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Os Estudos Surdos

No documento Capitalismo e surdez (páginas 191-198)

No Brasil, os Estudos Surdos se constituem ao longo desse processo, enquanto um projeto interdisciplinar de pesquisas e de intervenção teórica e política a partir de estudantes, pesquisadores e militantes de universidades, instituições para surdos, associações e movimentos

2 A FENEIDA também foi formada a partir de uma disputa entre grupos a favor e contra a filiação da nova instituição à Federação Nacional das Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (FENAPAE). Finalmente, em dezembro de 1977, com a presença de representantes das associações de surdos (a convite de um grupo participante das primeiras reuniões de formação da nova entidade que pretendia unificar todas as instituições ligadas aos surdos/deficientes auditivos) – Federação Brasileira de Surdos, Federação Carioca de Surdos-Mudos, Associação Alvorada de Surdos, Associação dos Surdos do Rio de Janeiro – decide-se pela não filiação à FENAPAEs e pela criação da FENEIDA (Cf. Ramos, s/d).

3 A atual designação do Instituto Nacional de Educação de Surdos, sediado no Rio de Janeiro, por exemplo, advém dos impactos de uma grande rebelião levada a cabo pelos internos em 1950 e dos seus desdobramentos, como foi o caso dos debates realizados entre os especialistas nos anos seguintes. Em 1957 se retira a palavra “mudo” e se insere “educação” no que foi o Instituto Nacional dos Surdos-Mudos e, anteriormente, o Imperial Instituto dos Surdos-Mudos (INES, 1997). Visava-se difundir a então moderna perspectiva de ensino e de progresso nacional e demonstrar que o surdo poderia não ser mudo. Recentemente, dentre outras discussões, alguns grupos de surdos hoje defendem novamente o “surdo-mudo”, não pelo fato da possibilidade de oralização, mas pelo fato de reivindicar a expressão e o uso da Língua de Sinais Brasileira ao invés do uso da Língua Portuguesa oral.

compostos por surdos e apoiadores. No mundo, enquanto área discipli- nar, os Estudos Surdos têm surgido principalmente da influência dos movimentos surdos organizados e seus apoiadores nos EUA a partir dos anos 1980 e no meio da intelectualidade influenciada pela perspectiva teórica dos Estudos Culturais. Neste sentido, a repercussão mundial das mobilizações políticas realizadas pelas comunidades surdas nos EUA nos anos 1980 teve grande impacto; em especial, a Revolta na Universidade de Gallaudet de 1988 e o encontro que foi promovido por essa universidade para surdos no ano seguinte, reunindo cerca de 6 mil pessoas de vários países, inclusive brasileiros, em Washington, intitulada Conferência e Festival Internacional The Deaf Way (site Feneis; Erting et al., 1994).

Segundo um fonoaudiólogo de formação e especialista em Educação Especial, Carlos Bernardo Skliar, cujos escritos na segunda metade dos anos 1990 são uma das grandes referências desses Estudos no Brasil, “(...) os Estudos Surdos se constituem enquanto um programa de pesquisa em educação, onde as identidades, as línguas, os projetos educacionais, a história, a arte, as comunidades e as culturas surdas são focalizadas e entendidas a partir da diferença, a partir de seu reconhecimento político” (1998, p. 5)4.

A série Estudos Surdos, publicada nos últimos quatro anos, consiste em uma das muitas produções realizadas a partir desta perspectiva. Essa série compreende quatro livros com 43 artigos de 42 autores, resultado de investigações conduzidas, em sua maior parte, no âmbito de um Projeto intitulado “Educação de Surdos: professores surdos, professores bilíngues e intérpretes de língua de sinais”, sediado na UFSC e financiado pela Capes (2003-2008). Nesse sentido, é possível observar no conjunto dos artigos certa concentração temática, porém, por outro lado, levando em consideração as qualificações apresentadas, os autores se apresentam de maneira mais diversa. Dentre aqueles que

4 Segundo Limeira de Sá (2006): “Os Estudos Surdos se lançam na luta contra a interpretação da surdez como deficiência, contra a visão da pessoa surda enquanto indivíduo deficiente, doente e sofredor, e contra a definição da surdez enquanto experiência de uma falta.”

notaram suas apresentações, por exemplo, fizeram-no como professores da UFSC, do CEFET/SC, da Universidade de Bristol (Inglaterra), da USP, da UFSM, da Unicamp, da UENP, da Univali; intérpretes de Libras; graduados, graduandos, mestres, doutores e/ou doutorandos em Educação, Linguística, Letras-Libras, Letras-Inglês, Literatura, Psicopedagogia, Design e Expressão Gráfica, Psicologia, Direito e Estudos da Tradução; e também como “surdo”(a), “professor(a) surdo(a)”, “professor(a) bilíngue”, teólogo(a), “engajados(as) nos movimentos sociais surdos”, “coordenador(a) do trabalho com surdos” em determinado município, coordenadores pedagógicos e tutores do curso Letras-Libras, “criador(a) da Elis” (Escrita da Língua de Sinais), “consultor(a) da Editora Arara Azul”, “diretora das políticas interna- cionais da FENEIS e representante junto à Secretaria da Federação Mundial de Surdos para América do Sul”.

Os artigos abordam, principalmente, objetos relacionados à educação de surdos (dentre os quais poderíamos incluir 21 artigos), à Língua Brasileira de Sinais (15) e à subjetividade, identidade e representações do denominado “sujeito surdo” e/ou entre surdos e ouvintes (7). A educação de surdos foi analisada a partir de seus aspectos linguísticos específicos e de sua relação com o letramento e o desenvolvimento cognitivo dos surdos, assim como também foram analisados aspectos de cunho pedagógico como a criação de novas pedagogias, currículo, ensino à distância, ensino de inglês, inclusão em escolas regulares/ especiais, formação de professores, educação de jovens e adultos e alunos com deficiências múltiplas. Outros autores abordaram ainda a história da educação de surdos e a construção de identidades e representações em contextos escolares. Dentre os artigos voltados para os estudos da Língua Brasileira de Sinais, foram discutidos, em especial, seus aspectos linguísticos e as questões em torno da tradução, do ensino, da literatura e da profissão de intérprete/tradutor dessa língua.

Além da classificação temática, é possível analisar os artigos a partir de argumentações relativamente semelhantes apresentadas pelos autores desta área disciplinar em formação. Nesse sentido, salvo algumas exceções, podemos resumir enquanto preocupações comuns:

Classificação do campo e da literatura sobre surdez; Desautorização dos ouvintes;

Construção de uma narrativa a respeito da história da educação dos surdos;

Busca pela definição do significado do que é ser surdo e de sua visão de mundo.

Em geral, os autores afirmam que os escritos sobre a surdez estão divididos em dois enfoques possíveis e que, decorrente disso, há dois modelos, correntes, perspectivas ou concepções sobre a surdez: um denominado clínico-terapêutico e outro sócio-antropológico. O primeiro seria responsável por imprimir um caráter terapêutico nas práticas pedagógicas e na formação profissional nessa área até recentemente. O segundo privilegiaria o reconhecimento das diferenças culturais em contraposição ao modelo médico que focaliza a diferença como defeito.

A segunda preocupação é pautada pela desautorização epistemoló- gica, científica, política e pedagógica dos ouvintes e de seus discursos. A busca pelo “olhar surdo” é reivindicada pela valorização dos autores surdos e desta qualificação enquanto apresentação obrigatória do autor ou, como afirmado no primeiro parágrafo da apresentação do primeiro volume: “(...) Os surdos começam a ser autores, embora, ainda neste primeiro volume, as pesquisas tenham sido produzidas na sua grande maioria por ouvintes. Mesmo assim, esses ouvintes estão sensíveis aos olhares surdos e chamam a atenção para as perspectivas do outro surdo, buscando abrir espaços na academia para os surdos participarem efetivamente do processo de produção de conhecimento” (ES1, p. 9).

Eventos, fatos e personagens comuns marcam a contínua recons- trução de uma narrativa histórica sobre a educação dos surdos no mundo e, às vezes, a própria história dos surdos no mundo. Dentre outras questões, valorizam-se as estratégias de resistência dos surdos frente à opressão, ao oralismo – uma espécie de expressão político-

-pedagógica do ouvintismo que, por sua vez, seria a aplicação de um pensamento colonialista em relação aos surdos5.

Por último, haveria a busca por definições ontológicas, principal- mente, por meio de narrativas que enfatizam o que caracterizaria o ser surdo e quais seriam as suas visões de mundo, em que se enfatiza uma natureza visual ou uma experiência visual do mundo.

Nesse sentido, enquanto um programa de estudos, os Estudos Surdos estruturam discursos de denúncia da ótica da doença, da perspectiva da “reabilitação”, da imposição de tecnologias de normalização e do prisma da surdez enquanto uma diferença biológico-cientificista, individual, ou fruto de um acidente que afeta ou que é da natureza do sujeito-indivíduo. Por outro lado, sob a perspectiva da diferença adjetivada “cultural”, biológico-culturalista, revalorizam determinadas características e as reclassificam enquanto definidoras da “identidade” e “cultura surda”.

Contudo, enquanto um projeto político de des-“deficiencialização” da surdez, as estratégias de reivindicação do direito à diferença empre- endidas pela militância em torno dos Estudos Surdos, junto a outros agentes têm se confrontado com novas encruzilhadas políticas. Uma delas é a luta em torno dos rumos dos avanços da pesquisa científica e das invenções técnico-científicos destinadas aos surdos, cujas condições de intervenção e de disputa de posições de poder aparentemente estão mais distantes e frente aos mesmos tem sido aventada uma luta de resistência cultural e de denúncia de etnocídio. Outra é o advento das políticas públicas que se pautam justamente pelo discurso de respeito às diferenças, de livre convívio entre os diferentes e de fomento da denominada inclusão. Os autoproclamados Surdos – com S maiúsculo – cuja reivindicação de diferença e de cultura prima pelo direito ao convívio entre os considerados iguais, têm buscado influenciar a fim

5 Skliar (1998) define o ouvintismo como um “(...) conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte”. Este conceito seria baseado no inglês audism, cunhado por T. Humphries e, em seguida, por Harlan Lane e Carol Padden.

de evitar a dispersão dos surdos em escolas regulares inclusivas. Porém, uma análise das implicações das intervenções e reenqua- dramentos em curso requer o estudo dos demais agentes, das posições em disputa e do processo político das lutas que estão sendo travadas nestas questões.

De qualquer maneira, enfim, é preciso considerar que é através da idealização da igualdade e de cosmologias que revalorizam aspectos físico-biológicos como dispositivos definidores de suas comunidades imaginadas que estes agentes têm construído estratégias de convívio e de direito à socialização, que, por outro lado, são condições fundamentais para a própria constituição e reprodução social dos grupos surdos.

Referências

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