II. Revisão da literatura
5. A criança e o jovem e as práticas de lazer
6.1. Estudos sobre modalidades desportivas mais praticadas no
A crescente importância das práticas desportivas na ocupação dos tempos livres de recreação e lazer fez surgir diferentes cenários no mundo do desporto. A adesão das crianças e dos jovens no tempo livre, à prática desportiva resulta de um complexo processo, que envolve diferentes variáveis como a aprendizagem, a assimilação e o desenvolvimento de competências, valores, normas, auto perceção, identidade e papeis, proporcionadas por diferentes fatores do enquadramento familiar, escolar e do envolvimento social (Yang et al., 1996).
São várias as modalidades desportivas escolhidas pelos indivíduos para o preenchimento das suas atividades de tempo livre. Contudo, apesar de existir um leque enorme de modalidades desportivas colocadas à disposição dos indivíduos, estes tendem a concentrar-se em torno de um número reduzido destas. De acordo com Marivoet (1993), em Portugal, as modalidades com maior número de praticantes federados são, por ordem decrescente, o futebol, a ginástica, o atletismo, o ténis, a natação, o basquetebol, o andebol, o voleibol, o ciclismo, a caça, a pesca desportiva e o judo/karaté. Segundo a autora, embora surjam mais de 50 modalidades a serem praticadas, apenas as doze referidas detêm algum significado no conjunto das disposições dos hábitos de prática (Marivoet, 1993). Também outros estudos realizados por Almeida (1997) e Matos & Pinheiro (1998) confirmam o predomínio do futebol. Ainda no contexto das práticas desportivas preferenciais, é possível, também, verificar-se uma diferenciação entre os sexos. De acordo com estudos realizados (Almeida, 1997; Gonçalves, 1996; Kremer et al., 1992; Marivoet, 1991), os rapazes optam mais por modalidades de carácter coletivo, como o futebol e o basquetebol. As raparigas envolvem-se mais em atividades de natureza individual e tradicionalmente consideradas como mais adequadas para o seu género. Assim, a ginástica, a aeróbia, o ténis e a natação surgem como as modalidades de eleição para o género feminino.
Mais recentemente, o estudo de Moreno et al. (2010) teve como objetivo verificar quais as modalidades desportivas mais praticadas pelos jovens após o término das suas atividades letivas e verificar se existia relação entre a prática de modalidades desportivas e o sexo, classe etária e IMC (índice de massa corporal). Participaram neste estudo 536 jovens (301 rapazes e 235 raparigas) com idades compreendidas entre os 10 e os 18 anos, que frequentavam o 2º e 3º ciclo do ensino básico no Concelho de Bragança. Pode verificar-se que as modalidades desportivas mais praticadas foram o “futebol”, o “basquetebol” e o “btt”. Constatou-se, ainda, que existe uma relação entre a prática de modalidades desportivas e as variáveis género, idade e IMC. Apenas a modalidade desportiva “dança” é preferida pelas raparigas enquanto modalidades tais como o “futebol”, o “skate”, o “rappel”, a “escalada”, o “atletismo”, o “ténis de mesa” e as “artes marciais” são praticadas em maior número por rapazes. No que diz respeito à idade, constatou-se que o “basquetebol”, a “patinagem”, o “hóquei” e a “ginástica” são modalidades, normalmente, desenvolvidas pelos mais jovens (10-13 anos). Por fim, verificou-se existir uma relação entre o IMC e as modalidades desportivas, “futebol”, “btt” e “atletismo”.
Em 2008, Moreira & Pereira desenvolveram uma investigação com 344 crianças do 1º ciclo do ensino básico, de ambos os sexos (50% masculino e 50% feminino), com idades compreendidas entre os 7 e os 12 anos, sobre as atividades desportivas nas práticas de lazer. Da totalidade de crianças envolvidas, no estudo, 67,2% praticam efetivamente desporto. No entanto, os rapazes são mais ativos do que as raparigas, pois a percentagem de praticantes masculinos foi superior. Quanto ao gosto pelo desporto, 18% dizem que gostam muito e 75% dizem adorar praticar desporto; só 6,7% dizem gostar mais ou menos e 0,3% referem não gostar nada. Dentro das modalidades mais praticadas, os indivíduos do grupo de estudo destacaram a natação (47,6%), o futebol (19,9%), o karaté (15,6%) e a ginástica (10,8%).
Também Melo (2004), com o objetivo de conhecer a forma como as crianças ocupavam o seu tempo livre, elaborou uma investigação que abrangeu 304 jovens, de ambos os sexos, com idades entre os 10 e os 18 anos. O autor concluiu que 47% dos inquiridos realizavam atividades desportivas e as mais praticadas eram o futebol (30,8%), o voleibol (16,6%) e o ciclismo (15%).
No que respeita ao local onde as atividades físicas e desportivas são praticadas, de acordo com Matos & Pinheiro (1998) os clubes desportivos mantêm-se como locais privilegiados de prática desportiva. Observa-se, contudo, uma tendência para o emergir de formas de participação mais informal efetuadas em outro tipo de espaços sociais como a rua, a praia, os rios, as montanhas entre outros. Este facto é colocado em evidência no estudo realizado por Kremer et al. (1992), o qual aponta para uma prática não institucionalizada cada vez maior.
No entanto, estes dois estudos, e ao contrário do que se observa na investigação de Marivoet, indicam as atividades de exploração da natureza como uma das atividades mais escolhidas pelos inquiridos.
Assim, uma das formas de preencher os tempos de lazer poderá ser pela prática de atividades físicas/desportivas ao ar livre, em contacto com a natureza. Impulsionados pela aventura, pela descoberta e pelo desafio e emoções que representam.
Estas práticas desportivas têm sido difundidas com um carácter pessoal, desinteressado e hedonístico. Assim, a prática desportiva não se resume à busca de um objetivo exterior ao indivíduo, bem pelo contrário, tende a dar muita importância aos objetivos inerentes ao próprio indivíduo como o prazer, a satisfação, o bem-estar e a saúde. O impacto e a motivação do jovem por este novo tipo de práticas desportivas são enormes, considerando a noção de limites, de vertigem e de esforço físico, feito realizado em contacto com a natureza.
Desta forma, o contacto com a natureza surge, como uma necessidade de compensação de um sistema de vida sedentário e centrado na vida urbana. Confirmando esta nova tendência podemos observar atualmente, uma crescente procura de novos desafios, exaltação e aventura, que podem constar nas atividades físicas e desportivas realizadas em meio natural (Cunha, 2007; 1997). Estas práticas são vividas na maior parte das vezes na companhia de amigos, onde se privilegia a aventura, a incerteza e o risco, em plena natureza. Esta nova realidade obriga-nos a rever conceitos, a refletir sobre o seu sentido, a repensar o espaço para as atividades desportivas e a desenvolver medidas para o incremento destes desportos (Carvalhinho, 2006; Correia, 1997; Pires, 1992).
Segundo Carlos Neto (1992), o impacto e a motivação do jovem por este novo tipo de práticas desportivas é enorme, considerando a noção de “limites
mais atrativos” de vertigem e de esforço físico. As motivações (linguagens e discursos) para o desporto das novas gerações, orientam-se a nosso ver, em seis grandes indicadores ou quadro de referências: (i) a opção por práticas desportivas que valorizam o confronto com o espaço natural. Alguns ambientes e atividades estão fortemente associados às experiências de aventura, e por boas razões. Eles agem como facilitadores das emoções, pensamentos e sensações que definem a aventura.
Trata-se, antes de tudo, de tornar coerente uma “nova cultura” com um novo “espaço de ação”. Um desporto mais centrado no contacto com a natureza (ecológico) permite novas dinâmicas individuais e coletivas, mais robustas quanto ao sentido de si próprios e dos outros; (ii) a atração por atividades em que exista maior imprevisibilidade do meio. Trata-se, acima de tudo, de desenvolver capacidades motoras, físicas e psicológicas em função de condições de práticas instáveis (meio aéreo, terrestre, aquático ou subaquático). A variação das condições climatéricas, das características do meio físico e das alternativas de superação de si próprio (de forma sistemática) configuram uma das grandes diferenças em relação aos desportos convencionais (espaços estandardizados). (iii) A prática de atividades em que o risco e a aventura corporal estejam presentes. Trata-se de procurar formas de ação diferentes que permitam percecionar a noção dos limites do corpo, em situação de transcendência (harmonia) e de superação do caos (conflito). Por exemplo, a prática do surf, do windsurf, do alpinismo, do parapente, entre outras, são atividades de elevado nível de risco, que implicam um aperfeiçoamento da capacidade de disciplina e organização individual. O confronto é estabelecido com o meio natural mas principalmente consigo próprio. As estratégias e tomadas de decisão têm, obrigatoriamente, de estar associadas a um nível de perícia corporal necessário para a resolução dos problemas que cada situação nova vai criando. (iv) A liberdade de escolha das práticas desportivas de acordo com o seu tempo individual e as suas próprias regras de ação. Trata-se, de facto, dos praticantes usufruírem de uma certa liberdade de escolha do momento de prática, da sua duração, do nível de intensidade e exigência de aperfeiçoamento. De acordo com as regras de segurança e referências de regulamento técnico, estas práticas oferecem uma margem elevada de regras de ação consoante a estabilidade ou instabilidade do contexto físico; (v) o desenvolvimento de uma
cultura específica de grupos de amigos, assente em relações positivas de solidariedade. Trata-se de valorizar o encontro, o convívio e a manifestação de projetos coletivos. Cada uma destas atividades implica, necessariamente, uma filosofia própria, uma dinâmica específica de prática, um entusiasmo característico e um desafio abrangente de grupo; (vi) a criação de modas e hábitos quotidianos que dão sentido a “culturas específicas” de práticas físicas e desportivas. Trata-se de analisar a importância dada ao vestuário apropriado, à linguagem utilizada, com um vocabulário muito próprio, aos tipos de equipamento usados e aos meios de transporte mais característicos.
Tais motivações estão diretamente relacionadas com as cinco tendências, na evolução das exigências sobre a atividade física e desportiva no contexto de lazer, descritas por Loret (1994): i) a busca da autonomia e consequente rejeição das grandes organizações muito formais; b) a busca do prazer, da alegria e realização pessoal, em detrimento do tradicional ascetismo desportivo; c) a busca da vitalidade como aspeto ligado ao bem-estar físico e psíquico; d) a busca da comunicação inter-individual, em pequenos grupos informais; e) e a busca do equilíbrio entre as qualidades mentais e físicas.
Estas tendências recentes quanto às motivações para a prática desportiva são legítimas e compreensivas. O futuro do desporto poderá passar pela exploração do meio natural em contraponto com o quotidiano de uma vivência cada vez mais urbana.