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Grande parte dos seres humanos, desde seus primeiros dias até sua mocidade, é educada e instruída seguindo sempre programas de ensi- no prefixados, sobre a base de estudos padronizados que moldam suas mentes e com os quais cada um, mais tarde, chega a se formar na profissão escolhida. Todos devem saber, ao deixar as universidades, as mesmas coisas e ter mais ou menos uma análoga apreciação sobre as questões que estudaram.
Porém, embora saiam delas com os conhecimentos que os habili- tam para as funções de médico, advogado, engenheiro, etc., fazem- no sem a preparação que necessitam para enfrentar a vida na grande variedade de suas situações. Já nos primeiros encontros com tais situações, eles se dão conta da real escassez de seus recursos para evitar as dificuldades.
O primeiro recurso é o de recorrer ao conselho dos demais, ape- sar de muito poucas vezes aproveitá-lo. Entretanto, nem sempre isso constitui um recurso eficaz, já que dessa forma se perde a oportunidade de criar a própria capacidade e utilizar os meios que esta mesma capacidade põe ao alcance da mão. Se o conselho proviesse invariavelmente da experiência ou do mais capacitado, não deixaria de ser um auxílio de inestimável valor para quem o solicita; porém, freqüentemente se vê que não acontece assim, e é nesses casos que se dá a desmoralização daquele que buscou ajuda no saber alheio.
O conhecimento transcendente tem por finalidade instruir o ser hu- mano acerca de tudo aquilo que ultrapassa a rotina do pensamento vulgar. Mais ainda: tende a fortalecer o espírito e prepará-lo para todas as contingências da vida. Daí sua importância.
O que não se adverte com o estudo corrente, descobre-se por meio do conhecimento transcendente. E é por isto que este amplia a vida, permitindo que o ser sobreviva ali onde a vida comum sucumbe, por carência de recursos. Quem o cultive poderá, pois, ter uma visão ampla das coisas que o rodeiam e, ainda, penetrar naquilo que, aparente- mente distante, lhe diz respeito diretamente.
Vejamos, através dos parágrafos que seguem, alguns aspectos desse conhecimento cujas virtudes enaltecemos.
O erro mais grave que se comete, e com suma freqüência, é o de con- siderar a vida segundo suas situações, e não como a soma de todos os valores e significados que ela encerra. Assim, por exemplo, na vida dos seres as circunstâncias fáceis se alternam com as difíceis, as plácidas com as tristes, mas nenhuma delas constitui a vida mesma, a que se vive através de suas múltiplas variações e aspectos, a que se realiza apesar de todos os contrastes, contratempos e lutas da vida diária.
Se consideramos que a árvore nasce e morre no mesmo lugar, que o animal é guiado pelo homem, e que a este são os pensamentos que guiam, veremos quanta necessidade há de que a razão individual guie os pensamentos da própria mente, na busca de um destino mais a tom com as prerrogativas de sua inteligência.
Cada um tem um espaço no qual sua vida se desenvolve. Se este é estreito, a vida vegetará e se esterilizará, já que não haverá folga para os movimentos de seu ser, e toda a atividade será precária. Ampliar esse espaço deve ser, pois, um imperativo da consciência, mas ampliá- lo sem privar os demais dos espaços a que têm direito. Para que isso aconteça, deverá ser ampliado o espaço dentro da própria mente, a fim de que a estreiteza mental não comprima nem anule a razão.
Quando o homem consegue compreender que pode ser instrumento de pensamentos estranhos a seus sentimentos, trata por todos os meios a seu alcance de evitar que isso aconteça. E o evita exercendo um domínio sobre aqueles que são seus. Ao ser consciente do que pensa, ele adverte que os pensamentos de sua propriedade não podem ser trocados por outros que sejam alheios à natureza deles.
Costuma-se dizer que quem já sofreu muito compreende mais, por ter participado de todas as angústias. Esse ser é o único capaz de abrir seu coração à desgraça alheia; o único que encontra, no mais feio e horrível, motivo de piedade, de admiração ou de estima, tal como o revela o Mestre da Galiléia, ao mostrar a seus discípulos os dentes do cachorro que lhes inspirava repulsa. O conhecimento transcendente, ao ampliar o juízo, torna os seres justos, elevando-os acima do mes- quinho juízo que o discernimento comum formula.
É um fato comprovado que ser injusto, intolerante e até agressivo é tendência comum. Pois bem; tal atitude, que cria como conseqüência a intolerância, a injustiça e a violência nos demais, contribui a fazer desse mal, que tanto afeta a sociedade humana, uma tendência geral.
O que não é levado em conta, talvez por não se ter refletido detida- mente sobre isto, é que todos os seres vivem no mundo e que todos têm igual direito à vida. E, enquanto esta vida tiver um dono consciente e responsável por ela, ninguém, sob pena de cometer uma arbitrarie- dade, deve levianamente julgar de acordo com as caprichosas figuras de um pensamento deformado.
O bem é sempre grato, qualquer que seja a circunstância em que é recebido; mas o bem que cada um seja capaz de fazer chegar a quem se encontra em situação aflitiva e difícil, deixa de ser um bem para se converter numa bênção. É a suprema expressão da compreensão hu- mana, cumprindo os excelsos preceitos da Lei de Caridade.