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Desmembramento elementar das frases em operadores e argumentos

1.1 Gramática Transformacional de Operadores de Harris: paradigmas metodológicos

1.1.1 Desmembramento elementar das frases em operadores e argumentos

Um dos principais conceitos do alicerce científico deixado por Harris está relacionado à ordem parcial de entrada das palavras em uma frase de base. Essa ordem é baseada na combinação das unidades lexicais, que são classificadas em: operadores e argumentos. Grosso modo, os operadores impõem restrições sintáticas e semânticas para o preenchimento lexical que é ocupado pelos argumentos, ou seja, os operadores são os responsáveis pela seleção das outras unidades lexicais que compõem a frase de base, de modo que podem existir zero, um ou mais argumentos que, junto com o operador, formam uma unidade de significação.

Esmiuçadamente, verbos, adjetivos e substantivos podem ser classificados como operadores, quando selecionam outros elementos linguísticos para as posições de sujeito e complemento. Segundo Harris (1982, p.74-84), os operadores se organizam de acordo com o número e tipo de argumentos e são diferenciados pelo seu enquadramento em dois grupos:

operadores de primeira ordem e operadores de segunda ordem. Basicamente, os operadores de primeira ordem são os que apresentam apenas um argumento (7), dois argumentos (8) e três ou mais argumentos (9). E os operadores de segunda ordem são formados por outros operadores como argumentos e não serão tratados com detalhes nesta tese, pois são relacionados com as frases mais complexas da língua e não às frases de base.1

(7) O sol raiou.

(8) Pedro comeu chocolate.

(9) Pedro emprestou uma camisa para Miguel.

Exceto casos específicos em que o operador não necessita de um argumento para expressar um predicado semântico (um exemplo são as frases com verbos impessoais, como

Amanheceu.), a presença de um operador em uma frase de base é determinada pelo seu argumento. Os argumentos, então, são as unidades lexicais que dependem de outras unidades para comporem as frases de base. Em outras palavras, eles são requisitados pelo operador e

1Em resumo, os operadores de primeira ordem exemplificados no corpo do texto são representados, respectivamente, por On e Onn ou mais. E os exemplos de operadores de segunda ordem são: Oo (Pedro leu a matéria rapidamente), Ooo (Pedro contou a mãe que brigou com Helena), Oon (A fala de Pedro irritou Helena), Ono (Pedro adora comer torta), Onon (Pedro explicou a Helena que chegaria tarde).

ocupam a posição de sujeito e complemento, na nomenclatura da Gramática Transformacional de Operadores. Quanto à sua tipologia, os argumentos podem apresentar, sumariamente, características humanas (pessoas, animais, entidades, etc.) e não-humanas (objetos, em geral), que serão mais especificamente abordadas no Capítulo 4 (Seção 4.2).

Considerando que essas concepções carregam grande importância conceitual para o estudo da Conversão, torna-se fundamental apresentar a visão da Gramática Transformacional de Operadores para com a nomenclatura utilizada nas gramáticas tradicionais (conhecidas também como ‘normativistas’). Primeiramente, a abordagem corrente da gramática segmenta a frase em outras unidades: sujeito e predicado. Em segundo lugar, essas unidades se relacionam sintaticamente pela concordância do verbo com o sujeito, isto é, nos moldes da gramática tradicional é o verbo que impõe as restrições sintáticas e semânticas para o preenchimento das outras posições da frase, tornando-se o elemento central da predicação.

Em consequência do redirecionamento do ponto de vista dos elementos que fazem parte da frase (operadores e argumentos versus sujeito e predicado)2, a Gramática harissiana passa a considerar alguns adjetivos e substantivos como operadores, além dos verbos. Dessa maneira, em frases como (10), o argumento (Pedro) é selecionado pelo adjetivo (simpático), e em (11) o substantivo (simpatia) seleciona o argumento (Pedro). Uma interpretação gramatical sob esse prisma é de grande importância para embasar o fenômeno linguístico descrito nesta tese, uma vez que coloca o nome predicativo como o elemento que restringe a seleção dos demais elementos da frase, em construções com verbo-suporte.

(10) Pedro é simpático.

(11) Pedro é de uma simpatia invejável.

Baseando-se nos conceitos apresentados até então, é possível estabelecer que a combinação entre um operador e seus argumentos elementares compõe, não só a frase de base, mas aquilo que é designado por Harris como ‘informação’. Em vista disso, e com a finalidade de determinar o processo de formação das frases potencialmente articuladas da língua, são elencadas três restrições fundamentais, que permitem universalizar a noção de frase de base (HARRIS, 1988). Essas restrições estão associadas às questões sobre a ordenação das palavras

2 Para a gramática tradicional a relação que existe entre o sujeito e predicado é de ordem sintática, a partir da concordância do sujeito com o verbo. Para a Gramática Transformacional da Harris, os operadores assemelham-se ao núcleo do predicado e os argumentos equivalem às unidades lexicais que estão na posição sintática de núcleo do sujeito, do objeto direto, do objeto indireto, entre outros.

em uma frase, a verossimilhança de ocorrência dessas palavras e a contingência dos elementos significativos, respectivamente:

(i) ordem parcial de entrada das palavras em uma frase: essa restrição está relacionada com o estabelecimento dos operadores e argumentos, reforçando a proposição de que algumas palavras dependem de outras para constituírem um discurso, como visto anteriormente.

(ii) diferentes probabilidades de coocorência de palavras em uma frase: questiona o grau de probabilidade de combinações da língua. Resumidamente, a primeira restrição cria todas as combinações de palavras e a segunda restrição cria coocorência de combinações.

(12) O menino falou muito tempo na escola. [grau alto]

(13) ?O menino latiu muito tempo na escola. [grau baixo]

(iii) redução: trata do apagamento de elementos, quando há repetição ou concatenação de frases no discurso, tornando a informação mais compacta.

(14) Pedro leu o livro de Miguel / Pedro leu o livro atentamente.

(15) Pedro leu o livro de Miguel atentamente.

Para além da redução por repetição de elementos, exemplificada em (14) e (15), em que as unidades repetidas possuem a mesma função sintática na frase de base, há também outra operação (redução apropriada), que visa reduzir o elemento com alta probabilidade de ocorrer como operador ou argumento de um operador específico. Em Pedro gosta de estudar matemática, o operador (estudar) pode ser subtraído da frase pelo fato de apresentar altas chances de ocorrer com o argumento (matemática), involuntariamente. Já o operador (gostar) torna-se essencial para veicular a informação transmitida por Pedro gosta de matemática.

Para alguns sistemas linguísticos, tem-se o conhecimento de uma quarta restrição, que indica a disposição de como os elementos lexicais devem ocorrer em uma frase. No entanto, a linearização não apresenta uma rigidez considerável sobre as variantes do Português, dado que são identificadas certas alterações da ordem básica de uma frase de base (sujeito-verbo-objeto), tornando-a uma restrição parcial e não fundamental. A título de exemplo, a linearização da frase

Pedro comprou um livro para Helena pode ser alterada ao substituir o complemento (Helena) pelo clítico (lhe), sucedendo Pedro lhe comprou um livro.

Com base no conhecimento sobre a concepção de uma unidade mínima de sentido, intrinsicamente ligada ao cerne da língua, presume-se que, geralmente, as frases de base não são frases que podem ser observadas em corpora. Todavia, através de operações sintáticas que possibilitam a manutenção da informação, como a redução, pode-se chegar a elas. Segundo Harris(1961), as operações que incluem essa competência são chamadas de transformações e serão abordadas na Subseção seguinte, juntamente com a sistemática utilizada para a formulação de frases de base construídas a partir de frases complexas encontradas em corpora.