2.4.2 – A TEIA DA VIDA
105 FRITJOF CAPRA
“ ... o Homem não teceu a Teia da Vida, ele é dela apenas um fio ...”
Muito embora possa parecer redundância e repetição, e que a evidência é tamanha que se torna desnecessária novamente sua colocação, mais uma vez é de extrema relevância que se coloque a fundamental importância da mudança de paradigma científico no concernente as questões ambientais, mais precisamente no abandono da visão mecanicista da Natureza de Descartes e Newton, na direção de uma visão holística ecológica, onde o homem faz parte e está incluído e não é parte isolada e excluído por ser forma de vida superior e dominadora.
Os novos pensamentos e paradigmas científicos no concernente não só as questões ambientais como de toda e qualquer forma de saber já iniciaram a jornada rumo ao ecocentrismo com o conseqüente abando do antropocentrismo.
Estamos incorporando os valores inerentes ao pensamento de que a Terra é o centro de nossa atenção e que não somos, como espécie, o centro do Universo em detrimento de outras formas de vida.
Estamos abandonando o pensamento puramente racional em busca do intuitivo, partindo da análise em busca da síntese, abandonando o reducionismo e assumindo uma nova postura holística, deixando o pensamento linear em busca do não linear para que possamos reconsiderar nossa postura expansionista em troca do conservadorismo deixando de lado a competição e sendo mais solidários, onde o que importa é a qualidade e não a imensa quantidade desenfreada e passamos a acreditar que não vale a pena dominar e sim realizar parcerias.
Antes de tudo estamos incorporando o pensamento sistêmico onde deixamos de realizar nosso enfoque das partes em direção ao todo – “ ... Os sistemas vivos são
totalidades integradas cujas propriedades não podem ser reduzidas às de partes menores...”(*), acreditando sinceramente que como espécie somos parte do imenso sistema
da vida do planeta.
_________________________________________________________________________________ (*)CAPRA, Fritjof. A teia da vida. São Paulo, Editora Cultrix-Pensamento Ltda. 1975
identificado em todos os organismos vivos.
Este padrão é a rede, ou teia como se preferir. Onde quer que encontremos sistemas vivos – organismos, partes de organismos ou comunidades de organismos – poderemos identificar a auto-organização em forma de rede, de teia.
“ Sempre que olhamos para a vida, olhamos para redes “(1) .
A Teoria da auto-organização dos organismos vivos ficou evidenciada pelo princípio das estruturas auto-dissipativas descobertas por Ilya Prigogine(2), que fazem com que os organismos vivos sejam capazes de manter seus processos de vida mesmo em condições de desequilíbrio pelo fato de se auto-organizarem continuamente.
De qualquer forma, a idéia mais poética e mais real resultante dos enunciados até agora enumerados é a Teoria de Gaia, sobre a Terra Viva, onde o químico James Lovelock formulou um modelo e a idéia de que o Planeta Terra como um todo é um sistema vivo, auto-organizador.
A colocação de Yuri Gagarin(3) de que – “ ... A Terra é Azul ... “ não foi simplesmente uma metáfora romântica e poética, pois a partir daquele momento histórico o homem teve que passar a considerar que a Terra, o Planeta, realmente é vivo e que estamos incluídos nele como espécie e elo da rede, da teia da vida.
Mais importante ainda é a compreensão de que, como espécie, não somos vivos, e sim, estamos vivos, ou como coloca o próprio Ilya Prigogine – “ ... O Universo... Os
organismos ... não são vivos... estão vivos... “ .
A simples aceitação da concepção, da idéia de que os sistemas vivos são redes auto-organizadoras cujos componentes estão todos interligados e são interdependentes, derruba por terra o paradigma do mecanicismo da Natureza e de sua postura servil a espécie humana, pois, se o homem está nesta rede, nesta teia da vida, ele é parte inclusa e dependente e não a margem do processo vital.
Até mesmo a Teoria do Caos reforça a idéia da vida em rede, em teia, pois ao acabar com as equações deterministas a que estavam acostumados os cientistas, mais uma vez reforçou a idéia de auto-organização, pois nem tudo na natureza pode ser explicado pela formula causa e efeito; até mesmo a brincadeira do “ efeito borboleta “(4) reforça o sistema de rede, de teia da vida, ou de teia da materialidade onde tudo está interligado de forma sistêmica.
_________________________________________________________________________________ (1)CAPRA, Fritjof. A teia da vida. São Paulo, Editora Cultrix-Pensamento Ltda. 1975 pág. 78
(2) ILYA PRIGOGINE é Prêmio Nobel de Química, professor da Universidade Livre de Bruxelas e da Universidade do Texas, Austin, EUA
(3) YURI GAGARIN, astronauta russo, primeiro homem a sair da órbita terrestre na década de sessenta. (4) “ Efeito Borboleta “ ; brincadeira jocoza dos ante-teoria do caos que dizem que o bater de asas de uma borboleta num hemisfério da terra poderia causar um furação em outro.
Relevante ainda mencionar que se todas as organizações dos sistemas vivos se organizam em forma de rede, de teia, nem todas as redes são sistemas vivos.
Segundo Maturana e Varela o que caracteriza os sistemas vivos é o fenômeno pelo qual uma rede viva reproduz continuamente a si mesma. Desta forma “ o ser e o fazer dos [ sistemas vivos ] são inseparáveis, e esse é o seu modo especifico de organização “. A autopoiésis, ou “ auto criação “ é um padrão na rede ou teia da vida. Desta forma, a rede ou teia, continuamente, cria a si mesma e passa por todas as formas de desequilíbrio se auto-organizando pelas estruturas dissipativas e para completar o ciclo da vida imerge na cognição como forma de aprender e apreender a manter a rede, a teia viva. A partir do momento que o paradigma não só cartesiano de mecanicismo da Natureza e sua postura servil a espécie humana, bem como o pensamento newtoniano de causa e efeito, onde o mundo é visto única e exclusivamente causal e determinado, ou seja, tudo o que acontecia tinha uma causa e era previsível, deixam de ser considerados, a relação tempo-espaço se altera e se passa a considerar que a flecha do tempo é irreversível e, se tivermos um mínimo de compreensão e responsabilidade para com a “ Teia da Vida “ o paradigma da exploração dos recursos da natureza a nível máximo não mais se justifica, pois deixa de ser previsível todas as leis naturais; as causas não são as únicas determinantes dos efeitos; não é mais possível a previsão com certeza absoluta, somente estatística, ou como coloca Ilya Prigogine – “ É chegado o fim das certezas... “(1).
Desde o momento que aceitemos a Hipótese de Gaia, ou seja, de que a Terra é um “ ser vivo “ caberia a indagação se, por exemplo, o sistema solar não seria uma rede autopoiética, ou até nossa galáxia, ou, quem sabe o Universo como um todo.
Tais considerações nos levam a refazer nosso pensamento e nos força a redirecionar nossos conceitos, por exemplo, de que as leis deterministas Darwinianas(2) não mais se sustentam, pois possuem sua base nos antigos preceitos de Descartes e de Newton, e que qualquer consideração com referência a rede, a teia da vida nos leva a repensar a Teoria da Evolução das espécies, mais como uma conseqüência da autopoiésis, estruturas dissipativas e cognição dos sistemas vivos do que por lei deterministas de causa e efeito, muito embora não desconsideramos as leis genéticas e ambientais..
Por fim, colocamos uma citação do próprio FRITJOF CAPRA(3) :
- “ Reconectar-se com a teia da vida significa construir, nutrir e educar sociedades sustentáveis, nas quais podemos satisfazer nossas aspirações e nossas necessidades sem diminuir as chances das gerações futuras “ .
_________________________________________________________________________________ (1) PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas. São Paulo, Editora UNESP. 1996
(2) Alusão a Charles Darwin, autor da “ Teoria da Evolução das Espécies “.
(3) CAPRA, Fritjof. A teia da vida. São Paulo, Editora Cultrix-Pensamento Ltda. 1975