3 DISCUSSÃO TEÓRICO-EPISTEMOLÓGICA INTERDISCIPLINAR DO CONCEITO DE
3.3 DIFERENCIANDO AMBIGUIDADE DE OUTROS CONCEITOS
Para compreender a ambigüidade como fenômeno discursivo é importante também diferenciar a ambigüidade de outros fenômenos como: dualidade, dicotomia, contradição, ambivalência, divalência e dissociação. Ao compreender o funcionamento destes outros fenômenos compreende-se a dinâmica da ambigüidade nas relações sociais. Estes termos estão relacionados à dinâmica da ambigüidade, pois as ambigüidades se tornam ambivalências, divalências, paradoxos, dicotomias, etc. Os movimentos na dinâmica grupal podem ser de discriminação e indiferenciação, ou seja, se alteram os sentidos expressos nas práticas discursivas do grupo. Analisando as mudanças e fronteiras é possível encontrar ambigüidades que se tornam contradições, e de outra forma, conflitos e lutas de poder que se tornaram ambíguas.
As fronteiras entre diferentes sentidos que se mantêm ambíguos são zonas de tensão, que podem levar a uma dualidade, um conflito entre duas extremidades, entre dois sentidos diferentes que podem ambos ganhar centralidade no discurso. O sentido é matéria-prima da análise do discurso, e está presente nesta tensão, de onde resulta uma ambigüidade pois “o sentido está constantemente em perigo, na divisa entre o sentido e o não-sentido, entre a clareza e a obscuridade, entre o necessário e a falta, entre a unidade e a multiplicidade”.146
A diferença entre ambigüidade e duplo sentido é que a forma abstrata é duplo sentido (lingüística), e a forma material é a ambigüidade (análise do discurso). Para Ortony147 “no caso da ambigüidade a relação entre dois significados é uma coincidência da linguagem de forma que estes dois significados podem ser traduzidos em duas sentenças separadas.” Ou seja, em uma concepção de duplo sentido, quando há uma ambigüidade no discurso, freqüentemente presente em uma frase, esta frase pode ser desmembrada em outras com sentidos diferentes. O duplo
141 SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os pensadores). 142 MERLEAU-PONTY, M. Uma filosofia da ambigüidade. In: MERLEAU-PONTY, M. A Estrutura do Comportamento.
São Paulo: Martins Fontes, 2006.
143 BEAUVOIR, Simone de. Moral da ambigüidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
144 SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1978 (Os pensadores). 145 Apud WAELHENS, Alphonse de. Une philosophie de l'ambigüité. Nauwelaerts: Louvain, 1968.
146 FERREIRA, M. C. L. Da ambigüidade ao equívoco: a resistência da língua nos limites da sintaxe e do discurso. Porto Alegre: UFRGS, 2000. p. 68.
sentido é um efeito da linguagem, enquanto que a ambigüidade está diretamente relacionada ao sujeito, sua opacidade e equívocos.148 O duplo sentido é generalizável, ele fica explícito pois tanto
o sujeito do discurso quanto o intérprete reconhecem sua duplicidade.
A diferença entre ambigüidade e o sentido vago é que na ambigüidade não há falta de informação, nas sentenças vagas falta informar sobre algo. Para Todorov149 a ambigüidade se caracteriza especificamente por ser algo que está indefinido, há sempre uma vacilação, uma percepção vaga do que está sendo descrito. Entretanto Ferreira150 questiona a percepção vaga como critério para definir a ambigüidade pois para a autora é importante considerar a produção ativa do sujeito na interpretação do mundo, considerando a multiplicidade de sentidos e significados que estão presentes na percepção e significação do mundo, de si mesmo, do outro, dos discursos e dos eventos; ou seja, a ambigüidade é também uma produção ativa do sujeito e não um equívoco da linguagem. Para Ferreira151 este processo ativo do sujeito é enfatizado pois ao mesmo tempo em que o sujeito produz novos sentidos, ele reflete no discurso seu contexto social, histórico, político, ideológico, cultural e subjetivo. A ambigüidade está presente, para Ferreira,152 na própria constituição dialética do sujeito social. Assim, em uma perspectiva da análise da ambigüidade como equívoco ou duplo sentido, a ambigüidade parece ser descrita como um processo irracional, de obscurecimento do sentido “real” de um termo ou processo. A diferença entre esta concepção e a compreensão da ambigüidade como fenômeno social é o seu reconhecimento como manifestação discursiva de um fenômeno de indiferenciação vivido pelo sujeito em um determinado contexto social.153
A ambigüidade difere da ambivalência porque a ambigüidade parece querer dizer uma coisa somente mas nesta aparência de unicidade o que existem são diversas significações. A ambivalência é da ordem dos sentimentos, das emoções que se misturam entre aspectos afetuosos e hostis. A ambigüidade parece separar linguagem e discurso, enquanto que na ambivalência não há esta separação.154
Na ambivalência o sujeito percebe e discrimina os termos opostos em um mesmo objeto, onde vivência polaridades; diferente da ambigüidade, pois neste caso o sujeito não percebe que há uma oposição. Isto é particularmente importante porque na ambivalência ainda há prevalência de uma organização que diferencia os fatores envolvidos e os coloca entre extremos, a discriminação separa estes fatores. Se estes fatores estão separados em um mesmo objeto é
148 FERREIRA, M. C. L. Da ambigüidade ao equívoco: a resistência da língua nos limites da sintaxe e do discurso. Porto Alegre: UFRGS, 2000.
149 TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva,1975.
150 FERREIRA, M. C. L. Da ambigüidade ao equívoco: a resistência da língua nos limites da sintaxe e do discurso. Porto Alegre: UFRGS, 2000.
151 FERREIRA, M. C. L. Da ambigüidade ao equívoco: a resistência da língua nos limites da sintaxe e do discurso. Porto Alegre: UFRGS, 2000.
152 FERREIRA, M. C. L. Da ambigüidade ao equívoco: a resistência da língua nos limites da sintaxe e do discurso. Porto Alegre: UFRGS, 2000.
153 FERREIRA, M. C. L. Da ambigüidade ao equívoco: a resistência da língua nos limites da sintaxe e do discurso. Porto Alegre: UFRGS, 2000.
154 FERREIRA, M. C. L. Da ambigüidade ao equívoco: a resistência da língua nos limites da sintaxe e do discurso. Porto Alegre: UFRGS, 2000. p. 77-78.
ambivalência, se estão separados em objetos diferentes, denomina-se divalência. A divalência ocorre quando estas emoções contrárias são direcionadas para objetos, pessoas ou eventos diferentes.155
Bleger156 diferencia contradição e ambivalência de divalência. Para Bleger157 a contradição e a ambivalência são experienciadas pelo sujeito e ele vivência esta contradição ou ambivalência em relação a um mesmo objeto/situação. Na divalência os elementos contraditórios e ambivalentes são mantidos separados e eles se mantêm diferenciados. Espinoza158 escreveu: “Se imaginamos que uma coisa que nos faz experimentar habitualmente uma afeição de tristeza tem algum traço semelhante com outra que nos faz experimentar habitualmente uma afeição de gozo igualmente grande, a odiaremos e a amaremos ao mesmo tempo”.
Enquanto nesta ambivalência o sujeito discrimina termos opostos em um mesmo objeto, na divalência ele separa estes termos entre objetos diferentes. Se esta separação é entre opostos se caracteriza como uma dicotomia (amor pela pátria e ódio de estrangeiros), se é complementar se caracterizam como uma dualidade (mente-corpo). Enquanto que na dualidade e na dicotomia há somente dois sentidos opostos, na ambigüidade podem existir vários sentidos em jogo.
Para Bleuler159 a ambivalência pode ser afetiva (sentimentos agradáveis e desagradáveis), volitiva (quero e não quero) e intelectual (sou, não sou), e estão freqüentemente presentes dois comportamentos antinômicos em relação ao mesmo objeto (atitudes, idéias ou tendências opostas). Estes comportamentos ocorrem quando ainda não se chegou à síntese ou elaboração do conflito, ou quando reconhecer as diferenças causa angústia ao sujeito.
Para Bleger160 a divalência é anterior à ambivalência. Ela ocorre quando a apresentação dos termos contrários é alternada e separada. O fenômeno da divalência pode ocorrer no mesmo objeto, mas será percebido de formas tão diferentes, em momentos diferentes, que parecerá ao sujeito como sendo dois objetos. A ambivalência é sempre conflito, na divalência não há relação, mas separação extremada. Quando não há conflito consciente para o sujeito, não há ambivalência.
A dicotomia é, para Adorno,161 uma forma de resolver a ambigüidade, e é abordada pelo autor como sendo a personalidade autoritária. Para Adorno,162 os comportamentos e pensamentos estereotipados, que são hierárquicos e dicotômicos, como por exemplo, a cisão entre grupo interior versus grupo exterior é característica da personalidade autoritária. Segundo o autor, estes modelos de superordenações e subordinações remontam às relações pais-criança como principal fator de influência. Para o autor, o indivíduo autoritário tem dificuldade em tolerar as diferenças
155 BLEGER, José. Simbiosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. 3. ed. Buenos Aires: Paidós, 1975. 156 BLEGER, José. Simbiosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. 3. ed. Buenos Aires: Paidós, 1975. 157 BLEGER, José. Simbiosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. 3. ed. Buenos Aires: Paidós, 1975. 158 ESPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. Parte II, Proposição 18. p. 137.
159 BEULER, Eugenio. Demência precoz: El grupo de lãs esquizofrenias. Buenos Aires: Hormé, 1993. p. 15. 160 BLEGER, José. Simbiosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. 3. ed. Buenos Aires: Paidós, 1975. 161 ADORNO, T. W. The authoritarian personality. New York: Harper & Row, 1950.
individuais, além de sobressaírem outras características como: opiniões rígidas sobre valores convencionais, uma hostilidade generalizada em relação a outros grupos, intolerância e ambigüidade, assim como atitudes submissas em relação a figuras de autoridade. “A famosa fórmula de Hitler, Verantwortung nach oben, Autorität nach unten , (responsabilidade para com os de cima, autoridade para com os de baixo) racionaliza bem a ambivalência deste caráter”.163
Por meio da identificação, alguns indivíduos tendem a se submeter ao conjunto de crenças de um grupo mesmo que isto signifique a perda de seu próprio ideal, fazendo com que funda suas ações em valores externos e se torne invariavelmente intolerante à diferença, defendendo posições extremas.164
Se a personalidade autoritária é intolerante às diferenças, suas estratégias para evitar o reconhecimento das diferenças podem ser múltiplas, utilizando a ambigüidade como forma de indiferenciação e de negação das diferenças individuais, grupais e das próprias contradições.
A dicotomia e a dissociação é a polarização extrema, é uma forma de resolver a ambigüidade colocando as diferenças nos opostos. É uma rigidez em uma das polaridades para evitar qualquer retorno à ambigüidade, à angústia da incerteza e da dúvida que a multiplicidade de sentidos traz para a experiência subjetiva e social. A polarização fixa interpretações e impede o retorno à multiplicidade de sentidos, neste caso não há contradição e sim dicotomia pois os elementos são separados e não relacionados.
As contradições se manifestam por meio da ambigüidade. As tensões das contradições e das ambigüidades em Benjamin são analisadas por Paula165 pontuando como algumas características se tornam predominante sobre outras, como por exemplo, a vivência sobre a experiência, o esquecimento sobre a memória, o passante sobre o narrador, mas que possibilita o desprendimento da história vista como linear, contínuo, homogênea e vazia, superando seu sentido de univocidade.
A relação entre ambigüidade e dialética está presente no debate de Benjamin acerca da tensão entre a transformação e a reprodução das contradições que o homem moderno sofre a partir das relações sociais esvaziadas de sentido nas metrópoles, da perda de memória e de vínculos com sua história passada.
O sujeito passa a ser duas figuras distintas e até mesmo contraditórias, estando dentro e fora da cena na qual vivência seu contexto sem que tenha consciência de si mesmo ou de seu contexto, como um sonho, gerando uma ambigüidade existencial para este sujeito ausente. Para Bolle166 a imagem dialética está imbricada à imagem onírica:
163 ADORNO, Theodor W. The authoritarian personality. New York: Harper & Row, 1950. p. 178.
164 ADORNO, Theodor W. A teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista. Revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, n. 7, p. 164-190, 2006.
165 PAULA, Fátima de. Tensões e ambigüidades em Walter Benjamin: a modernidade em questão. Revista Plural, n. 1, p. 106-130, 1994.
166 BOLLE, Willi. O arcaico e o moderno na obra de Walter Benjamin: a metrópole como espaço imagético. Revista do
NAEA, n. 55, jan. 1996. p. 16. Disponível em: <http://www.ufpa.br/naea/gerencia/ler_publicacao.php?id=128>. Acesso
A ambigüidade é a manifestação imagética da dialética, a lei da dialética na imobilidade. Essa imobilidade é utopia, e a imagem dialética é portanto uma imagem onírica. Uma imagem desse gênero é a mercadoria enquanto fetiche. Uma tal imagem são as passagens, que são ao mesmo tempo casa e rua; e também a prostituta, que é ao mesmo tempo vendedora e mercadoria.
Segundo Bolle167 em Benjamin “ambigüidade e atitude de ruptura são resgatadas como valores heurísticos, como potenciais de conhecimento dialético da sociedade, e especialmente, da mentalidade da classe”.
Paula168 pontua que pensar na perspectiva da ambigüidade e não da contradição
significa, ainda, não a busca de uma superação dialética entre aspectos contraditórios, visando a sínteses possíveis, mesmo que transitórias. Implica congelar as contradições em imagens dialéticas para extrair delas a utopia de um mundo melhor. Significa, portanto, assumir como pressuposto básico que a realidade é multifacetada e intrinsecamente contraditória, reconhecendo nas tensões do real, brechas que possibilitem interferir sobre ele, interrompendo, assim, o fluxo da história contínua e evolutiva.
Uma história que se não é interrompida leva a um progresso técnico, a um capitalismo selvagem e à barbárie, mas esta condição da modernidade pode levar a novas alternativas, “a partir de muitas dúvidas e poucas certezas”,169 a partir dos efeitos emancipatórios da técnica.
Outra diferença conceitual, entre ambigüidade e equívoco, é pontuada por Bleger.170
Segundo Bleger171 “Lalande relaciona ambigüidade, anfibolia e equívoco [...], a palavra equívoco
tem duas acepções: a) “falando de palavras ou expressões que tem vários sentidos”; b) “que pode ser explicado de várias maneiras diferentes; portanto de natureza incerta que não podem ser colocados em uma mesma espécie bem definida””.
Porém, ao falar sobre o equívoco, Bleger172 alerta que a ambigüidade é sempre definida como tal do ponto de vista do observador, que pode significar por ambigüidade o que define o dicionário:173 “Possibilidade múltipla de interpretação. 2. Falta de clareza, 3. Frase de múltiplo sentido. 4. Em gramática, anfibologia”. Porém, segundo Bleger,174 do ponto de vista do sujeito que
a expressa, a ambigüidade não é confusão, contradição ou falta de clareza, ela se caracteriza para o sujeito como uma indiferenciação, e pode ser analisada deste ponto de vista para ser compreendida como fenômeno de uma dinâmica social e subjetiva em constante oscilação de interpretações. A indiferenciação é o que caracterizaria, para Bleger,175 a ambigüidade como fenômeno diferente dos demais descritos acima.
167 BOLLE, Willi. O arcaico e o moderno na obra de Walter Benjamin: a metrópole como espaço imagético. Revista do
NAEA, n. 55, jan. 1996. Disponível em: <http://www.ufpa.br/naea/gerencia/ler_publicacao.php?id=128>. Acesso em: 02
jun 2009.
168 PAULA, Fátima de. Tensões e ambigüidades em Walter Benjamin: a modernidade em questão. Plural, n. 1, p. 106- 130, 1994. p. 107. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/ds/plural/edicoes/01/artigo_6_Plural_1.pdf >. Acesso em: 02 fev. 2010.
169 PAULA, Fátima de. Tensões e ambigüidades em Walter Benjamin: a modernidade em questão. Revista Plural, n. 1, p. 106-130, 1994. p. 114.
170 BLEGER, José. Simbiosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. 3. ed. Buenos Aires: Paidós, 1975. 171 BLEGER, José. Simbiosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. 3. ed. Buenos Aires: Paidós, 1975. p. 173. 172 BLEGER, José. Simbiosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. 3. ed. Buenos Aires: Paidós, 1975. p. 167. 173 DICIONÁRIO Sacconi da língua portuguesa. 10. ed. São Paulo: Atual, 1996.
174 BLEGER, José. Simbiosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. 3. ed. Buenos Aires: Paidós, 1975. 175 BLEGER, José. Simbiosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. 3. ed. Buenos Aires: Paidós, 1975.
O Dicionário de Análise do Discurso também define o conceito de ambigüidade considerando o observador que a discrimina, complementa desta forma a consideração apontada por Bleger, de que o observador é participante no processo de explicitação/implicitação da ambigüidade, e que esta se caracteriza pela indiscriminação de sentidos diferentes no discurso. Para Charaudeau e Maingueneau176 “a ambigüidade é um fenômeno ligado à discursivização de um enunciado. Esse fenômeno se produz sempre que uma frase apresente vários sentidos e seja, então, suscetível de ser interpretada de diversas maneiras”.
Por sua característica incerta, um discurso ambíguo impede a definição completa, por não ser bem discriminada permite a coexistência de coisas, situações que parecem aos demais ou ao sujeito mesmo como coisas indiferenciadas e duvidosas, que são “não definidas, não discriminadas e não hierarquizadas em espécies ou conjuntos”.177
Levar em consideração a ambigüidade é importante principalmente para quem se volta para o estudo das relações cotidianas, das relações vividas entre os sujeitos e como estes compartilham uma linguagem polissêmica e conotativa, com significados múltiplos, simultâneos e também com subentendidos e sentidos implícitos.
Para Bleger178 a ambigüidade é uma forma de organizar a realidade, sem reconhecer as diferenças, pois busca uma totalidade homogênea e indiferenciada, o fenômeno ocorre na dinâmica relacional como uma indiscriminação de elementos que antes eram díspares ou que podem se apresentar como conflitantes. Segundo o autor, o vazio e o maniqueísmo (mais especificamente as dicotomias) são transições na qual a ambigüidade pode passar por uma mudança na forma de organizar a realidade, discriminando os elementos contrários ou esvaziando seus sentidos múltiplos. Assim como o sujeito pode formar oposicionismos, divisões, repressões, regressões, dualismos e dicotomias por temor à ambigüidade. Esta indiferenciação não se relaciona a uma indefinição, onde o discurso deixa vago seu sentido, mas é a complementaridade e a coexistência de sentidos diferentes e até mesmo opostos, sem que o sujeito explicite esta diferenciação e sua tensão.
3.4 REFLEXÕES ACERCA DA AMBIGUIDADE DE SENTIDOS NA ECONOMIA SOLIDÁRIA