No Japão não se encontra uma única ou hegemônica definição do que significa ser “Surdo”. Ainda nenhum grupo dominou de forma a ter controle do discurso a respeito da surdez ou dos níveis de perda auditiva. Vários fatores levaram a emergir e proliferar novas identidades surdas, principalmente ao longo de limites etários. Em particular, apesar dos grupos surdos de antes da II Guerra Mundial e do imediato pós-Guerra tendam a manter uma noção de surdez fechada e peculiar, que inclui todos aqueles com deficiências auditivas, ativistas surdos mais jovens fragmentaram essa noção face às linhas falhas da Surdez cultural e da assimilação dos hard of hearing7, criando assim novas
identidades nas fronteiras. Tal como a reconstituição contemporânea da nacionalidade e da identidade nacional na região dos Bálcãs, novos grupos surdos no Japão estão recriando e sintetizando novos conceitos de surdez em linhas quase sempre radicais, enquanto os grupos mais antigos reformulam-se a si mesmos em um mundo mais fragmentado.
No Japão, os surdos diferenciam-se muito pelos tipos de língua sinalizada que eles usam e no que eles definem como “cultura Surda” (rou bunka/defu karucha) e “identidade” (aidentiti) surda. Podemos ver essas diferenças na proliferação de termos usados para identificar “surdo”. Por exemplo, no japonês falado e escrito existem pelo menos cinco maneiras principais de se identificar como surdo:
rou/roua/rouasha/rousha – Surdo/Surdo-mudo (do chinês clássico) tsunbo – Surdo (derrogatório; arcaico; japonês clássico) defu/D – Surdo (do inglês)
choukakushougaisha – deficiente auditivo (literal)
nanchousha – hard of hearing (literal)
mimigakikoenai-hito – pessoa que o ouvido não ouve (literal)
Não bastassem essas formas verbais e escritas há também pelo menos seis maneiras de sinalizar “surdo”, “deficiente auditivo” ou “hard of hearing”. A vocalização e a articulação de palavras com a boca são importantes partes da Língua de Sinais Japonesa, logo, as opções de vocalização e desses movimentos adicionam ainda mais complexidade à questão (veja figuras 11.1, 11.2 e 11.3)8.
8 O sinal 1-mão-orelha-pra-boca é feito da mesma forma na ASL e em várias outras línguas de sinais europeias. Eu arriscaria o palpite de que esse sinal e sua variante, 5-mão-orelha-pra-boca, são o resultado da adoção da ASL e de outras formas pela comunidade surda. Essa análise é reforçada pela observação de que os surdos japoneses velhos (mais de 70 anos) não usam a forma orelha-pra-boca da ASL, mas sinalizam roua levando ambas as mãos para a orelha e para a boca simultaneamente (ver figura 11.1).
Há uma tentação de se ver nessa lista de identidades as mesmas formas encontradas no discurso acadêmico dos EUA sobre surdez. Nós poderíamos facilmente definir roua para indicar Surdo com S maiúsculo e nanchousha para indicar hard of hearing (HOH; nos EUA, aqueles que têm algum grau de perda auditiva, mas que usam principalmente formas orais de comunicação tais como a fala e a leitura labial). Mas essa definição seria problemática, como veremos a seguir. Grupos surdos no Japão que têm o termo “deficiente auditivo” na sua denominação, por exemplo, o Tókio Choukakushougaisha Renmei (Associação dos Deficientes Auditivos de Tóquio), dão a impressão de anacronismo, caso se considere a perspectiva daqueles grupos que estão no campo dos Estudos Surdos dos EUA9. Esses últimos
o combatem como se fossem dinossauros que vão inevitavelmente seguir rumo ao caminho da modernização retirando essa linguagem “discriminatória” de suas denominações. Nós temos a expectativa de
que eles logo mudarão suas denominações. Os Estudos Surdos dos EUA evitam a discussão do aspecto físico da surdez e enfatizam os aspectos culturais e linguísticos. Essa abordagem segue a tendência geral da política de identidade americana de retirar a ênfase do material e físico, enquanto privilegia o cultural, por exemplo, na mudança de negro e black para Black ou African American e na mudança de homosexual ou homophile para Gay e Lesbian.
Porém, quando se tenta aplicar o modelo dos EUA no Japão, compreendendo-o como protomoderno nas suas construções de identidade, nós notamos fenômenos que não combinam com o caso americano. Considere, por exemplo, as três seguintes situações:
Durante o encontro nacional da Federação Japonesa de Surdos, a maioria do corpo de diretores – homens surdos de 45 anos ou mais – fez uso de vocalização simultânea enquanto sinalizava. A audiência era quase toda surda (exceto por mim), logo, a vocalização não era por causa dos ouvintes. Por que os líderes do maior e mais politicamente ativo grupo surdo no Japão estariam tão distantes do modelo cultural Surdo (isto é, apenas sinalização)?
Aparentemente, os jovens se identificam de maneira predomi- nante como hard of hearing ou deficientes auditivos e raramente as pessoas de meia idade ou mais velhas usam esse termo. Muitos jovens “deficientes auditivos” no Japão parecem preferir as denominações HOH ou deficiente auditivo ao invés de “surdo” e não integram grupos surdos. A maioria das organizações locais e regionais de surdos no Japão tem tido muita dificuldade para recrutar membros mais jovens. Por que os surdos mais jovens estão evitando as organizações surdas tradicionais?
A Associação dos Deficientes Auditivos de Tóquio costumava ser chamada Associação dos Surdos de Tóquio (Tókio Roua Renmei), mas eles mudaram sua denominação de “surdo” para “deficiente auditivo” na última década. Muitas associações locais de surdos também estão trocando seus nomes e a Federação Japonesa dos
Surdos também ponderou uma troca de denominação similar. Por que elas estariam mudando para um nome que enfatiza o aspecto de deficiência da surdez?
A discussão a seguir buscará compreender as dinâmicas por trás dessas tendências japonesas.