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ASSOCIATIVISMO, CAPITAL SOCIAL E MOBILIDADE

3.2. Em volta do conceito de descendentes de imigrantes

“O conhecimento do mundo faz-se por palavras. Elas dão-lhe sentido” (Pais 2005: 53), enquanto a produção científica se sustenta em categorizações da realidade, isto é, em elaboração de conceitos que nos permitem analisá-la, mas aceitando a dis- tância entre ela e o conhecimento derivado dessa abstração teórica e conceptual5. A perceção de que os conceitos traduzem um esforço de simplificação da realidade complexa e daí resultar alguma inadequação, fez-me sentir, por vezes, como estando “envolta pelo” conceito de descendentes de imigrantes, pelo que se apresenta neste ponto o raciocínio processado “em volta” deste conceito, justificando a opção tomada.

5. “Pelo conhecimento, os sujeitos assimilam a realidade aos seus conceitos e operações, construindo representações que lhes permitem acomodar-se aos objectos (…). Portanto, ao procurarmos conhecer a realidade social, vamos construindo, a respeito dela, e mediante quadros categoriais, operadores lógicos de classificação, ordenação, etc. (…) – vamos construindo instrumentos que nos proporcionam informações sobre essa realidade e modos de a tornar inteligível, mas nunca se confundem com ela” (Silva, Pinto 1986: 10). Cf. também Capítulo I, ponto 2 e Capítulo II, ponto 3.

A necessidade de nomear, através de uma categorização sociológica, os filhos de imigrantes nas sociedades de acolhimento que – desde os anos 1970, na Europa, ou anteriormente nos Estados Unidos da América – os viram chegar ou aí nascer, fez surgir várias designações, num esforço dos investigadores em criar sentidos para tornar inteligível uma realidade em mutação e passível de ser analisada comparati- vamente pela comunidade científica internacional. Estes conceitos devem ser enten- didos como conceitos-tipo ou ideal-tipo (Weber 2004: 643), ou seja, uma aproximação analítica à realidade concreta dos fenómenos sociais em estudo6.

Mas se esta aceção é partilhada consensualmente entre investigadores, a transfe- rência de conceitos científicos para a linguagem do senso comum e a sua vulgari- zação, mediada pela comunicação social, pode ter efeitos perversos (na aceção de Boudon), porque o discurso público pode objetivar como realidade algo que é fruto da problematização científica (Stanfield II 1993: 7, 11)

A categorização sociológica pode também interferir ou indiciar práticas sociais e po- líticas diferenciadoras, na medida em que:

“pour pouvoir traiter des ‘nationaux’ comme des ‘immigrés’ il faut mettre en avant l’appartenance ethnique ou nationale ‘autre’. Quoi qu’ils fassent et quels qu’ils soient, leur extranéité leur est donc renvoyée en permanence” (Minces 1986: 147).

Tal é visível no caso dos descendentes de imigrantes africanos lusófonos, que mes- mo tendo nascido em Portugal não acederam à cidadania devido à definição política da nacionalidade, ou que sendo cidadãos portugueses à luz da lei encontram-se re- legados para uma condição de estrangeiro (de “estranhos”) pelas práticas do quo- tidiano e por processos de desafiliação, nomeadamente por via de dificuldades no sucesso escolar e, consequentemente, na inserção no mercado de trabalho, fatores cuja conjugação determina maior vulnerabilidade à exclusão.

Estas situações levam alguns autores a definirem os filhos de imigrantes como es- tando “integrados mas excluídos” (Bastenier cit. in Tomasi 1992: 294) ou “assimilados

6. “O tipo ideal é uma imagem mental que não é a realidade histórica ou sequer a «verdadeira» realidade e cuja função ainda menos é servir de esquema no qual se pudesse ordenar a realidade como modelo. Tem, antes, o significado de um conceito-limite puramente ideal, pelo qual se mede a realidade para clarificar certos componentes importantes do seu conteúdo empírico, e com o qual ela é comparada. Estes conceitos são estruturas em que construímos conexões, utilizando a categoria da possibilidade objectiva, que a nossa imaginação, formada e orientada segundo a realidade, julga adequadas” (Weber 2004: 643).

culturalmente, mas não integrados socialmente nem sobretudo profissionalmente” (Wieviorka 1995: 39). Podem, assim, ser representados como excluídos, ainda que o:

“excluído [seja] um “incluído”, ou seja um membro desse movimento inces- sante da vida e da interacção social a que chamamos sociedade. (…) uma forma de estar fora, repetimo-lo, que é uma forma particular de estar dentro” (Garcia et al. 2000: 211).

As expressões “segunda geração” e “descendentes de imigrantes” têm sido as que os investigadores mais têm colocado em confronto, no contexto nacional e interna- cional. A opção por usar uma expressão em detrimento de outra(s) não é, portanto, uma mera questão terminológica, antes exigindo a reflexão sobre os conceitos utili- zados, muito embora qualquer das opções conceptuais tomadas possa extravasar a mera função de categorização analítica e induzir efeitos não desejados pelos inves- tigadores.

Foi nos EUA, no período entre as duas guerras mundiais, que se começou a utilizar a noção “segunda geração de imigrantes” para distinguir entre os imigrantes e os seus filhos (Rea 1992: 165). Na Europa, o termo que surgiu primeiro foi o de “filhos de migrantes”, enquadrado sobretudo pelos projetos do Conselho da Europa lançados a partir dos anos 1970 destinados à integração escolar destes grupos, como resultado dos processos de reagrupamento familiar e da consolidação do fenómeno imigrató- rio nos países tradicionalmente recetores de trabalhadores estrangeiros7.

Mas se tomarmos como exemplo alguma da literatura científica sobre os imigrantes portugueses em França, apercebemo-nos da ambivalência com que os investiga- dores se defrontavam para nomear este fenómeno emergente das novas gerações, oscilando entre noções como “luso-franceses”, “lusodescendentes”, “descendentes de emigrantes”, “segunda geração” (Carreira, Tomé 1994; Oriol 1982; Rocha-Trin- dade 1984b, 1985, 1986). Na verdade, quando a noção “segunda geração” é utilizada nesses trabalhos vem acompanhada da constatação da sua ineficácia para expressar a pluralidade de pertenças e a complexidade da definição identitária destes jovens e para dar conta da diferenciação vivencial – nos trajetos, nos estilos de vida, nas expectativas – entre as primeiras gerações de imigrantes e os seus descendentes.

7. Entre 1977 e 1983 esteve em ação o Grupo de trabalho sobre “Formação dos professores responsáveis pelo ensino dispensado aos filhos de migrantes”, embrião da política educativa europeia no domínio da interculturalidade (Monteiro 2001: 229).

Aliás, investigação recente sobre os lusodescendentes no Canadá aponta para resul- tados semelhantes: ambivalência identitária, que traduz uma filiação dupla, e diver- sidade de trajetórias (Oliveira, Teixeira 2004).

Sinteticamente, a noção de “segunda geração” não tem sido poupada a críticas por não traduzir corretamente, ou reduzir a uma falsa homogeneidade, a diversidade de perfis sociais e culturais e de trajetórias migratórias dos filhos de imigrantes (Car- reira, Tomé 1994: 156; Machado, Matias 2006b: 5-10; Rocha-Trindade et al. 1995: 50); por pressupor “uma espécie de reprodução social mecânica” entre o estatuto social desfavorecido da primeira geração e o dos filhos e omitir ou desvalorizar os con- trastes entre eles (Machado 1994: 120); ou ainda por conduzir à estigmatização (Rea 1992: 164).8

É neste contexto que surge a proposta de designação de “novos luso-africanos”, por oposição à de “segunda geração de imigrantes”, ao se destacar nestes grupos a ine- xistência de traços básicos das populações imigrantes como “a transitoriedade da presença e o projeto de regresso” e se salientar a presença de identidades culturais híbridas (Machado 1994: 112-113).

Outros autores têm preferido especificar o traço “negritude” para proceder à investi- gação comparativa dos processos de transição social entre jovens Portugueses com ascendência étnica diferenciada, mas estando conscientes da diversidade intrínseca ao grupo designado por “jovens negros em Portugal” (Vala 2003: 1). Ou por salien- tarem as referências cruzadas entre a negritude, a africanidade e a portugalidade na construção identitária destes jovens, onde a etnicidade é esteticizada por via das expressões culturais negras mais do que como resultado de uma pertença étnica dupla e hifenizada, que faz rejeitar a noção de “luso-africano” (Contador 2001: 19)9.

8. “Foi usual, num passado recente, designar os jovens nascidos de pais migrantes por emigrantes de 2ª geração. A designação pode não ser apropriada, contrastando os casos em que os filhos nascidos no país de origem acompanham os pais no seu percurso migratório, com o daqueles que já nasceram no país de destino e que não devem, por isso, ser tecnicamente classificados como emigrantes” (Rocha- Trindade et al. 1995: 50).

9. “A negritude é um “em construção” de significados, num agenciamento de formas culturais que celebra os valores estéticos da negritude. Estes valores estéticos não se resumem, no entanto, ao seu único território de reapresentação: um corpo negro. Neste sentido, no caso dos jovens negros portugueses, a negritude é também uma questão de narrativa – micronarrativa – onde está presente a gestão da tensão entre “o que se é” e “o que se quer ser”, a gestão da tensão entre “ser negro” e “ser português”, e entre “ser negro português” e “ser negro em geral”” (Contador 2001: 32).

Contudo, entendemos ser útil para a análise dissociar o conceito sociológico de des- cendentes de imigrantes da problemática da definição identitária. Existe já numerosa e diversificada investigação sobre este assunto, que consensualmente aponta para que as identidades – sociais, culturais, étnicas ou nacionais – são fruto de proces- sos de adaptação ao contexto social e às interações entre os grupos nesse contexto, como apontado por Contador.

A investigação tem, inclusive, confirmado a maleabilidade e o caráter estratégico da identidade social no quadro da identidade nacional dos Portugueses (Miranda 2002: 164). Pode apontar-se, também como exemplo, a crítica à larga difusão do discurso de que os jovens filhos de imigrantes vivem uma crise de identidade, porque a ele subjaz uma definição identitária rígida e assente em categorias únicas quando este é um processo flexível e intrinsecamente complexo (Albuquerque 1996; Carvalho 2005).

Deste modo, parece-nos que a reflexão sobre as identidades “luso-africana”, “portu- guesa” ou “africana” e as consequentes dinâmicas de pertença e definição à socie- dade portuguesa não invalidam a pertinência do conceito de descendentes de imi- grantes como instrumento de análise de dinâmicas sociais que extravasam a esfera identitária.

Na investigação recente encontramos o uso preferencial do conceito de descenden- tes de imigrantes, porque evita

“a particularização da geração filhos, uma vez que, no caso de um fluxo mi- gratório que se estenda ao longo dos decénios, por via de sucessivas chega- das ao país receptor, nele coexistirão filhos, netos ou bisnetos dos imigrantes de primeira geração: nesse contexto haverá lugar a considerar-se a existên- cia de um continuum de gerações, englobando imigrantes propriamente ditos e todos os seus descendentes” (Rocha-Trindade et al. 1995: 50; em negrito no original).

Esta é, também, a nossa opção, salientando que a noção de descendentes aponta para múltiplos percursos e socializações, onde o fio condutor da ligação ao passado imigratório dos pais não remete para a imutabilidade e a homogeneidade de vivên- cias. Em complemento, entende-se que a reflexão sobre este conceito é adequada e enquadra-se na análise apresentada no ponto anterior sobre a multiplicidade de traços definidores da posição que cada indivíduo ocupa na estrutura social (vd. 3.1. deste capítulo). Por outro lado, vai também ao encontro da síntese de Machado e

Matias (2006b), que apontam como necessário o cruzar de diferentes eixos analíticos para dar conta da diversidade de situações dos e das descendentes de imigrantes, tendo em atenção as dinâmicas recíprocas entre posições de classe, etnicidade, ida- de e sexo.

Os mesmos autores recorrem, também, à problematização no domínio da Sociolo- gia da Juventude, que aponta para uma diversidade de “juventudes”, salientada pe- las duas correntes predominantes: a geracional e a classista. Conforme salientado por Pais:

“Em vez de teimosamente me agarrar a uma, e uma só, destas correntes teó- ricas, o exercício a que me proponho é o de olhar as culturas juvenis a partir de diferentes ângulos de observação (…). As teorias são objectos de crença, mas em relação a elas também convém alimentar algumas descrenças – o que nos ajuda a multiplicar diferentes planos de perspectiva em relação a um mesmo objecto de análise. Por esta razão é que em relação às culturas juvenis construirei um discurso ambivalente: por um lado… por outro lado…” (Pais, 1996a: 89).

Aproximamo-nos ainda da visão de Pais quando refere que podemos “fazer um ró- tulo com a palavra “cidadania”, mas não sabemos em que realidade o pendurar” (Pais 2005: 53), e da reflexão de Bourdieu para quem a “juventude” (neste caso, os “descendentes”) não é mais do que uma palavra, na medida em que é uma categoria socialmente construída e que se reporta a uma diversidade de condições juvenis, por contraste à homogeneização que o termo juventude, ou descendentes, pode indiciar (Bourdieu 2003: 152-153).

Em suma, o nosso ponto de chegada em relação ao conceito de descendentes de imigrantes é, assim, o ponto de partida de uma análise da participação associativa que exige o olhar da pluralidade de perfis e trajetórias, sabendo que neste espaço conceptual se aconchegam realidades intrinsecamente diversas e complexas.10

10. Enfim, temos em mente que “Na definição de conceitos e na consequente fixação das designações que lhes devem corresponder, a abordagem lexicológica deve ser um instrumento auxiliar do cientista social e nunca um vector determinante. Isto é, o rigor semântico deve subordinar-se sempre a uma necessidade de clareza da designação e esta às consequências jurídicas, culturais, sociais e políticas advindas de uma dada opção lexical” (Rocha-Trindade 1993: 424-425).

4. SÍNTESE

A pesquisa aqui apresentada centra-se nas trajetórias associativas de descendentes de imigrantes africanos lusófonos em Portugal, numa perspetiva diacrónica desde o seu envolvimento até ao momento atual, para detetar os vários fatores que interfe- riram significativamente nestes percursos (tanto como fatores bloqueadores quanto facilitadores) e compreender de que modo é que as ações dos indivíduos interfe- rem nesta relação. Procedeu-se à articulação entre níveis de análise macro, meso e micro, conciliando o papel de fatores estruturais (inerentes à moldura política que define e regula as oportunidades de participação política dos imigrantes e descen- dentes), com o papel das redes sociais e dos fatores individuais, que decorrem de competências e características dos indivíduos que assumiram uma participação po- lítica ativa.

Procura-se, assim, responder à questão central de como se envolvem os indivíduos na participação política ativa, que é o mesmo que perguntar como se adquirem há- bitos e disposições a ela conducentes, ou ainda, como se aprende a participar e se exerce essa participação.

CAPÍTULO II - METODOLOGIA

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