5 Resultados e discussão
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.2 EXPRESSÃO ORAL E ESCRITA DA CRIANÇA: ANÁLISE DO DISCURSO E DA EXPRESSÃO TEXTUAL DAS CRIANÇAS ENQUANTO SUJEITOS ENVOLVIDOS
5.2.2 A escola nos casos de bullying
Nas transcrições da turma multisseriada do encontro 8, observa-se também uma certa empatia das crianças com o caso de vitimização reportado pela pesquisadora, no entanto, prevalece nelas a curiosidade pelo desfecho da história e o interesse em problematizar o assunto, propondo hipóteses para ajudar a vítima da história a combater o bullying. Ainda em Santos et al. (2017), encontra-se uma explicação plausível para tal fato, visto que para a autora a empatia seria também o veículo que nos leva a perceber o que os outros necessitam. Na transcrição abaixo, pode-se observar a empatia das crianças em relação aos personagens do texto escolhido para o encontro.
Episódio 8 – Grupo 2 – Quarto encontro
CRIANÇA 23 - Parece que se eu fosse ela eu ia esperar eles saírem pra não debochar e ajudar ele.
PESQUISADORA - Por que tinha que esperar sair?... Ela não podia fazer nada? CRIANÇA 20 - Eu ia esperar sair e ia cortar as cordas bem rápido.
CRIANÇA 14 - Eu também.
CRIANÇA 20 - Ou ela podia contar pra professora?
CRIANÇA 21 - Mas vai que no outro dia ia fazer isso com ela? CRIANÇA 20 - Mas ninguém ia saber que foi ela que contou CRIANÇA 19 - E se a diretora falar que foi ela que foi lá?
CRIANÇA 20 - Mas não ia acontecer nada, se não ela contava de novo (falando mais baixo).
CRIANÇA 12 - Porque ela ia falar.
Além de demonstrar a intensão de solucionar o problema do personagem da história no trecho acima, quando a CRIANÇA 21 disse “mas vai que no outro dia ia fazer isso com ela?”, no restante do diálogo ela demonstrou, claramente, a ocorrência do bullying no ambiente escolar. Isso porque o que essa fala retratou foi a situação do observador, espectador, testemunha, as quais
presenciam as ocorrências de bullying, mas acabam não se manifestando ou denunciado o que veem ou por medo de se tornarem as próximas vítimas, ou ainda, em função da ausência de sensibilização para com o outro diante de posturas individualistas (FRANCISCO; 2013, p. 66).
É possível perceber ainda, na fala de CRIANÇA 19, que a experiência ao relatar algum tipo de conflito acabou resultando em retaliação. Catini (2004) aponta que um dos motivos da subsistência do bullying é o medo da retaliação que vítimas e espectadores sentem ao serem descobertos relatando agressões sofridas ou assistidas.
Dentre as justificativas que podem ser consideradas para manutenção do comportamento de “bullying” estão o “medo de retaliação pelos agressores” e a “dúvida de que os professores sejam capazes de resolver o problema”, conforme respostas obtidas no estudo sobre “ijime” ao questionamento sobre as “razões pelas quais os estudantes não falam sobre o problema com seus professores”... Desta forma, o processo de vitimização pode acontecer por muitos anos, sem que adultos tomem conhecimento de sua existência, bem como de seu significado para o desenvolvimento das crianças (CATINI, 2004, p. 14).
A frase de CRIANÇA 19 remete à relação dos professores nos casos de bullying na escola. Muitos autores relatam a ineficiência, pelo despreparo ou pelo descaso, destes profissionais nas ações contra a vitimização (CATINI, 2004; ARAÚJO, 2011; NASCIMENTO, 2009; LISBOA; BRAGA; EBERT, 2009; FRANCISCO; LIBÓRIO, 2009; FRANCISCO, 2013).
[...]nem sempre os professores tomam iniciativas no enfrentamento das situações de
bullying quando solicitados pelas crianças, muito mais por falta de conhecimento do
que por omissão. É fato que os professores no dia-a-dia das escolas muitas vezes são chamados a toma decisões de forma imediata, fazendo com que os mesmos não tenham tempo hábil para entrar num processo de reflexão sobre sua ação (FRANCISCO, 2013, p. 769).
Os professores, frente a casos de vitimização, muitas vezes se calam e continuam ministrando suas aulas, havendo somente reações diante de agressões físicas, afirma Nascimento (2009). E mesmo tendo como ambiente mais frequente para as práticas de
bullying, a sala de aula e o pátio da escola, onde professores e funcionários estão presentes,
elas ocorrem de maneira velada, principalmente quando estes profissionais desconsideram a relevância da situação (ARAÚJO, 2011; RECH et al., 2013).
Os escolares apontaram os professores como os maiores culpados pelos casos de
bullying, e quanto aos locais de maior ocorrência, o pátio da escola e a sala de aula
foram os mais prevalentes. [...] possivelmente, a culpa atribuída aos professores esteja relacionada com o local de acontecimento (sala e pátio), onde eles se encontram, e talvez os estudantes não os enxerguem como agentes atuantes no sentido de prevenir ou reduzir as práticas de bullying (RECH et al., 2013, p. 169).
Analisando os textos produzidos neste encontro, foi possível detectar que nenhum estudante, ao expressar sua opinião sobre o tema, mencionou que procuraria alguém da escola, zeladora, professora ou diretora, para relatar que é vítima de bullying. Dessa forma, observou-se que mesmo após a discussão do tema, tendo a pesquisadora questionado e refletido juntamente com a turma sobre a questão da confiança nas figuras que representam a regulamentação e a ordem na escola, as crianças continuam a considerar que não seriam essas figuras as melhores opções de ajuda para solucionar o bullying na escola.
É possível, ainda, observar que estudantes sugerem punições mais severas, no sentido de oferecerem maior sofrimento e humilhação ao agressor, como tarefas de limpeza e manutenção da escola e até mesmo castigos físicos.
Figura 8 - Texto produzido pela CRIANÇA 22 - Terceiro encontro - Grupo 2
No texto abaixo, quando o estudante escreve que “não pode apelidar os amigos e principalmente as professoras”, nota-se que ele acredita que “as professoras” estão numa categoria diferente das demais pessoas da escola. O motivo para essa crença por parte dos estudantes tem origem, segundo Vinha e Tognetta (2006), nas atitudes autoritárias e controladoras dos professores.
Figura 10 - Texto produzido pela CRIANÇA 19 - Terceiro encontro - Grupo 2
Sobre essa questão, Vinha e Tognetta (2006) destacam que:
Observou-se a necessidade de um controle demasiado por parte da professora, que demonstrava querer legislar sobre quase tudo. Os educadores pretendem determinar como os estudantes devem se vestir (bonés, adornos, cor de tênis e calças, estilo, etc.), como devem se comportar (postura, local das mãos, se podem ou não chupar balas ou comer uma bolacha na classe, permanecer sentado, não falar, fazer filas, etc.) e como usar os materiais (pular linha, lápis, caneta azul, etc.). Ficam atentos às menores “transgressões”, considerando quase tudo como “desrespeito” à figura do professor (VINHA; TOGNETTA, 2006, p. 47).
A questão da postura do professor surgiu na turma do terceiro ano também, mas nesse caso, o ponto principal foi a maneira agressiva como alguns profissionais se portam diante de situações em que são desafiados. Nesse sentido, considera-se que, mesmo que inconscientemente, o professor como único detentor do conhecimento, figura central numa sala de aula, pode estar oferecendo pouco estímulo à autonomia e à interação entre os estudantes na sala de aula, exigindo e cobrando com rigor a postura e o silêncio (RAMOS; VINHA; TOGNETTA, 2014).
Episódio 9 - Grupo 1 – Quinto encontro
CRIANÇA 6 - Daí eu dei um soco na cara dele aí ele nunca mais me irritou. CRIANÇA 7 - Deu um soco na cara de quem?
PESQUISADOR - O que você tava falando CRIANÇA 9?
CRIANÇA 9 – É é CRIANÇA 6 eu sei como que é mesmo ser irritada, que eu me irrito até com a profe.
…
CRIANÇA 1 - Eu também me irrito!!
PESQUISADOR - Por que você se irrita com a professora? CRIANÇA 1 - Ela grita nas orelhas da gente.
CRIANÇA 9 - Mas a professora não, essa daqui não. CRIANÇA 1 - Eu tô falando da ….
PESQUISADOR - uuuh
CRIANÇA 4 - Não fala mal dela. PESQUISADOR - Não é legal? CRIANÇA 9 - Não muito.
Neste trecho da discussão, o papel do professor foi identificado, não somente como omisso, mas também como agressivo. O que para Tognetta e Vinha (2008), não representa um caso isolado, visto que relação professor/estudante, nos casos de bullying, tem sido tema recorrente em suas pesquisas. As dificuldades que se apresentam a esse respeito se referem a agressão, como a relatada pelo estudante, que pode humilhar o sujeito e abrir as portas para a vitimização por parte dos colegas (TOGNETTA; VINHA, 2008).
A verdade é que muitos professores não aceitam o que para eles é um desafio a sua autoridade em sala de aula e, na ânsia de reter o controle, acabam cobrando o respeito demasiado com normas que para os estudantes são desnecessárias. Com essa atitude, eles deixam passar queixas reais de violência que comprometem a convivência em sala de aula, a aprendizagem, entre outros vários fatores adjacentes (VINHA; TOGNETTA, 2006).
Na maioria das vezes, os professores desconfiam do diagnóstico positivo de vitimização na escola em que atua, pois não acreditam que exista um problema relacional tão escondido quanto aqueles que encontramos ao investigarmos. Crochík (2012) reforça a ideia de que estudantes, pais e professores não sabem distinguir entre bullying e outros tipos de violência, além do fato da vítima, raramente, denunciar as agressões por vergonha ou medo (TOGNETTA; VINHA; ÁVILES, 2014; CROCHÍK, 2012).
Talvez o educador sequer saiba as características que deveriam ser observadas nas relações que poderiam caracterizar-se bullying e entenda tal situação como uma “simples brincadeira”. Assim sendo, não é por acaso que o bullying se constitui um grande problema para as escolas. De um lado, professores que desconhecem o fenômeno, suas características e intervenções docentes e, do outro, crianças e adolescentes que sabem das regras de respeito e tolerância dentro do ambiente escolar e que não as cumprem (TOGNETTA; VINHA; ÁVILES, 2014, p. 317).
Durante as horas de observação no pátio da escola, foi possível à pesquisadora observar que muitas coisas acontecem diante dos olhos de todos os profissionais da escola. Mesmo quando aconteceu algum fato que pode ser caracterizado como bullying, principalmente na hora do recreio, foi banalizado pelos profissionais que são responsáveis pela ordem no pátio escolar.
Em uma das observações, uma zeladora relatou para as professoras a agressão dos meninos da turma multisseriada (4º e 5º anos), com o estudante CRIANÇA 13. Segundo a zeladora, eram diárias as agressões que esse estudante sofria, mas naquele dia eles queriam enfiar a cabeça do colega na privada do banheiro, então ela considerou muito violento e relatou para as professoras.
Para os profissionais que estão em contato diário com as crianças e adolescentes, pode ser complicado apontar alunos envolvidos com os casos de vitimização, o que pode ser um dos motivos das atitudes supracitadas. O bullying não pode ser resumido como uma forma de preconceito, visto que envolve tantos outros detalhes acerca dos sujeitos envolvidos e do ambiente no qual estão inseridos, do que tão somente algumas características individuais. Trata-se de uma dinâmica psicológica profundamente sistemática que confunde os profissionais que atuam diretamente com crianças e adolescentes na área da educação (TOGNETTA; VINHA; ÁVILES, 2014).
Porém, é importante ressaltar que quem atua diretamente nas escolas não pode confundir bullying com brincadeiras saudáveis que estimulam o convívio social, considerando-as como normais. O que, de fato, demonstra ser imprescindível que professores, pedagogos, diretores e demais profissionais que atuam nas escolas estejam atentos às situações de bullying e preparados para agir quando necessário e da maneira correta (LISBOA; BRAGA; EBERT, 2009).
A diferença, para observadores externos ao grupo de pares, entre o bullying e as brincadeiras de crianças, às vezes, é muito tênue; pode ser sutil ou imperceptível, mas não menos grave. No entanto, quando há sofrimento, de qualquer um dos envolvidos, não é mais uma brincadeira entre amigos (LISBOA; BRAGA; EBERT, 2009, p. 61).
As instituições escolares e os profissionais envolvidos, a despeito de pretenderem, realmente, auxiliar para que as causas e efeitos da bullying sejam minimizados, acabam por reforçar a violência e a submissão versus poder, quando impem regras e sansões de maneira
autoritária e inflexível (RAMOS; VINHA; TOGNETTA, 2014). Porém, a atitude passiva frente à situação também não é a postura mais adequada a ser tomada.
5.2.3 Resiliência
Em todas as histórias havia em comum, além do bullying, a capacidade de recuperação da vítima e do agressor. Muitos autores de estudos sobre bullying usam o termo “resiliência” para denominar a capacidade do ser humano de superar as adversidades e seguir em frente (TOGNETTA; VINHA, 2008; GARCIA; BRINO; WILLIAMS, 2009; BRASIL; LISBOA; BRAGA; EBERT, 2009; WILLIAMS et al., 2011; FRANCISCO, 2013; CEBULSKI, 2014; NETTO; SOUZA, 2015; BRASIL; BOMFIN, 2017).
O termo é usado para nomear situações em que sujeitos vitimizados em casos como os de bullying, desenvolvem a capacidade de apresentar bons resultados frente às adversidades. Pode-se definir a resiliência como “a capacidade de o indivíduo enfrentar, recuperar-se e sair fortalecido ou transformado pelas experiências de adversidade” (WILLIAMS et al., 2011, p. 189).
Em nota de rodapé, Tognetta e Vinha (2008) apresentam uma definição considerada muito relevante para esta pesquisa, visto que ressalta que a estrutura psicológica do sujeito que foi vítima de alguma situação adversa é fundamental para a retomada de sua vida.
Resiliência é um termo usado para designar a capacidade dos materiais de resistirem aos choques, na Física. Nas Ciências Humanas esse termo indica a capacidade de uma pessoa sobreviver a um trauma ou a resistir frente a alguma adversidade não somente por uma resistência física, mas, sobretudo, pela visão positiva de reconstruir sua vida mesmo num ambiente negativo, de problemas que influenciam e poderiam interromper seu retorno a uma vida íntegra (TOGNETTA; VINHA, 2008, p. 10).
A resiliência não é considerada apenas uma capacidade inata do sujeito, apesar de manifestar-se de maneira distinta em indivíduos que compartilham o mesmo flagelo. A resiliência deve ser estimulada e fortalecida, o que pressupõe fortalecer a autoestima e a capacidade de autocontrole. Nesse processo, são utilizadas capacidades individuais e sociais promovidas pela família, escola e amigos, envolvendo desde a capacidade intelectual do sujeito, senso de humor, autonomia, até aspectos como estabilidade familiar e respeito mútuo (LISBOA; BRAGA; EBERT, 2009; CEBUSKI, 2014; GARCIA; BRINO; WILLIAMS, 2009).
Os estudantes observaram, nas histórias, que quando a vítima se revelava em busca de ajuda, os envolvidos no conflito acabavam se reconciliando, brincando juntos e até, possivelmente, tornando-se amigos. O que para eles, inicialmente, causou muita estranheza, pois consideravam os atos muito violentos para que pudesse existir qualquer vínculo futuro entre os envolvidos, como é possível observar na transcrição abaixo.
Episódio 10 – Grupo 2 – Segundo encontro
CRIANÇA 19 - Deixa aqui Pesquisadora quero ver essa cena. PESQUISADOR - Os pais foram com o filho falar com o diretor. CRIANÇA 12 - Agora ficou melhor pra ele.
Todos falando ao mesmo tempo
CRIANÇA 19 - Agora o piá que bateu nele tá sendo amigo dele, né Pesquisadora? PESQUISADOR - Exatamente, vocês perceberam isso?
CRIANÇA 18 – Sim.
CRIANÇA 14 - Agora o marginal tá sendo amigo dele. ...
CRIANÇA 21 - É, até o mais malvado é amigo dele.
Nos textos produzidos também houveram relatos sobre o fato. Observa-se, em suas expressões, que mesmo considerando que os agressores deveriam sofrer punições severas, as crianças aceitaram que existia a possibilidade de uma amizade acontecer.
Figura 11 - Texto produzido pela CRIANÇA 23 - Segundo encontro - Grupo 2
Para os estudantes, de certa maneira, era difícil compreender como a vítima de
bullying, que foi tão agredida, humilhada e exposta publicamente, pode manter uma relação
de coleguismo ou de amizade com seu agressor. Foi então que aconteceu, na escola, o caso de vitimização da CRIANÇA 13 por parte dos meninos da turma multisseriada de 4º e 5º anos,
que facilitou o processo de compreensão da capacidade de resiliência dos envolvidos com o
bullying. Ao racionalizar as atitudes tomadas no caso em questão, a turma teve maior
capacidade de entender os sentimentos de todos os envolvidos na situação e de compreender os sentimentos dos personagens da história, a partir dos seus próprios sentimentos.
[...]é importante ressaltar a resiliência como algo que está de modo latente no indivíduo, até porque nem sempre nos permitimos agir com resiliência, primeiramente porque se trata de uma capacidade que também se desenvolve; e em segundo lugar o outro, no mais das vezes, necessita dar a sua contribuição neste processo, comprometendo-se, auxiliando, sendo cúmplice. De modo que, para superar as situações adversas é necessário que o sujeito busque seus recursos internos, mas também fatores de proteção encontrados no ambiente, a partir das relações com modelos significativos para o indivíduo (CEBULSKI, 2014, p. 161).
O trecho do encontro transcrito abaixo reflete, na prática, o sentimento de resiliência das crianças, ainda que não conheçam o termo que define essa capacidade que muitos deles possuem. Logo nos primeiros encontros, os alunos desta turma questionaram sobre o fato das crianças, vítima e agressor, brincarem juntos no final dos livros. Ao comentar sobre um fato ocorrido com eles, no qual puderam sentir, literalmente, o que os personagens da história sentiram, os estudantes reagiram de maneira bem interessante a respeito de seus sentimentos.
Episódio 11 - Grupo 2 – Terceiro encontro
PESQUISADOR - Então assim, vocês estão percebendo que o que vocês estão contando aqui pra pesquisadora?
CRIANÇA 21 - Tá um tribunal!!
PESQUISADOR - Que num dia um faz uma coisa e no outro... ? - E no outro dia o outro faz.
CRIANÇA 19 - O outro se cobra, né pesquisadora? PESQUISADOR - ééé CRIANÇA 14
CRIANÇA 14 - Um dia eu tava andado aqui na frente o CRIANÇA 13 só ficava me chamando...
PESQUISADOR - De....?
CRIANÇA 14 - Sempre inventava uma coisa.
CRIANÇA 21 - Pesquisadora um dia a gente tava ali embaixo comendo daí o CRIANÇA 13 - Veio e disse: “não vão vai tirar meu tênis hoje?”
CRIANÇA 19 - Então foi por isso que eles tavam correndo atrás do CRIANÇA 13 ? - É verdade.
TODOS FALANDO JUNTOS
CRIANÇA 17 - A gente tava bem quietinho comendo e o CRIANÇA 13 veio lá:” não vão me pega pra tira meu tênis” (FAZENDO UMA VOZ FINA, COMO SE ESTIVESSE DESCONTENTE)
PESQUISADORA - Você acha que ele gosta dessa situação? CRIANÇA 21 - Acho que ele gostou por falar aquilo!
PESQUISADOR - Agora eu quero a opinião de vocês. Vocês disseram que o CRIANÇA 17 foi quem falou pra pegar o CRIANÇA 13, né? E vocês acham que o CRIANÇA 17 é uma pessoa ruim?
TODOS – Nããão!
PESQUISADOR - Então, agora vocês veem aqui o menino aonde, vocês disseram que estão brincando aqui no final, tão brincando juntos.
CRIANÇA 11 - Isso eles sempre fazem depois.
PESQUISADOR - Por quê? As pessoas não são só ruins, não é verdade? Também são boas?
CRIANÇA 21 - Cada um tem um lado bom, mau, medo, chorão, amor, paz, tudo...
É importante destacar que a resiliência não elimina a violência, muito pelo contrário, ela existe em virtude de existir a violência e se revela na capacidade do sujeito de enfrentar situações estressantes e seguir em frente (GARCIA; BRINO; WILLIAMS, 2009). Os meninos envolvidos na situação de bullying nessa escola, principalmente a vítima, demonstraram grande capacidade de resiliência. O estudante vitimizado também se revelou extremamente resiliente ao mudar seu modo de conduzir as relações com os colegas a partir desse momento. Pelo que foi revelado, posteriormente, à pesquisadora, o estudante que, possivelmente, sofreu anos de vitimização por parte de colegas, com relato de trauma de professores, veio transferido de outra escola com histórico de defasagem, mesmo não sendo comprovada a existência de nenhuma causa orgânica que justificasse a dificuldade de aprendizagem.