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Estou desejoso de me reformar 0,362 0,

8.6. Discussão dos Resultados

Os resultados obtidos através da aplicação da ESAR trouxeram-nos indicativos significativos que merecem aqui uma discussão.

Sendo a reforma uma conquista relativamente recente, ainda são poucos os estudos acerca das expectativas ocupacionais experimentadas por quem se aproxima da transição da vida laboral para a reforma. Justamente por isso, realizámos o presente estudo para conhecer as atitudes que surgem durante e diante de tal transição.

Nossa primeira indagação era saber se o provável aumento de tempo disponível, durante o período de reforma, despertaria uma atitude mais positiva nos futuros reformados. Sendo o aumento de tempo disponível para estar com os netos, filhos e outros familiares, para ajudá-los, para viagens e outras actividades de lazer e

para estar com o cônjuge os itens mais pontuados pelos sujeitos estudados, constatámos uma expressiva valorização do factor «tempo disponível» por parte daqueles que se aproximam do gozo da reforma.

Infelizmente, nos dias actuais, fica cada vez mais difícil conciliar o exercício profissional e o tempo disponível para actividades familiares, conjugais e/ou de lazer.

Os sujeitos que se aproximam da reforma demonstram estar ávidos por mais tempo, para uma dedicação maior às relações familiares e com o cônjuge, assim como para realizar viagens e actividades de lazer.

«O desafio da reforma é saber passar o seu tempo de forma recompensadora», recomenda Chapman (2002, p. 15). Embora o aumento do tempo disponível seja importante, caso não seja bem utilizado poderá ser problemático e desgastante.

Nosso estudo evidenciou que a prioridade dos sujeitos estudados será um maior tempo disponível para uma relação familiar e conjugal mais estreita, uma disponibilidade maior para viagens e outras actividades de lazer.

Nossos resultados endossam as palavras de Silva (2008, pp. 135-136) em sua abordagem do Saber prático de saúde no Norte de Portugal, quando escreveu:

«O envelhecimento, como identidade que se projecta para o futuro, contém a informação moderna de provável longevidade prolongada, associada à expectativa de boa qualidade de vida, nomeadamente, pelo convívio e apoio familiar e pela ideia de lazer e de viagem».

Por outro lado, neste estudo, a correlação entre a vivência da reforma e a melhoria da saúde não obteve uma boa classificação, tendo recebido a menor pontuação. Não foram demonstradas grandes expectativas de contar com uma melhor saúde durante a sua reforma. Fernandes (1998, p. 68) refere que «Portugal é dos países da U.E. 15 onde a avaliação subjectiva de saúde é mais negativa», o que nos ajuda a compreender a baixa pontuação neste item da nossa investigação. A íntima relação estabelecida entre envelhecimento e adoecimento ainda tem sido evidente no nosso imaginário sociocultural. Ainda que velhice e doença não sejam sinónimos, parecem estar tão associados ou (com) fundidos, sendo difícil separá-los e perceber que, de facto, as pessoas idosas não são necessariamente doentes ou que o envelhecimento nem sempre vem acompanhado por situações patológicas. O que há na velhice é uma maior

vulnerabilidade às doenças, mas não as doenças em si (Azeredo, 2002; Nuland, 2007; Nunes, 2008; Saldanha, 2009).

A Dimensão Vida Familiar foi a mais valorizada, obtendo a maior média, tendo, portanto, recebido a maior atitude positiva pelos inquiridos. Por mais que se fale numa crise familiar ou na dinâmica das famílias, a vida em família tem sido

prioritária para muitas pessoas, nomeadamente, para aqueles que se encontram na

chamada meia-idade e prestes à época da reforma.

A Dimensão Vida Cultural conseguiu a segunda maior pontuação, tendo deixado claro que os futuros reformados também desejam mais tempo disponível

para a prática de actividades físicas, para suas leituras e ainda para a escrita. Além

de valorizar a vida familiar, os inquiridos também pretendem vivenciar a sua criatividade, seja pela expressão corporal seja pela expressão verbal.

A Dimensão Vida Social ficou como a terceira melhor avaliada na classificação feita por dimensões, conforme as respostas dadas pelos inquiridos. Foi evidenciada a grande apreciação das viagens, actividades de lazer e das relações

interpessoais e de amizade pelos futuros reformados.

Por último, foi avaliada pelos respondentes a Dimensão Pessoal, embora alguns itens desta dimensão tenham obtido, individualmente, médias superiores a alguns itens da Dimensão Vida Social. Dentro da Dimensão Pessoal, o interesse maior está relacionado ao convívio com netos, filhos e outros familiares e a possibilidade de

lhes ajudar.

Mesmo a vida familiar sendo prioritária, o tempo disponível para viagens e

outras actividades de lazer durante a reforma teve melhor avaliação que o tempo disponível para a vida conjugal.

Logo a seguir ao tempo disponível para a vida com o cônjuge, foram bem avaliados, respectivamente, os itens referentes à facilidade para a ocupação do tempo

disponível e à libertação do stress profissional com a chegada da reforma.

O tempo disponível para a prática de actividades físicas teve média superior à obtida para o cultivo/manutenção das amizades existentes e para a leitura.

As relações interpessoais obtiveram maior pontuação que o aumento do

Na sequência, apareceu a escolha o item que refere à reforma como uma

etapa de novas oportunidades para os futuros reformados, que foi seguido pela vontade de estar reformado(a).

A disponibilidade para o estabelecimento de novas amizades foi melhor avaliada que o item de menor média no cômputo geral, que referia à melhoria da saúde

com a chegada à reforma.

Foi constatada diferença entre homens e mulheres, já que as pré-

reformadas demonstraram uma atitude mais positiva que os pré-reformados.

As mulheres também demonstraram um interesse bem maior no tempo

disponível para a leitura que os homens, não apresentando diferenças estatisticamente

significativas nas restantes actividades em relação aos géneros.

Na relação entre as atitudes face à reforma e as idades, constatámos uma

diferença estatisticamente significativa, quando considerada a Dimensão Pessoal,

pelo que podemos afirmar que quanto maior a idade, mais atitudes positivas nesta

dimensão. E que com o aumento da idade também aumenta o desejo de se reformar.

As atitudes face à reforma não apresentaram diferenças estatisticamente

significativas em função das profissões exercidas.

Numa amplitude que varia entre 30 e 100 pontos, a média verificada ficou em torno de 76%, o que indica uma atitude bem positiva diante da Reforma. Ainda que a Dimensão Vida Pessoal no global tenha obtido a menor avaliação, os futuros reformados e reformadas demonstraram altas expectativas e um certo optimismo

diante da sua passagem da vida laboral para a reforma.

Quanto às hipóteses estabelecidas para este estudo, podemos afirmar:

A hipótese 1 [Existe relação entre os géneros e as atitudes face à transição

da vida laboral para a reforma.] foi verificada, já que as mulheres apresentaram uma

atitude mais positiva face à transição para a reforma que os homens. Também a Dimensão Cultural foi mais pontuada pelas mulheres, principalmente em relação à leitura, tendo as pré-reformadas demonstrado um maior interesse que os pré-reformados pelo tempo disponível para esta actividade. De salientar que a maioria dos inquiridos

apresentava um grau de instrução elevado (licenciatura) e as mulheres predominavam entre os profissionais de Saúde e da Educação.

A hipótese 2 [Existe relação entre as idades e as atitudes face à transição

da vida laboral para a reforma.] foi verificada na medida em que quanto maior a

idade do inquirido, maior foi o desejo demonstrado pela reforma. Quanto maior a idade, mais positiva a atitude relativas à Dimensão Pessoal tratada neste estudo.

Neste estudo, a hipótese 3 [Existe relação entre as profissões e as atitudes

face á passagem da vida laboral para a reforma.] não se verificou, uma vez que não

tivemos diferenças estatisticamente significativas nas atitudes face à transição para a reforma segundo as profissões exercidas pelos inquiridos. Entretanto, é importante ressaltar que no Estudo 2, os inquiridos da área de Saúde tenham demonstrado uma perspectiva mais positiva da reforma, encarando-a mais como uma etapa da vida do que como uma penalização. O contacto diário com utentes que vão envelhecendo e passando todas as fases do ciclo vital, com vivências diferentes, pode também influenciar as suas atitudes.

A hipótese 4 [Existe relação entre as atitudes e as perspectivas futuras pós-

reforma.] foi verificada no presente estudo, já que o aumento de tempo disponível para estar com os netos, filhos e outros familiares, para ajudá-los, para viagens e outras actividades de lazer e para estar com o cônjuge foram os itens mais pontuados pelos sujeitos estudados, denotando uma expressiva valorização do factor «tempo disponível» por parte daqueles que se aproximam do gozo da reforma.

9. Estudo 2 – Da Vida Laboral à Reforma: Expectativas de