Philip Latham
— É coisa que fica além da minha compreensão porque um apartamento pequeno como o nosso precisa tão infernalmente de limpeza.
— Se você tem tanta raiva de ajudar na casa, por que não vai fazer alguma coisa na rua?
— O que, por exemplo?
— Procurar um emprego melhor, por exemplo. Já faz dezes- seis anos que você está enterrado naquela Casa da Morte.
Esse era o ponto da discórdia entre os dois. Sam descansou com força no pires a xícara de café.
— Emily, eu não tenho talento, em treinamento especial. Você sabia disso quando se casou comigo.
— Você não teve um único aumento desde quando o promo- veram para Dinossauro e Outros répteis, há cinco anos.
— Bem, você acha que eu gosto disso? — gritou êle. — Acha que eu gosto de montar guarda o dia inteiro a um punhado de cro- codilos empalhados? De responder às mesmas perguntas estúpi- das? De trabalhar ano após ano pelo mesmo miserável salário?
— Então arranje um emprego decente.
— Mas, Emily, aos cinqüenta anos isso é impossível. — Como é que você sabe? Já tentou?
Sam não respondeu. Levantou-se, apanhou o jornal matuti- no e começou a vestir o paletó. Sua esposa olhou-o com descon- fiança.
— Que vai fazer agora? — perguntou ela. — Vou sair para procurar outro emprego.
— É melhor levar o guarda-chuva. Está começando a cho- ver.
— A chuva que vá para o inferno.
Ela observou seus preparativos com divertida tolerância. — Enquanto estiver andando por aí à procura de outro em- prego — observou ela casualmente — poderia bem procurar outro apartamento.
— Procurar outro apart. . .
Se sua esposa tivesse pedido a entrega imediata da luz de sinalização que existia no alto do prédio da Prefeitura, êle não po- deria ter ficado mais espantado.
Fechou a porta violentamente e afastou-se, batendo os pés. Os Baxter ocupavam quarto cozinha e banheiro no vigésimo
andar de um prédio de apartamentos a poucas quadras do Museu Colfax. Dezesseis anos antes haviam-se considerado extremamente afortunados por terem um lugar para morar de onde Sam podia ir para o emprego a pé. Naturalmente, não pretendiam viver em alojamentos tão apertados durante muito tempo; só até terem “as- sentado a vida”. O insidioso perigo desse processo é que depois de assentar a vida pode ser muito difícil desassentá-la. Assim, depois de dezesseis anos ainda estavam vivendo no mesmo minúsculo apartamento. Antigamente tinham de suas janelas uma vista clara das montanhas ao norte. Depois, ficaram tão cercados de edifícios mais altos que se tornava necessário deixar as luzes acesas o dia inteiro.
Sam entrou em um café vizinho onde poderia examinar as colunas de Empregos de Interesse — Homens. (Muito tempo antes todos os parques haviam sido requisitados para a construção de prédios comerciais.) Não havia falta de tais empregos. Infelizmente, não havia um único que tivesse o menor interesse para um homem chamado Samuel Baxter. Não lhe despertou o mais ligeiro interesse o fato de a Fábrica de Ferramentas Foyle precisar de um operador experimentado de máquinas de afiação. Nem se impressionou com a possibilidade de ganhar 50 000 dólares por ano como vendedor de uma companhia de Piscinas Desmontáveis para Ambiente Fe- chado. Numerosos empregos com enorme potencial de renda es- tavam à disposição de jovens dinâmicos, interessados em colocar artigos que praticamente se vendiam assim que eram vistos. Mas, à medida que seu café esfriava e o nevoeiro do lado de fora engros- sava, êle podia sentir o entusiasmo fugir-lhe minuto a minuto.
Estava a ponto de pagar a despesa e sair sem destino, quan- do seus olhos foram atraídos para a pequena seção intitulada Em- pregos — Homens e Mulheres.
“Procura-se para trabalho de natureza especializada. Não é necessária experiência anterior. Sem limite de idade. Não é para vender. Exigido exame médico. Bom salário. Apresentar-se pesso- almente. Dr. Sherwood. Sala 515, Hartford, 3855 E. Willow Wocd, Glendora.
3855 E. Willow Wood... 3855 E. Willow Wood... Tinha certeza de que conhecia esse endereço. Claro! Era da Universidade do Es-
tado. “Hartford” devia, ser o nome do edifício do hospital no cam- pus. Quantas vezes vira esse endereço em um envelope quando separava as cartas! O museu mantinha ativa correspondência com os professores da Universidade. Mas por que diabo a Universidade do Estado estaria publicando um anúncio como aquele? Bem. . . era fácil descobrir. Bastava tomar o ônibus e ir lá perguntar.
A Universidade do Estado, em Glendora, cobria uma área mais ou menos do mesmo tamanho que o Principado de Mônaco.. Os reitores haviam escolhido um local encantador, no meio de coli- nas ondulantes, com uma residência da melhor classe. No campus os edifícios foram construídos bem separados, deixando entre eles amplo espaço para bancos e balaustradas, onde se podia estudar ou entregar-se a ociosos bate-papos entre as aulas.
Êsses acessórios inúteis à aquisição de conhecimento não existiam mais sequer na memória da atual geração de estudan- tes. O Estado aproveitara todo milímetro quadrado de espaço para edifícios educacionais de toda espécie, deixando entre êles meras vielas. Mesmo essas estavam sendo rapidamente substituídas por, passagens subterrâneas que ligavam o complexo de laboratórios e salas de aulas muito abaixo do nível da rua.
Uma das boas características do desenho estrutural conden- sado era ter obrigado a Universidade a substituir os antigos nú- meros das salas por um novo sistema coordenado inventado pelo Departamento de Matemática. Por isso Sam foi capaz de localizar a sala 515 no Edifício do Hospital Hartford em apenas vinte minu- tos. No decorrer de suas andanças, atravessou salões tão estreitos que era muitas vezes difícil encontrar espaço para andar entre as fileiras de pacientes amontoados nos bancos ao longo das paredes. Achou claramente estimulante a vista dessas pessoas doentes, de fisionomia ansiosa e aflita. Pelo menos nele nada havia de fisica- mente errado, até onde podia saber.
A sala 515 era na parte menos congestionada, aparentemen- te destinada àqueles estados difíceis de classificar que afligem a raça humana. Não havia placas de “Departamento de Alguma Coi- sa”, com setas apontando para o espaço. Não havia aglomeração de pacientes no corredor. Só uma porta tendo a inscrição MEDICINA EXPERIMENTAL, com o convite em baixo em letras pequenas: “En- tre”. Sam entrou.
cortado de um queijo, conseguira introduzir o escritório, em um espaço onde nunca se poderia supor que coubesse um escritório. Uma moça negra estava na parte mais larga, examinando alguns cartões no fichário. Ao contrário de todos os outros funcionários que encontrara, ela não parecia ter desesperada pressa de executar seu trabalho.
— Vim por causa do anuncio no Times de hoje de manhã — disse Sam.
Ela sorriu amàvelmente.
— Sente-se, por favor. O Dr. Sherwood o atenderá dentro de um momento.
Sam correu os olhos pela pequena sala esperando descobrir algum indício da natureza do escritório. Na parede oposta havia uma carta com a Tabela Periódica dos Elementos ao lado de uma fotografia descorada da Praia de Waikiki com o Diamond Head ao fundo. Atrás dele havia um painel formado de retratos ovais dos Poetas da Escola Americana de Waterfall Whisker: Bryant, Long- fellow, Lowell e outros. Longfellow parecia estar olhando na dire- ção da esbelta garota da folhinha da Lavanderia Superba. A porta fechada atrás do fichário presumivelmente dava para o escritório do doutor.
A amarga experiência de Sam era que aquele “momento” real- mente significaria mais de trinta minutos. No entanto, mal haviam transcorrido cinco quando a porta se abriu e um jovem corpulento saiu, seguido por um homem de meia-idade, de aparência jovial, de paletó branco, evidentemente o médico.
— Bem, seja como fôr, muito obrigado por ter vindo — disse o médico, enquanto trocavam um aperto de mão.
O jovem concordou com um aceno de cabeça e retirou-se apressadamente. Por um segundo, médico e secretária entreolha- ram-se, com fisionomias inexpressivas.
— Um cavalheiro deseja vê-lo — disse finalmente a secretária, apontando para Sam Baxter. O doutor olhou-o taciturnamente.
— Entre — disse, suspirando. Depois de se terem apresen- tado e trocado apertos de mão, o doutor recostou-se na cadeira giratória com as mãos cruzadas atrás da nuca, fitando o teto. Sam procurou parecer à vontade sem se mostrar muito indiferente. Sa- bia que se esse emprêgo tivesse algo de bom, pretendia ficar com êle. Sabia também que a pior ocasião para se procurar emprego é
quando se precisa muito dele. Não devia parecer excessivamente ansioso, nem abjetamente humilde.
— Suponho que veio atendendo ao nosso anúncio — disse finalmente o Dr. Sherwood.
— Isso mesmo — respondeu Sam.
O doutor sorriu e disse reminiscentemente:
— Lembro-me que, quando eu era menino à procura de meu primeiro emprego, meu pai me disse: “Nunca responda a um anún- cio indefinido”.
— Parece um bom conselho.
— Poderia dizer-me por que respondeu ao nosso? Sam mudou um pouco de posição.
— Bem, francamente, era o único que parecia oferecer-me alguma esperança. Além disso reconheci o endereço como sendo da Universidade do Estado. Sabia que a Universidade não me ofe- receria uma coisa maluca.
— Não se sinta tão certo disso resmungou o Dr. Sherwood. — Eles são capazes de fazer as coisas mais infernais... — Sacudiu a cabeça. — Qual é sua atual situação, Sr. Baxter?
Sam esboçou brevemente sua posição no Museu Golfax, sua insatisfação com o serviço de lá e a dificuldade de encontrar coisa melhor em sua idade. O doutor ouviu-o sem fazer comentários.
— Bem, Sr. Baxter, acho que a sua é uma história muito comum — disse, não sem bondade. — Não sei se podemos ajudá- lo ou não. Provavelmente não. Como vê, não estamos oferecendo um emprego regular. Nosso propósito é encontrar um homem... ou mulher. . . que se mostre apropriado para o que, por falta de termo melhor, chamamos de “processo”. Não tenho a menor idéia se o senhor se mostrará apropriado ou não.
— Qual é a natureza desse. . . “processo”?
— Sinto muito, mas não lhe posso dizer — respondeu o Dr. Sherwood. — Não posso. — Diabo! Como odeio todo esse negócio de segredo e coisas altamente sigilosas. Mas, que diabo, que posso fazer? A menos que concorde com tudo, não posso fazer coisa algu- ma. Por isso, se quiser ir em frente, Sr. Baxter, temo que tenha de andar muito no escuro.
— Caso eu me mostre apropriado. . . qual seria o pagamen- to?
mais do que ganhava no Museu Colfax. “Por isso foi apanhado de surpresa quando o doutor mencionou uma cifra duas vezes maior que seu salário no museu.
— Tabela fixada pelo governo — explicou o Dr. Sherwood. — Em minha opinião, o serviço vale muito mais.
— Eu diria que o pagamento é extremamente generoso para alguém sem experiência anterior.
— Talvez não pense assim quando eu lhe falar mais sobre o assunto. Se quiser continuar, aqui está o esquema:
— Em primeiro lugar, o senhor preencherá os longos formu- lários de costume. “Tem filhos?” “Já foi casado?” “Qual é o nome de solteira de sua avó?” Não que realmente isso nos interesse, mas começamos fazendo essas perguntas e agora temos medo de pa- rar. Depois, o senhor será submetido a exame médico preliminar, apenas para nos certificarmos de que seu coração está batendo, seus intestinos estão funcionando, seus reflexos ainda são bons. Fazemos também uma pequena espionagem em sua vida privada. Se o senhor fôr aprovado nessa rotina preliminar, será depois sub- metido ao verdadeiro exame físico.
— Mas isso não levará tempo considerável?
— Eu ia chegar lá — disse o Dr. Sherwood. — Nós lhe paga- remos três dólares por hora que passar em nossa clínica. O exame, naturalmente, é inteiramente por nossa conta. Penso poder dizer com segurança que, pelo atual e modesto preço da assistência mé- dica, a espécie de exame a que será submetido provavelmente lhe custaria uns mil dólares. Se puder dispor de tempo, Sr. Baxter, é uma proposta que realmente não deve ser desperdiçada. Pense nisso.
Sam pensou durante uns dez segundos. — Aceito -— declarou.
— Ótimo. — O Dr. Sherwood levahtou-se. — Quando quer começar?
— Hoje. Já.
O doutor consultou o seu relógio.
— Ainda não é meio-dia. Mandarei a Srta. Christie ver se pode marcar uma hora para o senhor no começo da tarde. O senhor po- derá almoçar em nosso restaurante e procurá-la mais tarde.
— Muito bem.
gunta.
— Sr. Baxter, o senhor não é acrófobo, é? — Acrófobo?
— Sujeito que tem medo anormal de lugares altos. — Não, acho que não.
— Já esteve isolado em algum lugar alto? Sam procurou lembrar-se.
— Estive em um balão cativo na Feira Pomona uma vez. — Como se sentiu?
— Bastante enjoado.
— Não o culpo por isso. — O Dr. Sherwood abriu a porta, dando a entender que a entrevista estava terminada. — Procure a Srta. Christie depois do almoço, sim?
Sam não teve dificuldade em atender aos numerosos compro- missos no hospital. Os empregados do museu estavam acostuma- dos a fazer trocas dentro do horário semanal e Sam, como o mais diligente membro do pessoal, tinha dívidas de tempo a receber de praticamente todos os outros. Aproveitou plenamente esse fato. Com efeito, tirou mais dias de folga espalhados pelos dois meses seguintes do que havia tirado nos dez anos anteriores.
Gradualmente, se tornou uma figura conhecida no Hospital Hartford, circulando pelo edifício, desde a Radiologia até o fundo. da Ventilação Pulmonar, com paradas intermediárias na Cardiolo- gia, Urologia, Neuropatologia e Otologia, sendo a última um fre- qüente lugar de repouso (Por alguma razão, interessavam-se espe- cialmente por seu aparelho auditivo.) Tudo quanto lhe diziam para fazer, por mais indigno ou embaraçoso que pudesse ser, êle fazia da melhor maneira possível, sem protesto ou comentário. Se uma enfermeira o felicitava por ser um bom paciente, agradecia, tornava a vestir a calça e seguia para o exame seguinte. E nunca se quei- xava de ter de esperar.
Chegou o dia em que ficaram concluídos todos os seus exa- mes e testes: todos os resultados estavam devidamente processados e tabulados. A Srta. Cristie telefonara-lhe para casa a fim de saber se seria conveniente para o Sr. Baxter procurar o Dr. Sherwood na manhã seguinte, às dez horas. O Sr. Baxter assegurou-lhe que seria.
uma fonte de intensa satisfação para ela, pois era o primeiro indí- cio seguro das misteriosas atividades de Sam desde aquela manhã chuvosa, dois meses antes. A princípio ela considerara suas au- sências de casa e do emprego como mero exibicionismo inofensivo, mais uma de suas fúteis tentativas de despertar simpatia. Dessa vez, porém, êle parecia ter programado um plano diferente. Outras esposas teriam suspeitado que seu marido andava com alguma mulher, mas tal hipótese era evidentemente ridícula no caso de Sam.
Diante de todas as perguntas da esposa, Sam mantinha im- passível silêncio. Em um ponto qualquer daqueles dois meses êle descobrira a força peculiar que existe em Não Dizer. “A resposta virá no devido tempo”, era a única coisa que dizia. Com o tempo, isso lhe granjeou certo respeito relutante.
Sam chegou ao escritório do. Dr. Sherwood alguns minutos antes das dez e foi introduzido imediatamente. O doutor deu-lhe um caloroso aperto de mão.
— Sr. Baxter, permita-me primeiro cumprimentá-lo por ser um espécime físico tão bom. O senhor é um homem em mil.
— Obrigado — murmurou Sam. “Como isso era diferente de sua primeira entrevista!” — pensou.
— Eu próprio passei por isso — continuou o Dr. Sherwood. — Depois de todas aquelas sondagens e testes com todos aqueles instrumentos de tortura, você deve achar que certamente eles en- contrarão algo de errado em algum lugar de seu corpo. Geralmente encontram. Em seu caso, tenho a satisfação de dizer que nosso corpo médico se esforçou em vão.
Sam agradeceu esse tributo ao estado impecável de seu inte- rior com modesta inclinação de cabeça.
— Naturalmente o senhor está perguntando a si próprio qual o propósito de todo esse minucioso exame físico.
— Devo confessar que me sinto um pouco curioso — admitiu Sam.
—- Agora pode ser, contado — disse o Dr. Sherwood — mas para tornar tudo claro preciso voltar um pouco atrás.
Hesitou rapidamente, como se estivesse reunindo os pensa- mentos.
lutando com falta de espaço. Pagamos aluguéis exorbitantes por um buraquinho que nossos avós teriam usado como casinha de ca- chorro. Todo centímetro quadrado de espaço no solo está ocupado. Para obter mais espaço fomos obrigados a ir para o alto. Erguemos edifícios de cem. . . cento e cinqüenta . . . duzentos andares. Recen- temente, começamos a ir para baixo. Mas há um limite em qual- quer direção. E agora, temo eu, acabamos de atingir esse limite.
O Dr. Sherwood tomou a caneta e começou a rabiscar no bloco de memorandos.
— Digamos que existe razão urgente para a construção de um prédio contendo três milhões de metros cúbicos de espaço. Dis- pomos de uma área de cinco mil metros quadrados. O código de construção limita nossa dimensão vertical em trezentos metros. Em tal área um edifício de trezentos metros nos daria um milhão e meio de metros cúbicos, que representa apenas metade do espaço de que precisamos. Nesse caso, Sr. Baxter, que vamos fazer?
— Requisitar mais terra — sugeriu Sam.
— Sinto muito, mas aquela, é toda a terra que existe. — Afrouxar o código de construção.
—- Não. Não é possível fazer isso.
— Nesse caso não sei como poderão construir seu edifício — declarou Sam.
— Podemos construir nosso edifício se o estendermos cin- qüenta centímetros em alguma outra dimensão.
— Quer dizer estendê-lo alguns decímetros na quarta dimen- são?
— Dê-lhe o- nome de quarta. . . quinta. . . qualquer dimensão que quiser.
O olhar de Sam desviou-se um pouco.
— Dispondo de dimensões suficientes acho que poderiam construir edifícios do tamanho que quisessem.
— Em teoria, sim — concordou o Dr. Sherwood. -— Na prá- tica. . . não é tão fácil. Há uns cinco anos, alguns dos rapazes da Física começaram a fazer pressão em favor de um sensacional programa dimensional. Parecia loucura e eu me opus a êle. Natu- ralmente, ninguém prestou a mínima atenção. Eles continuaram a insistir, pediram uma carrada de dinheiro e quero que me enfor- quem se não o conseguiram. Assim, puseram-se a aliviar a escas- sez de espaço.
— Não demorou muito e quase todo seu dinheiro foi gasto sem coisa alguma a exibir em troca dele. . . exatamente como eu havia predito — acrescentou o Dr. Sherwood, com considerável sa- tisfação. — Como tantas vezes acontece na ciência, o primeiro in- dício real veio de fonte inteiramente inesperada. Não de um monte de aparelhos no laboratório de física, mas de desvios nas órbitas de Mercúrio e Ícaro, resultantes do momento quádruplo do sol. Depois de termos o indício essencial, o resto foi bastante fácil. Há mais de um ano sabemos não só como transferir um homem para outra dimensão, mas também como trazê-lo de volta.
O Dr. Sherwood tirou duas grandes chapas de filme de um envelope e colocou-as na tela do visor sobre sua mesa.
— Olhe isto — disse êle, ligando a luz atrás. — São negativos, naturalmente, mas não faz muita diferença. Os positivos parecem ruins. Neste da esquerda, o senhor reconhecerá a esquina onde toma seu ônibus. É uma fotografia comum, tirada da maneira nor- mal. A outra é do mesmo lugar, mas tirada em multidimensão. Teria sido capaz de adivinhar?
— Nunca.
— Tentar interpretar esse material multidimensional não se- ria tão difícil se pudéssemos ter certeza de estarmos obtendo ape- nas uma dimensão adicional. Foi isso que nos atrapalhou durante tanto tempo. Estamos obtendo principalmente a quarta. Mas está vendo esta mancha de pontos e linhas aqui no canto? Isso é da quinta. Observe essas massas de sombra aqui e ali. São intrusões