CAPÍTULO 2 INFORMALIDADE DAS RELAÇÕES DE TRABALHO HISTÓRICO
2.1. Evolução histórica do trabalho e da proteção social
2.1.2. Idade moderna, estado mínimo e liberalismo
Com a intensificação das relações econômico-sociais nas cidades e o início das grandes navegações, no final do século XIV e durante o XV, ocorre o enfraquecimento do poder exercido pela nobreza e pela Igreja, situação que, aliada às inúmeras crises institucionais por que passaram os Estados Absolutistas, cede espaço ao modelo do Estado Moderno.
Possuindo como marco inicial a tomada de Constantinopla (1455), o Estado Moderno é caracterizado pelo monopólio da elaboração e da aplicação das leis. Havia um governo central, único legitimado a prestar os serviços públicos e a exercer legitimamente a força.72
Neste período, ressalte-se, passam os trabalhadores a se sujeitar a um novo tipo de risco, que vai além da invalidez, da doença e da velhice, comumente tutelados pelas organizações mutualistas.
Ante a natureza das atividades desempenhadas, como a dos marinheiros e dos mineradores, o principal risco a que se expunham os trabalhadores era a própria morte, com o
70 Curso de previdência social. Rio de Janeiro: Forense, 1977, p. 04.
71 Direito previdenciário brasileiro. 11ª edição. Rio de Janeiro: Edições Trabalhistas, 2001, pp. 04 e 05.
72 ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando - introdução à filosofia. 2ª
consequente desamparo de seus familiares.73 É nesse contexto que o sistema de proteção social migra do mutualismo para o seguro privado.74
Atente-se que, mesmo com a alteração da forma de proteção, esta ainda era desempenhada exclusivamente no âmbito privado, sem participação ativa do Estado que não reconhecia como sua a tarefa de amparar a população contingenciada.
Diante da expansão das relações mercantis, entra em ascensão a classe burguesa que, sob influência do liberalismo, buscou fazer frente ao modelo de Estado absolutista então em voga.
No século XVII, portanto, surgem as primeiras ideologias liberais, que buscavam esclarecer, ao menos no plano filosófico, a origem do Estado e do poder como, por exemplo, é o caso das teorias contratualistas, defendidas por Hobbes, Locke e Rousseau. Nesse mesmo período emergem as primitivas aspirações capitalistas, com base no ideal da economia livre, tal como almejado pela burguesia.75
O Liberalismo, tomado como o conjunto de ideias defendidas pela burguesia em oposição à nobreza feudal, pode ser analisado em três concepções distintas: ética, como o corpo de garantias hábeis a assegurar os direitos individuais dos cidadãos diante das arbitrariedades do Estado; política, buscando fundamentar o poder estatal no consenso através do voto, da representação, da separação dos poderes e da limitação do poder central; e econômica, rechaçando a intervenção do governante nos negócios mercantis, como, por exemplo, através da concessão de privilégios (laissez-faire, laissez-passer).
Defende-se, portanto, o Estado mínimo ou não-intervencionista.
Contraditoriamente, todavia, o regime de governo efetivamente instaurado não foi o democrático, uma vez que se preconizava a hegemonia da própria burguesia.
73 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. Rio de Janeiro: Forense, 1977, p. 05.
74 Sobre os primeiros seguros privados, cuja origem coincide com a intensificação das navegações, pondera
Wladimir Novaes Martinez,: “Portugal foi um dos primeiros países a legislar sobe o seguro. Ronaldo Belmonte vê
o seu nascedouro em 1344 (“Obrigações das Empresas Junto à Previdência Social”). A primeira companhia de seguros contra riscos marítimos instalou-se no reinado de Dom Fernando (1367-1383). Uma Casa de Seguros, de Lisboa, surgida por alvará de 11.8.1791. A Caixa de Incêndio da Cidade de Hamburgo, na Alemanha, constituída em 1676. Em 1651, cem fábricas de cerveja uniram-se para proteger-se coletivamente contra o fogo.” Curso de
direito previdenciário – tomo II – previdência social. 2ª edição. São Paulo: LTr, 2003, p. 66
75 ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando - introdução à filosofia. 2ª
Sob influência ideológica do Renascimento, que defendia o humanismo e o antropocentrismo, eclodiu durante os séculos XIV e XV o movimento denominado Reforma, que teve como estopim a veiculação da Bíblia em idiomas que não apenas o latim. Como decorrência, não somente os padres tinham o monopólio da interpretação da palavra de Deus, mas qualquer um que tivesse acesso às Escrituras.
Assim, questionando a relação entre a Igreja e o poder, teóricos como Lutero (Alemanha) e Calvino (França) propõem, em linhas gerais, a separação entre o Estado e a Igreja, incumbindo àquele o exercício exclusivo do poder.
Nesta esteira, surge na Inglaterra o Anglicanismo (1521), durante o reinado de Henrique VIII, que havia sido excomungado pelo Papa Júlio II. Em razão de desavenças pessoais, entendeu por bem o monarca declarar que apenas o rei exerceria, de forma exclusiva e soberana a direção da Igreja, o que culminou, nos anos de 1536 e 1549, no confisco de bens da Igreja Católica na Inglaterra.
Diante disso, a proteção assistencial efetivada em larga escala pela Igreja Católica até então, passa a ser de incumbência do Estado, que adota uma série de providências no combate às necessidades sociais, dentre as quais a obrigatoriedade de exercício de atividade laborativa pelos cidadãos.
Anos depois, é editada a “Lei dos Pobres” (1601) - Poor Law Act – pela Rainha Isabel, considerada doutrinariamente a primeira manifestação concreta do que hoje se concebe como previdência social, inobstante o viés assistencialista do ato.76 Isso porque, pela primeira vez na história, o Estado assume para si as incumbências de regular o assistencialismo, e de efetivar a proteção dos necessitados (oficialização).77
Todavia, analisado este fato em um contexto mais amplo, considerando-se que a assunção de responsabilidade pelo Estado implicaria invariavelmente na elevação de impostos e demais encargos a serem suportados pelos particulares, em completa afronta ao ideal liberal, não houve avanço significativo do sistema público de proteção às necessidades sociais durante
76 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. Rio de Janeiro: Forense, 1977, pp. 06 e 07. 77 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. Rio de Janeiro: Forense, 1977, pp. 07 e 08.
este período. A atuação dos seguros privados e mesmo das associações mutualistas ainda era expressiva, o que perdurou durante toda a Idade Moderna.78
2.1.3. Era contemporânea, estado de bem estar social, socialismo e início da