Dean R. Koontz
lugar e valorizávamos as novas caras, pois eram o que fazia a vida interessante (desde que os creions, o pastel e o tabuleiro de xadrez perdiam sua atração após inúmeros meses longos e vazios).
Certa feita chegou à Divisão um inglês de verdade, pleno de boas maneiras. Estivera na África por duas vezes, e tinha boa expe- riência em safaris para nos contar. Passamos boas horas escutan- do as estórias sobre gatarrões, esguios, musculosos, gatos que se esquivavam por entre o matagal, as garras brilhantes e os dentes amarelados, prontos a golpear, rasgar, despedaçar o descuidado. Havia estórias sobre estranhos pássaros. Estórias sobre templos peculiares, rituais exóticos, narrativas sobre mulheres nativas, es- curas e esguias como os gatos selvagens.
Mas um dia o inglês morreu, soltando sangue pela boca e pelo nariz.
Dessa maneira é que as novas faces significavam novas idéias, fazendo-nos sentir que possuíamos alguma coisa em nos- sas carcaças ressequidas, alguma coisa que fazia a gente querer viver. E como eu disse, sempre havia novos semblantes. Libby (seu nome real era Bertrand Libberhad), Mike, Kyu e eu, éramos os úni- cos regulares. Veteranos da primeira fileira. Libby ganhava de mim por ser um paciente há onze anos; eu estou aqui há nove anos. Kyu e Mike eram mais jovens, com apenas oito anos cada um. E os demais na Divisão eram temporários, ficavam por uma semana, um mês, dois meses, e então puf, eram levados pelo carrinho para serem jogados nas chamas raivosas da Chaminé, e queimados até à cinza final. Era bom para nós, veteranos, que tantos morressem; novos semblantes, você compreende.
E no entanto é por causa de uma dessas novas caras que estou agora sozinho, sentado aqui na penumbra, ouvindo as asas pesadas aa escuridão... só.
A nova face era de Gabe Detrick. Isso não era estranho, pois cada novo rosto tinha um nome, tal como Libby, Kyu e Mike. Mas êle era tão jovem! Não parecia ter mais de trinta anos. Nós tínhamos ido dormir com o décimo segundo leito vazio e quando acordamos, ali estava Gabe, um homem grande, nu, não há muito ainda um garoto. Algum momento cego da noite vira-o ser trazido no carrinho e jogado na cama como se fora um monte de carne fresca.
Minhas especulações sobrevieram ao perguntar por que tão jovem rapaz fora trazido ao Lar dos Velhinhos Sem Assistência Fi-
lial. A gente tinha de ter cinqüenta e cinco antes que chegassem no escuro da noite, aqueles andróides, aqueles trastes de olhos ver- melhos, sem boca e com telas sensíveis de fio brilhante em lugar de orelhas, a atirar em você com pistolas medicamentosas, levando-o embora no carrinho. Mas esse homem na cama era jovem... quase um garoto!
Quando finalmente se livrou das drogas e acordou, o silêncio caiu sobre o quarto como depois de uma árvore gigantesca cair so- bre a terra, jazendo quêda, solene e morta.
Todos os olhares se voltaram para êle, mesmo os olhos cegos de Kyu.
— Aonde...
Ninguém o deixou terminar; todos se embaralharam para explicar-lhe seu dilema presente. Quando êle finalmente forçou os sentidos embotados até à compreensão, expressou-se em lingua- gem explosiva, tal como um louco empregaria.
— Tenho só vinte e sete anos! Que diabos está acontecendo aqui ?
Pulou da cama, oscilou um pouco sobre as pernas e come- çou a andar pela Divisão, buscando uma saída. Nós o seguimos — aqueles de nós que ainda andavam — tal como cordeiros prepa- rando-se para testemunhar a morte do lobo pelo pastor.
Afinal notou as discretas linhas da porta de correr e jogou-se sobre ela, balbuciando todas as coisas baixas e vis de que tinha conhecimento.
Bateu com os punhos no painel azul mesmo depois que o avisaram que de nada serviria. Bateu e bateu e praguejou e ba- teu até que os decibéis de seu tumulto alcançaram nível suficiente para estimular os “ouvidos” dos robôs que passavam por perto. O autômato rolou porta a dentro e perguntou se alguma coisa estava errada.
— Você está estúpidamente certo de que há algo errado! — berrou Gabe.
O robô olhou-o velhacamente. Na verdade os robôs não têm expressão facial comparável à de seres humanos, mas essas ex- pressões foram-lhes emprestadas pelos pacientes. Este — a que chamávamos Dr. Domo — sempre parecia olhar de soslaio. Talvez fosse porque seu olho esquerdo brilhasse com um vermelho mais fraco do que o direito.
— Meu nome é Gabe Detrick.
Sou contabilista. Endereço ... 23234545, Nível Baixo, Rua Mordecai, Ambridge.
Houve o familiar estalido que sempre precedia tudo o que o Dr. Domo dizia e, então:
— Você quer um urinol?
Nós pensamos que Gabe fosse esmagar o punho direito na face metálica e velhaca do diabo. Kyu gritou como se o fato já ti- vesse ocorrido, e seu terror pareceu dissuadir Gabe do ato impen- sado.
— O jantar será servido em. . . clic-clac... duas horas — gru- nhiu Domo. — É esse o problema ?
— Quero sair!
— Você está morrendo? — voltou a grünhir o homem metá- lico.
— Tenho só vinte e sete anos! — e êle o disse como se qual- quer pessoa mais velha não passasse de um antigo papiro, pronto a se tornar poeira. Creio que todos nós desgostamos dêle pelo seu tom de voz.
— Você quer um urinol? — perguntou o robô, de novo, ob- viamente pasmo. Êle estava programado para responder setecen- tas perguntas diferentes: “Dê-me um urinol, quero mais papel, que
vamos ter na janta, sinto dores”. Mas nada em seu depósito de
gravações estava preparado para enfrentar este problema em par- ticular.
Então Gabe o fez. Levantou um possante punho e liberou-o com toda energia. Claro está que o murro jamais chegou a seu destino. Uma coisa para a qual o enfermeiro metálico estava pre- parado, era desviar-se de pacientes furiosos ou insanos. Com um balanço de suas duplas e rápidas extensões, a máquina atirou-o desacordado, ao piso, mais frio que panquecas amanhecidas. E creia-me, aqui, as panquecas amanhecidas já eram bastante frias mesmo ontem!
Levamo-lo até a cama, Libby e eu, e aplicamos compressas frias de velhas camisetas em sua testa.
— Aonde...
Kyu começou a explicar tudo de novo, mas foi calado.
— Nunca discuta com um enfermeiro robô. Você não poderá vencer — afirmou Libby. Êle sabia por experiência própria, desde
seus primeiros anos na Divisão.
Gabe fêz um esforço para sentar-se. Seu queixo estava esfola- do da queda e sua face estava começando a azular como uma bar- ba densa. Certamente não estava bonito.
— Você tá bem? — perguntou Kyu.
Conservei-me calado, pois nunca fui de muito falar sobre coi- sa alguma. O que me lembra de algo que Libby sempre costuma- va comentar quando eu escrevia contos (que os robôs queimavam me-tòdicamente). Êle amarrotaria seus lábios cheios de cicatrizes, abriria muito-muito sua enrugada boca, e diria:
— Rapazes, o velho Sam não fala muito, mas fará muito me- lhor com nossas biografias coletivas.
Bem, talvez Libby estivesse certo. Talvez eu faça uma crônica de tudo. Talvez eu ainda tenha tempo para chegar ao comêço, es- crever os capítulos que antecedem a este último. É tudo o que me resta, agora que todos se foram e a Divisão está gélida. Apenas o silêncio prevalece e eu não consigo suportar o silêncio.
De qualquer forma, por semanas a fio após o acontecido, Gabe parecia ser o mais velho de nós, quase um dos mortos-vivos. Êle nos explicou tudo sobre o velho que vivia na casa ao lado da sua e que deveria ser pego naquela noite, e como os robôs se teriam enganado de endereço. Nós explicamos que não existia nenhuma corte humana para julgar as injustiças, que não tínhamos jamais visto outro ser humano, salvo os pacientes desde que nos tinham metido na Divisão. Êle bateu na porta com os punhos, tentou es- murrar mais robôs, aprendeu pelo caminho mais difícil. Com a ver- dade causando-lhe arrepios, cristalizando-se na evidência de que jamais seria um ser livre de novo, constantemente em seu cérebro, seu espírito definhou. Ficou mais deprimido do que nós mesmos. Entretanto tentou não demonstrá-lo, escondeu sua desgraça e diri- giu sua energia para nós, tentando alegrar-nos e entusiasmar-nos. Êle sempre se mostrou solidário, tanto mais quanto mais tempo viveu conosco. Lembro-me de uma:
— Desgraçado, você os pegou! Eu sei que você os pegou! Seu porcaria! Ladrão!
Hanlin, um cara novo, ficou tão vermelho que seu nariz pa- recia um potente vulcão preparando-se para entrar em erupção, os lábios já lançando uma lava branca.
que eu faria com eles, ahn! Pra que é que eu desejaria seus estúpi- dos brinquedinhos ?
— Vou ver a côr de teus intestinos quando trouxerem os talheres! Minhas pecinhas adoráveis. Deixo o sangue escorrendo nesta tua cara sórdida!
Todo mundo tinha se virado na cama para ver o drama se desenrolar. Mas o fato de Brookman e Hanlin serem amigos evitou que todo o peso da cena caísse de imediato sobre nós.
Gabe foi rápido. Passou por sobre uma cama — realmente pulou sobre ela —o que nos provocou grande prazer, principal- mente naqueles que não podiam abandonar o leito, cambaleantes velhos confinados que já haviam esquecido o que era agilidade e juventude. Saltou por sobre a maldita cama e levantou Hanlin e Brookman completamente do piso, um franzino esqueleto em ca-, da mão.
— Calem a boca, os dois. Querem que um robô entre aqui e os sufoque até morrerem?
— Esse porco me chamou de ladrão! — berrou Hanlin. Lutou para livrar-se de Gabe, mas não conseguia espremer energia suficiente daquela casca de limão seco que era seu corpo.
— Que está havendo? — perguntou Gabe, tentando trazer a calma ao caso.
— Êle roubou meus canudos. Esse porco desgraçado rou- bou...
— Quieto, Brookie! Que canudos?
Brookman ficou com ar estranho na face, qualquer coisa como o jeito de uma criança pega fazendo coisas feias. Não era mais o lutador, o briguento; tornara-se, a cada centímetro, apenas um velho.
— Um homem tem de ter alguma coisa. Alguma coisa pró- pria, por Deus!
— Que canudo? — perguntou Gabe, de novo, sem compre- ender.
— Estive guardando os canudos de tomar leite. Você pode fazer toda espécie de coisas com eles. Fiz uma boneca. Tal como a que Adele e eu demos à nossa pequena Sara, quando era criança.
Havia gotíeulas cristalinas nos cantos de seus olhos escuros. Diversos de nós desviaram o olhar para não ver; mas as palavras ainda vinham.
— Tal como a que a pequena Sara tinha. Movimenta as per- nas e o resto, salta e pode nadar e mais ainda. E se você fizer de conta, por Deus, se fizer de conta, esses pedacinhos de papel serão qualquer coisa. Podem ser pessoas com quem a gente conversa e passeia; pode ser dinheiro, cada canudinho uma nota de cinco, de dez, mesmo uma nota de mil dólares! Podem ser qualquer coisa. Mais do que tudo, podem ser Adele e Sara e...
Tive de encará-lo de novo, porque o que estava dizendo fazia- me sentir engraçado por dentro. Suas velhas mãos pintalgadas de marrom, estavam cerradas em frente à face, as veias protuberando como em baixo-relêvo. Êle estava tremendo.
— Você tirou os canudinhos dele? — perguntou Gabe a Han- lin.
—-Eu...
— Você tirou! — aquilo foi dito num grito. A face de Gabe estava contorcida de uma maneira horrível, seus lábios repuxados, seus dentes aparecendo, nus. Êle parecia um animal frenético, sel- vagem, faminto.
— Êle os colecionava! — ladrou Hanlin. — Você os tirou!
— Esse desgraçado só colecionava e colecionava...
Gabe soltou-o no chão, mas não com delicadeza, como fize- ra com Brookman. Então pegou-o de novo e de nôvo largou-o no chão.
— Você devolva tudo, entendeu? — Êle devia dividir...
— Você devolva tudo ou eu o esfolo vivo e ainda dou seus ossos para êle!
Hanlin devolveu. Gabe passou a maior parte da semana com Brookman. Guardou seus próprios canudinhos para o velho e brin- cou com êle. Hanlin morreu naquela semana; Gabe nem mesmo se juntou a nós nas preces, enquanto o carrinho levava o cadáver. Não foram muitos os que rezaram de coração, suspeito.
Mas para que não pense que tudo era tristeza com o Gabe aqui, deixe-me contar logo outra lembrança. Eu disse que êle esta- va infeliz. Estava. Mas êle tinha aquele jeito especial, aquele talento especial para fazer os outros rirem. Sempre planejava algum estra- tagema contra os robôs.
servir o desjejum, Gabe sempre estaria de pé e a postos. Êle seguia as amas-sêca metálicas, e quando se apresentava a ocasião, es- tenderia a perna para fazê-los tropeçar ao se voltarem. Eles eram desses modelos de perna única e facilmente perdiam o equilíbrio, ele derrubava um e saltava para longe, tão rápido que nem mesmo um raio o alcançaria. Então os outros robôs entravam com ade- manes humanos para auxiliar seu companheiro caído, levantá-lo- iam e caçarejariam (toda santa vez, lembre-se!) o que tinham sido programados para dizer em tais casos: “Que tombinho mau, mau! Pobre Bruce, pobre Bruce’’.
Aí então todos gargalhariam. Gabe tinha-o feito de novo!’ Nós nunca soubemos por que os robôs eram chamados de Bruce — todos eles. Mas poderia ter sido por astúcia de algum engenheiro egoísta, do mesmo nome. De qualquer forma, a gente quase estourava de rir.
— Boa, Gabe!
— Você é o maior, rapaz! — Isso mostrará a eles, Gabe!
E êle sorria aquele sorriso simplório, e tudo estaria bem, e a Divisão deixaria de ser Divisão por algum tempo.
Porém, para êle, a Divisão sempre era a Divisão!
Nunca estava feliz, nem mesmo quando fazia palhaçadas, para nós.
Nós fizemos o possível para alegrá-lo, convidando-o para jo- gar nossas palavras Cruzadas; nada funcionou.
Gabe não era velho, não pertencia ao nosso grupo. Pior que tudo, parecia não haver saída para êle.
Então, incidentalmente, como produto colateral de uma lon- ga, terrível e pavorosa noite, pareceu que uma saída se apresentara para lutar contra os robôs.
Foi assim:
No meio da noite, escura como asas de morcego, a maioria de nós estava a dormir. Nós também estaríamos dormindo se o tra- vesseiro de Libby não tivesse caído no chão. Êle estivera abafando seus soluços nele e, quando caiu, não teve força ou equilíbrio sufi- ciente para pegá-lo por cima da borda da cama.
Nós trememos em nossos leitos e em nosso sono com o ruído de seu soluçar. Imagino que nunca ouvi nada parecido. A gente hão podia imaginar que Libby chorasse. Estava aqui há muito tempo;
era o mais veterano de todos; a frustração já deveria ter-se esma- ecido em si. Por outro lado, sua vida fora dura, dura o suficiente para banir o choro de suas regras. Êle viera do Harlem. Pais bran- cos no Harlem são uma coisa que lhe podem assegurar: pobreza. Êle crescera em todas as partes degeneradas de Nova Iorque. Cedo aprendeu aonde chutar o estranho homem que tentava seduzi-lo ou arrastá-lo para as vielas. Conheceu pessoalmente o sexo aos treze anos — debaixo de uma escada de uma casa de cômodos, com uma mulher de trinta e cinco. Mais tarde voltou-se para o mar, trabalhou como estivador, navegou nas duas esteiras, e parece que sempre perdeu seu dinheiro em lutas ou com mulheres. Já havia visto, sentido e vivido demais para chorar.
Mas naquela noite foi Libby, vomitando as vísceras na cama. Eu também devo ter chorado um pouco... por Libby.
Foi Gabe quem primeiro colocou a mão em seu ombro. Nós podíamos entrevê-lo na penumbra da Divisão, sentado na cama de Libby, a mão no ombro do velho. Êle escorregou a mão até encon- trar seus cabelos.
— Que foi, Libby?
Libby apenas chorava. Como pássaros presos na escuridão e nas sombras, nós pensamos que êle fosse sangrar a garganta se não parasse logo.
Gabe apenas ficou sentado, cruzando os cabelos grisalhos por entre seus dedos, massageando os ombros de Libby, dizendo coisas para acalmá-lo.
— Gabe, oh Deus, Gabe! — dizia Libby por entre golfadas de ar.
— Que houve, Libby ? — conte-me.
— Estou morrendo, Gabe. Isso não devia acontecer para mim.
Eu me arrepiei. Quando Libby se fosse, quanto tempo me restaria ? Eu quereria esperar ? Nós éramos inseparáveis. Parecia que se êle morresse, eu deveria morrer também — jogado nas for- nalhas onde nos cremavam — lado a lado. Deus, por favor não leve Lib sozinho. Por favor, por favor, não !
— Você está tão saudável quanto uma ratazana! Vai viver pelo menos até os cento e cinqüenta anos!
— Não, não vou... — êle se engasgou tentando suster as lá- grimas que continuavam caindo de seus olhos.
— Que houve, dor? — Não, não ainda.
— Então por que pensa que vai morrer, Lib?
— Não consigo urinar. Desgraça, Gabe, não posso nem mes- mo...
Então pudemos vê-lo levantar o fino e enrugado corpo a que chamávamos de Libby, Bertrand Libberhad, apertá-lo contra o pei- to e segurá-lo. Ficou calado no escuro por um momento, e depois disse:
— Há quanto tempo?
-— Dois dias. Oh Deus, estou estourando. Tentei não beber nada, mas...
Êle parecia esmagar Libby contra si, como se o velho homem pudesse ganhar alguma energia da flor de sua juventude. Então começou a niná-lo como uma mãe com o bebê nos braços. Libby chorava suavemente de encontro a seu peito.
— Você teve alguma garota especial, Libby? — perguntou por fim.
Nós podíamos ver a cabeça se afastando do peito jovem — apenas alguns centímetros.
— O quê?
— Uma garota. Uma garota especial. Uma que andasse da- quele jeito, e falasse como uma brisa recendendo a morangos, transbordando tepidez. Uma garota com braços finos e pernas es- guias.
— Claro! — disse Libby com menos lágrimas na voz. — Claro que tive uma garota assim. Boston, Ela era italiana. Cabelo negro de verdade e olhos como luzentes carvões em brasa. Ela ia se casar comigo, de uma feita.
— Ela o amava?
— Simmm. Que estúpido eu era! Eu também a amava, mas era muito estulto para perceber. Que engano, hem?
— Nós todos os cometemos. Eu também tinha uma garota. Bernadete. Soa como um nome adotado, mas era dela mesmo. Olhos verdes.
— Ela era bonita, Gabe?
— Linda como um primeiro dia de primavera, quando você sabe que a neve se foi de vez, e que talvez em pouco tempo um pintarroxo venha fazer o ninho debaixo de sua janela. Realmente
linda.
— Que pena, Gabe.
— E você nunca “amarrou um fogo” daqueles, Libby?
— Já... — de novo as lágrimas transpareceram em sua voz. — Já, diversos... Uma vez passei três dias bêbado em Nova Iorque, alto como um papagaio, sem saber nem onde estava.
— Também eu, — disse Gabe — também em Nova Iorque. Podiam me pegar e colocar bem na frente de um estouro de boiada e eu nem tomaria conhecimento.
Creio que Libby chegou a rir então. Uma risadinha engraçada que ameaçava lágrimas iminentes e não anunciava alegria autên- tica.
— E Libby... você viu muita coisa do mundo? Foi um homem do mar, não é ?
— Tóquio, Londres, Austrália por duas semanas. Visitei cada um dos cinqüenta e seis Estados.
— Mais do que eu mesmo vi. Então, nas asas da escuridão protetora, você podia ouvir como catarro em sua velha garganta.
— Mas Gabe, eu não posso urinar!
— Você amou e foi amado, Libby. Isso é mais do que muita gente poderia afirmar. Você viveu em quase todos os cantos do mundo, em alguns lugares dele você bebeu como uma vaca. Não se esqueça de tudo isso.
Então eu percebi que êle não estivera tentando enganar o velho e fazê-lo esquecer sua doença. Ao invés, estava tentando de- monstrar que existia dignidade na Morte, que êle poderia levantar sua cabeça encanecida e dizer que a vida não fora uma taça vazia, um leito seco de um rio.
Êle disse:
— Mas Gabe, eu não quero morrer.