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3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.2 O CASO

3.2.1 Etapas do protocolo do caso Beta S.A

Com vistas a explicitar os procedimentos que devem ser seguidas no estudo de caso, adaptou-se, a partir de Yin (2001), um protocolo para realização da pesquisa. Conforme o autor, o protocolo objetiva garantir a confiabilidade do estudo porque o pesquisador não tem controle absoluto do ambiente da coleta de dados.

Quadro 7 - Protocolo do estudo de caso da Beta S.A.

Etapas Ações Atividades

1 O estudo de caso da Beta S.A.

Objetivos, contexto da rotina, relevância da Beta S.A., questões do estudo de caso, leituras desenvolvidas e reuniões preparativas.

2 Procedimento estudo da Beta S.A.

Agendamento de visitas de campo, verificação de

procedimentos de acesso, documentos especiais, materiais necessários, colaboradores que foram entrevistadas. 3 Questões pesquisador. Questões fundamentais do pesquisador

4 Plano de análises. Estudo individual, entre níveis, causa e efeito Fonte: adaptado Yin (2001).

A etapa (1) o estudo de caso da Beta S.A. aponta que a pesquisa objetivou caracterizar a evolução da rotina, denominada de qualidade, representando a rotina de alto nível da empresa. A opção pelo estudo de caso único, se justifica em virtude do pesquisador, quando da construção do projeto, ter contatado outras três empresas, S.A., do Rio Grande do Sul, contudo, não obteve êxito em agendar um encontro pessoal com os tomadores de decisão destas organizações. Destas, apenas uma respondeu contato eletrônico. Após o pesquisador telefonou várias vezes às empresas e conseguiu após, contatar com pelo menos três gerentes de apenas uma, entretanto, com resposta negativa quanto ao desenvolvimento da pesquisa.

A única que aceitou o desenvolvimento da tese foi a Beta S.A. O estudo de caso único, contudo, justifica-se pela solidez e maturidade estratégica da Beta S.A. dado a ser a maior encarroçadora de ônibus do mundo, por ser uma empresa de nível 2 na bolsa de valores e por possuir governança corporativa e dela partirem diversas ações estratégicas. Além disso, o caso único é legitimado pela singularidade do contexto conceitual das rotinas.

As rotinas apresentam especificidade local e de tempo significando que seus estudos são dependentes das diferenças culturais, sendo complexa sua generalização. Assim, o estudo na Beta S.A. se confirma por ser uma empresa global com unidades de produção em todos os continentes. A diversidade de mercados e culturas são representativas. A rotina da qualidade da empresa, em estudo, vem passando por uma mudança, dada a diretriz da empresa e pelo resgate da filosofia lean, com ênfase da qualidade na prevenção, em nível global. O estudo da rotina da qualidade justifica-se dada a organização sr uma S.A apresentando maturidade estratégica em termos de inovação, indicadores de desempenho e por ser líder do mercado mundial.

A rotina da qualidade na detecção, que a empresa vinha desenvolvendo, nos últimos dois anos, resultou em perdas e custos operacionais expressivos. Assim, a empresa com a contratação recente de seu novo CEO, e com a renovação de parte da diretoria executiva, retoma a produção lean e a rotina da qualidade assume posição de destaque. Trata-se de um momento singular, dentro de um lapso de tempo, que ocorre na matriz desta empresa, sendo que posteriormente a rotina da qualidade com ênfase na prevenção será expandida as demais coligadas. Os dados obtidos com a tese, servem de base à diretoria da Beta S.A. identificar padrões de interação, conhecimento, oportunidades, erros, limitantes e potencializadores da rotina da qualidade, objetivando, com base nesses dados, uma efetiva implementação nas demais coligadas internacionais que juntas somam mais de 17 mil colaboradores.

As rotinas, além disso, demonstram que sua replicação também é difícil dado estarem inseridas na memória procedural. Através do caso único na matriz da Beta S.A., foram possíveis a realização de técnicas em profundidade e de forma individualizada viabilizando-se o acesso à memória procedural, identificando os potencializadores e limitantes para a transferência da rotina da qualidade da detecção à prevenção. Ademais, as rotinas surgem a partir de regras de produção individual (APPIAH; SARPONG, 2015).

As rotinas também são dependentes das trajetórias da organização sendo influenciadas por artefatos (MUCH, 2016). Ao acessar os indivíduos, por meio de entrevistas semiestruturadas, técnicas projetivas e história oral temática possibilitou-se identificar os elementos que limitam e potencializam a transferência da rotina da qualidade da detecção à prevenção. Por essas razões, e dada a necessidade do estudo das microfundações das rotinas, isto é, o estudo por meio do individualismo interagente, se justifica o estudo de caso único da Beta S.A.

Ao estudar a rotina da qualidade, por questões de confidencialidade omitiu-se o nome da organização pesquisada. Esse foi um dos pré-requisitos solicitados pela Beta S.A.

antes de iniciar a pesquisa. Anterior a decisão do estudo na empresa, realizou-se primeiramente um encontro com um dos conselheiros da empresa entre o pesquisador, o professor orientador e um representante discente da pós-graduação da Universidade de Caxias do Sul. Aconteceu na filial da empresa no dia 21 de julho de 2016, às 11 horas. O mesmo demonstrou interesse e enviou o projeto de tese ao diretor de estratégia. Após, no dia 01 de setembro de 2016, realizou-se a segunda reunião, desta vez, com o diretor de estratégia, o pesquisador, o professor orientador e o representante discente de pós-graduação da Universidade de Caxias do Sul. O encontro ocorreu na matriz da empresa, onde debateu-se a possibilidade do estudo de uma das rotinas da filosofia lean. O diretor, então, repassou o projeto de tese ao gerente de design e inovação.

Novo encontro, no dia 26 de janeiro, na sede da empresa, com o gerente de design e inovação, onde novamente apresentou-se o projeto de tese. A reunião contou com as presenças do pesquisador e do professor orientador. O gerente reiterou o interesse da empresa, contudo, afirmou que ainda não se tinha definido qual das rotinas seria objeto de pesquisa na empresa. Em novo contato do pesquisador com a empresa agendou-se a quarta reunião, desta vez com o diretor da qualidade, recentemente contratado pela Beta S.A. A reunião ocorreu no dia 30 de março, às 8 horas e 30 minutos, na matriz da empresa.

Nesta reunião, o diretor da qualidade descarta a análise da rotina referente a segurança e custo da filosofia lean. Indica, contudo, a necessidade de estudo da rotina da qualidade que é desenvolvida como quality operating system, onde o mesmo mostrou o modelo empírico da empresa. Solicitou no momento, confidencialidade absoluta referente ao modelo empírico. O doutorando juntamente com o diretor da qualidade, aponta ajustes e complementos empíricos a partir de seu objetivo de estudo, acoplando com o interesse da empresa. Ficou acordado, entre ambos, naquele encontro que, dentro de um prazo de 15 dias, o diretor de qualidade contataria com o diretor de estratégia e com os demais diretores, sobre a questão de confidencialidade e adesão ao desenvolvimento da tese. No encontro, o pesquisador, a pedido do diretor de qualidade, se comprometeu a repassar constantes análises de resultados ao mesmo. Recebido a confirmação, inicia-se no dia 27 de abril, às 11 horas e 40 minutos, a primeira entrevista qualitativa da coleta dos dados.

Estruturou-se, contudo, antes das entrevistas qualitativas, um termo de consentimento livre e esclarecido que foi apresentado aos atores da pesquisa no início da coleta. Anterior a aplicação do termo, o mesmo foi analisado e aprovado pela diretoria da qualidade. Os termos tratavam do sigilo, autonomia e contato. O sigilo era garantido pela não identificação do entrevistado, apenas o seu cargo. Da autonomia significa que era garantida o

livre acesso de todas as informações durante e após a pesquisa. O contato, representava a identificação do e-mail e celular do pesquisador e a identificação do professor orientador bem como da Universidade de Caxias do Sul.

Em concordância com o sujeito da pesquisa, iniciava-se a entrevista semiestruturada. As questões de pesquisas formuladas e validadas por especialistas, compreenderam o total de 42 questões sendo dividas nos blocos de variações: cega (erros e oportunidades), racional (comportamento inovador), fatores emergentes, imitação concorrentes, micromudanças (eventos mutagênicos e engatilhadores de ação), endógena (path dependence), padrões (interação e interação não observáveis), repertório individual (conhecimento e técnicas únicas e convenções singulares) e conhecimento tácito e explícito. As questões desenvolvidas surgiram através das teorias da firma, posicionamento competitivo e evolucionária bem como dos construtos rotina e estratégia.

A etapa (2) procedimento do estudo de caso, em termos de coleta de dados, contou com o auxílio da secretária executiva da diretoria da qualidade. A mesma responsabilizou-se pelo agendamento das 30 entrevistas qualitativas. Destas, apenas uma entrevista não foi possível de se realizar em virtude da incompatibilidade de agenda. Todas as entrevistas eram agendadas, com uma semana de antecedência, sempre nas quintas e sextas feiras, pela parte da manhã ou tarde. Primeiramente agendou-se todas as entrevistas do nível operacional, após nível tático e na sequência nível estratégico. O agendamento ocorria via e-mail onde a secretária executiva copiava o pesquisador sobre a data, horário e local da empresa para realização das entrevistas. Após confirmada, se executavam a coleta. O pesquisador utilizava gravador e notebook. Apenas três entrevistas da totalidade foram reprogramadas em outra data em função de incompatibilidade profissional dos entrevistados.

Ao chegar na empresa Beta S.A. o pesquisador identificava-se junto a portaria, responsável pela segurança. Após, ao adentar na empresa, passava-se ao setor de recepção para identificação do pesquisador via crachá, sendo uma condição necessária para o pesquisador circular dentro do ambiente da organização, onde era proibido fotografar ou filmar as dependências de qualquer parte da empresa. A maioria das entrevistas realizaram-se nas salas do prédio da diretoria da qualidade. Outras, a nível de diretoria, eram desenvolvidas no prédio da diretoria. Uma das entrevistas realizou-se no prédio de logística. Apenas uma entrevista, de um diretor, realizou-se fora da matriz da Beta S.A.

Com relação a etapa (3) questões do pesquisador, seguindo a orientação do Yin (2001), ao realizar a entrevista, o doutorando teve consciência de identificar, via entrevista semiestruturada, as causas das diferenças de entendimento sobre a rotina e de verificar se a

entrevista desenvolvida, atendia em sua totalidade os pontos necessários sobre o estudo. Com relação as causas de diferenças de entendimento, isto é, quando um dos respondentes afirmava algo diferente do antecessor, o pesquisador resgatava essa diferença para o próximo entrevistado objetivando elucidar aquela contradição. Isso aprofundava o estudo da rotina na empresa Beta S.A. Essas contradições de concepção também eram retomadas pelo pesquisador em outras entrevistas de colaboradores de níveis diferentes. Assim, obtinha-se as diferenças de concepções, acerca da evolução da rotina, primeiramente entre o mesmo nível na qual o colaborador se encontrava. Não satisfeito com essas assimetrias procurava-se elucida-las nas entrevistas subsequentes de outros níveis, sejam estes operacional, tático ou estratégico. Esse processo seguiu os preceitos de Flick (2004) pois objetivava a caracterização dos entendimentos dos atores da pesquisa por meio da explicitação de seus conceitos subjetivos acerca da rotina da qualidade.

Na etapa (4) plano de análise, após a entrevista, imediatamente o pesquisador transferia a gravação do áudio para o notebook. Ao retornar à cidade de origem, desenvolvia- se, na sequência, a transcrição e início da análise qualitativa. O conteúdo das entrevistas, eram grafadas e colocadas nos blocos analíticos em um esquema do power point. Assim tinham-se ao final 29 esquemas que se assemelhavam a um mapa que explicitava as diferenças de cada um dos entrevistados. Isso facilitou a análise de conteúdo da entrevista semiestruturada, das técnicas projetivas e história oral temática. A partir da 25ª entrevista percebeu-se o esgotamento das informações onde pesquisador já verificava a ausência de contradições e que alguns apontamentos se repetiam. Isso significou que a triangulação dos dados saturou os objetivos da pesquisa.

Ao finalizar as etapas de análise de conteúdo enviou-se via e-mail ao diretor da qualidade, conforme acordado, resultados parciais via e-mail do nível operacional. Após presencialmente agendava-se encontro com o diretor da qualidade onde o pesquisador apresentava pessoalmente a ele os resultados obtidos. Isso ocorreu sucessivamente com o nível operacional, tático e estratégico. Nos encontros, o diretor de qualidade tinha consigo todos os relatórios impressos que compreendiam, análise de conteúdo, figuras e questionamentos. O mesmo fazia questionamentos ao pesquisador e anotava os apontamentos. Na ocasião o pesquisador formulava modelos conceituais para potencialização da rotina da qualidade.