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Mapa 1 Mapa da província do Paraná, 1865

1 História da Guarda Nacional no Paraná

1.3 Elites regionais: características e agrupamentos

As elites regionais no Império brasileiro foram importantes para a formação do Estado e da nação; esses setores eram responsáveis pela união territorial e por implementar as determinações do governo geral. O peso das elites na política nacional gerou muitos debates na historiografia. A primeira reforma da Constituição, realizada dez anos após sua promulgação, delegou poder e autonomia para tais grupos, principalmente aos juízes de Paz. O ato adicional de 1834, no entanto, gerou muitas disputas pelo poder nas províncias,

35 RELATÓRIO do Presidente da Província do Paraná o conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcellos na

abertura da Assembleia Legislativa Provincial em 15de julho de 1854. Curitiba: Typhografia Paranaense de Candido Martins Lopes, 1854, p. 2.

36 O governo da Conciliação representou um período de união entre setores dos Partidos Liberal e

Conservador. Apoiados pelo imperador, que pela primeira vez elaborou instruções para o novo gabinete, o grupo reunia jovens conservadores e liberais moderados – embora sofresse com a oposição de ambos os lados, principalmente a partir de 1854. Substituindo um gabinete amplamente contestado, a conciliação representou, nas palavras parciais de Nabuco, “uma época de renascimento, de expansão, de recomeço, em que se renovou o antigo sistema político decrépito, em que se criou o aparelho moderno de governo, e se dilatou extensivamente, não para a classe política somente, mas para todas as classes, o horizonte que as comprimia” NABUCO, Joaquim. Um estadista do Império: Nabuco de Araújo, sua vida, suas opiniões, sua época, por seu filho Joaquim Nabuco. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1899, p. 176. A historiografia sobre esse período é vasta, para maiores detalhes remeto o leitor ao excelente trabalho de FERRAZ, Paulo Ribeiro. O Gabinete da

Conciliação: atores, ideias e discursos (1848-1857). 2013. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de

fazendo com que vários projetos concomitantes lutassem para assumir o controle das localidades. As revoltas mais estudadas do Império datam desse período.37

A partir do final de 1837 com a entrada em cena da oposição, os conservadores assumem o controle do país sob a bandeira da manutenção da ordem. Para cumprir esse objetivo os dirigentes promoveram várias medidas centralizadoras, sendo a principal delas a Lei de Interpretação do Ato Adicional de 1834, responsável por diminuir a autonomia provincial.

Para Miriam Dolhnikoff, a troca de comando no governo não implicou paulatina diluição do poder provincial, pois as principais decisões continuavam sob responsabilidade local, no âmbito provincial. A autora defende que essa legislação, na verdade, fora responsável por diminuir o poder das Câmaras Municipais, aumentando desse modo as prerrogativas das assembleias provinciais: “A divisão de competências definida pelo Ato Adicional não seria alterada pelo Regresso, inclusive limitando a capacidade de interferência do presidente nas decisões sobre os negócios provinciais”. 38

A visão da autora está de certa forma ligada à de Richard Graham, que defende que as elites locais, sobretudo os proprietários rurais, forjaram uma aliança com os burocratas da Corte e com o regime monárquico para manter seus interesses e a escravidão. Nessa aliança, os senhores rurais exerciam o poder de fato, apoiando a monarquia somente por seu caráter legitimador. O historiador estadunidense dilui assim a importância do monarca, oferecendo uma interpretação inovadora a respeito das elites regionais e da própria construção da nação brasileira.39

No Paraná, o grupo dirigente estava enraizado no chamado “Paraná tradicional” desde o século XVIII. O poder era exercido por troncos familiares que tinham influência e poder financeiro para controlar as Câmaras Municipais e inserir-se no universo político da

37 Para uma análise dos fatos causadores de tais revoltas, ver: MOREL, Marco. O período das regências

(1831 - 1840). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. Sobre as revoltas populares datadas desse período:

DANTAS, Monica Duarte (Org.). Revoltas, motins, revoluções: homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX. São Paulo: Alameda, 2011 (especialmente a introdução e a conclusão da coletânea, redigidos pela organizadora).

38 DOLHNIKOFF, Miriam. O lugar das elites regionais. Revista USP, São Paulo, n. 58,2003, p. 123.

39 O artigo apareceu inicialmente em inglês e foi publicado no mesmo ano numa sessão intitulada “Mesa

Redonda”, recebendo comentários críticos de Lilia M. Schwarcz e Thomas Holloway. GRAHAM, Richard. Construindo uma nação no Brasil do século XIX: visões novas e antigas sobre classe, cultura e Estado.

província de São Paulo. Na primeira legislatura o poderio desses grupos ficou evidente. O núcleo formado pelo clã dos Guimarães elegeu quase metade dos parlamentares provinciais. Os componentes dessa família dedicavam-se, em sua maioria, ao comércio da erva-mate e habitavam a capital e o litoral do Paraná, normalmente pertenciam ao quadro do Partido Conservador, dominante em 1853, tanto na legislatura provincial quanto na geral. O outro grupo era representado pela família Sá Ribas, reunidos em torno do Partido Liberal, em sua maioria oriundo dos Campos Gerais, onde atuavam como proprietários e criadores de gado vacum e muares.40

O início dos trabalhos da Assembleia provincial sofreu dois adiamentos, sob alegação de que o tempo necessário para o governo colocar em prática algumas medidas e apresentá-las aos deputados, não fora suficiente. Colaborava o fato de a maior parte dos parlamentares encontrar-se fora do Paraná, cuidando de negócios na feira de Sorocaba. O cancelamento das primeiras reuniões pelo presidente aparentemente não causou maiores problemas. Foram três sessões preparatórias até o começo das atividades, no dia 15 de julho de 1854, quando houve a formação das várias comissões, destinadas a deliberar sobre os mais diversos assuntos. O presidente Zacarias de Góes e Vasconcellos compareceu, fazendo na ocasião a leitura do primeiro e minucioso relatório da nova administração, na presença dos primeiros deputados provinciais paranaenses.41

Os encontros seguintes foram no sentido de organizar territorialmente o Paraná; os principais temas discutidos orbitaram em torno da promoção das localidades. Cada qual tencionando obter elevação de categoria. A presidência conseguiu aprovar todas as suas propostas, neste primeiro momento. Algumas com pequenas alterações, como a alteração do nome da Comarca da Marinha para Comarca de Paranaguá, proposta pelos deputados da vila litorânea.42 A única decisão a causar certa polêmica acabou sendo a confirmação de Curitiba como capital. Na terceira e última discussão o projeto recebeu 16 votos favoráveis e três contrários. Entre o trio de opositores um nome acabou tornando-se conhecido: “O sr.

40 WESTPHALEN, Cecília. Política paranaense do século XIX. Revista Paraná Desenvolvimento, Curitiba, v.

87, 1996, p. 51-63.

41 O Dezenove de Dezembro, 25 jul. 1854 (Sessão de Instalação – 15 de julho de 1854), p. 3-4. As Atas das

sessões da Assembléia provincial eram publicadas na imprensa, cerca de duas semanas após as reuniões. Para melhor situar o leitor, serão indicadas as datas originais dos encontros entre parêntesis.

[Manoel Antonio] Guimarães declarou, e requereu que se mencionasse na ata, que tinha votado contra”.43

O principal nome entre os liberais era o de João da Silva Machado, o Barão de Antonina, político de maior prestígio na antiga 5ª Comarca. Machado havia liderado a resistência legalista durante a Revolta Liberal de 1842, ademais era entusiasta e militante da emancipação política, desde a década de 1840. Como capitalista, financiara expedições exploratórias com o intuito de criar rotas de comércio entre o Paraná e o Mato Grosso, chegando a publicar os resultados da empreitada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Após a ruptura, nas primeiras eleições gerais, tornou-se o primeiro senador do Paraná.44

Interessante ressaltar que embora vivesse nos Campos Gerais e lá possuísse fazendas e outros empreendimentos, o Barão pertencia ao grupo dos Guimarães, embora não estabelecesse maiores contatos políticos com seus parentes do litoral.

Os conservadores tinham como principal nome o comendador Manoel Antonio Guimarães. Ervateiro, proprietário de engenhos de beneficiamento da erva, navios, imóveis e escravos, fora deputado provincial pela província de São Paulo, diretor de instrução pública, delegado, e oficial da Guarda Nacional. Tornou-se vice-presidente da Assembleia provincial do Paraná; após a emancipação continuou atuando na função de recrutador geral, posto herdado do governo paulista.

Durante todo o século XIX estes foram os grupos a ocupar os cargos mais altos da administração provincial. As ocupações dos parlamentares demonstravam a base da economia local: negociantes, ervateiros, tropeiros, fazendeiros e lavradores eram as mais comuns. De acordo com o estudo de Alessandro Cavassin, de um total de 187 deputados no

43 O Dezenove de Dezembro, 19 ago. 1854 (Sexta sessão ordinária de 22 de julho de 1854), p. 2.

44 Sobre a trajetória política do Barão de Antonina e sua participação no movimento legalista, ver: BORGES,

Luiz Adriano Gonçalves. Senhor de homens, de terras e de animais: a trajetória política e econômica de João da Silva Machado (Província de São Paulo, 1800-1853). 2014. Tese (Doutorado em História) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2014 (especialmente o capítulo 3). Acerca do financiamento de expedições empreendido pelo Barão, assim como a criação de aldeamentos indígenas e colônias militares, ver: WISSENBACH, Maria Cristina Cortez. Desbravamento e catequese na constituição da nacionalidade brasileira: as expedições do Barão de Antonina no Brasil Meridional. Revista

Paraná imperial, cerca de 114 eram descendentes de famílias “que iniciaram a ocupação do território ao sul de São Paulo, o que representa praticamente 61% deles”. 45

A relação de forças ia além do clã familiar. As divisões não eram facilmente detectáveis, pois envolviam o estabelecimento de parentescos consanguíneos, casamentos, apadrinhamentos espirituais e parcerias comerciais. Um mesmo grupo poderia facilmente ter representantes nas duas siglas partidárias. O simples fato de existir algum parentesco, por suposto, não extinguia rivalidades, inimizades e disputas. O mosaico encontrado pelo primeiro presidente da província paranaense era bem complexo neste ponto.

A estratégia adotada pelo “delegado da nação” foi a de abarcar em seu governo representantes de vários núcleos, independentemente da militância partidária. Essa medida surtiu efeito imediato. O governante não sofreu oposição considerável, todavia entrou em uma empreitada pessoal, almejando afastar das esferas de decisão do poder local um membro de seu próprio partido: o comendador Manoel Antonio Guimarães.