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Distribuição dos elementos lexicais e gramaticais

2.4 Condições sintático-semânticas inerentes à Conversão

2.4.1 Distribuição dos elementos lexicais e gramaticais

Segundo G. Gross (1989), a distribuição dos determinantes depende diretamente das restrições impostas pelo Npred, em ambas as construções. O estabelecimento do determinante que configura a construção conversa, porém, depende diretamente do determinante da construção standard, que pode, ainda, apresentar identidade ou não. Em francês, por exemplo, essa distribuição segue certa regularidade que não se confirma, em sua totalidade, para o português brasileiro. Em construções donner-recevoir (dar-receber), os determinantes são rigorosamente os mesmos, tanto na construção standard, quanto na construção conversa.

Apesar de algumas construções do PB também apresentarem essa regularidade, a distribuição é feita de maneira um pouco menos uniforme:

(55) Helena deu um voto de confiança para Pedro.

[Conv] = Pedro recebeu (um + o) voto de confiança da Helena.

(56) O médico deu um discurso sobre drogas para os internados.

[Conv] Os internados receberam (um + o) discurso sobre drogas do médico.

Em relação aos determinantes, Davel (2009) explica que a presença, ausência ou mudança do determinante, em estruturas como essas, é decorrente de seu caráter híbrido, cuja modalidade do emprego influencia no grau de interação dos elementos da construção. Daí a importância da determinação na organização e no aspecto semântico dessas estruturas, que serão descritas amplamente pelo quinto Capítulo desta tese. Ressalta-se, também, que a questão dos determinantes será retomada teoricamente no Capítulo 4 (Subseção 4.1.2), que trata das propriedades formais das construções conversas analisadas por esta tese.

Resumidamente, em construções standard, o complemento do nome predicativo pode ser introduzido por diversas preposições, como de (Helena deu uma debochada de Pedro), com (Helena fez uma injustiça com Pedro), em (Helena deu um beijo no Pedro), a (Helena deu uma ideia ao Pedro), para (Helena fez um convite para Pedro), sobre (Helena tem influência sobre Pedro). No entanto, o sujeito da construção standard passa a configurar a construção conversa, seguido apenas pela preposição de ou pela sequência por parte de. Com alguns nomes predicativos a preposição por parte de também pode receber algumas variações:

(57) O padre fez a catequização dos índios.

[Conv] = Os índios receberam catequização (do + das mãos do) padre.

(58) Helena deu uma informação para Pedro.

(Conv) = Pedro recebeu uma informação (da + da boca da) Helena.

Existem outras duas características distribucionais que são interessantes na descrição desse fenômeno linguístico: a possibilidade da Conversão sobre elementos locativos e o bloqueio da Conversão por consequência de modificadores adverbiais. Ambas são brevemente discutidas por meio dos tópicos abaixo, que mostram também como elas se comportam em

comparação com a língua francesa. Ressalta-se que o quinto Capítulo desta tese apresenta amplamente as características mais especificadas de cada subclasse distribucional.

▪ Os elementos locativos

Indubitavelmente, a questão dos elementos locativos enfrenta certa complexidade em relação ao conceito geral que define a Conversão. De acordo com os autores que estudaram o tema (G. GROSS, 1989; BAPTISTA, 1997), essa transformação não opera elementos locativos, ou seja, as construções que apresentam como segundo argumento [N1] um nome locativo, não admitiriam a Conversão. Em alguns casos (construções intransitivas) esse bloqueio é evidente, manifestando-se através da não aceitabilidade da construção conversa e da construção passiva, como mostra o exemplo a seguir:

(59) Helena deu um passeio no parque.

[Conv] *O parque (recebeu + levou + teve) um passeio da Helena.

[Pass] *O parque foi passeado pela Helena.

Também não é permitido que a construção com o Npred passeio (de origem deverbal) passe pela transformação de Passivação, o que evidencia ainda mais a inaceitabilidade do argumento locativo (no parque) nas construções de orientação passiva. Porém, há nomes cuja distribuição é tão restrita que não aceitam outro tipo de argumento que não seja um locativo, na mesma posição do exemplo anterior. Nessa circunstância, sucede uma reestruturação em que o elemento locativo passa para a posição de sujeito sem resultar em uma construção de aceitabilidade controversa. É o que ocorre, por exemplo, com o Npred pavimentação:

(60) A prefeitura de São Carlos fez a pavimentação da rua XV de novembro.

[Reestr] Foi na rua XV de novembro que a Prefeitura de São Carlos fez a pavimentação.

[Conv] A rua XV de novembro recebeu a pavimentação da Prefeitura de São Carlos.

[Pass] A rua XV de novembro foi pavimentada pela Prefeitura de São Carlos.

O Npred pavimentação, no exemplo que destaca a Conversão, também aceita a variante-suporte ganhar (A rua XV de novembro ganhou a pavimentação da Prefeitura), que não modifica a informação de base da construção em geral. Outro caso diz respeito ao nome mapeamento, que

apesar de admitir um argumento do tipo não-humano como complemento da construção standard (61), também aceita um argumento que, em determinados contextos, pode ser entendido como um tipo de locativo cênico, introduzido pela preposição de, como é visto em (62). Em ambas as construções a operação de Conversão é legitima:

(61) A aluna fez o mapeamento das construções conversas.

[Conv] As construções conversas tiveram um mapeamento da aluna.

(62) O geógrafo fez o mapeamento da região.

[Conv] A região recebeu o mapeamento do geógrafo.

Em consequência disso, um grupo determinado de Npred possibilita a transformação da Conversão, mesmo operando sobre um elemento locativo. Consideram-se comuns os nomes:

revitalização (A praça recebeu uma revitalização da Prefeitura), aglomeração (O bar recebeu aglomeração de pessoas) eduplicação (As estradas receberam duplicação do departamento de trânsito). É importante salientar que, embora seja uma condição distribucional bem delimitada e de ocorrência muito específica, é compreendida como uma regularidade que dadas construções conversas do PB possuem e, portanto, uma propriedade a ser devidamente formalizada.

▪ Bloqueio da Conversão

Segundo G. Gross (1989, p. 205), a utilização de certos advérbios podem bloquear a Conversão. Quando um advérbio que é modificador de um verbo ‘desce’ para a posição de modificador de um nome predicativo, na forma de um adjetivo, a Conversão pode ser aceita.

Entretanto, quando um advérbio é modificador de um verbo e depende diretamente do sujeito do verbo-suporte dar, por exemplo, a construção conversa com esse advérbio é bloqueada. Esses casos são exemplificados, em ordem respectiva, pelos exemplos abaixo:

(63) Helena deu um perdão definitivo ao Pedro.

[Conv] = Pedro recebeu um perdão definitivo de Helena.

(64) Helena deu indevidamente uma informação falsa ao Pedro.

[Conv] *Pedro recebeu indevidamente uma informação falsa da Helena.

No primeiro exemplo, a construção nominal com o Npred perdão e um modificador adjetival definitivo é equivalente à uma construção verbal com o verbo perdoar associado ao modificador adverbial definitivamente (Helena perdoou definitivamente o Pedro). Como foi dito, casos como este autorizam a Conversão, diferentemente do que ocorre no exemplo seguinte. Bem como acontece com a questão dos locativos, este tópico também é de certa especialidade prática, mas, ainda assim, considerada como uma das regularidade que pôde ser observada nas construções relacionadas pela Conversão em português brasileiro e em francês.