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5.3 Tábua III: as subclasses de DR (dar-receber)

5.3.2 Subclasse DR2

Fazendo referência a mais robusta das subclasses desta tese, a subclasse DR2 diz respeito aos nomes que, sintaticamente, selecionam um argumento do tipo humano para a posição de sujeito da construção conversa. São 285 substantivos predicativos muito heterogêneos que se distribuem em 200 deverbais (ajuda, beijo, conselho, orientação, ultimato) e 85 não-deverbais (aula, carona, gorjeta, mesada, minicurso, trégua). Grande parte deles reportam ações realizadas a partir de relações interpessoais de diversos níveis, contextos e domínios semântico-pragmáticos.

(246) O técnico deu um treinamento para o jogador iniciante.

[Conv] O jogador iniciante recebeu um treinamento do técnico.

(247) Os governantes deram propina para a empresa.

[Conv] A empresa recebeu propina dos governantes.

Com o objetivo de se aprofundar um pouco mais na natureza dos Npred desta subclasse, pode-se dizer que, apesar da heterogeneidade, é possível identificar o campo semântico que está mais próximo a eles, em alguns casos. Como dito anteriormente, esses nomes concentram-se em expressar ações de diversos tipos e essas ações podem integrar os campos: da medicina (alta, anestesia, injeção, prognóstico, vacinação), do jurídico (anuência, arras, contributo, procuração), do

jurídico-criminal (propina, voz de prisão, habeas corpus, pena, testemunho), do meio acadêmico (certificado, chancela, aula), do religioso (indulgencia, penitência)e da política (golpe militar, asilo político).

Para além desses que foram mencionados, tais quais realmente pertencem a campos semânticos bem delimitados, a subclasse DR2 também integra nomes que podem ser vistos como a representação de uma ação informal entre argumentos humanos. Essa troca de informações é fundamentada no repertório de conhecimento e experiências emocionais vividas pelos sujeitos que estão na interlocução. Em vista disso, foram delimitadas outras duas categorias semânticas pelas quais podem se encaixar os Npred restantes: atos de fala (felicitações, morras, obrigado, salute, vivas) e atos interpessoais (abraço, apoio, conselho, torcida, trégua, perdão).

(248) Os espectadores deram vivas a jurada do programa musical.

[Conv] A jurada do programa musical recebeu vivas dos espectadores.

(249) Helena deu um conselho para Pedro.

[Conv] Pedro recebeu um conselho da Helena.

Há semelhanças muito claras entre as construções das subclasses de FR e as construções das subclasses de DR e uma delas tange ao preenchimento das variantes-suporte. Perante a perspectiva das construções standard essa semelhança não é óbvia, pois apesar de o Vsup fazer

ser considerado uma das variantes do Vsup dar e vice-versa, os nomes de DR2 não admitem muitas das extensões que são admitidas pelas subclasses em que fazeré o verbo elementar. Neste caso, as variantes-suporte mais comuns, além do Vsup fazer, são atribuir, conceder e aplicar.

(250) O empresário (deu + fez) um assessoramento ao cantor.

[Conv] O cantor recebeu um assessoramento do empresário.

(251) O banco (deu + atribuiu + concedeu + aplicou) um crédito ao correntista.

[Conv] O correntista recebeu um crédito do banco.

Para alguns nomes bem específicos, ainda que esses verbos sejam, de fato, os mais populares na posição de variantes, é possível atribuir outras opções tão específicas quanto. É bastante comum, por exemplo, que o verbo desejar ocorra em construções junto dos Npred melhoras, parabéns efelicidades. Da mesma maneira, torna-se bastante corriqueira a identificação das seguintes estruturas nominais: falar sua opinião, prestar esclarecimento, enfiar uma facada

(informando sobre a oferta de um produto com o preço abusivo) e até mesmo desferir um beijo.

Em relação à construção conversa, as variantes-suporte disponíveis para os Npred desta subclasse são ter, contar com, obter, ganhar e possuir. Essas extensão são as que mais se destacam pelas Tábuas confeccionadas neste estudo, sendo bastante produtivas nas construções nominais de orientação passiva em PB. Dentre as construções de DR2, a variante-suporte conversa possuir

apresenta um pouco menos de produtividade, em comparação às demais que são muito recorrentes nos corpora de referência. Por exemplo, o substantivo predicativo aceitação admite todas as extensões às ordens na substituição do verbo elementar receber.

(252) A população deu aceitação ao novo presidente.

[Conv] O novo presidente (recebeu + teve + contou com + obteve + ganhou + possui) a aceitação da população.

Nesta subclasse, ainda, assim como a maioria daquelas que possuem o Vsup darcomo elementar standard, há muitos Npred terminados em -adae -ida (acenada, adestrada, curtida, examinada, massageada, entre outros). Esses nomes apresentam uma intrínseca relação com os nomes que são construídos com o verbo fazer e, portanto, estão classificados na grande classe FR (aceno, adestramento, exame, massagem, entre outros). É interessante observar que esses Npred da subclasse DR2 não permitem a variante-suporte fazer, mas os Npred da subclasse FR2 permitem a variante-suporte dar, como mostram os exemplos a seguir:

(253) Helena (deu + *fez) uma acenada para Pedro. [DR2]

[Conv] Pedro recebeu uma acenada da Helena.

(254) Helena (deu + fez) um aceno para Pedro. [FR2]

[Conv] Pedro recebeu um aceno da Helena.

▪ Determinantes e preposições

Perante os dados dispostos na Tábua III, no que se refere à subclasse DR2, a maioria dos nomes é distribucionalmente flexível em relação aos determinantes e aceitam todos os tipos descritos pela matriz de referência, ao menos na construção conversa. Sobre as preposições, na construção standard exatamente todos os complementos admitem as preposições a/para ou em, e na construção conversa o mesmo ocorre com as preposições de ou por parte de. Os exemplos seguintes mostram de forma combinatória a distribuição mais singular dos determinantes e das preposições, que são, relativamente, homogêneas nesta subclasse:

(255) A delegacia da mulher deu (E + um) amparo à vítima da agressão.

[Conv] A vítima recebeu (E + um + o) amparo da delegacia da mulher.

(256) O governo brasileiro deu anistia ao refugiado.

[Conv] O refugiado recebeu (E + a) anistia (do + por parte do) governo brasileiro.

▪ Papéis semânticos

Neste caso, são dois pares de papéis semânticos que se destacam no preenchimento dessa característica dos argumentos do núcleo predicativo. Genericamente, a combinação conhecida AGENT-GENERIC e PATIENT dão conta da maioria das construções representadas na Tábua III e a combinação AGENT-SPEAKER e ADDRESSEE torna-se comum em construções que informam sobre atos de fala que são realizados entre os dois argumentos da predicação. Os exemplos abaixo objetivam mostrar a diferença entre esses dois tipos de atribuição semântica:

(257) O pedestre [AGENT-GEN]deu uma esmola ao morador de rua [PATIENT]. [Conv] O morador de rua [PATIENT] recebeu uma esmola do pedestre [AGENT-GEN]. (258) Helena [AGENT-SPEAKER] deu bom dia ao Pedro [ADDRESSEE].

[Conv] Pedro [ADDRESSEE] recebeu bom dia da Helena [AGENT-SPEAKER].