4.1 Componentes estruturais
4.1.3 Restrições preposicionais
Em predicados nominais que possuem pelo menos 2 argumentos, a posição sintática do argumento do segundo argumento (ou objeto direto) é preenchida por aqueles que são denominados complementos preposicionados. Nos parâmetros da Conversão, definidos no segundo Capítulodesta tese (PARTE II), a propriedade que trata das preposições tem caráter indispensável, pois são esses elementos que antecedem um dos complementos que troca de posição sintática para que essa transformação ocorra. Nesse sentido, é necessário delimitar não apenas as preposições que introduzem o complemento da construção conversa, mas também aquelas que fazem a mesma função na construção standard.
De acordo com os dados obtidos, o complemento sintático da construção conversa admite as preposições de e/ou por parte de (de parte de). Entende-se que as locuções por parte de e de parte de são sinônimas e, assim como a preposição de, também apresentam as suas formas contraídas (por parte da, da parte da, por exemplo).33 Embora, por vezes, a preposição de poder ser utilizada nas mesmas condições linguísticas das locuções, há outras em que se permite apenas ela, como será mostrado nas especificações realizadas no Capítulo seguinte.
(112) O professor deu um novo prazo ao aluno.
[Conv] O aluno recebeu um novo prazo do professor.
(113) Helena fez uma injustiça com Pedro.
[Conv] Pedro sofreu uma injustiça (da + por parte da + da parte da) Helena.
33 Conforme registra o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, as locuções por parte de e de parte de são sinônimas, apresentando o mesmo significado. Porém, do modo em que não se entende as variantes dos verbos como formas sinônimas absolutas, também não se considera o mesmo nessa questão, ou seja, em contextos específicos é permitido utilizar uma locução e não outra. Nesse sentido, também pode se dizer que o uso da preposição simples e o de suas contrações (da, do, por parte da, da parte da, etc.) está ligado à uma abordagem genérica ou específica do contexto.
A coocorência das preposições que fazem parte da construção conversa se aplica a todas as grandes classes que foram elaboradas neste estudo, com certa predileção de uma ao invés da outra, dependendo especificamente de cada subclasse. Em vista da conexão standard-conversa, a partir deste momento faz-se uma exposição sobre as preposições que ocorrem na construção standard e que podem ser compartilhadas pelos verbos elementares e variantes das construções em questão, embora também haja determinadas especificações. São apresentadas, portanto, em ordem de produtividade, as preposições standard e suas regularidades sobressalentes:
▪ preposição em
Por via de regra, as três primeiras preposições a serem apresentadas são as que possuem maior rendimento em relação aos dados obtidos neste estudo e a preposição em refere-se a uma delas. Geralmente, os complementos preposicionados (em N1) aceitam a substituição pelo pronome dativo (lhe) e respondem à pergunta ‘em quem?’ ou ‘em que?’, como mostra o primeiro exemplo. Há muitos nomes terminados em -ada ou -ida (que participam da predicação com o par dar-levar) que aceitam majoritariamente essa preposição na construção standard.
(114) Helena deu uma cabeçada no Pedro.
[Pron] Helena deu-lhe uma cabeçada.
Em quem Helena deu uma cabeçada?
Em Pedro.
Também é possível observar que a maioria das construções que admitem a preposição
emapresenta uma estrutura com o argumento [N0]classificado semanticamente como AGENT-GEN e o argumento [N1]possuindo os papéis semânticos PATIENT ou OBJECT-GEN, segundo a relação de ‘semantic roles’ utilizada neste estudo e que ainda será tratada neste Capítulo (Subseção 4.2.5). Observa-se, ademais, uma alternância com a preposição a em complementos do tipo não-humano, mas em complementos do tipo humano não ocorre mudança em relação à seleção da preposição, como pode-se observar nos dois exemplos seguintes:
(115) A equipe comercial deu ênfase (no + ao) produto.
(116) Helena deu um beijo no Pedro.
[Pron] Helena deu-lhe um beijo.
Em construções com complementos locativos, que aceitam a Conversão (com as especificidades vistas no Capítulo anterior, a preposição em ocorre em construções do tipo A multidão fez uma aglomeração na praça. Em outros casos, também com o par de verbos fazer-receber, as construções com os mesmos complementos locativos aceitam a preposição de, como em O geografo fez o mapeamento da região. Nesse sentido, os complementos do tipo locativo são comtemplados ainda neste Capítulo, na Seção desenvolvida para tratar das propriedades distribucionais das construções conversas do português brasileiro (Seção 4.2).
▪ preposição de
Essa preposição é muito frequente em construções com os pares fazer-receber, fazer-sofrer e dar-receber, que estão exemplificados em ordem respectiva. Na maioria delas, o argumento semântico apresenta os mesmos ‘semantic roles’ exemplificados no tópico anterior. Além disso, é a preposição de que introduz o argumento [N2]em construções nominais com o Vsup standard dar que possuem 3 argumentos sintáticos: no exemplo (121), o ‘terceiro’ argumento diz respeito ao nome Bon Jovi, mesmo que ele esteja inserido antes do argumento [N1], em consequência de uma reestruturação sintáticade Helena deu o nome ao seu gato de ‘Bon Jovi’.
(117) O médico fez o diagnóstico do paciente.
(118) O técnico fez a manutenção do computador.
(119) O RH da empresa fez a demissão da funcionária.
(120) O fabricante fez a inovação do produto.
(121) Helena deu o nome de ‘Bon Jovi’ ao seu gato.
Outra especificidade da preposição de relaciona-se a sua capacidade de coocorrer juntamente com outros tipos de preposições que estão em uma construção com o mesmo núcleo predicativo, como a e para. Em circunstâncias como essas, pode acontecer alguns tipos de alterações na estrutura de base da construção standard, como a mudança do determinante e a variação do Vsup elementar, do qual pode ser substituído por uma extensão. Os exemplos a seguir mostram exatamente os tipos de substituições que foram mencionadas:
(122) O governo fez (o + um) reajuste do salário-mínimo.
O governo deu um reajuste (ao + para o) salário-mínimo.
(123) O técnico fez a preleção dos jogadores.
O técnico realizou uma preleção aos jogadores.
Essa preposição também pode coocorrer em ambos os predicados semânticos: na construção standard e na construção conversa que tenham o mesmo operador. Sem embargo, as construções que, numericamente, são as mais produtivas nesse quesito são aquelas com os pares de verbos fazer-receber e fazer-sofrer e alguns exemplos são: O brasileiro fez a arbitragem do jogo
eO jogo recebeu a arbitragem do brasileiro; O delegado responsável fez uma investigação rigorosa (do + sobre o) caso eO caso sofreu uma investigação rigorosa (do + por parte do) delegado responsável.
▪ preposições a, para
Em construções standard que aceitam a transformação de Conversão, as preposições ae
para são cambiáveis entre si, sempre ocorrendo com a mesma estrutura sintática, o mesmo substantivo predicativo e concordam com os mesmos Vsup. Ela também participa do ‘grupo’
de preposições mais produtivas, conforme os dados obtidos por este trabalho. Exceto em construções com o par ter-ter e apresentando pouca produtividade com o pares dar-levare fazer-sofrer, as preposições a e para estão presentes em construções com os demais pares elementares.
(124) Helena fez uma serenata (ao + para) o noivo.
[Conv] O noivo recebeu uma serenata da Helena.
(125) Helena deu uma prova (ao + para) Pedro de que sua amizade é verdadeira.
[Conv] Pedro recebeu uma prova (de + por parte da) Helena.
Em casos como esses, igualmente acontece em situações apresentadas pela descrição da preposição em, o complemento dativo da construção standard que é introduzido por a, para sofre a transformação de Pronominalização, dando lugar ao pronome (lhe). Praticamente todos os complementos [N1] do tipo humano das construções com os pares fazer-receber e dar-receber admitem a propriedade da redução ao dativo. Somente os complementos preposicionados do tipo não-humano não conseguem operar essa transformação, sendo a minoria deles.
(126) Helena fez uma caridade (ao + para) Pedro.
Helena fez-lhe uma caridade.
(127) O cantor deu voz (a + para) a canção premiada.
*O cantor deu-lhe voz.
Uma última análise sobre os determinantes a, para foi observada por Rassi (2015, p.154) e refere-se às construções standard com dar que apresentam 3 argumentos, sendo o primeiro deles um complemento preposicionado [N1] dativo e o segundo um complemento preposicionado [N2]em forma de frase completiva. Nessas ocorrências, utiliza-se a preposição a (introduzindo o primeiro complemento) seguida da preposição para (introduzindo o segundo complemento), como em Helena deu um motivo ao Pedro para irem viajar este ano. Essa especificação também vale para construções standard desse mesmo tipo, mas com o Vsup fazer.
▪ preposições com, contra
Tais preposições são utilizadas com singularidade em construções standard com fazer
que admitem a Conversão com os verbos receber e/ou sofrer. Em casos de Npred construídos com o par fazer-sofrer, a preposição contra pode ser substituída pela preposição com, pois fazem parte de um mesmo campo semântico, como mostra o primeiro exemplo. Porém, nos casos em que o Npred se constrói com o par de verbos fazer-receber a simultaneidade não ocorre, sendo a preposição com mais produtiva, em relação aos dados obtidos neste estudo.
(128) Helena fez uma crueldade (com + contra) Pedro.
[Conv] Pedro sofreu uma crueldade por parte da Helena.
(129) O apresentador fez uma conexão com o repórter.
[Conv] O repórter recebeu uma conexão do apresentador.
Apesar da possibilidade de as duas preposições ocorrerem juntas, apenas os nomes que possuem polaridade negativa (portanto, aqueles que fazem parte da classe e subclasses das construções com fazer-sofrer) aceitam a preposição contra, que também pode ocorrer em construções que não aceitam a preposição com. Em outros casos, a preposição contra pode introduzir um complemento que também admite a preposição em (disparo), assim como os complementos que aceitam concomitantemente a preposição a (resistência).
(130) Oseias fez uma conspiração contra Peca.
[Conv] Peca sofreu uma conspiração por parte de Oseias.
(131) O assaltante fez um disparo contra o funcionário da loja.
O assaltante deu um disparo (contra + no) funcionário da loja.
(132) A oposição fez resistência (contra + ao) governo atual.
Há poucas ocorrências da preposição contraem construções standard em que o verbo elementar é dar; quando isso ocorre, geralmente, o Npred faz parte da classe aceita o verbo sofrer
ou levar na construção conversa, como em O funcionário da loja (sofreu + levou) um disparo do assaltante, que complementa o exemplo (131). Em construções com dar, a preposição com também pode fazer parte de uma estrutura sintática que admite a coocorência entre ela e a preposição em, como ocorre na construção Helena deu um encontrão (com + no) Pedro, sem querer.
▪ preposição por
Pode-se dizer que a preposição por é exclusivamente utilizada em predicados em que o Vsup ter é o elementar, tanto na construção standard, quanto na construção conversa (TT). Tratando-se de complementos preposicionados do tipo humano, essa preposição pode sofrer uma contração (pelo, pela, etc.) para concordar gramaticalmente com palavra que a acompanha, nesse caso com o argumento [N1]. É interessante mencionar que quando o verbo ter é substituído por uma variante na construção standard (como dar e conceder), a preposição também é alterada.
(133) Helena tem empatia pelo Pedro.
[Conv] Pedro tem a empatia da Helena.
(134) O ativista tem atenção pelo desmatamento acelerado.
O ativista (deu + concedeu) atenção ao desmatamento acelerado.
Em consequência da substituição da preposição porem construções standard com verbos que não seja o verbo ter, não há indícios de complementos preposicionados em construções com outros pares de verbos que utilizam essa preposição como elementar. Em outras palavras, quando um mesmo Npred apresenta a preposição por, ele será descrito na grande classe TT; quando ele apresenta outra preposição (a, para, por exemplo), ele ainda é descrito nesta classe, mas se encontra em uma construção que utiliza uma variante-standard do verbo elementar ter.
▪ preposição sobre
Por último, verifica-se a ocorrência da preposição sobreem construções que apresentam 3 argumentos em sua estrutura de base. De acordo com os apontamentos de Rassi (2015, p. 160), essa preposição introduz um terceiro argumento [N2]que se refere ao segundo complemento preposicionado da construção. Mesmo que bem menos frequente em relação às outras, a preposição sobre ocorre em construções standard com os verbos elementares fazer e dar, cuja Conversão é feita, em ambos os casos, com o Vsup elementar receber.
(135) Helena fez um comentário ao Pedro sobre a nova professora do colégio.
[Conv] Pedro recebeu um comentário de Helena sobre a nova professora do colégio.
(136) Helena deu uma estimativa ao grupo de estudos sobre o início do projeto.
[Conv] O grupo de estudos recebeu uma estimativa de Helena sobre o início do projeto.
É importante se atentar ao fato de que a preposição sobre, nessas situações, não ocorre em construções que possuem 2 argumentos de base. No entanto, não é difícil que uma confusão seja feita ao colocar acidentalmente essa preposição antecedendo o complemento [N1] da construção, por exemplo (137). Embora não aparente, essa construção não está completa, pois o nome comentário, assim como opinião, parecer, entre outros, pedem 3 argumentos elementares.
(137) Helena fez um comentário sobre Pedro.
?[Conv] Pedro recebeu um comentário de Helena sobre Pedro.
Uma exceção é feita em relação aos Npred que possuem 2 argumentos e que são, exclusivamente, construídos com o par de verbos ter-ter. Nessa circunstância, a preposição sobre
pode anteceder o complemento [N1]sem ocasionar um problema como o identificado acima.
Há, exatamente, 7 ocorrências de casos como esse nos dados descritos neste trabalho; são construções cujo núcleo predicativo refere-se especificamente aos nomes análise, comando, controle, influência, monopólio, suspeitaevisão(todos componentes lexicais da grande classe TT).
(138) O CEO tem comando sobre a empresa.
[Conv] A empresa tem comando do CEO.
Este tópico conclui a Subseção que tratou das preposições que introduzem, em ordem sequencial, o complemento preposicionado na construção standard e na construção conversa.
Além disso, teve a função de finalizar a Seção sobre as propriedades estruturais, que compreenderam também o número de argumentos e os tipos de determinantes que essas construções possuem. O presente Capítulo prossegue com as propriedades distribucionais e das atribuições semânticas que são representadas pelo repertorio de ‘semantic roles’.