CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOCUMENTAL
4.3 Esclarecendo conceitos e perspectivas
Outras prefeituras também vêm divulgando oferecimento, em algumas de suas escolas, de educação bilíngue para surdos em turmas mistas (surdos e ouvintes estudando juntos), como em Vitória, no Espírito Santo,140 Campinas, em São Paulo,141 ou na rede municipal de ensino na cidade do Rio de Janeiro, cuja escolarização de surdos será analisada, em maiores detalhes, mais à frente nesta tese.
Para essas unidades, geralmente denominadas de Escolas-Polo Bilíngues ou Escolas-Piloto Bilíngues, as Secretarias de Educação capacitam profissionais da rede e contratam outros (Professor bilíngue, Intérprete e Instrutor Surdo), procurando criar condições e implementar ações para que os estudantes surdos aprendam LIBRAS e entrem em contato com a língua portuguesa escrita a fim de que consigam participar das atividades pedagógicas e acompanhar, da melhor forma possível, as aulas de todas as disciplinas ministradas nas turmas regulares. Além disso, oficinas e cursos de LIBRAS
139 Informações obtidas em http://www.fortaleza.ce.gov.br/noticias/educacao/prefeitura-de-fortaleza-cria-
primeira-escola-municipal-bilingue-para-surdos, endereço acessado em 04/02/2014.
140 A experiência de Vitória é divulgada pelos seguintes sites (entre outros), acessados em 05/02/2014:
http://jornais.fivepress.com.br/eshoje/201206011200/PDF/Edicao386net00024.pdf e
http://www.vitoria.es.gov.br/seme.php?pagina=ensinodelibras.
141 Informações sobre as Escolas Polo de Educação Bilíngue em Campinas foram fornecidas à pesquisadora, por e-mail, pela diretora da escola Julio de Mesquita Filho, Profª Luzia de Cássia Betti, e complementadas por SOFIATO (2013).
são disponibilizados para a comunidade escolar, incluindo as famílias dos estudantes, visando maior aproximação entre surdos e ouvintes.
Trata-se, como se pode ver, de iniciativas inclusivas, que apesar das tensões e resistências encontradas e dos desafios que ainda se colocam para a efetivação plena dessa proposta, representam avanços importantes em relação à realidade educacional e social (e, portanto, política) vivida pelas pessoas surdas em períodos anteriores. No caso de Campinas, por exemplo, onde um trabalho seguro e bem embasado parece estar sendo desenvolvido, a diretora informa que...
...até o presente momento [novembro de 2013] o poder público municipal – exceto pela criação da matriz curricular para a Escola Bilíngue – não oficializou a condição da escola através de portarias e acertos administrativos necessários, tais como orientações e diretrizes para atribuição de aulas e vida funcional dos professores bilíngues, intérpretes de Libras e instrutor surdo, bem como o reconhecimento das atividades da escola bilíngue como política pública.
Ainda assim, acrescenta que “hoje, os resultados pedagógicos são positivos, e a cada ano percebemos avanços no trabalho como um todo”.
Entretanto, faz-se necessário salientar que, ao nomear o ensino nessas instituições como “bilíngue para surdos”, pode-se entrar em colisão com algumas das maiores demandas da comunidade surda politicamente engajada em todo o território nacional em relação à sua educação.
De fato, essas duas tendências, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva e o Movimento Surdo pela Escola Bilíngue, por fazerem uso frequente de termos em comum, como inclusão e educação bilíngue para surdos, podem parecer, à primeira vista, defender orientações e ações semelhantes com propósitos similares. No entanto, quando examinadas mais de perto, revela-se que os sentidos atribuídos a esses conceitos e aos sujeitos que neles se encaixam diferem substancialmente entre si e, consequentemente, resultam em modelos distintos, com orientações, posturas e ações divergentes.
A Política, que engloba os surdos na categoria das pessoas com deficiência, entende como inclusão a garantia de acesso desses alunos ao mesmo espaço físico que os alunos ouvintes, em todos os níveis, prevendo ações da Educação Especial
nomeadas como eficazes no sentido de adaptar o ensino na sala de aula às suas necessidades especiais, e oferecendo atividades complementares, em LIBRAS e em Português, em ambiente exclusivo, nas Salas de Recursos.
Já o Movimento, fundamentado na concepção de surdos não como deficientes, mas como pessoas com uma diferença linguística que resulta, também, em diferenças culturais e identitárias, postula que sua escolarização seja feita em turmas ou escolas de surdos, com base nos estudos da área de Educação de Surdos. Tais escolas seriam incorporadas ao Ensino Regular (em oposição ao Especial), em horário integral, com todas as aulas conduzidas em língua de sinais e através de uma lógica da visualidade por profissionais bilíngues surdos e/ou ouvintes, objetivando o mesmo nível de resultados, em termos de desenvolvimento identitário, cognitivo, intelectual, emocional e global atingido pelos ouvintes, e propiciando, como impacto dessa política, a inclusão dos surdos no mundo social e no mundo do trabalho.
Essas unidades seriam escolas inclusivas, uma vez que estariam abertas a estudantes com surdocegueira e surdez e outros comprometimentos ou disfunções, com os quais a instituição estaria preparada para trabalhar, por meio de ações articuladas, nesse caso, com a Educação Especial, mas também organizadas dentro dos princípios propostos pela referida política linguística bilíngue e bicultural.
Quanto à organização do processo educacional bilíngue, a Política entende que um conhecimento básico da LIBRAS por parte do professor da turma e dos alunos ouvintes, proporcionando a possibilidade de comunicação social com os surdos, somado à uma conscientização desses docente das diferenças linguísticas, à flexibilização do currículo, à adaptação de materiais e à presença de um intérprete na sala de aula para a tradução para a língua de sinais dos conteúdos pedagógicos pode, em conjunto com o trabalho realizado na Sala de Recursos, garantir o sucesso da educação formal dos estudantes surdos em qualquer fase de seu processo de escolarização.
O Movimento, em contraste, pleiteia que se siga o Decreto 5.626/2005, em seu art. 22 do capítulo VI, diferenciando-se os anos iniciais da escolarização dos anos finais, e respeitando-se as necessidades de cada etapa do desenvolvimento dos educandos. Assim, na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental, defende que a educação de surdos seja conduzida por docentes bilíngues,
prioritariamente surdos, de forma que a LIBRAS seja efetivamente a língua de interlocução entre professores e alunos e responsável por mediar os processos escolares, assegurando a aquisição e o desenvolvimento da linguagem, garantindo a possibilidade de uma base educacional sólida em uma língua acessível a todos, e permitindo um gradativo e crescente contato com a língua portuguesa como L2 a partir dos conhecimentos construídos em língua de sinais.
Já para os anos finais do Ensino Fundamental, para o Ensino Médio, para a EJA e para a Educação Profissional, o Movimento, ainda apoiado no Decreto, admite que a educação de surdos, além de ser realizada em escolas ou turmas bilíngues para surdos, possa ser conduzida também, em escolas regulares, desde que os alunos já dominem e continuem a estudar sua L1 e o Português como L2, e os professores, caso não sejam proficientes em língua de sinais, reconheçam e trabalhem de forma condizente com as singularidades linguísticas, culturais e identitárias das pessoas surdas, estabelecendo uma parceria efetiva com Tradutores-Intérpretes de LIBRAS devidamente preparados para o trabalho em sala de aula e para a tradução de materiais literários, didáticos e paradidáticos para a LIBRAS sempre que necessário.