5.4 Tábua IV: as subclasses de DL (dar-levar)
5.4.2 Subclasse DL2
Estão reunidos aqui os nomes dos quais demandam que a posição sintática de sujeito da construção conversa seja preenchida apenas por argumentos do tipo humano. Trata-se de um conjunto substancialmente mais numeroso em comparação ao anterior, possuindo um total de 129 substantivos predicativos que se dividem em: 73 deverbais (ataque, expulsão, multa, repreensão, surra) e 56 não-deverbais (bronca, cartão, porrete, revanche). Muitos dos nomes desta subclasse, inclusive, denotam expressões populares quando são construídos com os pares de verbos-suporte indicativos da subclasse DL2(balão, bandeira, carrinho, gelo, varrida).
(280) O pai deu um castigo severo ao filho.
[Conv] O filho levou um castigo severo do pai.
(281) A diretora do colégio deu um esporro no aluno bagunceiro.
[Conv] O aluno bagunceiro levou um esporro da diretora do colégio.
Há, no entanto, algumas diferenças na metodologia de classificação entre o estudo de Baptista (1997) e o atual estudo em PB.54 Contando que o presente trabalho pode distinguir semanticamente os substantivos predicativos por meio da descrição e formalização das propriedades semânticas (papéis semânticos) de seus argumentos, não se julgou necessária a criação de outros subconjuntos para diferenciá-los. Sendo assim, a subclasse DL2 do PB, agrupa os elementos que têm em comum o argumento [N1]do tipo humano, exclusivamente.55
Evidentemente, ocorrem diferenças de outros níveis entre os nomes de uma mesma subclasse, porém, na presente tese, uma dessas diferenças é sanada por meio da atribuição dos papéis semânticos aos argumentos dos Npred. Essa propriedade semântica está formalizada na matriz binária que se refere a todas as subclasses da grande classe DL os ‘semantic roles’
54 A classe DL2 desenvolvida por Baptista (1997), que na época de sua descrição apresentava 34 substantivos predicativos, foi segmentada em 3 conjuntos, sendo 2 sintático-semanticamente homogêneos e outro conjunto residual, respectivamente: DL21 (raspanete, descasca, sermão), DL22 (tareia, surra, coça) e DL2R (boleia, castigo, graxa).
55 Outras diferenças que os nomes possam apresentar, tanto as de ordem sintática, como as de ordem semântica, são formalizadas pela matriz binária. Um dos motivos para a escolha de uma classificação mais generalizada é o fato de muitos nomes apresentarem uma distribuição que não se pode prever, isto é, um nome que está em uma classe semântica X pode apresentar as mesmas propriedades sintáticas (tipo de preposição, tipo de variante, etc.) de um nome que se encontra em uma classe semântica Y. Isso ocorre devido à natureza dos nomes que admitem a Conversão, por isso optou-se em separá-los apenas em decorrência dos verbos elementares e do tipo argumental.
disponíveis para os argumentos de DL2 que estão descritos ao final desta mesma Seção, em um tópico individual que sucede o tópico dos elementos de ligação.
Nesse sentido, os nomes descritos em PE – que eramdivididos entre a designação de atos de fala (DL21), a designação de atos violentos (DL22) e de um conjunto variado (DL2R) – seriam diferenciados uns dos outros, não por meio de novas classificações, mas a partir dos papéis semânticos atribuídos aos seus argumentos, se fossem descritos seguindo os critérios utilizados na presente tese. Em outras palavras, o primeiro conjunto teria os seus argumentos descritos a partir de um par específico de papéis semânticos; o segundo conjunto teria os seus argumentos descritos por meio de outro par de ‘semantic roles’; e assim por diante.
Com o esclarecimento da questão metodológica é possível retornar para a descrição, destacando outras diferenças que existem entre o atual e os estudos anteriores. Em primeiro lugar, Baptista (1997) descreve o nome corretivo como um ato de fala, classificando-o em DL21 (segundo a organização do PE). Essa classificação é mantida por Rassi et al. (2016), porém é importante destacar que, apesar deste Npred realmente pertencer à subclasse DL2, não diz respeito somente à definição dada anteriormente, pois o nome corretivo também é utilizado para designar um ato violento, assim como mostram os contextos abaixo extraídos em corpus:
(282) Aos policiais militares, a mãe afirmou que o garoto havia ‘teimado’ e por isso deu um corretivo com surra de cipó na criança.
(283) Pois bem, depois que essa menina levou um corretivo da mãe com um galho de uma árvore que havia em frente à escola [...].
Para mais, o estudo comparativo publicado em 2016 classifica os Npredsermão, repreensão
e reprimenda (pertencentes à subclasse DL21-PE) como componentes da grande classe DR em PB, pelo fato de admitirem o verbo recebere suas variantes.Na presente tese, no entanto, optou-se por reclassificar esses nomes perante as propriedades distribucionais da subclasse DL2.
Segundo pesquisas em corpora, a incidência de construções pelas quais admitem o verbo levar é superior em detrimento ao número de construções que admitem o verbo receber,56 além disso, os três nomes também aceitam a variante-suporte sofrer para substituir o verbo elementar levar.
56 Lembrando que, de acordo com a metodologia de classificação aplicada nesta tese, todos os nomes que aceitam tanto o verbo levar, como o verbo receber, são considerados membros da classe DL (levar como elementar e receber como variante). Sendo assim, a classe DR não admite nenhum nome que possa ser construído com o verbo levar.
(284) O apresentador deu um sermão [ao vivo] no participante.
[Conv] O participante (levou + sofreu) um sermão [ao vivo] do apresentador.
Grande parte dos nomes de DL2 aceita o verbo fazer como uma variante standard, mas diferente da subclasse precedente, que não permite nenhuma variante além desta, outros verbos também podem ocupar a posição do verbodar (aplicar, atribuir, meter, enfiar), dependendo do Npred.
Bem como foi introduzido no parágrafo anterior, o verbo sofrer é considerado uma das variantes que pode coocorrer com o verbo elementar levar na construção conversa. Fora ele, os verbos
receber, ter, tomar e ganhar57também são destacados como extensões válidas e produtivas.
(285) O árbitro (deu + fez + aplicou + efetuou) a expulsão do jogador.
[Conv] O jogador (levou + recebeu + tomou + sofreu) uma expulsão do árbitro.
(286) Helena (deu + meteu + enfiou) um pé na bunda do namorado ciumento.
[Conv] O namorado ciumento (levou + tomou + ganhou) um pé na bunda [da Helena].
Integralmente, os Npred e todas as variantes-suporte disponíveis para cada um deles se encontram na Tábua IV, mas ainda é apropriado o destaque de algumas regularidades relacionadas ao preenchimento das extensões. Por exemplo, há nomes muito específicos que, principalmente na construção standard, permitem variantes também muito especificas, das quais consolidaram-se com dado nome até mais que o próprio verbo elementar, comoarmar um flagra, marcar uma goleada, aplicar um golpe, sentar um pau, enfiar/meter um pé na bunda, entre outros exemplos. Os modelos de exemplos (com argumentos essenciais) fazem parte do Apêndice B.
Vale destacar, ainda, uma última comparação entre os estudos que tratam da Conversão como tema principal de análise. Na vertente europeia do português, os nomes empurrada e
encontrãopodem admitir um nome parte-do-corpo como complemento da construção standard, sendo assim, classificados na subclasse DL33. Por outro lado, em português brasileiro, tais nomes pertencem à subclasse aqui descrita, pois não admitem o tipo de complemento citado anteriormente. Em geral, esses dois nomes fazem parte de construções mais genéricas, como mostram os exemplos (287) e (288):
57 Nas construções de DL2, o verbo ganhar possui uma denotação que o diferencia, por exemplo, das construções em que ele é aceito nas subclasses de FS. Neste caso, a variante-conversa pertence às construções que passam uma informação, de certo modo, irônica, uma vez que não se verifica a polaridade positiva nas construções em questão.
(287) O jogador deu uma empurrada no árbitro.
[Conv] O árbitro levou uma empurrada do jogador.
(288) O aluno deu um encontrão [sem querer] no professor.
[Conv] O professor levou um encontrão do aluno.
▪ Determinantes e preposições
O uso da determinação indefinida é muito frequente em construções com os nomes desta subclasse, principalmente por aqueles que são formados pelo sufixo -ada, tanto na estrutura standard, quanto na conversa. Mesmo assim, o determinante artigo definido pode configurar a construção conversa, mas raramente é aceito na construção standard
.
Pode-se dizer que, na maioria das ocorrências, os determinantes são fixos e equivalentes, ou seja, são exatamente os mesmos nas duas construções e somente de um dos tipos, assim como mostra o exemplo (289):(289) O Palmeiras deu uma escovada de 4x0 no Corinthians.
[Conv] O Corinthians levou uma escovada de 4x0 do Palmeiras.
(290) A torcida deu um olé para o time de futebol.
[Conv] O time de futebol levou (um + o) olé (da + por parte da) torcida.
Sobre as preposições, é factível dizer, sem embargo, que o complemento da construção standard permite as preposições em (como é visto pelo exemplo 289) e de (como é visto pelo exemplo 290). Em contrapartida, o complemento da construção conversa, de forma intuitiva, é introduzido pelas preposições padrão dee/ou por parte de, como os exemplos também mostram.
Como foi possível perceber, as preposições da construção conversas dificilmente passam por alguma alteração de ordem sintática, sendo sempre as mesmas.
▪ Papéis semânticos
Nesta subclasse, retomando os primeiros parágrafos, torna-se possível a observação das semelhanças entre nomes de um mesmo campo semântico, a partir dos ‘semantic roles’
atribuídos aos argumentos das construções. Dessa maneira, foram identificadas, ainda que de forma extensiva, duas possibilidades de combinação: a primeira refere-se aos atos efetivamente realizados (de modo violento ou não) e a segunda refere-se aos nomes que determinam atos de
fala. Respectivamente, o núcleo predicativo dessas construções possuem uma argumentação selecionada pelos pares AGENT-GENERIC/PATIENT e AGENT-SPEAKER/ADDRESSEE.
(291) O atacante [AGENT-GEN] deu um carrinho no zagueiro [PATIENT].
[Conv] O zagueiro [PATIENT] levou um carrinho do atacante [AGENT-GEN].
(292) O entrevistado [AGENT-SPEAKER] deu uma bronca no apresentador [ADDRESSEE].
[Conv] O apresentador [ADDRESSEE] levou uma bronca do entrevistado [AGENT-SPEAKER].