4.1 Componentes estruturais
4.1.2 Determinando o determinante
Correspondendo não apenas ao elemento do léxico que antecede o substantivo e concorda com ele em gênero e número, o determinante – em predicados nominais – também auxilia o substantivo predicativo na construção do seu valor representativo, sinalizando sua posição de referência e marcando o seu significado em contexto. Segundo Ranchhod (1990), o determinante não cumpre somente as funções de concordar morfologicamente com o nome e a de determinar o seu uso a partir da natureza dele, mas assume uma importante função na globalidade da construção, condicionando o seu comportamento sintático-semântico.
Pode-se conceituar determinante as classes dos: artigos definidos, artigos indefinidos, pronomes possessivos, pronomes demonstrativos e quantificadores, quando indicam uma determinação, efetivamente.32 Sua ausência, consoante Davel (2011), pode indicar a natureza específica de determinados tipos de nomes, pelos quais são caracterizados como genéricos. Essa generalização, em muitos casos, pode ser marcada tanto pela presença, quanto pela ausência do determinante, denominado ‘determinante zero’. Segundo investigações, os predicados que envolvem expressões cristalizadas e nomes sequenciados são mais susceptíveis a essa privação.
Em um contexto geral dos predicados nominais com os verbos que foram estudados na presente tese, são considerados ao menos os determinantes em suas seguintes formas: artigo definido, artigo indefinido e determinante vazio (ou zero). São eles que fazem parte, portanto, das colunas que competem a essa propriedade em todas as matrizes binárias confeccionadas para a descrição dos dados obtidos até então. Em vista disso, em um primeiro momento, realiza-se uma breve exposição sobre o emprego dos determinantes na conjuntura dos predicados nominais e, em seguida, consideram-se as combinações que podem ocorrer com regularidade na transformação da construção standard para a construção conversa.
▪ artigo definido
Representa uma propriedade particular do nome que, em construções standard, pode ser acompanhado (ou não) de um modificador, dando ao núcleo da predicação mais especificidade.
Esse modificador refere-se a um elemento lexical que pode dar um maior grau de aceitabilidade para a construção, como os adjetivos, por exemplo (98). Em um ambiente textual em que a
32 Os artigos, por exemplo, apresentam uma distribuição diferente dos determinantes, sendo que o artigo procede sempre o determinante possessivo (o meu) e não pode coocorrer com o determinante demonstrativo (*o aquele).
informação dada por uma construção de base é recuperada pelo contexto em forma de uma construção conversa, o determinante definido também é utilizado para destacar essa operação.
(98) O professor deu a aula inaugural aos alunos do segundo ano.
[Conv] Os alunos do segundo ano receberam a aula do professor.
(99) O ufologista fez uma apresentação sobre ‘óvnis’ aos alunos do segundo ano.
[Conv] Os alunos do segundo ano receberam a apresentação do ufologista [com muito entusiasmo].
Uma construção standard com Det:indef. relacionando-se com uma construção conversa com Det:def. é um modelo prático de recuperação contextual, como mostra o exemplo (99). Inclusive, por esse motivo a sua utilização é relativamente corrente em construções com os pares dar-receber e fazer-receber. Independentemente da situação de recuperação textual, o Npred apresentaçãotambém pode ser introduzido pelo Det:indef. na construção conversa, o que enfatiza, ainda mais, que toda seleção lexical depende exclusivamente do predicador da frase.
▪ artigo indefinido
Em construções standard, assim como em construções conversas, este tipo de determinante é o que apresenta maior frequência de ocorrências. Da mesma forma do anterior, o artigo indefinido pode ser acompanhado de um modificador ou não, dependendo do substantivo predicativo. Uma das característica das construções que possuem Det:indef. é a possibilidade da relativização, que se refere a uma operação obrigatória para a redução do Vsup e a formação de grupo nominal em construções nominais, como mostra o exemplo (100).
(100) A atriz fez uma participação especial no programa humorístico.
[Rel] A participação especial que a atriz fez no programa humorístico [foi o suficiente para aumentar a audiência].
[GN] A participação especial da atriz no programa [foi o suficiente para aumentar a audiência].
Decorrentes de uma nominalização, os Npred terminados em -ada ou -ida dão preferência ao uso dos Det:indef. em construções com os pares dar-levar. Nesses casos, um modificador do nome pode oferecer um caráter singular para a construção, mas não há obrigatoriedade da
presença de elementos desse tipo. Ainda que seja uma característica bem particular desses predicados nominais, a utilização do determinante artigo indefinido abrange construções de todas as classes e subclasses descritas e analisadas nesta tese, de maneira extensiva.
(101) Helena deu uma almofadada certeira no Pedro.
[Conv] Pedro levou uma almofadada da Helena.
▪ determinante zero
Diferentemente do tópico anterior, a utilização do determinante zero (ou vazio) impede a relativização e, consequentemente, a formação de grupo nominal. Essa ausência também pode marcar a natureza não-específica do ato de denotação realizada pelo substantivo predicativo, assim como o alto grau de fixidez em construções em que o predicador se refere à uma expressão cristalizada, por exemplo. No caso dos predicados nominais, o Det:E ocorre com bastante frequência com nomes que expressam um tipo específico de ato de fala.
(102) Helena deu bom dia ao Pedro.
[Conv] Pedro recebeu bom dia da Helena.
A ausência do determinante também caracteriza nomes no singular como abertura, abrigo, asilo, ciência, destaque (dar) e difusão, embarque, homologação, inscrição, patrulhamento (fazer). Bem como é comum em nomes que estão no plural, por exemplo abraços, tapas, agulhadas, benefícios, entre outros. Em construções standard com ter é bastante comum a ausência desse determinante, principalmente em predicados com os nomes admiração, afeto, devoção, simpatia, cuja Conversão resulta em uma construção com Det:def. na maioria dos casos.
(103) Helena tem admiração pelo Pedro.
[Conv] Pedro tem a admiração da Helena.
4.1.2.1 Equivalência dos determinantes na conexão standard-conversa
No âmbito da Conversão, a seleção do determinante pode depender daquele que determina a construção standard, sendo assim ambas as construções podem apresentar rigorosamente o mesmo determinante acompanhando o substantivo predicativo. Na maioria das
construções da língua francesa, por exemplo, a distribuição dos determinantes segue essa especificação à risca, diferentemente do que se passa em PB, cuja seleção é desempenhada de maneira desprendida e menos categórica, como já foi demonstrado pelos exemplos da Seção anterior. Encontram-se, abaixo, ocorrências que aceitam os mesmos no par standard-conversa:
(104) A multidão deu vivas ao Papa Francisco.
[Conv] O Papa Francisco recebeu vivas da multidão.
(105) Cerca de 700 jovens fizeram o alistamento no Serviço Militar.
[Conv] O Serviço Militar recebeu o alistamento de cerca de 700 jovens.
De modo geral, quando ocorre essa coincidência, é comum que essa posição seja preenchida exatamente pelo determinante zero ou pelo determinante artigo definido. Na matriz binária (Apêndice B), o caso do exemplo (104) além de receber a marcação positiva para o uso do Det:E, é marcado como ‘fixo’ com o intuito de reafirmação de que ele não é distribucionalmente livre. Por outro lado, o predicador da construção representada em (105) não pode receber a marca de fixo pelo fato de também aceitar o Det:indef. (um) na construção standard, porém, quando ocorrem simultaneamente, podem ser considerados ‘equivalentes’.
O grau de imobilidade do determinante pode estar ligado por dois fatores:pela natureza (específica ou inespecífica) do ato de denotação realizada pelo nome; oupelo caráter sólido e constante de algumas combinações (Vsup + Npred) que formam um bloco de significação que dificilmente se modifica. Embora haja, de fato, a ocorrência dos casos mencionados acima, observou-se que a grande maioria dos determinantes, que faz parte da estrutura das construções analisadas nesta tese, tem uma distribuição livre com interessantes regularidades.
Em primeiro lugar, a combinação Det:indef. na construção standard e Det: indef. ou Det:def. na construção conversa trata-se da relação com maior ocorrência em todas as classes descritas nesta tese, exemplificada em (106). Logo depois, a segunda maior incidência é a das construções que, principalmente na forma conversa, podem aceitar os três tipos de determinante, algumas delas sem nenhuma restrição sintático-semântica. Construções das classes que envolvem os pares de verbos dar-receber, fazer-receber e fazer-sofrer são as mais susceptíveis nessa questão.
(106) Helena deu uma resposta rápida ao Pedro.
[Conv] Pedro recebeu (uma + a) resposta rápida da Helena.
(107) A Polícia Federal fez a coação do diretor da empresa.
[Conv] O diretor da empresa sofreu (E + a + uma) coação da Polícia Federal.
Há também as construções, em especial aquelas com par dar-receber, que aceitam os determinantes zero e artigo indefinido em construções standard e conversas e não aceitam, em nenhuma construção, determinantes artigos definidos, como em (108). Em outros casos, principalmente em construções com o par dar-levar, a utilização do determinante artigo indefinido pode marcar um grau de intensidade cometida pelo argumento [N0], sobretudo em construções cujo substantivo predicativo denota um tipo de ação violenta, vista em (109):
(108) O partido opositor deu (E + uma) trégua ao político.
[Conv] Pedro recebeu (E + uma) do partido opositor.
(109) Helena deu (uma + a) surra no Pedro.
[Conv] O Pedro levou (uma + a) surra da Helena.
Fora todas as regularidades apresentadas até então, é importante ressaltar que o preenchimento do determinante pode depender não somente das construções elementares, mas também da escolha dos verbos estabelecidos como variantes-suporte. Um exemplo refere-se à construção conversa (110), que em sua forma elementar possibilita todos os tipos de determinantes descritos aqui, mas quando é descrita com a variante contar com não aceita o Det:E. Mesmo que haja essa restrição, na grande maioria dos casos a realidade é outra, uma vez que há mais casos em que eles se correspondem em relação àqueles que não há correspondência.
(110) O vigilante noturno deu cobertura para o assaltante.
[Conv] O assaltante recebeu (E + uma + a) cobertura do vigilante noturno.
[Conv] O assaltante contou com (*E + uma + a) cobertura do vigilante noturno.
(111) A Orquestra Sinfônica fez o acompanhamento dos músicos.
[Conv] Os músicos receberam E + um + o) acompanhamento da Orquestra Sinfônica.
[Conv] Os músicos contaram com (E + um + o) acompanhamento da Orquestra Sinfônica.
O segundo exemplo mostra uma das ocorrências em que a variante contar com possibilita um determinante zero para introduzir o Npred (acompanhamento, neste caso), diferentemente do que foi dito acima. Finalmente, Barros (2014, p. 62, apud CHACOTO, 2005, p. 107) faz um resumo
sobre essa propriedade de ordem estrutural dizendo que a incidência dos determinantes está associada às dependências entre os seguintes elementos léxico-sintáticos: (i) o determinante e o substantivo predicativo, (ii) o determinante e complemento frásico, (iii) o predicado nominal e o determinante, (iv) a variante-suporte e o determinante e, (v) o determinante e o modificador.