Os ilhéus faziam rodadas sazonais de eventos sociais e os membros surdos da comunidade estavam completamente integrados nessas feiras. Uma mulher disse: “Se tivéssemos qualquer coisa, todos iam, com certeza”. Outro homem foi enfático em relação a isso:“É mesmo, verdade, sim! Se tivesse alguma social ou qualquer coisa, eles sempre iam e, às vezes, eles organizavam jantares, sabe, com sopa de frango ou mariscos ou qualquer coisa. Eles sempre iam... Tudo isso acontecia no salão municipal. Aquele lá em cima, onde agora é a delegacia. É lá que eram feitos todos os eventos sociais.”
Sempre rolava jogos de carta ou dama no armazém:
Ah, você encontrava surdos de toda a cidade. Agora, o Eben Brewer, ele amava jogar cartas. Ele era mais ou menos fazendeiro, mas amava jogar cartas, dama e jogos. Ele era muito bom em jogos... ótimo jogador de cartas. Mas claro, haviam sinais usados enquanto jogavam cartas, para cada conjunto... Sim, era o que costumávamos fazer, porque eu jogava cartas, boas partidas com eles perto da fonte, no armazém de Chilmark.
Muitos ilhéus, ouvintes e surdos, era jogadores de cartas empolgados.
Eu costumava jogar uíste9, é de cartas, sabe. Daí eles tinham
9 Trata-se de um jogo de cartas tradicional na Inglaterra nos séculos XVIII e XIX, considerado um ancestral do bridge e muito semelhante a copas. Normalmente joga-se em duplas, com parceiros frente a frente. O objetivo é vencer pontuando com a maioria de trezes vazas em uma mão (NT).
uma grande festa de cartas e todos iam. Então, o Eben Brewer e sua tia Abigail... eram parceiros, sabe – e eles sentaram na minha mesa com mãos a postos. E eu me preparei, eu era o oponente, entende. Bem, eu entendia o suficiente para saber que eles estavam conversando entre si sobre quais cartas tinham (risos). Eu me divertia mais, eles sabiam todos os truques, eu apenas torcia para que eles ganhassem o prêmio principal, porque era é cômico. Ah, eu os entendia. Ah sim, eles me conheciam, claro. Ele piscava para mim, mas meu parceiro era turista de veraneio. Lembro como se fosse hoje, seus rostos iluminados. Eles ficaram extremamente satisfeitos.
Festas para os mais jovens eram frequentemente dadas depois dos encontros de oração e as festas de mingau de ameixa eram bastantes populares. Uma mulher, cuja família de Nova Jérsei era uma das primeiras a passar os verões na ilha, relembrou a primeira vez que encontrou um dos ilhéus surdos na festa Tucker10.
Eu fui para uma festa Tucker. Eram comuns. Os metodistas não são favoráveis à dança, sabe, daí demos a volta e trocamos de parceiros e nos encarávamos e íamos para direita e esquerda e da esquerda para direita, enfim, coisas assim... Eram normalmente festas beneficentes, para a biblioteca ou igreja, ou outra coisa...
E então eu estava conversando com esse velhinho – ele não era assim tão velho, mas muito mais velho do que eu era – eu estava na adolescência. Ele acenava e ria e sorria, mas não disse nada. Andamos juntos, e ele percebia a partir das reações dos outros o que devíamos fazer, sabe, trocar. Demos a volta, de mãos dadas assim, à medida que circulávamos seguindo o fluxo encarando nossos parceiros... alguém chamava – parecia uma quadrilha. E o Jonathan, ele acertou todos os passos, estava indo bem. Enquanto andávamos lado a lado eu falava várias coisas para ele e ele não respondia. Depois da dança eu disse: “Quem era aquele homem? Ele não conversava comigo.” E alguém respondeu:“Claro que não,
10 Os metodistas não são favoráveis à dança, sendo particularmente preocupados com a música e o contato corporal entre os sexos. Nas festas Tucker, os homens seguravam as meninas pelas mãos ao invés da cintura, e a música ficava a restrita a instrumentos respeitosos como o piano, e não os barulhentos e pecaminosos conjuntos com violino. (Os mais devotos ficavam sem instrumento algum). Um exemplo de uma brincadeira comum em festas Tucker é a “Entra e sai da janela”, a qual as crianças ainda brincam. No final do século XIX, as festas Tucker metodistas pareciam festas ilhoas ou “danças de cozinha”.
ele é o Jonathan North, ele é surdo-mudo.”
Uma mulher da parte baixa da ilha lembra-se de ver os surdos da parte alta da ilha uma vez por ano, na feira do condado em West Tisbury. “Eu não os via com frequência, só quando eles vinham para a feira, sabe. Era quando todos os velhos amigos se encontravam, na feira a cada ano.” E outra pessoa de Edgartown narrou, “Eu me lembro de ver pessoas sentadas na varanda do Salão Agrícola, encontrando outras pessoas e apenas balançando as mãos sem dizer nada.”
Os membros da comunidade não eram de forma alguma isentos das tradições de pregar peças na ilha:
Eu me recordo de quando eles costumavam rebocar os barcos de noite em Nomans Land. Bem, o Ezra Brewer, que como você sabe era surdo, passou por uma pegadinha, certo dia, que fizeram só pra avacalhar. Ele costumava prender os barcos em um mecanismo na rampa, amarrar nos bois e puxar, sem nunca olhar para trás. Então eles o fizeram ir, um dia, mas tiraram o pino do grampo no barco e o prenderem em uma tora ou algo assim. Quando ele olhou para trás, ele não tinha puxado barco algum. E rapaz, ele ficou furioso! Eu lembro disso claramente.
Um dos surdos era lembrado como sempre “brincalhão”:
Tio Nathanael tinha um... ótimo senso de humor, e no verão, costumávamos ir para o lago lá nos banhar. Eles pegavam um cavalo e uma carroça e iam para o lago. Ao voltarmos... nos trocávamos, vestíamos roupas secas e eu ia para a relva me deitar no sol e secar. Eu estava de boa deitada lá e raramente sabia quando ele estava por perto. Ele bombeou e pegou um balde de água, gelada, do velho poço para levar para casa. Ao me ver deitada lá, ele se aproximou de derramou um pouco em mim. Que pegadinha ele fez!
Toda pequena comunidade tem seus problemas, assim como os prazeres, e as comunidades da parte superior da ilha não eram exceção:
Havia essa mulher surda, e ah, ela era bem mesquinha! Certa vez eu ia trocar um cavalo com o marido dela, eu fui até a casa e
falei com ele. Ela não queria que o cavalo fosse trocado, e rapaz, ela gritava comigo em sinais. A vizinhança toda se lembra da briga que ela teve com a cunhada aqui embaixo na estrada. A irmã dela ouvia bem, mas certamente dava conta também de brigar em sinais, te digo...
Outro informante relatou que essa mesma mulher invadiu a cozinha dele e acusou um dos membros da família dele de roubar as galinhas dela. O parente era inocente, mas o argumento seguiu: “Ela gritou comigo, e eu falei poucas e boas com ela! Pensando bem, acho que nós dois discutimos em sinais.”
Assim como nos outros aspectos da vida na ilha, não havia qualquer distinção na socialização entre pessoas surdas e ouvintes. Não havia exemplos de atividades cotidianas das quais apenas surdos participavam. Ao contrário do continente, onde diversas associações de surdos e atividades centralizavam a interação social para muitos surdos, em Vineyard frequentavam as atividades ambos, surdos e ouvintes. Não se tratava apenas de os ilhéus ouvintes serem receptivos aos surdos em seu meio; os ilhéus surdos, aparentemente, não faziam qualquer tentativa de estabelecer atividades isolados de suas famílias ouvintes, amigos e vizinhos. Caso quisessem algum entretenimento voltado apenas para os surdos, provavelmente acabariam excluindo cônjuges, irmãos, filhos, melhores amigos, ou vizinhos próximos, os quais se magoariam.
Havia amizades estreitas entre ilhéus surdos, mas nenhum deles era amigo exclusivamente ou prioritariamente de outros surdos. As amizades mais próximas eram baseadas naqueles com quem cresceram ou moravam próximos. Não parece, também, que os ilhéus surdos mantinham laços com os surdos continentais conhecidos de Hartford. Eles também não participavam de organizações surdas estatais ou nacionais, que são vínculos sociais importantes para muitos surdos e surdas no continente. Até onde se sabe, os ilhéus surdos não se percebiam como grupo social distinto.