5 AS PRÁTICAS QUE DERAM ENTUSIASMO AO MEU EU REFLEXIVO
6.1 IDENTIDADE DO SER PROFESSOR: EM BUSCA DA SUA COMPLEXIDADE
Tomando por base as minhas práticas descritas acima, na seção posterior irei contemplá-las hermeneuticamente, sendo eu a própria intérprete.
6 A ARTE DE DECIFRAR A SUBJETIVIDADE: TOMANDO PARA SI O LUGAR DE INTÉRPRETE DA PRÓPRIA PRÁTICA
6.1 IDENTIDADE DO SER PROFESSOR: EM BUSCA DA SUA COMPLEXIDADE A construção da identidade do ser professor é defendida por alguns autores por meio da ideia de que a aprendizagem para a docência se inicia muito antes do ingresso ao ensino superior, e principalmente, muito antes da prática docente, pois, diferentemente de outras profissões, a constituição do
ser professor é algo que se processa ao longo da vida do sujeito que vem a se inserir nesse campo profissional14.
Em conversa com Marinho, Feliciano e Araújo, eles destacaram o fato de que o sujeito que vem a se tornar professor já pisou no chão da escola, já conhece o contexto que envolve tal lugar, afinal, tomando como base a educação brasileira, um aluno que está inserido no ensino básico regular e consegue ingressar na educação superior vive, no mínimo, há 20 anos abarcado no meio escolar e acadêmico. Com toda certeza, este profissional compreende como é estar inserido neste ambiente. Por isso, mais do que uma questão de formação teórica, que estes profissionais encaram nos cursos de graduação, os futuros professores trazem consigo experiências, seja em relação ao ensino que receberam, seja em relação ao um bom ou mau professor que passou pelas suas vidas ou seja também pelas memórias que têm de si próprios como alunos.
Dessa forma, o conceito de subjetividade toma grande importância quando se trata da constituição da identidade profissional do professor, pois acaba que as crenças e experiências de vida se envolvem de forma tão imbricada que influem diretamente no trabalho que possa vir a ser praticado.
Sobre isso, ao descrever para mim o início do século XX, Reche afirmou que esse conceito “[...] está marcado por uma crise no processo de construção de conhecimento devido à exacerbada fragmentação do saber que impossibilitou a compreensão do todo.” E continua dizendo que “a essa incompreensão, é acrescida a fragilização do método científico diante do caos da sociedade e da complexidade das relações”15.
E dessa fragmentação do saber ocorre a cisão das partes, que, diga-se de passagem, são esdiga-senciais para a formação do homem, constituindo o universo da razão e da emoção. E nesse processo dicotômico, em uma sociedade que faz prevalecer a razão sobre a emoção, o homem não é vislumbrado em seu todo, mas em somente uma parte, a parte racional.
14MARINHO CRUZ, L. DE C.; FELICIANO DE LIMA, L.; ARAÚJO BARROS, R, 2020, p. 2.
15 MORIN, 2007a, apud RECHE, 2020, p. 76.
Ainda conforme Reche, a ciência se torna responsável por tornar exclusiva apenas a razão lógica, eliminando as outras visões que, segundo estabelecido por ela, não se enquadram ao seu modo de fazer ciência.
Ainda sobre a razão lógica, a autora destaca ser esta um dos legados do Iluminismo, sendo considerada o único recurso válido para se chegar à verdade, fazendo com que os outros sentidos humanos sejam limitados, desconsiderando o humano enquanto ser de várias aptidões e percepções16. Ao excluir o que a autora me nomeou como outros sentidos humanos, a ciência põe em jogo toda a complexidade do conhecimento, pois, segundo ela, ao lembrar de uma conversa que teve com Nicolescu, o conhecimento é complexo porque é produzido pelo ser humano que também é complexo17. Partindo desse entendimento, lembro-me do que Edgar Morin me falou sobre o conceito de complexidade e que também hoje defendo: “a complexidade é um tecido de elementos heterogêneos inseparavelmente associados, que apresentam a relação paradoxal entre o uno e o múltiplo.
A complexidade é efetivamente a rede de eventos, ações, interações, retroações, determinações, acasos que constituem nosso mundo fenomênico. A complexidade apresenta-se, assim, sob o aspecto perturbador da perplexidade, da desordem, da ambiguidade, da incerteza, ou seja, de tudo aquilo que é se encontra do emaranhado, inextricável”18. É, portanto, neste emaranhado no qual se encontra o homem, pois ele não é somente razão, assim como concebe a ciência, mas ele também é emoção, e esta emoção nós encontramos na afetividade, que é inata ao sujeito, ou seja, o pertence desde o seu nascimento, é inerente, é natural, não tendo como escapar do que já está constituído. Para chegar a esse nível de totalidade característico do ser humano complexo, Fernandes e o Figueiredo me explicam o que Morin os explicou: que é imprescindível que, quando ocorrer a formação pessoal e profissional, haja um movimento de
“religar polaridades consideradas antagônicas, unir extremidades, tecer
16 LUCKESI, 2003 apud RECHE, 2020, p. 77.
17 NICOLESCU, 2000 apud RECHE, 2020, p. 78.
18 MORIN, 2003, p. 44.
pontes entre ideias, temas e conceitos tidos como duais. Para tanto, faz-se necessária uma severa ruptura com os modelos hegemônicos de pensamento e de explicação do mundo e do homem que vêm ao longo dos séculos lutando arduamente por meio da pesquisa, do discurso e da Ciência para a consolidação das dualidades”19.
E é por essa incansável busca por um ser humano complexo que não podemos deixar de lado a sua afetividade, pois ele está o tempo todo no meio social, afetando e sendo afetado. Ainda para esses autores, nós devemos considerar os afetos como algo emergente, pois na grande maioria nós nos afetamos negativamente, agindo de forma impulsiva, sem levar em consideração os danos que as nossas ações podem nos afetar e afetar os outros.
Diante do que foi exposto sobre esta cisão das partes, a professora Passeggi fez uma observação sobre a influência desse aspecto no âmbito da educação ao dizer que a tendência de se fazer ciência estava expressa no esquecimento do sujeito empírico, isto é, “[...] sujeito de carne e osso, feito ao mesmo tempo de razão e emoção, transpassado pela experiência e capaz de refletir sobre si mesmo e sobre ela”20.
Dessa forma, pensando na formação humana e profissional, levamos a questão da afetividade para o âmbito da docência, pois se faz necessário compreender e refletir sobre os afetos pensando em práticas de ensino muito mais humanas.
Fernandes e Figueiredo fizeram uma pesquisa de mestrado que estudou sobre os afetos na constituição da humanidade do homem e de suas inferências no contexto escolar, enquanto prática docente, ao mapear as pesquisas recentes no campo de estudo, na qual me explicaram que encontraram algumas pesquisas relacionadas às emoções dos alunos, abordando também sobre as emoções do professor, porém perceberam que, ao contrário da grande quantidade de pesquisas encontradas
19 MORIN, 2006 apud FERNANDES; FIGUEIREDO, 2020, p. 2.
20PASSEGGI, 2016, p. 71.
relacionadas aos alunos, a sobre os professores era escassa. Nesse sentido, eles concluíram que “esse número diminuto de pesquisas acerca da temática em questão [era] [...] reflexo do pragmatismo e do racionalismo que permeiam o meio científico, o qual descarta as subjetividades para sustentar a pretensa neutralidade da Ciência”21
Ao terminar os diálogos com os autores, pude observar a pesquisa e constatei a comprovação de que não há uma preocupação em pesquisar sobre os impactos da afetividade na prática docente. Também não são consideradas as marcas deixadas pelas experiências, ruins ou boas, de cada professor, isto é, não há investigações sobre as subjetividades. Dessa forma, vemos o quanto se faz necessário a elaboração de mais pesquisas desse cunho investigativo, afinal, já entendemos logo no começo desse trabalho que a formação do professor se inicia muito antes da entrada dele na graduação, pois a sua profissão é a única que se propõe a formar o sujeito cognitivamente, mas também e principalmente, humanamente.
6.2 CONCEPÇÕES EM TORNO DO PROFESSOR REFLEXIVO: A ANÁLISE DE UM