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3 A ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA (ADC) E DIÁLOGOS EPISTEMOLÓGICOS CRÍTICOS

4.4 A etnografia como método

4.4.1 Geração dos dados

Segundo Realismo Crítico (BHASKAR, 1977), a realidade 49 é construída das dimensões transitivas e intransitivas do conhecimento. A dimensão intransitiva é ontológica (os objetos da ciência, da filosofia, aquilo que estudamos no mundo desde os gregos, o ser das coisas), enquanto a dimensão transitiva é epistemológica (teorias científicas sobre os objetos do mundo). A ADC articulada com a Ciência Social Crítica numa perspectiva pós-colonialista é possível compreender a abordagem das dimensões transitivas e intransitivas nos estudos do discurso – sejam modos de representação de eventos, sejam construções discursivas de identidades – produzidos e constituídos na arena sociodiscursiva.

Uma ontologia do sofrimento no evento discursivo parto é cara à reflexão crítica dessa tese. A própria naturalização desse sofrimento no senso comum reflete a hegemonia do discurso médico-paciente sob a ordem discursiva da prática obstétrica. Para além dessa categoria ontológica, uma outra é importante: a dignidade das mulheres que no contexto de um atendimento do SUS, muitas vezes é invisível, dada como desconhecida, principalmente no processo de atendimento ao evento discursivo parto no qual obstetras utilizam-se de protocolos desnecessários.

4.4 A etnografia como método

4.4.1 Geração dos dados

O estabelecimento da geração dos dados seguiu a abordagem multidimensional, incluindo a o processo de triangulação, comparando as informações oriundas das entrevistas, observação participante, notas de campo e recolha artefatos. Essas diversas técnicas de pesquisa foram realizadas de forma individual, na vida real ”(MARCONI; LAKATOS, 2009, p. 111) e sugerem a validade dos dados, ajudando na segurança das conclusões.

A observação participante “um modo de pesquisar que coloca o pesquisador no meio da comunidade que ele está estudando” (ANGROSINO, 2009, p. 17) foi realizada acompanhando o cotidiano das mulheres na maternidade em suas 24 horas de internação. Estabeleci um cronograma de atividade etnográfica a qual dediquei duas vezes na semana

49Considero que a dimensão intransitiva da realidade é em muitas circunstâncias inalcançáveis diante desse relativismo de nossos conhecimentos por conta da luta hegemônica. O senso comum nesse sentido sob as armadilhas da luta hegemônica estão impeditivos de uma visão a mais real do domínio desses aspectos intransitivos e ontológicos.

vinte e quatro horas de plantão (finais de semana e um dia no meio da semana) durante dois anos. Este mesmo roteiro foi estabelecido no acompanhamento aos médicos e médicas obstetras. Esse era o acompanhamento no momento da consulta de admissão da gestante: o pré-parto, o parto e a alta hospitalar.

O modelo da entrevista etnográfica é de natureza aberta, feita em profundidade, “flui interativamente na conversa e acomoda digressões que podem abrir rotas de investigação novas, inicialmente não aventadas pelo pesquisador”(ANGROSINO, 2009, p. 62). Uma questão importante para a entrevista etnográfica é o conhecimento prévio de questões sobre o tópico abordado. Para isso estudei previamente a bibliografia referente aos critério de humanização do parto de baixo risco, mergulhei intensamente nos debates médicos relacionados aos paradigmas em conflito da ordem discursiva da Medicina. Para as mulheres a simplicidade das questões refletem o cuidado que tive em alcançar a profundidade da questão do sofrimento.

O modelo foi organizado em duas partes: a primeira parte reservada para o preenchimento dos dados (nome, idade, sexo, residência, e a segunda parte, com as questões norteadoras, visando compreender o significado da experiência vivida e responder aos objetivos do projeto de pesquisa. Essas questões não foram engessadas, pois serviram apenas de roteiros. A organização da entrevista aberta não significa que é desorganizada: ela prescinde fluir em “direções produtivas” (ANGROSINO, 2009, p. 62).

A entrevista etnográfica ultrapassa uma simples conversa de amigos e, por isso, requereu de mim muita habilidade para manter o diálogo com as pessoas nas entrevistas, sem demonstrar impaciência, interromper abruptamente, mas tendo muita calma para ouvir atentamente. Foram abordadas questões como: atenção, dedicação e ampliação posteriori das relações sociais; o cuidado com a personalização, chamando as pessoas pelo nome; compartilhar experiências comuns (fiz isso muito com as parturientes, falamos de nossas dores de parir, dos manejos iniciais com os bebês, as nossas escolhas em comum, nomes dos bebês); demais questões amiúdes partilhadas com uma isomorfia intensa no parto.

Também com os médicos e médicas, estabelecemos muitos encontros na cantina, no refeitório fazíamos as refeições em conjunto. Já na “banquinha” de comidas típicas ao lado da maternidade, discutimos o SUS, a Medicina, a saúde pública, salários, política quer partidária, quer filosófica. Os vínculos afetivos como profissionais de um mesmo patrão (o Estado) desembocaram para discussões muito acirradas junto às politicas públicas, às questões da equidade na saúde, etc.

As entrevistas foram gravadas em momento adequado conforme o aceite dos participantes do estudo.

As entrevistas com médicos, médicas foram realizadas no repouso médico, recinto privado e isolado. Com as pacientes, foram realizadas nos momentos que antecederam a alta hospitalar, numa pequena sala de reuniões a mim destinada pela direção, portanto, um local com privacidade.

A coleta de artefatos mais significantes nesse estudo são as imagens e cartazes na sala de pré-parto e parto registradas por fotografias.

As notas de campo relatam aspectos pertinentes para as análises e foram de grande relevância para a construção teórica dos dados que merecem, por sua importância, reflexão crítica substancialmente determinante. Foram escritas em sua ampla maioria ou em minha casa ou na biblioteca da Universidade. Na maternidade nas madrugadas no repouso destinado às profissionais, momento em que tinha condições de isolamento e privacidade redigi algumas notas.

Ressalto que durante dois anos minha presença sistemática obedeceu à risca horários e rotinas do hospital, inclusive com as vestimentas comuns, mantendo uma relação harmoniosa o mais possível com os colegas na maternidade. No momento dos partos minha presença se misturava ao grupo e eu me mantinha atenciosa e comportando-me de acordo com as exigência séticas. Acompanhando o cotidiano das mulheres na maternidade, em suas 24 horas de internação, estabeleci um cronograma de mergulho etnográfico ao qual dediquei duas vezes na semana vinte e quatro horas de plantão (finais de semana e um dia no meio da semana) durante dois anos.

4.4.2 Os participantes

A amostra dos participantes desse estudo está caracterizada como não aleatória, não probabilística, portanto, determinada e intencional, com uma“lógica flexível com foco nas necessidades que aparecem durante a realização da pesquisa” (FLICK, 2009, p. 44). “O tamanho de uma amostra depende das características do grupo que você está estudando, de seus próprios recursos (isto é, suas limitações legítimas de tempo, mobilidade, acesso a equipamento, etc.) e dos objetivos do seu estudo” (ANGROSINO, 2009, p. 68). Uma característica importante dessa ‘lógica flexível” é a transitoriedade das parturientes, que passam apenas 24 horas na maternidade. Essa questão foi muito importante para o processo de nossa pesquisa etnográfica.

A maternidade conta apenas com cinco profissionais obstetras, portanto, em relação aos médicos e médicas, todos são participantes do estudo - três médicos e duas médicas. Quanto as parturientes, a situação de transitoriedade as caracteriza no intercurso do atendimento ao processo de parto. Todas as mulheres que buscam o atendimento na maternidade, em sua ampla maioria, caracteriza a clientela predominante do SUS com escassos recursos socioeconômicos.

Estabeleci um limite de 20 mulheres que considerei seguro o suficiente para atender aos propósitos de saturação dos dados. A amostra não probabilística determinante não se fundamenta no “critério, numérico e podemos considerar que uma amostra ideal é aquela capaz de refletir a totalidade nas suas múltiplas dimensões” (MINAYO, 1996, p.102). É, pois, em relação aos resultados que ela acarreta, bem como a sua pertinência, que a amostra não probabilística se justifica (DESLAURIERS; KÉRISIT, 2008, p. 138-139). A seleção da amostra é representativa teoricamente, “não no sentido estatístico ou por representar a realidade em uma população básica, mas por ser capaz de representar a relevância do fenômeno” (FLICK, 2009, p. 46).

Durante dois anos, incontáveis mulheres foram internas em trabalho de parto, aborto entre outras situações clínicas obstétricas decorrentes da gestação. Mas faço questão de manter as características de todas as Marias50, Madalenas, Cristinas, Marias das Dores entre outras por mim ‘batizadas’ com nomes fictícios, que mantêm um elo coerente de identificação social importante: seus sofrimentos compartilhados remetem às esferas das opressões sociais que matizam perfis socioeconômicos, afetivos e existenciais num isomorfismo coerente e comum a todas elas.

Nessas 24 horas foram muitas conversas “ao pé do ouvido”, no leito, na recepção do hospital, no alojamento conjunto e no momento da alta hospitalar. Posteriormente, em suas humildes residências na visita domiciliar do Programa de Saúde da Família, no qual atuo como cirurgiã-dentista; no consultório odontológico, quando retornaram para continuar seus tratamentos dentários; e nos aniversários dos bebês. Afinal, já tenho dezenas de afilhados nesses últimos três anos de dedicação ao estudo etnográfico.

Essa forma de geração de dados foi uma surpresa para mim, pois não imaginei previamente transpor ‘mundos’. Na pesquisa etnográfica “parece não haver lugar para se

50Todas as mulheres associo aos seus nomes fictícios as denominações das localidades das quais são nativas, por exemplo, Maria do Rato de Cima ou Maria do Rato de Baixo, Rosa do Cacimbão, Cristina da Cachoeira, Loura dos Tanques, Rosa da Preguiça, entre tantas localidades. Não se trata de remeter uma iconicidade pejorativa de gênero, e sim enfatizar a beleza das denominações que compõem o entorno da Serra do Maranguape e as dezenas de localidades e distritos.

posicionar, de modo a localizar o ‘mundo’ imediatamente à sua volta, e um ‘mundo’ mais amplo à volta de ambos” (GEERTZ, 2012, p. 9). No campo surgiu o inesperado, o contingencial, nossos encontros ulteriores ao hospital pelas mãos do destino que nos enlaçou. Em que serviu a extensão desse encontro? Para aprofundar meus conhecimentos de seus sonhos, alegrias, frustrações para além dos muros do hospital. Evidentemente, guardo desses momentos contingenciais a experiência etnográfica e fui extremamente zelosa para discutir a geração de dados, sob o contorno periférico do hospital conhecido como Gonzaguinha51.

Mas, o exercício etnográfico parece não ter rupturas: é visceral, já não está lá. Ele atravessa e transcende a relação tempo-espaço.

É necessário, então, contentar-se como redemoinhos, confluências e conexões inconstantes; nuvens que se ajuntam, nuvens que se dispersam. (...) O que podemos levantar, se tomarmos notas e sobrevivermos, são os relatos retrospectivos da conexidade das coisas que parecem ter acontecido: as amostras reunidas, após o fato. (GEERTZ, 2012, p. 10).