Da leitura dos parágrafos anteriores, é possível perceber tamanha amplitude do conceito de responsabilidade civil, que delas se desdobram várias hipóteses, donde se é possível apurar algumas espécies conforme determinados critérios:
quanto à existência ou não de prévia relação jurídica entre as partes; quanto à exigência da comprovação de culpa ou não; e quanto ao agente.
a) Responsabilidade civil contratual e extracontratual
A responsabilidade civil contratual, como o próprio nome já denuncia, decorre do descumprimento de obrigação estabelecida em um contrato unilateral ou bilateral (que, nos termos do art. 104, CC/2002, requer um agente capaz, objeto lícito, possível, determinado ou indeterminado, e forma prescrita ou não defesa em lei) existente entre o causador e o lesionado, de modo que o dano decorrerá justamente da inexecução da obrigação estabelecida no instrumento. Ex.: a construtora que não entrega o apartamento no prazo estabelecido no contrato.
Determinada responsabilidade civil contratual está prevista no Artigo 389
“Não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e danos, mais juros e atualização monetária segundo índices ofi ciais regularmente estabelecidos e honorários de advogado” (BRASIL, 2002) e no 395 “Responde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der causa, mais juros, atualização dos valores monetários segundo índices ofi ciais regularmente estabelecidos e honorários de advogado” (BRASIL, 2002), ambos do Código Civil.
Já na responsabilidade civil extracontratual – que está disposta no art. 186
“Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito” (BRASIL, 2002) e 927 “Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fi ca obrigado a repará-lo” (BRASIL, 2002), ambos do CC/2002 – não existe qualquer liame obrigacional anterior entre o ofensor e a vítima.
O dano, assim, decorrerá do ato ilícito (descumprimento de preceito legal ou violação do dever geral de abstenção de gerar dano a outrem – lembre-se do non laedere) praticado, por ação ou omissão, pelo causador e que causa prejuízo ao lesionado. Ex.: o atropelamento por uma lancha.
Enquanto na responsabilidade civil contratual preexiste entre o causador do dano e o prejudicado um vínculo jurídico contratual, a responsabilidade civil extracontratual – também conhecida como “aquiliana” – é o dever jurídico de reparar o dano causado a outrem quando o dever está assentado somente na lei.
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RESPONSABILIDADE CIVIL
A “Lex Aquilia”, segundo ensina Venosa (2003, p. 18), “foi um plebiscito aprovado provavelmente em fi ns do século III ou início do século II a.C., que possibilitou atribuir ao titular de bens o direito de obter o pagamento de uma penalidade em dinheiro de quem tivesse destruído ou deteriorado seus bens”.
Nosso ordenamento jurídico prevê, ainda, as responsabilidades civis pré-contratual (“culpa in contrahendo”) e pós-pré-contratual (“culpa post pactum fi nitum”).
O Artigo 422, do Código Civil, estabelece que “os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé” (BRASIL, 2002), destacando o Enunciado 25, da Jornada de Direito Civil promovida pelo Conselho da Justiça Federal que “o [tal]
art. 422 do Código Civil não inviabiliza a aplicação, pelo julgador, do princípio da boa-fé nas fases pré e pós-contratual”.
A boa-fé objetiva representa o dever de colaboração mútua dos contratantes, de cooperação e proteção dos interesses recíprocos, obrigações que vão além daquelas expressamente pactuadas, sendo amplamente aceita nos nossos tribunais, como se vê no Recurso Especial 1.655.139/DF, cuja relatoria coube à Ministra Nancy Andrighi:
[...] 4. A relação obrigacional não se exaure na vontade expressamente manifestada pelas partes, porque, implicitamente, estão elas sujeitas ao cumprimento de outros deveres de conduta, que independem de suas vontades e que decorrem da função integrativa da boa-fé objetiva. 5.
Se à liberdade contratual, integrada pela boa-fé objetiva, acrescentam-se ao contrato deveres anexos, que condicionam a atuação dos contratantes, a inobservância desses deveres pode implicar o inadimplemento contratual [...]. (STJ, 2017).
O dano decorrente da violação do princípio da boa-fé objetiva – seja na fase pré-contratual, a fase contratual propriamente dita ou na fase pós-contratual – irá gerar o dever de indenizar.
A chamada responsabilidade civil pré-contratual surge quando, ultrapassado o tênue liame entre a fase das negociações preliminares (conversas prévias, sondagens) e aquela pré-contratual, quando já houve a manifestação, explícita ou tácita, de ambas as partes no sentido de que o negócio será fechado, uma das
25 NOÇÕES GERAIS SOBRE RESPONSABILIDADE CIVIL Capítulo 1
partes simplesmente rompe as negociações, de forma injustifi cada e arbitrária, quebrando na outra a expectativa legitimamente gerada e, assim, lhe gerando alguma espécie de dano. Por exemplo: uma pessoa que assina a proposta de compra de um imóvel, aceita pelo vendedor e, de repente, desiste do negócio.
A doutrina, então, nos traz como requisitos para a confi guração da responsabilidade civil pré-contratual: (a) existência de negociações, (b) certeza na celebração do contrato, (c) a ruptura injusta e arbitrária das tratativas, além do dano.
Aliás, quanto à extensão dos danos da responsabilidade civil pré-contratual, Farias os limita "às despesas em que incorreu no desenrolar das tratativas e, eventualmente, na perda de algum outro negócio que tenha desistido em virtude de estar negociando o contrato que posteriormente não veio a se estabelecer"
(2017, p. 85).
Atividade de Estudos:
1) Permita-me uma provocação: que tal você pesquisar, à luz do entendimento dos nossos tribunais, até que ponto é lícita a recusa de contratar, sem que faça nascer a obrigação de indenizar por parte do desistente?
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Já a responsabilidade civil pós-contratual é o dever de reparar danos surgidos após a extinção do contrato, independentemente do adimplemento da obrigação, especialmente relacionados à quebra do princípio da boa-fé objetiva.
Um bom exemplo seria o do médico que quebra o sigilo profi ssional, divulgando informações acerca de seu ex-paciente.
Como visto, a responsabilidade contratual não se limita àquele decorrente da quebra do contrato durante sua vigência, mas também ao descumprimento de deveres anteriores à celebração do pacto e aqueles posteriores à conclusão do negócio.
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RESPONSABILIDADE CIVIL
b) Responsabilidade civil objetiva e subjetiva
Com relação ao fundamento, a responsabilidade civil pode ser subjetiva (com aferição de culpa) ou objetiva (sem aferição de culpa).
A culpa como fundamento da responsabilidade subjetiva deve ser interpretada lato sensu, abrangendo também o dolo, além da culpa strictu sensu, ou seja, a responsabilidade subjetiva depende da prova de imperícia, imprudência, negligência ou dolo do agente.
Importante estabelecer a premissa de que o nosso Código Civil, através dos já citados Artigos 186 e 187, adota a responsabilidade subjetiva como regra e, como se pode observar no Artigo 927, parágrafo único, a responsabilidade objetiva como exceção “haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especifi cados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem”.
A responsabilidade objetiva, como se vê, é fundada na teoria do risco da atividade, sobre a qual dispõe Rodrigues (2002, p. 10) que:
a teoria do risco é a da responsabilidade objetiva. Segundo a teoria, aquele que, através de sua atividade, cria risco de dano para terceiros, deve ser obrigado a repará-lo, ainda que sua atividade e seu comportamento sejam isentos de culpa.
Examina-se a situação, e, se for verifi cada, objetivamente, a relação de causa e efeito entre o comportamento do agente e o dano experimentado pela vítima, esta tem direito de ser indenizada por aquele.
É na teoria do risco administrativo que se funda a responsabilidade civil objetiva do Estado e também pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviço público relativamente a terceiros usuários e não-usuários do serviço, segundo dispõe o art. 37, § 6º, da Constituição Federal de 1988.
Também será objetiva a responsabilidade por dano ambiental, informada pela teoria do risco integral, mencionado no Agravo Regimental em Recurso Especial 1412664⁄SP, cujo relator foi o Ministro do Superior Tribunal de Justiça Raul Araújo:
DIREITO AMBIENTAL E PROCESSUAL CIVIL. DANO AMBIENTAL. LUCROS CESSANTES AMBIENTAL.
RESPONSABILIDADE OBJETIVA INTEGRAL. DILAÇÃO PROBATÓRIA. INVERSÃO DO ÔNUS PROBATÓRIO.
27 NOÇÕES GERAIS SOBRE RESPONSABILIDADE CIVIL Capítulo 1
CABIMENTO. [...] A legislação de regência e os princípios jurídicos que devem nortear o raciocínio jurídico do julgador para a solução da lide encontram-se insculpidos não no códice civilista brasileiro, mas sim no art. 225, § 3º, da CF e na Lei 6.938⁄81, art. 14, § 1º, que adotou a teoria do risco integral, impondo ao poluidor ambiental responsabilidade objetiva integral. Isso implica o dever de reparar independentemente de a poluição causada ter-se dado em decorrência de ato ilícito ou não, não incidindo, nessa situação, nenhuma excludente de responsabilidade. Precedentes [...] (STJ, 2014).
Falaremos, no próximo capítulo, sobre outras teorias do risco (como a do risco-proveito e a do risco-criado) que fundamentam a responsabilidade objetiva.
c) Responsabilidade civil por ato próprio e por ato de outrem
Por fi m, relativamente ao agente, a responsabilidade se divide entre direta (ou ato próprio) e indireta (por ato de terceiro).
O Artigo 932 enumera as hipóteses da responsabilidade civil indireta, ou seja, quando terceiros responderão – objetivamente – pelos danos causados pelo agente: (I) os pais, pelos fi lhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; (II) o tu tor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições; (III) o em pregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele; (IV) os d onos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fi ns de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos; (V) os q ue gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia.
Justifi cando do porquê da responsabilidade objetiva pelos danos causados por aqueles que de algum modo estavam sob sua proteção ou vigilância (art. 933, CC/2002), Cavalieri Filho (2009, p. 192) assevera que “o ato do autor material do dano é apenas a causa imediata, sendo a omissão daquele que tem o dever de guarda ou vigilância a causa mediata, que nem por isso deixa de ser causa efi ciente”. Melhor dizendo, ainda que de forma indireta, houve culpa do responsável, seja culpa in eligendo seja culpa in vigilando.
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RESPONSABILIDADE CIVIL
Atividade de Estudos:
1) Um derradeiro desafi o para você: nas hipóteses de responsabilidade objetiva por ato de terceiro (indireta), o responsável deverá indenizar o ofendido independentemente da prova da culpa do autor do dano ou é necessário que seja provada a culpa/dolo do agente?
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