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Delineamento de um projeto educativo: da fenomenalida de do processo da vida em nós como afeto ao processo

No documento Fenomenologia, Educação e Psicanálise (páginas 79-85)

do nosso viver na vida como afirmação

Para Michel Henry o processo educativo é o lugar por excelência da transmissão, recepção e renovação de saberes e culturas, mas para isso será preciso que o processo de recepção da vida se não desvincule do processo de reactualização de um poder originário, vivido no corpo dotado de sentidos, do qual o som e a voz são, como acabamos de ver, paradigma. Pois para Michel Henry o processo educativo é de tal modo tributário desse processo da vida que o seu esquecimento implica a morte da própria tradição: morte de culturas e de civilizações que se transmitem como quem transmite o conteúdo de uma carta sem a abrir (HENRY, 1965, p. 254). Assim o esquecimento da vida na transmissão da tradição não é inócuo para as civilizações: esse esquecimento resulta em barbárie. Uma vida que não acresce de si não deixa de ser uma vida: a violência e a destruição são fruto imediato desse desinvestimento. Mas esta vida que se esquece de si ou se quer desfazer do seu próprio peso, vimo-lo, é uma vida com alternativas, por isso é o lugar da ética. Então que possibilidades podemos nela encontrar para além desse desejo de se desfazer de si? Encontramos possibilidades de inovação, criação: arte, estética. Possibilidades em virtude das quais toda a tradição será julgada. A ciência não escapa a esse juízo: a ciência será julgada pelo critério da arte. Não só a ciência mas também a técnica (HENRY, 2007, p. 87). Todavia relembremos: o lugar desse juízo é o corpo (HENRY, 1965).

Tomemos agora de Michel Henry duas novas expressões que nos permitam mostrar em qual a orientação do nosso projeto educativo Afetividade e Afirmação. Um tomo-o do texto Descartes e a questão da técnica no qual Michel Henry diz que é na marcha – no andar – que encontramos a essência da técnica (HENRY, 2007, p. 87); o outro tomo-o

da obra A Barbárie onde se pode ler que a dança é uma forma ética da marcha ou do andar (HENRY, 2012).

A primeira linha de orientação do projeto educativo Afetividade e Afirmação é a fenomenalidade do retorno de nosso viver à vida que em nós se dá como afeto para nele firmarmos nosso processo. A marcha e a dança mostram que esse processo é um processo implica o enredo de nosso viver com aquilo que, pelo afeto, o torna efetivo. Outra linha de orientação foi a atenção à dimensão comunitária do processo de nosso viver. A marcha e a dança mais do que compossíveis elas promovem-se uma à outra. Mais do que compossíveis, a fenomenalidade do som e da voz; da voz e da dança, da dança e da literatura /filosofia; da música com a dança e com a pintura; e ainda a ópera – a arte monumental de Kandinsky – a comunicação das artes apela à promoção mútua. Nenhuma mais originária do que a outra, pois todas e cada uma delas expressa a seu modo o fundo originário da vida que experienciamos como vontade: Vontade de viver. E se cada expressão dessa Vontade se fragmenta na diversidade intuitiva do espaço e do tempo, a possibilidade da relação dessa fragmentação é a Vontade originária da vida que vivemos como pulsar da vida. O exemplo de Michel Henry para a relação entre som e voz vive da mesma ambiência fenomenológica da relação entre música e pintura. Diz expressamente Michel Henry no artigo Desenhar a música: para uma teoria de Briesen: «Briesen vê assim a possibilidade a priori da relação entre música e desenho: nem um laço direto entre uma e outro, nem a transformação do mundo sonoro em mundo visual, a transubstanciação mágica do primeiro no segundo, pois o desdobramento dá-se pela passagem pela origem comum – a corporeidade»32

Ora se não há um laço direto entre os vários sentidos nem entre as várias artes, temos então dois tipos de ligação: a ligação que passa pela vida auto-afetiva e que cria o vínculo qualitativo entre eles – tristeza,

angústia, bem-estar - e a ligação espacial que cria a possibilidade da medida ou o aspeto quantitativo. E é a fenomenalidade do movimento, o movimento inerente à fenomenalidade da visão, ao som e à voz que me permite atender a estas duas formas de manifestação.

Yamagata em 1996, em Cérisy33, apresentava essas duas formas de manifestação pela dupla apreensão da formação do espaço e do tempo: «No domínio da imanência, o nosso movimento conhece-se imediatamente, sem o intermediário da distância fenomenológica, a qual se instaura na temporalização e enquanto tal. Consideremos aqui o reconhecimento de um movimento intencional para compreender o modo segundo o qual se cumpre a unidade da vida motriz ou do corpo subjetivo e tomemos como exemplo o movimento que as minhas mãos executam várias vezes por dia para deitar o chá na minha chávena. Quando repito este movimento das mãos [Yamagata exemplificou o movimento] como é que o reconheço? Pela representação memorativa / lembrada, pela recordação-imagem que evoco por ter feito antes? De forma alguma pois não há o mínimo espaço para a síntese temporal. Decerto que será sempre possível que eu me lembre sob a forma de memória representativa da minha ação passada, todavia não será menos verdade que essa espécie de rememoração seja secundária e derivada: ela produz-se quando uma nova intencionalidade visa o reconhecimento motriz primitivo que advém sobre o modo da imanência.

Na realidade, reconheci o meu movimento ao reproduzi- lo efetivamente antes da representação na memória – recordação. A questão consiste em saber qual o mecanismo que funciona na imanência para assegurar essa reprodução. Quando faço um movimento das mãos para deitar o chá, reconheço-o imediatamente, e neste caso, o advérbio imediatamente designa o processo no qual o conhecimento se cumpre sem intervenção da temporalização. Ora se,

como estabeleceu Husserl, o princípio de individuação se funda na singularidade do espaço único e insubstituível que cada presente do tempo ocupa no fluxo perpétuo, a experiência do movimento das mãos que tenho na imanência não será nem uma experiência individual nem empírica, no sentido husserliano desse epíteto. Henry conclui então que enquanto se prova imediatamente no seio da imanência, o corpo é um poder e diz que o seu conhecimento […] é uma possibilidade do conhecimento em geral, a possibilidade real e concreta que um mundo me seja dado. […] Qual a relação entre o modo operatório da imanência e a iteratividade ou habilidade sobre o modo da qual se manifesta o nosso corpo ou movimento? Em virtude do modo interno da imanência, o ser do nosso corpo caracteriza-se pela receptividade. Como e por que a imanência confere ao corpo esta característica? Este é o ponto mais crítico do presente trabalho. […] O nosso movimento repete-se para se mover a si mesmo, para ser o si que é movido por si. Ele faz-se ser movido de modo a tomar lugar entre as coisas cuja natureza não repousa em o mover-se, mas em o ser movido, e assim torna-se suscetível de agir sobre elas»34

Yamagata repete a seu modo Michel Henry, nomeadamente o artigo Desenhar a música, segundo o qual, pelo movimento, a imanência não frui/goza ou possui apenas a reprodução imediata da música, mas permite que se expresse no mundo e assim se dá sob a forma desta expressão de si que é o mundo fenomenal, uma segunda expressão ou reprodução de si mesma»35.

A clareza destes textos interdita muitas das interpretações da fenomenologia da vida no que diz respeito à fenomenalidade da transcendência e do mundo. No caso interessou-nos a possibilidade de

34YAMAGATA, Y. L’immanence et le mouvement subjectif, in Michel Henry, l’épreuve de la vie, Cerf, 2001, p. 129-140.

35HENRY, M. Dessiner la musique: théorie pour l’art de Briesen, In Phénoménologie de la vie, T.III, Paris, PUF: 2004, p. 244.

para além das relações entre as artes tecidas na imanência e suscetíveis de ser apreciadas em sua transcendente exposição, sublinhar a importância destas questões na elaboração de um projeto educativo pautado pela afirmação de cada um na vida que como afeto e em afeto recebemos.

Referências

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Corporeidade e processo colaborativo em

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