• Nenhum resultado encontrado

3. A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

4.3. Procedimentos e instrumentos utilizados

4.3.5 Entrevistas

Visamos, por meio das entrevistas, a aprofundar os dados coletados nas etapas anteriores e a precisar os sentidos que emergiram das representações. A entrevista foi relevante, pois constituiu um momento de organização de idéias e de construção de sentidos e significados em relação ao objeto estudado.

Quanto à coleta de dados mediante entrevistas, Sá (1998) aponta para a grande difusão da noção de que o material discursivo do qual se queira extrair as representações deveria ser produzido pelos sujeitos. Corroborando esse pressuposto, Minayo (1994) considera que as entrevistas são instrumentos produtivos de discurso; por meio delas, apreendem-se idéias, crenças, opiniões, maneiras de representar o mundo, maneiras de nele atuar.

[...] a fala é reveladora de condições estruturais, de sistemas de valores, normas e símbolos – sendo ela mesma um deles – e ao mesmo tempo tem a magia de transmitir, através de um porta voz, as representações de grupos determinados, em condições históricas, sócio-econômicas e culturais específicas (MINAYO, 1994, p.109).

Pela linguagem, as representações tomam forma no dinamismo de nomeação e atribuição de sentidos o qual implica o indivíduo todo. Nesse dinamismo, ele é recriado pela própria relação com o mundo, integrando, na complexidade de facetas de seu processo identitário, a riqueza das relações grupais e intergrupais.

Ludke e André (1986) atribuem à entrevista como técnica de coleta de dados, especialmente na pesquisa educacional, grande importância em razão do seu caráter de interação. Essa relação de interação gera uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde. De acordo com as mesmas autoras, isso ocorre, em especial, nas entrevistas não totalmente

estruturadas, como a aqui apresentada, pois não se impõe ordem rígida de questões; desse modo, o entrevistado discorre sobre o tema com base nas informações que detém.

Assim, optamos pela entrevista semi-estruturada, porque – acreditamos – ela possibilita a interação que viabiliza focalizar as questões pertinentes ao objeto do estudo na perspectiva de cada participante e, ao mesmo tempo, garantir a direção do processo para obtenção das informações necessárias.

As mesmas autoras chamam a atenção também para os cuidados necessários a qualquer tipo de entrevista, pois ela envolve o respeito ao entrevistado – desde a observância do local e do horário marcado até o respeito pelo universo próprio de quem fornece as informações. Por tal razão, a fim de realizar as entrevistas, combinamos local e horário com antecedência e de acordo com as necessidades e possibilidades de cada participante. Solicitamos, inclusive, que os entrevistados autorizassem a gravação. Ficou acordado, ainda, o seguinte: depois de transcritas as falas, o participante teria acesso ao material a fim de revê-lo e até propor mudanças por ele consideradas necessárias. Após análise do material transcrito feita pelo sujeito, solicitamos que ele assinasse o termo de consentimento livre e esclarecido.

Na condução das entrevistas, iniciamos com um curto período de aquecimento e, posteriormente, solicitamos do entrevistado discorrer sobre seu percurso acadêmico e profissional. Ao mesmo tempo, encaminhamo-las com base em questões desencadeadoras, mas com o cuidado de esclarecer o contexto da pergunta.

Para os coordenadores e professores do curso, as questões desencadeadoras foram:

a) Como você vê, de maneira geral, a formação do professor de Matemática?

b) Como considera essa formação na instituição em que você trabalha? Para os alunos do curso, as questões desencadeadoras foram:

a) Como você vê, de maneira geral, a formação do professor de Matemática?

b) Você considera que está sendo preparado para ser um bom professor de Matemática?

c) O que você acha que precisa melhorar no curso em que está estudando?

Os participantes receberam a transcrição das entrevistas pelo meio combinado no momento da coleta: uns optaram pelo e-mail; outros preferiram o material impresso. No entanto, não recebemos retorno dos que optaram pelo e-

mail. Isso nos impôs outro processo de busca dos sujeitos para eles receberem

o material impresso, analisarem-no e assinarem o termo de consentimento. De qualquer forma, tal momento foi positivo, porque alguns sujeitos solicitaram modificação de alguns trechos transcritos. Só então realizamos o tratamento os dados.

Vale salientar que não conseguimos encontrar alguns sujeitos entrevistados para esse procedimento (na maioria, alunos e sete professores), porque estavam viajando ou não mais trabalhavam na instituição. Resolvemos, então, não fazer o tratamento desses dados, apesar da autorização no primeiro momento da entrevista.

Por ser a análise de conteúdo instrumento de análise das comunicações, este se mostra o mais indicado para a análise das representações sociais, porquanto viabiliza o desvelamento do sentido imerso no discurso, razão por que lançamos mão dessa técnica. Segundo Bardin (1977), a análise de conteúdo precisa ser adequada ao domínio e aos objetivos propostos, deve “ser reinventada a cada momento” (BARDIN, 1977, p. 31). Isso não quer dizer improvisação das técnicas, mas, sim, a adequação delas no sentido de adaptá- las a cada situação. Ainda, segundo Moraes (1999), trata-se de um procedimento de pesquisa para descrever e interpretar o conteúdo de toda classe de texto. Conduzindo a decisões sistemáticas, qualitativas e quantitativas, ela ajuda a reinterpretar as mensagens e a atingir a compreensão de seus significados em nível além da leitura comum.

Assim, como a análise de conteúdo pode ser aplicada a muitos materiais, permite abordar grande diversidade de objetos de investigação: atitudes, valores, representações etc. Em sua evolução, na busca para atingir os significados explícitos e implícitos no material qualitativo, várias técnicas de análise de conteúdo têm sido desenvolvidas, como, por exemplo: análise categorial, análise de avaliação, análise de enunciação, análise de expressão, análise do discurso

etc. Nesta pesquisa, utilizamos a análise categorial/temática como fundamento, a qual funciona nas operações de desmembramento do texto em unidades, ou seja, em categorias segundo reagrupamentos semelhantes.

A categorização, conforme Bardin, “é uma operação de classificação de elementos constituídos de um conjunto, por diferenciação e seguidamente, por reagrupamento, segundo gênero, com os critérios previamente definidos” (1977, p. 177). Os critérios podem ser:

Semântico – todos os termos que tenham os mesmos significados são agrupados em uma só categoria; sintático – os verbos e os adjetivos; léxico – classificação das palavras segundo o seu sentido, com emparelhamento dos sinônimos e dos sentidos próximos; expressivo por exemplo categorias que classificam as diversas perturbações da linguagem (BARDIN, 1977, p. 118).

Nesse sentido, agrupamos os elementos, idéias e expressões em torno de um conceito que abrangesse tudo. Como orienta Bardin (1977), trata-se de um processo de classificação de elementos que pertençam a um grupo por diferenciação e, posteriormente, por reagrupamento, segundo semelhança ou analogias. Tais elementos, no caso do presente estudo, definimo-los durante o processo da associação livre. Quanto ao critério, utilizamos o semântico, ou seja, categorias de natureza temática.

No processo de preparação das entrevistas, procedemos à leitura exploratória e sistemática de cada protocolo, destacando, numa coluna ao lado das verbalizações, os aspectos relevantes e pertinentes ao objeto de estudo, a fim de realizarmos recortes sobre as informações pertinentes a serem analisadas. A partir desse procedimento, pudemos iniciar o processo de codificação, em que analisamos os dados com base na relação entre as palavras presentes no discurso dos sujeitos para a construção das classes, as quais foram transformadas em unidades que permitiram a descrição de suas características pertinentes e constitutivas. Trabalhamos com o tema como unidade de análise.

Na concepção de Bardin (1977), entende-se o tema como unidade de significação que emerge de um texto analisado segundo certos critérios relativos ao problema de pesquisa e a pressupostos teóricos. É muito usado como unidade de registro para o estudo das representações, opiniões, atitudes, valores

etc. Assim, na etapa conhecida como análise temática, buscamos identificar núcleos de sentido.

Delimitada as unidades, procedemos à codificação das verbalizações e, posteriormente, à categorização dos dados que emergiram em cada unidade de análise.

Concluída a definição das categorias, iniciamos a etapa posterior do processo de análise de conteúdo: o tratamento dos dados. Após a leitura das entrevistas, realizamos a nomeação e a construção de quadros de leituras de acordo com o grupo de entrevistas que íamos analisando. Nos quadros de análises das entrevistas, estão retratadas as categorias, a descrição das categorias, o recorte das verbalizações e a identificação dos sujeitos. Definidas as categorias e identificado o material constituinte de cada uma delas, foi-nos possível escrever o capítulo dos resultados. Para cada uma das unidades de análise e suas respectivas categorias, produzimos um texto descritivo do conjunto de significados decorrentes da análise dos dados, utilizando-se citações diretas dos dados originais. Após descrição de cada unidade apresentamos a inferência nomeada nos resultados como reflexões decorrentes da análise.