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Divisão no trabalhismo local: Executiva e ala rebelde

No documento 2006SandraMaraBenvengnu (páginas 146-151)

1. A POLÍTICA NA METRÓPOLE DA SERRA

3.3. Divisão no trabalhismo local: Executiva e ala rebelde

Apesar da demonstração clara de seu posicionamento em relação aos conflitos no PTB local, na véspera da realização da Convenção Municipal, marcada pela direção estadual do PTB para 12 de abril, onde seriam escolhidos os candidatos ao pleito municipal de outubro de 1959, o governador Leonel Brizola enviou uma mensagem a todos os membros do Diretório Municipal, “indistintamente, acima de divergências ou quaisquer desentendimentos”. Suas palavras foram no sentido de que houvesse um entendimento pelo

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O Nacional, 4 abr. 1959.

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O Nacional, 6/7/8 abr.1959.

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Diário da Manhã, 4 abr. 1959.

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caminho importante de “decisões livres, através do voto consciente e secreto”, marca histórica do partido desde Getúlio Vargas. Numa sutil referência a possíveis intransigências, disse que “não há e não pode haver qualquer humilhação em todos acompanharem as decisões da maioria”, uma vez que “quem não se submete ao princípio democrático, perde a razão”, fica sem condições de conviver entre “homens livres”. Tinha certeza, porém, que “os trabalhistas de Passo Fundo darão ao Rio Grande um exemplo de coesão e unidade, acima de tudo de amor e dedicação impessoal à causa que abraçamos”. Convocou a todos os membros do Diretório Municipal que comparecessem à reunião – que devido à gravidade da situação conflituosa do PTB local, seria presidida por João Caruso - e que prestigiassem os resultados dali advindos.524

Mas os conselhos e recomendações do governador, a quem de fato foram dirigidos, não surtiram efeito. A Convenção foi realizada e escolhidos os candidatos através do voto secreto. Para concorrer ao Executivo Municipal, foi eleito o então vice-prefeito Benoni Rosado e para o Legislativo, Wolmar Salton, prefeito em exercício; Celso Busato, advogado; Wilson Garay e Rodolfo Lara, à reeleição; o operário Odilon Soares de Lima, assim como o comerciário Ernesto Scortegagna, entre outros. Mas essa votação ocorreu, sem a presença da ala rebelde, isto é, sem a participação de Daniel Dipp e da bancada trabalhista, não havendo por essa razão concorrência para as candidaturas indicadas pela direção municipal do partido.

Apesar das ausências, realizou-se a Convenção e João Caruso, após o encerramento dos trabalhos de votação, congratulou-se com a escolha de Benoni Rosado, ressaltando o trabalho que César Santos vinha realizando “pela coesão e pujança do trabalhismo local”, elogiando também com entusiasmo sua personalidade. Sem mencionar os faltosos, mas de uma certa forma o fazendo, adiantou o apoio à direção partidária local e aos seus candidatos eleitos, tanto por parte do Governo Estadual como pelo Diretório Regional uma vez que não “reconheciam ou apoiavam dissidências do partido, cujos elementos não seriam reconhecidos como correligionários”.525

À revelia do chamamento de Brizola concitando todos à conciliação e em resposta às advertências de Caruso, numa demonstração de ruptura total, a ala rebelde liderada por Daniel Dipp organizou o Movimento de Renovação Trabalhista - MRT, “fundado para

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O Nacional, 11 abr. 1959; Diário da Manhã, 11 abr. 1959.

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apoiar o deputado Daniel Dipp”526 em torno do qual se agruparam os dissidentes trabalhistas de Passo Fundo.

Organizado o MRT, “caracterizada a cisão no PTB de Passo Fundo”, logo foram lançadas “por uma proclamação espontânea do povo” as candidaturas do industrialista Mário Menegaz e do deputado federal Daniel Dipp, para prefeito e vice-prefeito, respectivamente. Mais uma vez uniram seus nomes,527concorrendo às eleições municipais de novembro de 1959, convictos de sua vitória, por aquela nova organização política.

Paralelas às atividades eleitorais e em decorrência delas, num contra-golpe às referências de irregularidades sofridas por Dipp em relação ao Instituto do Pinho e comissão do Trigo, apontadas pela direção do trabalhismo local,528 foram transcritas pelo

O Nacional, declarações anteriormente publicadas pelo Correio do Povo de Porto Alegre,

através das quais, pela tribuna da Câmara Federal, o deputado Daniel Dipp acusava duas entidades fantasmas de Passo Fundo, de estarem se “beneficiando com auxílios e subvenções orçamentárias da União”. A primeira teria como destino o Hospital Dr. César Santos Ortiz,529 cujo nome não foi encontrado entre as instituições locais, e a segunda, a Clínica César Santos que existe “apenas no nome, pois não possui internamento de doentes, nem ambulatório para tratamento de indigentes”.530

O assunto, que já havia ultrapassado as fronteiras municipais, recebeu o repto de César Santos, segundo o qual, estaria sendo alvo de “calúnias, injúrias exifâmeas”, pois nunca havia dito nem escrito que tivesse algum hospital, assim com também, nunca havia solicitado “direta ou indiretamente a qualquer deputado subvenção para minha clínica”. A essas justificativas de César Santos, juntou-se um documento proveniente do Ministério da Saúde – Serviço Nacional do Câncer - solicitado pelo próprio -, que atestava, entre outras informações, que a Clinica de sua propriedade havia recebido a quantia de cem mil cruzeiros em 1955, e em 1958 havia sido contemplada com quatrocentos mil cruzeiros a título de Convênio, recursos esses motivados pelo “fato de vir a citada clínica dando

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O Nacional, 16 abr. 1959.

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Daniel Dipp e Mário Menegaz foram eleitos prefeito e vice-prefeito de Passo Fundo respectivamente, durante o período correspondente aos anos de 1951-1955 pelo PTB.

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Diário da Manhã, 13 mar. 1959.

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César dos Santos Ortiz, foi nomeado prefeito de Soledade em 1946 e eleito para o mesmo cargo pelo PSD no período compreendido entre os anos de 1951-1955. O Nacional, 30 jan. 1946; VERDI, Valdemar Cirilo. Soledade: das sesmarias dos monges barbudos e das pedras preciosas. Não Me Toque: Gesa-Prefeitura Municipal de Soledade, 1987. Pelas informações obtidas junto aos familiares de César Santos em Soledade, César Ortiz era primo em segundo grau de César Santos e nunca existiu no município um hospital com esse nome. Da mesma forma em Passo Fundo.

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ininterrupta assistência a cancerosos indigentes no Estado do Rio Grande do Sul, tendo prestado conta dos auxílios recebidos”.531

A fim de que ficassem devidamente esclarecidas e justificadas as razões das subvenções recebidas por César Santos, ressaltou Hugo Pinheiro Guimarães, diretor do Serviço de Câncer, que aquele departamento de saúde tinha “pleno conhecimento das muitas meritórias atividades de assistência gratuita prestada aos cancerosos pela Clínica César Santos, no correr dos anos”. As informações contidas no documento enviado pelo Ministério da Saúde, de acordo com César Santos comprovaram de forma definitiva e “irretorquível que Daniel Dipp é caluniador vulgar”.532

Mas embora as confirmações acima, através de um A Pedido publicado pelo

Diário da Manhã, César Santos não só justificou as acusações recebidas de Dipp, como

também reforçou aquelas que havia feito ao deputado:

Por enquanto, não pretendo acusar o deputado Dipp, porque quando alguém está desesperado por derrota espetacular semelhante à sofrida por ele na última convenção do PTB nesta cidade, quando está intoxicado por ódios e vingança insopitáveis, quando é incapaz de superar as próprias fraquezas, deve ser deixado ao léu de seu infortúnio. E “o fato sumamente indecoroso” denunciado na arenga do deputado Dipp, julgado o mais ineficiente deputado do Brasil pela imprensa Nacional, por certo ainda veio da s/autoria, mesma fonte inspiradora do célebre “PROJETO DO PINHO”, em que ficou tão bem representado “o tostão contra o milhão”.

E o “desvio criminoso” a que refere o famoso deputado, deve estar vinculado à vigência do tempo que ocupara a presidência da importante “Comissão do Trigo” em que proliferou a escabrosa indústria do trigo- papel e outras grossas patifarias... sob seu olhar “vigilante”.533

Embora Daniel Dipp estivesse sendo acusado de práticas irregulares na vigência de seu mandato parlamentar, conforme acima mencionamos, não ficou evidenciado na documentação consultada, fatos que possibilitassem esclarecer as acusações que vinha sofrendo, primeiramente em nome do Diretório do PTB e mais diretamente de César Santos.

Em outra oportunidade inquirido ainda sobre o assunto, reafirmando sua posição já anteriormente mencionada, César Santos disse acreditar que as verbas - que Dipp o acusava de ter recebido indevidamente do poder público -, talvez tivessem “sido consignadas maliciosamente [...], pelo próprio deputado”, pretendendo com essa atitude desviar para algum hospital fantasma, recursos específicos para a cura do câncer, tirando

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Diário da Manhã, 7 out. 1959.

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Diário da Manhã, 7 out. 1959.

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de “dezenas de cancerosos pobres, a verba que para eles é destinada”,534 invertendo o sentido das acusações. Fez então, na oportunidade, “um repto de honra” para que Daniel Dipp provasse o recebimento de alguma importância pela sua clínica, uma vez que não era ele que precisava de verbas, mas sim “os humildes, os pobres, os trabalhadores”, todos aqueles que “na sua santa boa-fé”, elegeram Dipp “no último pleito” eleitoral.535

Ao falar especificamente de suas atividades, disse César Santos que a sociedade de Passo Fundo era testemunha de sua dedicação quase integral ao “tratamento de tão terrível doença”. Assim, não conhecia festas, não participava de bailes, nem conhecia “o pano verde”,536numa alusão a jogos de cartas. Dedicava-se,

inteiramente ao estudo e à profissão que abracei. Se fiz política e nela me mantenho por injunções estranhas à minha vontade, tem sido apenas para melhor servir ao meu semelhante, àqueles que mais necessitam de quem por eles olhe.537

O assunto, pelas réplicas e tréplicas que o caso exigiu, foi tomando vulto e espaço nas páginas da imprensa local. Daniel Dipp, também lançou um desafio em resposta às acusações que lhe foram dirigidas. As palavras iniciais foram no sentido de não renovar acusações a César Santos, pelas “maldosas insinuações” sofridas, quando “pisando como gato em brasa fez ligeiras alusões ao Projeto do Pinho e à Comissão do Trigo”. Esclareceu a seguir o deputado trabalhista, que embora tenha lutado com todas as sua forças, para o êxito do Projeto e da Comissão mencionados, seus esforços foram em vão, razão pela qual convidava César Santos, a sair do campo das insinuações e entrar no “terreno das afirmações”. Para tanto, Daniel Dipp lançou um apelo “aos seus brios de homem, se é que ele é digno desse nome”, e assim comprovar algum procedimento menos digno de sua parte. Caso ficasse provado

o mínimo deslize, comprometendo minha honorabilidade, renunciarei imediatamente ao meu mandato e à vida pública, porque já não mais serei digno da confiança do povo.538

Se, entretanto, o contrário ocorrer “irei processá-lo e tentar metê-lo na cadeia - lugar, aliás, em que já deveria estar, depois das tentativas de assalto que fez às verbas do

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Diário da Manhã, 1 mai. 1959.

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Diário da Manhã, 1 mai. 1959.

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Diário da Manhã, 1 mai. 1959.

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Diário da Manhã, 1 mai. 1959.

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O Nacional, 6 mai 1959. Essa primeira publicação saiu em primeira página, sendo posteriormente editado

Ministério da Saúde”.539 As acusações trocadas entre ambos, depois da polêmica que resultou, ficou na seguinte situação: acusado formalmente César Santos fez sua defesa através de documentos comprobatórios, Daniel Dipp demonstrou através de declaração pública suas intenções a respeito da Comissão do Trigo e Projeto do Pinho, sem documentação mais consistente que fundamentasse suas explicações.

Assim é que após essa investida mais aberta e direta entre as duas maiores lideranças do PTB local que provocou uma onda de calor em pleno mês de maio, “a temperatura política caiu em virtude do frio reinante”, fazendo com que diminuísse um pouco a intensidade do borbulhante caldeirão em que se transformou a política passo- fundense.540

No documento 2006SandraMaraBenvengnu (páginas 146-151)