos deficientes em várias cidades importantes dos EUA a fim de destacar a inacessibilidade do transporte público para pessoas com limitações de mobilidade. Rapidamente se tornou conhecida por suas táticas de confronto geralmente bem-sucedidas. Por exemplo, repetidamente interrompeu as convenções da Associação do Transporte Público68, levando a prisões em massa, em protesto
contra a sua falta de vontade de implementar modificações para tornar o transporte público mais acessível. Eles também demonstraram um talento dramático quando se engajaram em formas simbólicas de protesto, como rastejar pelas inúmeras escadarias nas entradas de prédios públicos, destacando a inacessibilidade69. Não é de sur-
preender que organizações mais moderadas tenham evitado ou até mesmo atacado a ADAPT; uma coalizão de ILCs em Michigan fez isso a ponto de condenar suas ações em uma carta ao governador do Estado70. Mais recentemente, a ADAPT mudou suas prioridades a fim
de garantir o financiamento para um programa nacional de serviços de atendimento paras as pessoas deficientes viverem em comunidade, ao invés de serem institucionalizadas.
Assim, em última análise, mesmo as organizações de deficientes mais populares nos EUA e na Grã-Bretanha parecem teoricamente ambíguas em suas formulações ideológicas. Ainda precisam adotar uma agenda anticapitalista que considere a deficiência como um produto do sistema de classes. Além disso, tanto nos EUA quanto na Grã-Bretanha, a aprovação da legislação sobre direitos das pessoas deficientes, cuja base é individualista, retira um elemento de coerência da práxis política até mesmo das organizações mais militantes. Uma incapacidade em ver as suas relações triviais com outros membros
67 American Disabled for Accessible Public Transit (NT). 68 American Public Transit Association (NT).
69 Ibid., pp.127-39.
marginalizados da sociedade, incluindo o exército de reserva dos desempregados, beneficiários da assistência social, o segmento cada vez maior da sociedade trabalhando em empregos de tempo parcial ou que não pagam um salário básico, entre outros, pode acabar desperdiçando a promessa dos vários movimentos pelos direitos dos deficientes na rasa política de identidades – ou, pior ainda, no discurso pós-moderno cujos teóricos se recusam a nomear o capitalismo como causa de sua opressão. Voltar para a política de classe e para o materialismo histórico, plenamente conscientes de seus riscos e limitações, é o que os movimentos pelos direitos dos deficientes mais precisam.