1 PARADIGMAS UTILIZADOS NA PRESENTE PESQUISA
1.4 Dos Fundamentos da História Oral
Pois bem, discorramos agora sobre os fundamentos da História Oral, esta que também se faz presente na pesquisa, por meio do procedimento de "entrevista".
A História Oral permite o registro de testemunhos e o acesso a "histórias dentro da História". Amplia, portanto, as possibilidades de interpretação do passado.
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FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano.3a ed. 2 vols. Rio de Janeiro: José Olympio, 1961.
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Emília Viotti da Costa, Fernando Henrique Cardoso, Stanley J. Stein, Nícia Vilela Luz, Leôncio Martins Rodrigues. (PINSKY, 2005, p. 117)
Trata-se de uma metodologia iniciada após a invenção do gravador a fita (meados do Séc. XX) e que consiste na realização de entrevistas gravadas com indivíduos que participaram ou testemunharam de acontecimentos e conjunturas do passado e/ ou do presente. Tais entrevistas são produzidas no contexto de pesquisas como a que empreendemos, e deve-se definir quantas e quais pessoas entrevistar, o que e como perguntar, bem como que destino será dado ao material produzido. (IBIDEM, p. 155)
No caso da nossa pesquisa (que se passa na década de 1960 e início da década de 1970), a grande maioria dos atores/ sujeitos6 envolvidos já estão falecidos. Os demais encontram-se dispersos ou sem que saibamos seus endereços, residências ou domicílios. Por sorte do destino, o principal ator envolvido com o nosso objeto de estudo encontra-se vivo e profissionalmente ativo, que é o Sr. Pedro Almino de Queiroz e Sousa.
Realizamos, junto a este ator/ sujeito da pesquisa, uma "entrevista" que permeia toda a extensão do nosso último capítulo, intitulado COMIDA E PODER: Análise histórica da
CNAE- Campanha Nacional de Alimentação Escolar no Ceará (1964-1972). Trata-se do
capítulo mais importante do trabalho, uma vez que adentra na parte da pesquisa stricto sensu. O trabalho com a História Oral é fundamentado em ferramentas teóricas diferentes das que normalmente são empregadas nas Ciências Humanas. Trata-se de uma metodologia interdisciplinar por excelência, pois pode ser aplicada nas mais diversas áreas do conhecimento, como na Educação (que é de onde falamos), por exemplo.
Na década de 1960, paralelamente ao desenvolvimento do gravador portátil, tornaram- se frequentes as entrevistas de "histórias de vida" com membros de grupos sociais que, em geral, não deixavam registros escritos de suas experiências e formas de ver o mundo. Era praticada por pesquisadores que identificavam naquela nova metodologia uma solução para "dar voz" às minorias e possibilitar a existência de uma História "vinda de baixo". (IBIDEM, p. 157)
Empregar a metodologia da História Oral é muito dispendioso, pois o preparo das entrevistas, o contato com os entrevistados, a gravação dos depoimentos, suas transcrições, revisões e análises leva muito tempo e requer recursos financeiros. Por essa razão, é bom ter claro que a opção pela História Oral responde apenas a determinadas questões e não é solução para todos os problemas. (IBIDEM, p. 165)
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O "Anexo C" da presente dissertação traz uma relação com 306 pessoas. São nomes que emergiram das fontes históricas disponíveis. Achamos importante disponibilizar tal relação neste trabalho, uma vez que muitos leitores certamente conhecem ou conheceram essas pessoas, podendo desta forma relembrá-las ou relacioná-las a outros contextos que não o contexto estrito da pesquisa.
No caso concreto de nossa pesquisa, a realização de apenas uma entrevista foi plenamente satisfatória para responder às mais variadas dúvidas emergidas na fase exploratória, uma vez que o personagem entrevistado praticamente participou da grande maioria dos fatos e atos históricos registrados por meio dos jornais da época, em virtude de ser o principal gestor da CNAE no Ceará, naquele momento.
Como o que se almeja ao obter uma "versão" do passado, por meio de um testemunho oral, por exemplo, é "o que se pode revelar da sua subjetividade, ou seja, muito dos anseios e lutas não visíveis, o significado de algum silêncio e/ou esquecimento de outrora" (POLLACK, 1992, p. 24), no caso da presente pesquisa essas questões foram complementadas pela entrevista realizada.
O relato oral poderá, destarte, suprimir deficiências nos documentos disponíveis, alcançar informações não registradas ou inacessíveis, compreender o contexto vivido para além das informações oferecidas pelos documentos, extrair perspectivas não oficiais. (Cf. CARDOSO & BRIGNOLI, Op. cit., p.59).
A entrevista poderá, muitas vezes, contradizer as generalizações feitas sobre o passado, o que permite a ampliação da percepção histórica e, nesse sentido, uma mudança de "perspectiva". É nesta esteira de pensamento que a História Oral permite o conhecimento de experiências e modos de vida de diferentes grupos sociais.
Assim, o pesquisador tem acesso a uma multiplicidade de "histórias" dentro da "História" que, dependendo da sua dimensão e alcance, podem até alterar a "hierarquia de significações historiográficas". (Cf. PINSKY, Op cit, p. 166)
Segundo Thompson (1988, p. 44), a História Oral
é construída em torno da pessoa. Admite heróis vindos não somente dentre os líderes, mas dentre a maioria desconhecida do povo. Traz a história para dentro da comunidade, extrai a história de dentro da comunidade. Ajuda os menos privilegiados e, especialmente, os idosos, a conquistar dignidade e confiança. Em suma, contribui para formar seres humanos mais completos.
Mas é importante, contudo, que saibamos que há problemas a se enfrentar com a opção pela História Oral, uma vez que estamos diante de uma multiplicidade de memórias fragmentadas e internamente divididas, todas cultural e ideologicamente mediadas. Então, entre gravar entrevistas e tirar delas conclusões consistentes para os campos de investigação escolhidos vai uma grande distância.
Pierre Bourdieu já chamou a atenção para a "ilusão biográfica", que se trata do fato de a
unidade do eu ser, na verdade, uma abstração. Essa ilusão dá a idéia de coerência do relato, de
coerência da identidade relatada. Uma trajetória bem definida, com projetos, intenções, acontecimentos sucessivos, uma ordem cronológica bem organizada, tudo imprimindo uma lógica retrospectiva e prospectiva preocupada em dar sentido à existência. Mas, a verdade é que o eu é fracionado e múltiplo. (IBIDEM, p. 170)
Cabe ao historiador, portanto, estar atento ao fato de significados atribuídos a ações e escolhas do passado serem determinados por uma visão retrospectiva, que confere sentido às experiências no momento em que são narradas.
A História Oral é um procedimento, um meio, um caminho para a produção do conhecimento histórico. Traz em si um duplo ensinamento: sobre a época enfocada pelo depoimento - o tempo passado -, e sobre a época na qual o depoimento foi produzido - o tempo presente -. Trata-se, portanto, de uma produção especializada de documentos e fontes, realizada com interferência do historiador e na qual se cruzam intersubjetividades, arremata Delgado (2006, p. 16).
O alicerce da História Oral é a narrativa, o que significa dizer que ela se constitui no momento mesmo da entrevista. O entrevistado, ao contar suas experiências, transforma o que foi vivenciado em linguagem, selecionando e organizando os acontecimentos de acordo com determinado sentido. Consoante descrevemos acima, é importante perceber a "ilusão biográfica", bem como as interferências das circunstâncias em que se realizou a entrevista. Muitas vezes o que o entrevistado fala depende do modo pelo qual ele percebe seu interlocutor. Quando é solicitado a falar sobre o passado diante de uma câmera poderá criar uma situação artificial, pois a narrativa oral não é associada a um registro, como o texto escrito. (Cf. PINSKY, Op cit, p. 171)
Nesse sentido, cabe destacar que desde a década de 1990, quando se aguçou ainda mais o vigor analítico da(s) Teoria(s) Crítica(s), pôs-se em questão inclusive a posição social do autor da pesquisa, a onipotência descritiva do texto científico e a transcrição objetiva da realidade. Ou seja, todos nós estamos marcados pela realidade social (pesquisadores e pesquisados).
Assim, o texto produzido ou a produzir não escapará à posição dos atores no contexto político, sendo tal objetividade (do texto escrito e provisório) delimitada pelo comprometimento dos sujeitos com suas realidades circundantes. (Cf. CHIZZOTTI, Op cit., p. 56)
Por fim, registramos aqui a importância de se preparar adequadamente a entrevista a realizar, bem como seu posterior tratamento. É importante que se faça um roteiro da entrevista, com as devidas perguntas. Deve-se ter claro que a metodologia da História Oral seja adequada à questão concreta da pesquisa, bem como que a narrativa dos entrevistados seja importante para os seus propósitos. Além disso, é preciso que o desenvolvimento da pesquisa seja factível, isto é, que haja entrevistados em condições de prestar seu depoimento.
No caso da presente pesquisa, realizamos uma entrevista7 do tipo temática, aberta, porém com roteiro semi-estruturado, o que permitiu ao entrevistado responder abertamente às questões suscitadas, com abertura para ampliar as respostas e falar sobre o que quisesse. Assim, pudemos trazer à tona algumas revelações da subjetividade do entrevistado, como anseios e lutas não visíveis nos demais documentos históricos.
Damos por encerrado o presente capítulo, no que passaremos agora à segunda parte do nosso trabalho, onde trataremos de realizar uma revisão de literatura acerca do nosso objeto de pesquisa, bem como de aproximá-lo dos contextos históricos em que se deu.
Ou seja, discorreremos sobre a História da CNAE: da criação (1955) até a véspera da gestão do general-superintendente José Pinto Sombra (1964); faremos uma exposição acerca do conhecimento sobre alimentação no Brasil até 1964, trazendo assim uma Epistemologia (teoria do conhecimento) sobre os significados dessa alimentação e; por fim, contextualizaremos o Brasil e o Ceará de então, em suas faces sócio-histórica, política e educacional.
Só depois de expormos essas revisões, epistemologias e contextos é que poderemos adentrar na parte estrita do nosso objeto de pesquisa, que será empreendida no capítulo final (capítulo 3).
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"APÊNDICE A" - Entrevista com Pedro Almino de Queiroz e Souza; Tipo: Entrevista temática; Aberta, com roteiro semi-estruturado.
2 REVISÃO DE LITERATURA E INTRODUÇÃO AO CONTEXTO