1. ASPECTOS HISTÓRICOS DE PORTUGAL NO SÉCULO XX:
1.3 O ESTADO NOVO (1932-1974)
1.3.3 Desdobramentos das Guerras
A guerra civil que eclodiu na Espanha em 1936 foi o acontecimento mais traumático anterior à Segunda Guerra Mundial, que funcionou como “um teste” para os países que nela se envolveram, trazendo consequências imediatas para Portugal, pela sua proximidade geográfica. Como a Guerra Espanhola foi o combate de dois grupos que divergiam politicamente, republicanos contra nacionalistas, Salazar percebeu a importância de manter a Mocidade Portuguesa como forma de proteger a juventude das ideias revolucionárias que tramitavam pela Espanha, além de criar um grupo “milícia armada” para vigiar as fronteiras do país. Com algumas medidas sendo reformuladas devido às questões internacionais, Salazar precisava, ao menos, manter-se em paz e não se envolver com problemas externos – como conseguira durante a Grande Depressão. Se, mais uma vez, saísse ileso da Guerra Civil Espanhola, seria, talvez, seu maior triunfo no governo.
No entanto, não houve como Portugal manter-se à margem dos acontecimentos no país vizinho. O grupo dos republicanos espanhóis, com ideias anarquistas e socialistas – grupo de esquerda – ganhou apoio da União Soviética, ao passo que o grupo mais conservador ganhou apoio do nazi-fascismo, do general Francisco Franco, da Igreja e também de Portugal. Portugal demonstrou seu apoio a Franco fornecendo combatentes
voluntários28, facilitando a aquisição de equipamento militar, com abastecimento de
alimentos, entrega de refugiados e emissões propagandistas (GÓMEZ, 2011; MENESES, 2011). O funcionamento do Estado Novo se viu alterado com o início da guerra: Salazar tornou-se responsável também pela pasta dos Negócios Estrangeiros, por perceber a importância de “travar a extrema-direita”, fortalecida pela guerra na Espanha.
A posição de neutralidade adotada por Salazar durante a Segunda Guerra Mundial foi uma estratégia para evitar grandes problemas em seu governo: sabia da fragilidade militar portuguesa e da vulnerabilidade de seu império colonial (MENESES, 2011). Salazar também contribuiu para que a Espanha, assim como Portugal, tomasse a decisão da neutralidade, visto a grande proximidade com o território português e o quanto a entrada da Espanha poderia ser prejudicial ao país. Notícias sobre a guerra também eram
divulgadas com cautela por Salazar, para que não pensassem que ele estivesse favorecendo algum grupo específico.
O fim da Segunda Guerra Mundial parecia ser o momento favorável para a queda do regime autoritário em Portugal, visto a derrota do nazi-fascismo e o enfraquecimento desse tipo de governo. Os grupos de oposição solicitavam à Grã-Bretanha que exercesse pressão diplomática sobre Salazar para que houvesse uma reforma política e uma democratização do país. Esse momento teria sido uma oportunidade para o ditador rever sua política e restaurar a confiança da população, uma vez que muitos grupos de oposição passaram a se formar com o intuito de abalar a política salazarista. Tais grupos promoveram algumas tentativas de golpe, todas falhadas e os integrantes das Forças Armadas pareciam estar convictos e favoráveis a uma operação de queda do regime, o que não ocorreu, assim como o (ou a falta de) apoio do Presidente Carmona. A última tentativa da oposição ocorreu com as eleições presidenciais de 1949, em que o general Norton de Matos seria o candidato da oposição, reivindicando a liberdade da imprensa e maior fiscalização nos votos – mas, pela falta de condições de intervenção democrática, desistiu de disputar as eleições, frustrando assim, os grupos de oposição.
Já Salazar, aproveitou o fim da guerra para continuar a sua política que sustentava desde a sua entrada no poder: a liberdade não seria possível visto o perigo que ela representava à nação, especialmente com a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial.
Combateu veemente a formação do MUD29 (Movimento de Unidade Democrática) por
acreditar que o grupo influenciaria negativamente a nação e ameaçaria os valores cristãos pregados em seu governo:
Em face dos aliados, o ditador procurava na ‘guerra fria’ a justificação para o seu mando, alegando a necessidade de combater o PCP, como aliado estreito da URSS, e exaltando os perigos que ambos representavam para a civilização ocidental e cristã. Internamente tentava justificar a sua autoridade pela necessidade de defender, contra a subversão comunista, os bons valores tradicionais consubstanciados na trindade ‘Deus, Pátria e Família’. (TENGARRINHA, 1994, p. 392)
Assim, Salazar diminui a capacidade de intervenção e influência da oposição, controlando repressivamente a situação interna. Da mesma forma, não abriria mão das
29MUD foi um grupo formado após o término da Segunda Guerra Mundial, em outubro de 1945 e tinha como objetivo de reorganizar a oposição e se preparar para as eleições. Com uma grande adesão popular e com o grupo se fortalecendo, Salazar decidiu ilegalizar, pois ia contra o seu regime.
províncias ultramarinas, muitas vezes questionadas no pós-guerra, com o argumento de que estaria defendendo os valores da civilização cristã e ocidental que estariam sendo
ameaçados pelo maximalismo30:
Para Salazar, a “liberdade”, era ter a independência política e econômica, e para isso seria importante que houvesse ainda “uma autoridade necessária e a liberdade possível” (SALAZAR, 1951, p. 205), especialmente com a ameaça pós-guerra e de novas ideias surgindo a partir dela:
Um grande estado – a Rússia -, tendo saído da última guerra vitorioso e engrandecido, constitui potencialmente, por força da sua ambição hegemónica e da tendência expansionista do comunismo de que é o centro e fautor, um risco grave, não só para a independência e a liberdade, mas também para a civilização de numerosos países. (SALAZAR, 1951, p. 503)31
Deste modo, considerava o comunismo como o “grande inimigo do momento” (p. 508), sendo necessárias intervenções que pudessem repreender as atividades oposicionistas atraídas por essa tendência.
Outro fato importante que sucedeu logo após a Segunda Guerra Mundial, foi a regulamentação assinada pela França em 1945 que impedia a imigração clandestina, exigindo, no caso, um contrato formal de trabalho de todos os estrangeiros que resolvessem ir à França. Foram, então, assinados acordos com alguns governos que exportavam mão-de-obra para a França, porém, Portugal manteve-se irredutível quanto a essa decisão, acreditando que isso incentivaria a emigração dos jovens portugueses para a França, enquanto o interesse de Salazar seria o envio desses jovens para as províncias ultramarinas da África, em especial. Apenas em 1960, após muita insistência do governo Francês, Portugal aceitou o acordo com algumas ressalvas para não especularem de que Portugal estivesse motivando à emigração. Ainda assim, na imprensa francesa circulava que Portugal estaria perdendo sua população para a ditadura, que fugia do governo autoritário. A partir de 1963, Salazar assinou toda a documentação e só iriam para a França aqueles que tivessem um contrato de trabalho regulamentado, mas, na altura, já havia muitos portugueses vivendo na clandestinidade, e a PIDE atuava de maneira secreta na França, procurando esses portugueses para serem deportados e presos.
30 Maximalismo: adeptos ao Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), também denominados de bolchevistas ou, ainda, comunistas.
31 Discurso proferido no dia 12 de dezembro de 1950, dirigido à comissão da União Nacional, numa sala da Biblioteca da Assembleia Nacional.
A emigração sempre ocorreu de forma controlada até 1960, notadamente em direção ao continente americano, mas a partir de 1961, houve um aumento muito significativo em relação às pessoas que emigraram:
Na década de sessenta, verificou-se o apogeu dos valores da emigração oficial desde que houve conhecimento do facto. Nunca antes (ou até mesmo depois), e em tão pouco tempo, emigraram tantos portugueses (famílias inteiras), essencialmente para a Europa das melhores condições de vida e do melhor cumprimento dos direitos, das liberdades e garantias dos cidadãos.
[...]
Em 1964, verifica-se o ponto de inflexão, a mudança no sentido da Europa, e os emigrantes portugueses passam a optar maioritariamente pelos países europeus mais desenvolvidos: a França em primeiro lugar, mas também a Alemanha (RFA), a Suíça, o Reino Unido, inclusivamente, o pequeno Luxemburgo, mas com uma comunidade portuguesa muito numerosa. (INE, 2006, p. 52)
As causas para esse surto de emigração devem-se, sobretudo, ao início da Guerra Colonial, quando muitas famílias assumem o risco de partir para o desconhecido no lugar de permanecer em Portugal e ver o filho ser forçado a seguir para os campos de guerra. Outras opções foram mandar o filho só com o objetivo de conseguir melhores oportunidades de estudo e trabalho no exterior – como ocorreu com Sérgio Godinho, um dos entrevistados – que seguiu para a Suíça para estudar e, ao mesmo tempo, evitar uma guerra. Aos que saíram de Portugal, embora houvesse uma expectativa em relação a uma mudança de vida, havia um desconforto pela situação política do país:
Não foi com alegria e por vontade própria que emigrámos nos anos 1960 e 1970. A emigração é sempre um drama, uma expulsão, um afastamento. Mas é também e sobretudo, um falhanço político dos governos de antes e depois de 1974, [...] (MACHADO; CERQUEIRA, 2005, p.30)
Na mesma linha, Spínola32 (1974) também reprova o governo perante o aumento
da emigração ao expressar que esse fenômeno migratório é reflexo da crise atual, pois ao tomar uma decisão de partir para o estrangeiro, por questão de sobrevivência, o cidadão aceita “trocar as leis do seu país pela sujeição à lei estrangeira, prescindindo dos seus direitos de cidadania em favor do seu bem-estar” (p. 21), uma vez que não se encontram dentro do país oportunidades de trabalho e nem perspectiva de melhora.
32 O general António Spínola foi um dos militares que aderiu ao Movimento Capitães, e após a Revolução dos Cravos, tomou o poder durante o Governo Provisório.
A tabela abaixo, baseada em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) comprova a dimensão da evasão que Portugal sofreu nesse período, especialmente para a França, totalizando quase um milhão de portugueses:
Tabela 2 – Emigração para a França (1960-1974)
Emigração Oficial 410.095
Emigração Não-Controlada 538.957
Total 949.052
Fonte: INE, 200633