CAPÍTULO 4 – A AUTONOMIA DO ALUNO
4.1 ESTUDOS SOBRE A AUTONOMIA DO ALUNO: ORIGENS E CONCEITOS
Os estudos sobre a autonomia do aluno surgiram como consequência da mudança de perspectiva sobre os papéis dos alunos e do professor, assim como da nova postura que o aluno deveria ter perante o seu processo de aprendizagem. Essa mudança, como explicitada anteriormente, adveio de alterações ocorridas, no final da década de 1960, na sociedade e, consequentemente, das novas necessidades e demandas que estas ensejaram:
De acordo com Gremmo e Riley (1995), os interesses iniciais no conceito de autonomia inserido no campo do ensino de línguas foi em parte uma resposta dos ideais e expectativas que surgiram em consequência de mudanças políticas que ocorreram na Europa no final da década de 1960.29 (BENSON, 2001, p. 7)
A sociedade ocidental passava, nesse período, por uma análise em seus elementos vitais, redefinindo, em muitos casos, os seus pilares. Como explicita Henri Holec (1981 apud BENSON, 2001, p. 8), a sociedade, no final da década de 1960, passava a conceber o progresso social não mais do ponto de vista dos avanços industriais, mas a partir da noção de qualidade de vida, a qual tinha como base o respeito ao indivíduo na sociedade. As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas por movimentos sociais ao redor do mundo que reivindicavam direitos, igualdades e liberdades, como, por exemplo: o feminismo, a contra-cultura, a luta contra a ditadura, a luta contra o apartheid, entre outros.
Essas movimentações sociais geraram, na comunidade linguista, a necessidade de desenvolver estudos sobre como oferecer ao aluno as capacidades e as competências necessárias para que eles pudessem desempenhar um papel ativo, como estava sendo exigido pelo contexto social vigente.
Nesse contexto, os teóricos pautaram-se na ideia de que não existe um posicionamento teórico perfeito, mas que o ensino-aprendizagem das línguas estrangeiras requer que seja considerado o contexto no qual ele estará inserido, a vida em sociedade, pois exige de seus membros posturas autônomas, ativas e de responsabilidade perante as suas escolhas e tomadas de decisões.
29 According to Gremmo and Riley (1995), early interest in the concept of autonomy within the field of language
education was in part a response to ideals and expectations aroused by the political turmoil in Europe in the late 1960s.
Nesse sentido, os teóricos não criaram um novo posicionamento teórico, mas analisaram e refletiram sobre os que já existiam para, então, selecionarem os princípios e procedimentos que achavam condizentes com as novas necessidades, da mesma forma eles se utilizaram de outros campos da ciência para implementarem seus estudos. Entendimento este explicitado por Benson:
As origens históricas do conceito da autonomia no aprendizado de línguas é incomum no campo da educação, pois se baseiam em grande parte de teorias emprestadas de outros campos, como a reforma educativa, aprendizado auto- direcionado do adulto, da psicologia do aprendizado, e da filosofia política (Benson 2001). Pesquisadores da autonomia são caracterizados pela sua disposição em garimpar critérios de onde quer que eles tenham que ser achados.30 (BENSON 2002, p. 12).
O primeiro estudo sobre o conceito da autonomia do aluno no aprendizado e a inserção deste termo no campo dos estudos linguísticos ocorreu, como explicita Benson (2001), através do Projeto de Línguas Modernas do Conselho da Europa, em 1971. Esse projeto, encabeçado por Yves Châlon e, posteriormente, por Henri Holec, trouxe como conceito de autonomia do aluno a capacidade do aluno em assumir o comando (to take charge) do seu próprio processo de aprendizagem.
A definição de autonomia, contudo, não é limitada à perspectiva trazida pelo projeto acima mencionado, pois o termo autonomia, apesar de estar inserido nas principais discussões teóricas desde as duas últimas décadas e de sua grande importância no atual âmbito do ensino de línguas, ainda não dispõe de concreta certeza do seu significado e de sua aplicação (VOLLER; BENSON, 1997, p. 1).
A autonomia, sendo assim, não obstante pareça ser um objeto simples de discussão e trabalho, é um elemento complexo permeado de diversas particularidades. Um dos fatores que deixa claro o grau de complexidade da autonomia é justamente a quantidade de conceitos atribuídos a esta, como enfatizam Benson e Voller (1997, p. 2) ao explicitarem que não existe um conceito canônico para a autonomia no campo da linguística aplicada.
Apesar da diversidade de conceitos sobre autonomia do aluno no aprendizado, é necessário atentar ao fato de que todos possuem como base o mesmo ponto de partida: o aluno assumindo uma postura proativa e reativa no seu processo de aprendizagem.
Contudo, cada um destes conceitos traz um novo aspecto ou vertente, podendo maximizar ou minimizar esse papel do aluno. De acordo com Benson e Voller (1997, p. 1),
30 “The historical origins of the concept of autonomy in language learning are unusual in the Field of language
education in that they lie largely in theory ‘borrowed’ from other fields, such as educational reform, adult self- directed learning, the psychology of learning, and political philosophy (Benson 2001). Researchers on autonomy are characterized by their willingness to gather insights from wherever they are to be found.”
existiriam ao menos cinco compreensões distintas para a palavra autonomia: 1) como termo utilizado para descrever o estudo auto-direcionado; 2) como habilidades a serem aprendidas e utilizadas no estudo auto-direcionado; 3) como uma capacidade inata que é reprimida pela instituição educacional; 4) como termo para o exercício da responsabilidade do aluno pelo seu aprendizado e 5) como direito do aluno em determinar a direção do seu aprendizado.
Essa diversidade de conceitos pode ser exemplificada a partir da análise de três teóricos distintos, em contextos, tempo e espaço variados, como Henri Holec, David Little e Phil Benson. Na concepção de Henri Holec, que iniciou sua pesquisa sobre autonomia do aluno na década de 1970 através do Projeto de Línguas Modernas do Conselho da Europa, a autonomia do aluno é “a habilidade de assumir o comando do seu próprio aprendizado”, como apresentou em seu trabalho intitulado Autonomy in Foreign Language Learning, em 1979.
Associado a esse conceito, estaria o fato de que assumir o comando do seu aprendizado significa que o aluno tem e concentra a responsabilidade de todas as decisões referentes a todos os aspectos do seu aprendizado como, por exemplo: a) determinar os objetivos, b) definir os conteúdos e progressões, c) selecionar os métodos e técnicas que devem ser utilizadas e d) avaliar o que foi adquirido (LITTLE, 1991, p. 7).
Vê-se, aqui, que o conceito proposto por Henri Holec maximiza o controle do ensino-aprendizado nas mãos do aluno, isto ocorre devido ao fato deste conceber a autonomia como o termo utilizado para descrever o estudo auto-direcionado. Como explicita Benson (2001), a autonomia era vislumbrada, no Projeto de Línguas Modernas do Conselho da Europa, “como um produto natural da prática do aprendizado auto-direcionado, ou aprendizados nos quais os objetivos, a progressão e a avaliação do aprendizado são
determinados pelos próprios alunos”31 (BENSON, 2001, p. 8). O ensino auto-direcionado tem
como preceito o ensino não institucionalizado, isto é, o processo de aprendizagem que surge da iniciativa do sujeito e que ocorre com ou sem o auxilio de um terceiro, no caso, um professor.
David Little, por sua vez, constrói em seu trabalho Learner Autonomy 1 – Definitions, Issues and Problems, de 1991, o seu conceito de autonomia a partir da estipulação do que a autonomia não é, para então delimitar o que ele intitula de definição provisória de autonomia do aluno. O autor enfatiza que a autonomia não é: 1) um sinônimo de auto-instrução; 2) a abdicação do professor, no contexto da sala de aula, de toda a sua iniciativa e controle; 3) algo que o professor faz para os alunos; 4) um comportamento único e
31
“… as a natural product of the practice of self-directed learning, or learning in which the objectives, progress and evaluation of learning are determined by the learners themselves.”
fácil de se descrever e 5) um estado estático atingido por certos alunos. A partir destas exclusões, Little chega a seguinte definição de autonomia:
Essencialmente, autonomia é uma capacidade – para desapego, reflexão critica, tomada de decisão, e ação independente. Esta pressupõe, mas também requer, que o aluno desenvolva uma forma particular de relação psicológica com o processo e o conteúdo de sua aprendizagem. A capacidade para a autonomia será desenvolvida tanto no modo como o aluno aprende quanto no modo como ele ou ela transfere o que aprendeu para contextos mais amplos.32 (LITTLE, 1991, p. 4)
Little (1991) traz, assim, uma perspectiva mais equilibrada sobre a responsabilidade e/ou controle do aluno sobre o seu processo de aprendizagem, pois a autonomia não significa, necessariamente, que o aluno assuma todo o controle do processo. Dessa forma, o professor, assim como outras fontes, terá um papel importante no desenvolvimento da mesma.
Outro ponto de divergência é o fato de Little (1991) não se basear no aprendizado norteado pela auto-instrução, pelo auto-aprendizado ou pelo auto-direcionamento. Para ele, a autonomia pode ser uma capacidade encontrada nos aprendizes que seguem essa forma de ensino, mas tal capacidade não é intrínseca ao aprendiz estipula, assim, que a autonomia do aluno não se vincula meramente ao modo como o aprendizado é organizado. Além disso, o autor introduz que a autonomia do aluno não é una, não é algo a ser transferido do professor para o aluno, mas a ser desenvolvido no e pelo aluno, e, por isso, não é estática, motivo pelo qual Little (1991) apresenta o seu conceito como provisório, pois a autonomia será diferente para cada aluno.
Essa perspectiva de autonomia do aluno como elemento variado e instável, se é que assim pode-se classificar, também foi assumida, mesmo que de forma distinta, por Phil Benson em seu trabalho Teaching and Researching Autonomy in Language Teaching, de 2001. Philip Benson (2001, p. 47) conceitua a autonomia como “a capacidade de assumir o controle do seu próprio aprendizado”33 e especifica ainda mais ao dizer que a autonomia é “uma capacidade multidimensional que irá assumir diferentes formas para diferentes
indivíduos e para o mesmo individuo em diferentes contextos ou em diferentes momentos”34
(BENSON, 2001, p. 47).
32 “Essentially, autonomy is a capacity – for detachment, critical reflection, decison-making, and independent
action. It presupposes, but also entails, that the learner will develop a particular kind of psychological relation to the process and content of his learning. The capacity for autonomy will be displayed both in the way the learner learns and in the way he or she transfers what has been learned to wider contexts.”
33 “the capacity to take control of one’s own learning.” 34
“[…] is a multidimensional capacity that will take different forms for different individuals, and even for the same individual in different contexts or at different times” (BENSON, 2001, p. 47)
Neste trabalho, o autor enfatiza também o fato de que não existe uma única forma de autonomia. Ela dependerá do aluno, do contexto, do momento e da versão/conceito de autonomia que assume, como explicitou Benson em um trabalho anterior, The philosophy and politics of learner autonomy, de 1997, onde evidencia que existem três formas de autonomia: a técnica, a psicológica e a política.
A versão técnica refere-se à autonomia assumida como “o ato de aprender uma língua fora de um contexto educacional e sem a intervenção de um professor”. Essa versão de autonomia é, por muitos teóricos, criticada, pois posiciona a autonomia do aluno no aprendizado no mesmo nível do auto-aprendizado, do aprendizado autodidata; o que muitos, como David Little, contestam. Em sentido oposto, encontra-se a versão psicológica, que “define a autonomia como uma capacidade – uma construção de atitudes e habilidades – que permite aos alunos assumirem mais responsabilidade pelo seu próprio aprendizado”. A autonomia é vista, nesta concepção, como uma mudança interna do aluno.
A versão política tem como princípio de que ter autonomia no aprendizado é assumir o controle do processo e do conteúdo da aprendizagem. Sendo assim, no caso de Benson, o controle do aprendizado pelo aluno poderia ser maximizado ou minimizado, de acordo com o conceito de autonomia escolhido como, por exemplo, no caso da versão técnica, onde o controle do aprendizado está totalmente e unicamente maximizado nas mãos do aprendiz.
Benson demonstra em seus trabalhos como o conceito de autonomia varia de acordo com a perspectiva assumida, com o tempo, o espaço e o contexto nos quais o teórico esteja inserido. Em seu trabalho apresentado em 1997, utiliza-se da análise da autonomia nas versões técnicas, psicológicas e políticas, de forma exclusiva no contexto do ensino de línguas, contrapondo-as com as teorias do positivismo, construtivismo e da teoria crítica, aplicadas ao ensino de línguas.
Já em sua pesquisa realizada em 2008, intitulada Teacher’s and learner’s perspectives on autonomy, o autor pauta a sua análise em perspectivas políticas, ideológicas e filosóficas, norteadas não apenas pelas teorias do ensino de línguas, mas se preocupando também com o contexto social no qual o aluno estará inserido ao sair da sala de aula.
O conceito de autonomia do aluno, como se infere, é variável. Não existe um conceito único e exclusivo sobre autonomia, sendo que o mesmo assume diversos tons, dependendo do autor e da perspectiva na qual este a insere e analisa. Depreende-se, assim, neste trabalho, que o conceito de autonomia não é uma delimitação imposta por uma teoria ou um teórico, pois entende-se que é uma construção pessoal sobre as necessidades e as demandas que cada contexto requer. Nunca existirá, então, um conceito único, pois cada
conceito é proveniente, como já explicitado, de empréstimos de diferentes teorias de ensino e de áreas conexas; o que se tem é um direcionamento a ser seguido como ponto de orientação para novas construções conceituais.
Entende-se, assim, que a autonomia do aluno surgiu não como um novo posicionamento teórico a ser adotado como uno no ensino de línguas estrangeiras. A autonomia surge como uma postura a ser fomentada nos alunos para que o seu processo de aprendizagem se torne cada vez mais eficiente, não apenas em termos meramente linguísticos formais, mas principalmente, na inserção e no uso da língua no contexto social no qual o aluno está inserido.