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Responsabilidade Civil DiGital

No documento RESPONSABILIDADE CIVIL (páginas 95-98)

Estabelecendo os princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil, a Lei n. 12.965/2014 (BRASIL, 2014, s.p.), também conhecida como o Marco Civil da Internet, traz uma seção específi ca para tratar da responsabilidade do provedor por danos decorrentes de conteúdo gerado pelos internautas, do artigo 18 ao 21, verbis:

Art. 18. O provedor de conexão à internet não será responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros.

Art. 19. Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específi ca, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário.

§ 1o A ordem judicial de que trata o caput deverá conter, sob pena de nulidade, identifi cação clara e específi ca do conteúdo apontado como infringente, que permita a localização inequívoca do material.

§ 2o A aplicação do disposto neste artigo para infrações a direitos de autor ou a direitos conexos depende de previsão legal específi ca, que deverá respeitar a liberdade de expressão e demais garantias previstas no art. 5o da Constituição Federal.

§ 3o As causas que versem sobre ressarcimento por danos decorrentes de conteúdos disponibilizados na internet relacionados à honra, à reputação ou a direitos de personalidade, bem como sobre a indisponibilização desses conteúdos por provedores de aplicações de internet, poderão ser apresentadas perante os juizados especiais.

§ 4o O juiz, inclusive no procedimento previsto no § 3o, poderá antecipar, total ou parcialmente, os efeitos da tutela pretendida no pedido inicial, existindo prova inequívoca do fato e considerado o interesse da coletividade na disponibilização do conteúdo na internet, desde que presentes os requisitos de verossimilhança da alegação do autor e de fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação.

Art. 20. Sempre que tiver informações de contato do usuário diretamente responsável pelo conteúdo a que se refere o art.

19, caberá ao provedor de aplicações de internet comunicar-lhe os motivos e informações relativos à indisponibilização de conteúdo, com informações que permitam o contraditório e a ampla defesa em juízo, salvo expressa previsão legal ou expressa determinação judicial fundamentada em contrário.

Parágrafo único. Quando solicitado pelo usuário que disponibilizou o conteúdo tornado indisponível, o provedor de aplicações de internet que exerce essa atividade de forma organizada, profi ssionalmente e com fi ns econômicos substituirá o conteúdo tornado indisponível pela motivação ou

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pela ordem judicial que deu fundamento à indisponibilização.

Art. 21. O provedor de aplicações de internet que disponibilize conteúdo gerado por terceiros será responsabilizado subsidiariamente pela violação da intimidade decorrente da divulgação, sem autorização de seus participantes, de imagens, de vídeos ou de outros materiais contendo cenas de nudez ou de atos sexuais de caráter privado quando, após o recebimento de notifi cação pelo participante ou seu representante legal, deixar de promover, de forma diligente, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço, a indisponibilização desse conteúdo.

Parágrafo único. A notifi cação prevista no caput deverá conter, sob pena de nulidade, elementos que permitam a identifi cação específi ca do material apontado como violador da intimidade do participante e a verifi cação da legitimidade para apresentação do pedido.

Antes da entrada em vigor dessa lei, o Superior Tribunal de Justiça já havia defi nido, no julgamento do Recurso Especial nº 1308830/RS (BRASIL, 2012b), que os provedores da internet não respondiam objetivamente pela inserção de informações abusivas, no site, por terceiros. Da mesma forma, deveriam manter um sistema efi caz de identifi cação de seus usuários, não sendo obrigados a realizar um controle prévio sobre o conteúdo das informações postadas pelos usuários, que deviam ser notifi cados sobre a existência de dados ilegais e removê-los, no prazo de 24h, sob pena de responsabilização em razão da inércia.

A partir da nova lei, a responsabilidade civil dos provedores de aplicações de internet passou a ser, por disposição legal, de natureza subjetiva e decorrente do descumprimento de ordem judicial específi ca, sendo insufi ciente a notifi cação extrajudicial que determina a exclusão ou a indisponibilização de determinado conteúdo.

Por outro lado, em caso de divulgação, sem autorização de seus participantes, de imagens, vídeos ou outros materiais contendo cenas de nudez ou atos sexuais de caráter privado, basta uma notifi cação extrajudicial do participante ou seu representante legal para, descumprindo-a, ensejar a responsabilidade subsidiária do provedor, conforme o art. 21 da Lei nº 12.965/2014 (BRASIL, 2014, s.p.).

Intermeando os princípios da “garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento, nos termos da Constituição Federal” e o da “proteção da privacidade” previstos na lei especial (BRASIL, 2014, s.p.), o usuário/internauta, por sua vez, responderá por todos os danos causados a terceiros, por conta de qualquer ato ilícito praticado no meio digital, sendo o meio virtual apenas uma extensão do universo real, aplicando-se a legislação civil ordinária.

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Capítulo 4

Anteparando a vedação constitucional ao anonimato, assegurado pelo art.

5º, IV, da Constituição Federal (BRASIL, 1988), com o princípio trazido pelo Marco Civil (BRASIL, 2014) da “proteção dos dados pessoais”, os provedores e os aplicativos têm sido alvo de medidas extremas, como o bloqueio do Facebook e Whatsapp em todo o Brasil, o que deu ensejo ao ajuizamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 5.527/DF, em que é requerente o Partido da República (PR) e a relatoria cabe à Ministra Rosa Weber, que tem por objeto a discussão da constitucionalidade do artigo 10, da Lei nº 12.965/2014 (BRASIL, 2014, s.p.):

Art. 10. A guarda e a disponibilização dos registros de conexão e de acesso a aplicações de internet de que trata esta Lei, bem como de dados pessoais e do conteúdo de comunicações privadas, devem atender à preservação da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das partes direta ou indiretamente envolvidas.

§ 1o O provedor responsável pela guarda somente será obrigado a disponibilizar os registros mencionados no caput, de forma autônoma ou associados a dados pessoais ou a outras informações que possam contribuir para a identifi cação do usuário ou do terminal, mediante ordem judicial, na forma do disposto na Seção IV deste Capítulo, respeitado o disposto no art. 7o.

§ 2o O conteúdo das comunicações privadas somente poderá ser disponibilizado mediante ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer, respeitado o disposto nos incisos II e III do art. 7o.

§ 3o O disposto no caput não impede o acesso aos dados cadastrais que informem qualifi cação pessoal, fi liação e endereço, na forma da lei, pelas autoridades administrativas que detenham competência legal para a sua requisição.

§ 4o As medidas e os procedimentos de segurança e de sigilo devem ser informados pelo responsável pela provisão de serviços de forma clara e atender a padrões defi nidos em regulamento, respeitado seu direito de confi dencialidade quanto a segredos empresariais.

E do artigo 12, III e IV, da Lei nº 12.965/2014 (BRASIL, 2014, s.p.):

Art. 12. Sem prejuízo das demais sanções cíveis, criminais ou administrativas, as infrações às normas previstas nos arts. 10 e 11 fi cam sujeitas, conforme o caso, às seguintes sanções, aplicadas de forma isolada ou cumulativa:

[...]

III - suspensão temporária das atividades que envolvam os atos previstos no art. 11; ou

IV - proibição de exercício das atividades que envolvam os atos previstos no art. 11.

Essa ação direta de inconstitucionalidade ainda está em fase de julgamento no Supremo Tribunal Federal.

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De toda a forma, até o pronunciamento fi nal a respeito da constitucionalidade da norma, conforme visto acima, os provedores responderão civilmente de forma solidária se, notifi cados extrajudicialmente ou intimados judicialmente para que retirem algum conteúdo do ar, deixarem de fazê-lo.

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