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Responsabilidade Civil)

No documento RESPONSABILIDADE CIVIL (páginas 55-75)

Segundo disposição legal, além das hipóteses de construção doutrinária com aceitação jurisprudencial, existem determinadas circunstâncias, dentro da dinâmica dos fatos, que, em tese, ensejam a responsabilização, as quais são consideradas excludentes de ilicitude. Elas isentam o agente do dever de ressarcir os prejuízos, como, por exemplo, no estado de necessidade, na legítima defesa, no estrito cumprimento do dever legal e no exercício regular de direito.

Existem ainda as causas excludentes de nexo de causalidade, como o caso fortuito, a força maior, a culpa exclusiva da vítima e a culpa por fato de terceiro; e, fi nalmente, as causas excludentes de indenização, as quais são cláusulas contratuais, que eximem o infrator contratual da obrigação de indenizar o contratante prejudicado.

Verifi cada alguma dessas hipóteses, via de regra, o agente estará isento da obrigação de indenizar a vítima ou, sendo o caso, deverá suportar a condenação, sendo-lhe reservado o direito de regresso contra o verdadeiro responsável.

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a) Causas excludentes de ilicitude

O artigo 188, do Código Civil (BRASIL, 2002, s.p.), enumera três circunstâncias que fazem com que o ato danoso deixe de ser considerado ilícito – contrário à lei – ou que quebre a conhecida expectativa de conduta de não lesar outrem: a legítima defesa, o exercício regular de um direito reconhecido e o estado de necessidade, conforme vemos a seguir:

Art. 188. Não constituem atos ilícitos:

I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido;

II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fi m de remover perigo iminente.

A partir deles, conforme o caso, o agente até poderá responder, mas terá direito de regresso contra o real responsável.

Legítima Defesa

A primeira das circunstâncias excludentes de ilicitude, a legítima defesa, está prevista no supracitado artigo 188, inciso I, do Código Civil (BRASIL, 2002).

Por economia de tempo, façamos alusão analógica da legítima defesa enquanto excludente de ilicitude do fato no âmbito penal, importando seu conceito do artigo 25, do Código Penal (BRASIL, 1940, s.p.), que diz: “art. 25. Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”.

Assim, a legítima defesa ocorrerá quando o agente, usando moderadamente e proporcionalmente dos meios necessários que dispõe, repele injusta agressão, atual ou iminente, contra direito seu ou de outrem (vida, propriedade e até mesmo da honra, essa última bastante polêmica). Sérgio Cavalieri Filho (2010, p. 20), por sinal, também correlaciona a legítima defesa da esfera civil com a penal:

A legítima defesa de que aqui se trata, é aquela mesma defi nida no art. 25 do Código Penal. O agente, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Ninguém pode fazer justiça pelas próprias mãos, essa é a regra básica. Em certos casos, entretanto, não é possível esperar pela justiça estatal.

O agente se vê em face de agressão injusta, atual ou iminente, de sorte que, se não reagir, sofrerá dano injusto, quando, então a legítima defesa faz lícito o ato, excluindo a obrigação de indenizar o ofendido pelo que vier a sofrer em virtude da repulsa à sua agressão.

57 CAUSAS EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE CIVIL Capítulo 3

Como se vê, para a caracterização dessa excludente de ilicitude, é necessária a presença dos seguintes requisitos:

a) que haja uma agressão atual ou iminente – anote: vingança não é legítima defesa;

b) que os meios empregados sejam proporcionais à agressão – não vale tiro para repelir tapa na cara;

c) que a agressão ou ameaça de agressão seja injusta – se a agressão do outro se tratar do exercício regular de um direito, por exemplo, não é caso de legítima defesa.

Fugindo-se dessas hipóteses – sendo o revide desproporcional, a agressão não ser iminente ou sendo ela justa –, preenchidos os elementos da responsabilidade (ato, dano, nexo causal e culpa), será hipótese de responsabilização.

Existe ainda um quarto elemento, subjetivo, que é o animus defendendi, o qual é a consciência do agente, que atua na condição de quem esteja se defendendo de uma agressão injusta.

Importante consignar que, apenas constituirá causa efi caz de exclusão da responsabilidade, nos termos da lei, quando o autor da agressão for o próprio lesado, ou seja, quando for o agredido quem provocou a situação repelida. Sendo um terceiro o ofendido, caberá a responsabilidade ao agressor, com direito de regresso contra o responsável.

Por exemplo, com o propósito de defender sua mãe da iminência de uma agressão por parte de Antônio, Paulo acaba quebrando o muro da casa de Pedro. Nesse caso, ainda que tenha agido em legítima defesa de terceiro, Paulo terá que indenizar Pedro pelos danos causados em seu muro, cabendo regresso contra Antônio.

O jurista alemão Claus Roxin (1997, p. 611, tradução do autor) traz o entendimento – aceito, inclusive nos tribunais brasileiros – que só se admite legítima defesa para repelir conduta humana, mas nunca de animal, hipótese em que se confi guraria, se muito, estado de necessidade:

Da limitação da agressão ao comportamento humano, pode-se inferir, em primeiro lugar, que os ataques de animais não podem ser tratados de acordo com o §32 [legítima defesa], mas apenas até o ponto do § 228 BGB [estado de necessidade].

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Atividade de Estudos:

1) Aproveitando a menção ao próprio Claus Roxin, pesquise: admite-se legítima defesa quando o agressor é uma pessoa jurídica?

Crie uma hipótese e defenda sua tese.

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Ainda sobre a legítima defesa, existe também a chamada legítima defesa putativa, que é quando o autor pratica determinado ato de rechaça a uma agressão que não existe, imaginária, por exemplo: alguém agredir um homem para defender uma mulher, em meio a uma briga que estava sendo encenada.

Nesse caso, o ‘agir em legítima defesa’ gerará apenas o reconhecimento de uma causa excludente da culpabilidade na esfera penal, porém, não desobriga o ofensor no âmbito civil, podendo a vítima buscar a reparação pelos danos sofridos. Em resumo, a legítima defesa putativa pode até excluir a penal, mas não exclui a responsabilidade civil.

Exercício regular do direito reconhecido

Também previsto no art. 188, inciso I, do Código Civil (BRASIL, 2002), o exercício regular do direito reconhecido constitui uma das causas excludentes de ilicitude.

O exercício regular do direito é a realização de uma faculdade ou de um direito subjetivo, por parte do agente, de acordo com as respectivas normas jurídicas. Melhor dizendo, é a prática de determinado ato por alguém que está autorizado a esse comportamento, aprovado ou legitimado por lei.

Se o agente, portanto, pratica determinado ato dentro das prerrogativas que o ordenamento jurídico lhe autoriza não será Se o agente pratica

determinado ato dentro das prerrogativas que

o ordenamento jurídico lhe autoriza não será caracterizado um

ato ilícito.

59 CAUSAS EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE CIVIL Capítulo 3

caracterizado um ato ilícito. Por exemplo, ao indicar um título vencido e impago a protesto, se há dívida previamente constituída e não paga, constitui exercício regular de direito a inscrição do nome da devedora nos serviços de restrição ao crédito.

O Superior Tribunal de Justiça (BRASIL, 2013, s.p.), por exemplo, já se manifestou no sentido de que “[...] a conduta de quem denuncia à autoridade policial atitude suspeita ou prática criminosa, constitui exercício regular de um direito, ainda que não reste comprovada a autoria ou a materialidade”.

É claro que essa regra não é absoluta: o exercício desse direito deve ser proporcional e sem excessos ou abusos.

O próprio Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002, s.p.), em seu art. 187, diz:

“também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fi m econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes” e, antes dele, o Código de Defesa do Consumidor (BRASIL, 1990, s.p.) já dizia, em seus artigos 42 e 71, que “na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem será submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça” e que “utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação, constrangimento físico ou moral, afi rmações falsas incorretas ou enganosas ou de qualquer outro procedimento que exponha o consumidor, injustifi cadamente, a ridículo ou interfi ra com seu trabalho, descanso ou lazer”, incluindo a teoria da proibição do abuso do direito, justamente para coibir os excessos e, nessas circunstâncias, responsabilizar o agente. Sobre o abuso do direito, Caio Mário da Silva Pereira (2007, p. 673) esclarece que:

Não se pode, na atualidade, admitir que o indivíduo conduza a utilização de seu direito até o ponto de transformá-lo em causa de prejuízo alheio. Não é que o exercício do direito, feito com toda regularidade, não seja razão de um mal a outrem. Às vezes é, e mesmo com frequência. Não será inócua a ação de cobrança de uma dívida, o protesto de um título cambial, o interdito possessório que desaloja da gleba um ocupante. Em todos esses casos, o exercício do direito, regular, normal, é gerador de um dano, mas nem por isso deixa de ser lícito o comportamento do titular, além de moralmente defensável. Não pode, portanto, caracterizar o abuso de direito no fato de seu exercício causar eventualmente um dano ou motivá-lo normalmente, porque o dano pode ser o resultado inevitável do exercício, a tal ponto que este se esvaziaria de conteúdo se a sua utilização tivesse de fazer-se dentro do critério da inocuidade.

Submeter o devedor à cobrança vexatória – ligações insistentes em seu local de trabalho, recados pelo chefe, textos no Facebook contra o caloteiro etc.

– pode ser considerado abuso de direito.

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Assim, agindo o titular no exercício regular – proporcional e sem abusos – do seu direito reconhecido, não haverá que se falar em ilicitude do ato e, por conseguinte, em responsabilidade civil.

Estado de necessidade

O estado de necessidade também está previsto – de maneira não tão explícita – no art. 188, inciso II, do Código Civil (BRASIL, 2002, s.p.): “Não constituem atos ilícitos: [...] a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fi m de remover perigo iminente”. A necessidade, no caso, é a remoção do perigo iminente.

O conceito do art. 24, do Código Penal (BRASIL, 1940, s.p.), apresenta o estado de necessidade como uma das causas excludentes de ilicitude do fato criminoso: “considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se”.

Lembra da ameaça feita por um animal? É hipótese de estado de necessidade – e não de legítima defesa – como ensina Rui Stocco (1997, p. 75):

No estado de necessidade, não se confi gura uma agressão, porém desenha-se uma situação fática, em que o indivíduo vê uma coisa sua na iminência de sofrer um dano. A fi m de removê-lo ou evitá-lo, sacrifi ca a coisa alheia. Embora as situações [entre estado de necessidade e legítima defesa] se distingam, há uma similitude antológica, no dano causado a outrem, para preservação de seus próprios bens.

Se não resta alternativa ao agente senão causar algum dano a outrem para salvar a si ou a terceiro de perigo iminente que não provocou, é caso de estado de necessidade e, portanto, estará descaracterizada a ilicitude do ato.

Note e anote: se ele provocou o perigo, não mais se tratará de estado de necessidade e, logo, responderá!

O art. 188, II, do Código Civil (BRASIL, 2002) exclui a ilicitude do ato praticado em estado de necessidade para, setecentos e poucos artigos depois, os artigos 929 e 930, do mesmo Código Civil (BRASIL, 2002, s.p.), preverem que o lesado poderá buscar a indenização ao causador direto do dano, assegurando o direito de regresso em face do verdadeiro responsável:

Se não resta

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Art. 929. Se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II do art. 188, não forem culpados do perigo, assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram.

Art. 930. No caso do inciso II do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado.

Quer dizer, então, que a mesma lei que diz que o ato não é ilícito, é a mesma lei que manda o agente indenizar? Isso mesmo, conforme explica Sílvio de Salvo Venosa (2011, p. 210-211):

Embora a lei declare que a ação sob estado de necessidade não tipifi ca um ato ilícito, nem por isso deixa de sujeitar o autor do dano a sua reparação. Nos termos do parágrafo único, do art. 930, deste Código, tanto no caso de estado de necessidade, como no caso de legítima defesa, quando o prejudicado não é o ofensor, mas terceiro, o dever de indenizar mantém-se.

Apenas para corroborar o que dizem lei e doutrina:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E FÍSICOS DECORRENTES DE ACIDENTE DE TRÂNSITO. SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA.

INSURGÊNCIA DA PARTE RÉ. [...] . MANOBRA BRUSCA REALIZADA COM VISTAS A EVITAR COLISÃO TRASEIRA EM VEÍCULO PARADO SEM QUALQUER SINALIZAÇÃO. ATO PRATICADO EM ESTADO DE NECESSIDADE. SITUAÇÃO QUE EMBORA NÃO SEJA ILÍCITA, NÃO EXIME O CAUSADOR DIRETO DO DANO DO DEVER DE INDENIZAR, RESSALVADO O DIREITO DE REGRESSO AO TERCEIRO CULPADO. ARTS. 188, INCISO II, 929 E 930 DO CÓDIGO CIVIL.

PREFACIAL AFASTADA. LESÕES FÍSICAS DECORRENTES DO ACIDENTE DE TRÂNSITO. FRATURA DE MEMBRO INFERIOR COM NECESSIDADE DE INTERVENÇÃO CIRÚRGICA. OFENSA AO DIREITO DA PERSONALIDADE À INTEGRIDADE FÍSICA. RESPONSABILIDADE CIVIL. DANO MORAL CONFIGURADO. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. "Os danos morais decorrentes de lesões advindas de ilícito civil estão matizados no sofrimento, dores físicas, risco de vida, angústias, dúvidas, incertezas e demais situações afl itivas indescritíveis experimentadas injustamente pelas vítimas de acidente de trânsito” (SANTA CATARINA, 2017, grifo do autor).

Portanto, esse pedido de regresso, contra o terceiro culpado, poderá ser feito mediante denunciação à lide – conforme o artigo 125, inciso I, do Código de Processo Penal) ou através de ação autônoma.

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Você talvez conheça o famoso dilema ético, sugerido pelo fi lósofo político e importante professor da Universidade de Harvard, Michael Sandel, que propõe a hipótese de alguém, com a possibilidade de salvar a vida de cinco trabalhadores, que estão na iminência de serem atropelados por um trem desgovernado, puxar uma alavanca, desviando seu rumo e acabar matando um trabalhador, que não estava na linha de choque. Seria uma hipótese de excludente de responsabilidade por estado de necessidade?

Teria o herói que salvou cinco pessoas que responder pela morte daquele infeliz? Assista ao vídeo no link: <https://www.youtube.com/

watch?v=smORkkuePm0>.

Estrito cumprimento do dever legal

Outra causa de excludente de ilicitude, embora não prevista de forma explícita na lei civil – porém, equipara-se ao exercício regular do direito no art. 23, do Código Penal (BRASIL, 1940) –, o estrito cumprimento do dever legal refere-se à prática de ato comissivo por agente público contra terceiro, no derefere-sempenho de uma obrigação imposta por lei.

Por força do princípio da legalidade na administração pública – conforme o artigo 37, § 6.º da Constituição Federal (BRASIL, 1988) – , segundo o qual, o agente público só poderá agir dentro daquilo que é previsto e autorizado por lei, o estrito cumprimento do dever legal é uma causa de excludente de ilicitude a ser considerada quando se apura a responsabilidade do Estado, que, como visto, responderá “[...] pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa” (BRASIL, 1988, s.p.).

Isso quer dizer que se o agente público, no cumprimento proporcional e sem excessos de seu dever legal, gera danos a outrem, ele não será responsabilizado. O Estado, no entanto, poderá ser responsabilizado, conforme já visto anteriormente, ao comentarmos sobre a corrente que admite a possibilidade do Estado responder por danos decorrentes, inclusive, de atos considerados lícitos (lembra dela?). Nesse caso, contudo, não caberá regresso do Estado contra o agente público.

Se o agente público, no cumprimento proporcional e sem

excessos de seu dever legal, gera danos a outrem, ele não será responsabilizado.

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Numa ação policial, por exemplo, o Poder Público não será responsabilizado pelos danos causados ao particular, caso evidenciada a prática de ato do agente no exercício de sua função de prestar segurança pública. Para ilustrar:

ADMINISTRATIVO - RESPONSABILIDADE CIVIL - INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS - ACIDENTE TRÂNSITO - VIATURA POLICIAL - COLISÃO COM VEÍCULO DE PARTICULAR NO MOMENTO EM QUE A GUARNIÇÃO FAZIA PERSEGUIÇÃO A TERCEIROS - CONDUTOR EM ESTRITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL - AUSÊNCIA DE PROVA DE EXCESSO DOLOSO OU CULPOSO DO POLICIAL MILITAR CONDUTOR DO AUTOMÓVEL DO ESTADO [...] Não pratica qualquer ato ilícito indenizável o agente de segurança pública que se envolve em acidente de trânsito durante ocorrência policial, quando não há prova de que tenha agido com excesso doloso ou culposo no estrito cumprimento do seu dever legal (art. 188, inciso I, do Código Civil de 2002)” (SANTA CATARINA, 2008, s.p.).

Restando, porém, provado que o agente cometeu algum abuso ou excesso, ou que agiu de forma imprudente ou negligente, ainda que no cumprimento do dever legal, responderá objetivamente o Estado pelos danos causados, cabendo ação regressa contra o agente público, afi nal, a teor do disposto pelo artigo 43, do Código Civil (BRASIL, 2002, s.p.): “As pessoas jurídicas de direito público interno são civilmente responsáveis por atos dos seus agentes que nessa qualidade causem danos a terceiros, ressalvado direito regressivo contra os causadores do dano, se houver, por parte destes, culpa ou dolo”. posição dos tribunais brasileiros sobre a eventual responsabilidade do Estado pela utilização de algemas por parte da polícia, sem que o preso ofereça ameaça ou, se preferir um tema mais recente, se há excesso na condução coercitiva de simples investigados à presença de autoridade policial.

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b) Causas excludentes de nexo de causalidade (e, por conseguinte, de responsabilidade)

Conforme já visto no capítulo anterior, existem hipóteses em que a responsabilidade é derruída quando desparece o nexo de causalidade entre o ato do agente e o dano experimentado pela vítima. São os casos de culpa exclusiva da vítima, de caso fortuito e força maior ou por fato de terceiro.

• Culpa exclusiva da vítima

A excludente de responsabilidade culpa exclusiva da vítima, não está presente no art. 188, do Código Civil (BRASIL, 2002), mas sua admissão decorre de construção doutrinária e jurisprudencial – até por ser um corolário da culpa concorrente da vítima, conforme o art. 945, do Código Civil (BRASIL, 2002) – bem como da aplicação analógica da legislação extravagante, como, por exemplo, o art. 17, inciso II, do Decreto 2.681/1912, que regula a responsabilidade civil das estradas de ferro.

Outros dispositivos legais, que tratam da isenção de responsabilidade por culpa exclusiva da vítima são:

− o artigo 12, § 3.º, III do Código de Defesa do Consumidor (BRASIL, 1990, s.p.), que afi rma: “[...] § 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: [...] III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro”,

− e o artigo 14, § 3.º, II, do Código de Defesa do Consumidor (BRASIL, 1990, s.p.), que diz: “[...] § 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar: [...] II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro”.

Assim, se o dano ocorreu como resultado exclusivo da conduta da vítima, consequentemente haverá quebra do nexo causal com o ato do agente, afi nal, será por culpa da vítima, e não do pretenso agente, que ocorreu o dano.

Assim se revela a importância de verifi carmos se estamos diante da culpa concorrente ou culpa exclusiva da vítima.

No primeiro caso, a vítima apenas contribuiu para o desfecho do evento, como, por exemplo: atravessou a rua fora da faixa de pedestre, estava em excesso de velocidade, paciente que não cumpriu as orientações médicas etc.

Portanto, o valor da indenização será redimensionado, consoante o art. 945, do Código Civil (BRASIL, 2002, s.p.), que determina que: “se a vítima tiver concorrido

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culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fi xada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano”. Isso quer dizer que o juiz deverá, no momento em que for defi nir a extensão da indenização, considerar o grau de culpabilidade (o quanto ela contribuiu) da vítima na dinâmica do evento e, por consequência, no resultado danoso.

Vejamos o seguinte caso, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (SANTA CATARINA, 2010, s.p.):

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO

No documento RESPONSABILIDADE CIVIL (páginas 55-75)