Conceição Rego 2 , António Caleiro 2 , Carlos Vieira 2 , Isabel Vieira 2 , Maria da Saudade Baltazar
2. Determinantes da procura de ensino superior
Os determinantes potencialmente relevantes para explicar a procura de ensino superior num dado país são de natureza diversa e podem classifi car-se em 4 categorias.
Em primeiro lugar surge a demografi a. A fi gura 1 sugere que, em Portugal, depois do grande aumen- to da procura provocado pela democra zação do acesso ao ensino superior na sequência da revolução de 1974, o número de nascimentos ocorridos 18 a 20 anos antes infl uencia visivelmente o número de candidaturas registadas em cada ano.
Figura 1: Número de candidatos (eixo da esquerda) e nascimentos n anos antes (103)
Nota: O número de nascimentos considera os nascidos de 18 a 20 anos antes com os pesos .591, .284 e .125 respe vamente. Fonte: Vieira e Vieira (2011)
Depois da demografi a, surgem três fatores, rela vamente menos importantes mas capazes de in- fl uenciar a evolução da procura de ensino superior: fatores sociais, económicos e ins tucionais. Nos fatores de natureza social destaca-se a educação dos familiares mais próximos (a educação dos pais), não só porque quanto maior o nível educacional da família, mais se valoriza a educação, mas também porque níveis educacionais mais elevados estão associados a níveis de rendimento mais altos e, por isso, a uma maior capacidade para pagar a educação dos fi lhos. É também incluído nesta categoria o sucesso académico registado nos níveis de educação que antecedem a entrada no ensino superior. Obviamente, se um estudante sai do sistema antes de concluir o ensino secundário, posteriormente não terá reunido as condições para se candidatar ao ensino superior.
Em terceiro lugar, consideram-se variáveis económicas, que se podem dividir de acordo com a sua natureza microeconómica ou macroeconómica. A nível microeconómico são relevantes a existência e o valor das propinas, as despesas com alojamento e transporte (para estudantes deslocados), as despesas com materiais de estudo, mas também o custo de oportunidade do ensino superior. Uma vez concluído o ensino secundário, a opção de ingressar numa IES normalmente adia a entrada no mercado de traba- lho por alguns anos e, por isso, faz com que deixem de ser auferidos salários durante todo esse tempo – esta perda é o custo de oportunidade da educação superior. Obviamente que o efeito desta variável depende muito do prémio salarial do diploma universitário, pois quanto maior for esse prémio, menor é o peso atribuído ao custo de oportunidade (i.e., à perda de salários durante o período de formação superior).
As condições macroeconómicas são também potencialmente importantes. Variáveis como o rendi- mento disponível das famílias, o PIB real e a sua evolução, o PIB per capita ou a taxa de desemprego estão relacionadas com a riqueza das famílias e determinam a sua capacidade para acomodar o fi nan- ciamento da educação dos fi lhos.
Finalmente, são consideradas variáveis de natureza ins tucional, como alterações da regulamenta- ção do acesso ao ensino superior, a existência ou não de numerus clausus, de notas de entrada mínimas,
0 50 100 150 200 250 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 1977 1980 1983 1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007 2010 applicants births,nͲyearsbefore
de áreas de especialização restri vas, as reformas no ensino secundário ou a duração da escolaridade obrigatória.
Todos estes determinantes podem, em teoria, exercer efeitos signifi ca vos sobre o processo deci- sório inerente a uma candidatura ao ensino superior. Na prá ca, as variáveis mais relevantes variam de país para país, de acordo com a tradição histórica rela va à educação, que por vezes é condicionada pela religião dominante, com a forma como a sociedade e as famílias tradicionalmente se organizam, com o peso do ensino superior nos orçamentos familiares e com o maior ou menor apoio do estado nesta área.
No caso de Portugal, os resultados de uma análise empírica da procura de ensino superior entre 1977 e 2010 (Vieira & Vieira, 2011) sugerem que os determinantes mais importantes são de natureza demográfi ca (o número de nascimentos ocorridos 18 a 20 anos antes da candidatura), social e ins-
tucional (o sucesso no ensino secundário, a maior ou menor exigência das condições de admissão ao ensino superior, a duração da escolaridade obrigatória). Inesperadamente, o estudo sugere que a maioria das variáveis de natureza económica, ainda que possa ter uma infl uência indireta importante, não determina diretamente a procura de ensino superior no período em estudo. Apenas a taxa de de- semprego aparece como signifi ca va e com sinal nega vo, isto é, quanto maior a taxa de desemprego, menor a procura de ensino superior. A existência de propinas também infl uencia nega vamente (com um nível de signifi cância inferior) a procura de ensino superior, mas as pequenas variações no seu valor não têm sido signifi ca vas.
A importância do desemprego neste contexto sugere várias leituras. Por um lado, o desemprego tem um impacte muito nega vo no rendimento familiar e faz com que, em muitos casos, deixe pura e simplesmente de ser possível comportar as despesas inerentes à frequência de uma IES. Por outro, o desemprego pode também estar associado a uma quebra na mo vação dos jovens para con nuar a estudar, ou pode fazer com que os mesmos sejam obrigados a desis r de estudar para começar a con- tribuir para o orçamento familiar.
Os resultados ob dos neste estudo nacional têm, naturalmente, implicações para a procura de en- sino superior a nível regional. No caso do Alentejo, ao contrário do que acontecia até há poucos anos, a maioria dos alunos que frequentam as IES locais é oriunda da região. Assim, as conclusões rela vas aos determinantes da procura global podem ser u lizadas como indicador das áreas onde as tenta vas de atuação polí ca para manter e potenciar a procura direcionada para as IES localizadas no Alentejo podem ser mais efi cazes.
Tendo em conta os determinantes que parecem ser mais relevantes para infl uenciar o comporta- mento da procura de ensino superior, as estratégias de dinamização da procura regional devem ser construídas com base nas seguintes premissas:
– Nos próximos anos a demografi a alentejana não será especialmente favorável, mas existem ‘re- servas locais’ de candidatos potenciais ao ensino superior que ainda não foram sufi cientemente exploradas pelas ins tuições locais;
– As condições sociais, económicas e ins tucionais regionais não serão necessariamente mais nega- vas do que as que se vão fazer sen r nas outras regiões.
Assim, e ainda que seja provável que se venha a sen r uma quebra de candidatos de fora do Alente- jo, as ins tuições de ensino superior locais devem melhorar a sua visibilidade local e nacional e inves r na melhoria da sua capacidade de retenção da população estudan l local, sem esquecer potenciais estudantes oriundos de outras regiões/países. Neste sen do, é fundamental a presença das ins tuições de ensino superior nas escolas da região, pois é lá que se encontra a principal base de procura futura. Numa altura em que mesmo as universidades de outras regiões (por exemplo de Lisboa) procuram recrutar candidatos nas escolas secundárias alentejanas, e visitam-nas em momentos chave para a deci- são de entrada no ensino superior, não faz sen do que as IES alentejanas con nuem a estar fi sicamente próximas mas efetivamente distantes de boa parte dos alunos do ensino secundário do Alentejo. A presença das IES nas escolas locais é necessária para dar a conhecer a vida académica, as possibili- dades de formação e as principais saídas profi ssionais, mas também para reforçar medidas de apoio ao
sucesso escolar e à prevenção do abandono precoce. As inicia vas de apoio de estudantes na prepa- ração dos exames de acesso ao ensino superior, agora iniciadas pelo Departamento de Matemá ca da Universidade de Évora, são um exemplo de boas prá cas que pode e deve ser replicado.
O Alentejo é uma região vasta e, ainda que existam ins tuições distribuídas por todo o território, alguns alunos terão que se deslocar das suas casas para con nuar a estudar. A garan a de alojamento ins tucional para os alunos do primeiro ano que o pretendam é uma prá ca tradicional noutros países mas que ainda não é habitual em Portugal. Esta prá ca contribuiria para anular boa parte da inseguran- ça e da incerteza naturais nas famílias e nos candidatos que, para con nuar a estudar, terão que viver longe da residência habitual (muitas vezes pela primeira vez). Esta prá ca não constrangeria os apoios da ação social, pois não se trataria de garan r alojamento subsidiado (que con nuaria a ser afetado aos estudantes mais carenciados, como habitualmente), mas seria uma plataforma de segurança e apoio no primeiro ano de vida académica dos jovens que o desejassem. Uma colaboração entre IES, autarquias e empresas poderia contribuir para melhorar o ‘mercado’ de residências académicas com bene cios para todos os envolvidos.
A comunicação constante entre empresas e ins tuições locais, numa tenta va de adaptação perma- nente da oferta forma va às principais necessidades dos empregadores, poderia potenciar a procura de formação de base e avançada, mas também a empregabilidade das formações superiores. Cul var o sucesso das IES alentejanas em termos de empregabilidade seria uma forma de mul plicar os seus efeitos posi vos nas comunidades locais e, simultaneamente, alargar o raio de atração a outras regiões.
Finalmente, as ins tuições de ensino superior alentejanas poderiam ser muito mais a vas no apoio que prestam aos seus alunos (na adaptação à vida académica e na preparação para a entrada no mer- cado de trabalho – se a experiência dos atuais alunos for posi va, cada um pode atrair candidatos futuros), na promoção da região em que se inserem, na divulgação da sua oferta e dos resultados da sua formação e inves gação. Deviam incen var a comunicação constante com os decisores polí cos (naturalmente muito mais próximos da vida académica da capital), apostar na criação e ajudar na sus- tentação de ‘embaixadas académicas regionais’, que divulgassem as vantagens das IES da região. Estas teriam como missão evitar o êxodo dos estudantes locais para ins tuições de outras regiões e, simulta- neamente, aumentar a atra vidade das ins tuições locais para candidatos externos.
Poucas regiões podem oferecer aos estudantes universitários condições de segurança, qualidade e acessibilidade geográfi ca a preços tão baixos como o Alentejo. No entanto, as IES aqui localizadas parecem ainda rela vamente acomodadas ao modelo anterior, no qual os alunos procuravam as ins - tuições, aparentemente alheadas da imperiosa necessidade de u lizar técnicas de marke ng robustas e efi cientes, tão naturais em qualquer outro ‘mercado’.