Nesta terceira parte, iniciamos a discussão em torno do objeto desta pesquisa: os discursos e argumentos sobre o impeachment no contexto do afastamento provisório de Dilma Rousseff em 12 de maio de 2016. Apresentamos a seguir o objeto de pesquisa e a metodologia deste estudo e passamos à reconstituição do acontecimento impeachment e do dia do afastamento provisório da ex-presidenta. Também são apresentados os atores a quem estão vinculados os discursos analisados. Por fim, realizamos a classificação e análise dos discursos, argumentos e relações entre os atores do debate público.
3. OBJETO DE PESQUISA
Nosso objeto de estudo são os discursos e argumentos acionados em torno do afastamento provisório de Dilma Rousseff, em 12 de maio de 2016, em um debate público protagonizado por atores políticos vinculados ao Estado, mídia e sociedade, e capazes de mobilizar sentidos e interpretações sobre este acontecimento, considerado como um tema de interesse público. Trabalhamos aqui com atores dos três âmbitos que constituem o debate público (WEBER, 2017) pelas especificidades e responsabilidades que cada um assume. No âmbito do Estado, temos a instância decisória, no Legislativo e, nesse caso, também o alvo do processo, no Executivo; no âmbito midiático, está configurada a instância mediadora, capaz de atribuir credibilidade e visibilidade aos discursos dos demais atores e ao seu próprio; e no âmbito da sociedade civil está o poder de mobilização que ecoa nas esferas de visibilidade e de decisão.
O nosso objeto de pesquisa é formado, assim, pelos acontecimentos do dia 12 de maio de 2016, enquanto contexto específico dos discursos a serem analisados, e pelos atores políticos, sociais e midiáticos que consideramos serem centrais nesse debate. No âmbito do Estado, nos importa o discurso da chefe do Poder Executivo Federal, afastada no dia 12 de maio de 2016, Dilma Rousseff, e de seu substituto, o vice-presidente Michel Temer. Também compõem nosso objeto as lideranças da situação e da oposição no Senado Federal, que decide pelo afastamento da presidenta naquela data. No âmbito midiático, são trazidos atores centrais do campo que se posicionam em editoriais sobre o afastamento de Dilma. Já no âmbito da sociedade civil organizada, abordamos os quatro movimentos sociais que
consideramos terem sido os mais relevantes no contexto do processo de impeachment por terem organizado manifestações tanto pelo impeachment de Dilma, como fizeram Movimento Brasil Livre e Vem Pra Rua, quanto contrárias ao impeachment, caso da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo.
3.1. O dia do afastamento
O dia 12 de maio de 2016 entrou para a história do Brasil como o dia em que Dilma Rousseff (PT) foi afastada pelo Senado Federal, até então, provisoriamente. Ainda no dia 11, sob o comando de Renan Calheiros (PMDB), o Senado Federal deu início à sessão que decidiria pela admissibilidade ou não do processo de impeachment movido contra a presidenta. O que estava em votação, portanto, não era o impeachment, mas se a Casa iniciaria um julgamento, com coleta de provas e oitiva de testemunhas, sobre as alegações do processo de que Dilma havia cometido crimes de responsabilidade em seu primeiro mandato. No início da manhã do dia 12, em uma votação que durou cerca de três minutos, o telão do Plenário do Senado anunciava que, por 55 votos a 22, Dilma Rousseff seria afastada de seu cargo por até 180 dias, enquanto o processo seguiria tramitando. Ainda durante aquela manhã Dilma Rousseff e Michel Temer (PMDB) foram notificados da mudança de governo. A votação no Senado e a consequente mudança na Presidência levaram não apenas a se manifestarem os diretamente envolvidos no episódio (vinculados ao Poder Executivo e Poder Legislativo), mas mobilizaram os diferentes públicos do acontecimento impeachment nos âmbitos do Estado, sociedade e mídia. Dessa forma, são os discursos de atores que se envolveram no debate público sobre o processo de impeachment como atores centrais, produzidos no contexto do afastamento da então presidenta, que interessam diretamente a esta pesquisa.
3.2. O debate público
Os atores do debate público sobre o processo de impeachment contra Dilma Rousseff que são objeto desta pesquisa foram selecionados enquanto representativos dos âmbitos do debate a que pertencem (Estado - Executivo e Legislativo -, mídia e sociedade). Sendo assim, foram selecionados no âmbito do Estado a então presidenta da República, Dilma Rousseff, e o então vice-presidente, Michel Temer, que assume interinamente a Presidência no dia 12.
Também foram selecionados senadores que ocupavam cargo de lideranças parlamentares na época, por serem atores da Casa responsável pelo julgamento do processo no dia do afastamento de Dilma. No âmbito da mídia, essencial ao debate público contemporâneo, temos como objeto veículos da imprensa de referência e mídias alternativas. Já no âmbito da sociedade, os protagonistas são os movimentos que se articularam entre 2014 e 2015 em torno da defesa do impeachment ou da defesa da manutenção do governo. Entendemos que, por serem atores centrais no debate público sobre o impeachment de Dilma Rousseff, os argumentos mobilizados por eles servem como insumo para um debate mais amplo que tomava conta de toda a sociedade naquele contexto. Por isso, ao analisarmos os discursos desses atores, podemos identificar os principais temas e argumentos colocados por eles em circulação no debate público, como atores altamente institucionalizados e interessados no tópico em discussão.
A sociedade também teve papel fundamental no debate público sobre o acontecimento que irrompe com o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Movimentos contrários ao governo se articularam para pedir o impeachment da então presidenta. Ao mesmo tempo, também se organizaram, contra o impeachment, grandes frentes que reuniram movimentos e entidades ligadas aos trabalhadores do campo e da cidade, estudantes, mulheres, jovens, etc. Esse movimentos, que disputaram nas ruas e nas redes digitais a direção do processo e os sentidos do acontecimento são, portanto, parte fundamental do nosso objeto de pesquisa. Os movimentos estudados são: Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre, Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo.
A mídia é parte fundamental dos processos de comunicação pública contemporâneos. Ela atua como esfera de visibilidade pública dos atores e opiniões que se colocam no debate público sobre temas de interesse público, seja pelos formatos informativos do jornalismo, ou pelo entretenimento. Ao mesmo tempo, as instituições midiáticas não são atores desinteressados ou apenas meios por onde passam as opiniões de outrem, ao contrário, também assumem posicionamentos e participam ativamente do debate público. No caso dos veículos jornalísticos, é através dos editoriais que a opinião institucional sobre os temas de interesse público é manifestada. Em um debate público que envolve diferentes setores sociais, como o que se dá em torno do processo de impeachment de Dilma Rousseff, os argumentos tecidos pelos veículos de comunicação, inevitavelmente, entram nessa disputa de sentidos. As mídias que compõem nosso objeto de pesquisa são Folha de S. Paulo e O Globo, dois jornais
de circulação nacional, com as maiores tiragens, de acordo com o IVC, e pertencentes a dois grandes grupos de comunicação, Grupo Folha e Grupo Globo. Além desses, também nos interessam as mídias alternativas Revista Fórum e Brasil de Fato nacional. Essas mídias foram selecionadas pela sua atuação no contexto do impeachment, como mídias vinculadas aos movimentos contrários à cassação de Dilma. Outras mídias alternativas também estiveram engajadas no debate sobre o impeachment. Contudo, essas duas foram selecionadas por utilizarem o formato opinativo de editorial para se posicionarem sobre o tema.
No Poder Executivo Federal, compõem nosso objeto de pesquisa os dois protagonistas que ocuparam a Presidência da República no dia 12 de maio de 2016, Dilma Rousseff, presidenta eleita em 2014, e Michel Temer, vice-presidente, que assume interinamente o posto de presidente com o afastamento da então titular do cargo. No Poder Legislativo Federal, nos interessam os discursos das lideranças vinculadas ao governo e à oposição no Senado Federal, instância decisória final e onde ocorre a votação que decide pelo afastamento provisório de Dilma Rousseff no dia 12 de maio de 2016. Foram selecionados os discursos dos líderes das três maiores bancadas do Senado (PMDB, PT e PSDB), dos líderes dos dois maiores blocos parlamentares (Bloco de Apoio ao Governo, 14 senadores, e Bloco Parlamentar da Oposição, 16 senadores) e do líder do governo. Contudo, são estudados apenas cinco discursos, uma vez que as posições de líder do PT e líder do Bloco de Apoio ao Governo são acumulados pelo mesmo senador.
3.3. Corpus de pesquisa
Buscamos por manifestações desses atores no período de 10 a 13 de maio de 2016, em virtude do afastamento da ex-presidenta pelo Senado no dia 12 de maio de 2016 (ou iminência desse afastamento). Pela natureza diversa dos atores, a busca pelos discursos obedeceu às especificidades de cada um, assim como a seleção dos discursos. Os textos selecionados seguem a orientação de representatividade (representam a opinião do ator, institucional ou não) e pertinência (são adequados aos objetivos da pesquisa). O Quadro 01 explicita os locais de busca e tipos de discurso selecionados.
Quadro 01 - Corpus de pesquisa