II. Objectivos I Resumo
4. O despacho de acusação nos processos especiais 5 “Guidelines”/“checklist” do despacho de acusação
1.3. Indícios suficientes
Em determinada fase do inquérito e esgotada a investigação, vai então surgir a questão sobre se estão ou não reunidos os pressupostos para a prolação de despacho de acusação. A este respeito, atentemos no artigo 283.º do Código de Processo Penal, que dispõe: “1 - Se durante o inquérito tiverem sido recolhidos indícios suficientes de se ter verificado crime e de quem foi o seu agente, o Ministério Público, no prazo de 10 dias3, deduz acusação contra aquele. “2 - Consideram-se suficientes os indícios sempre que deles resultar uma possibilidade razoável de ao arguido vir a ser aplicada, por força deles, em julgamento, uma pena ou uma medida de segurança.”
Este trabalho visa essencialmente a abordagem da prolação do despacho de acusação numa perspectiva prática, razão pela qual, não podemos aqui escalpelizar à exaustão este tema e apenas o fazemos de forma superficial enquanto requisito essencial, senão mesmo primordial, para a prolação do despacho de acusação.
Assim, atente-se que no Código de Processo Penal, encontramos a referência a: “indícios suficientes”, “fortes indícios” e “fortemente indiciado”. E embora expressões idênticas, a verdade é que todas elas têm significados e exigências diferentes.
O requisito exigido pelo art.º 283.º do CPP – “indícios suficientes” – leva-nos necessariamente ao confronto com as questões: o que são indícios? E o que significa a sua suficiência?
Os indícios são, tal como o seu nome o refere, tudo aquilo que indica a existência de algo. E podem manifestar-se através de factos, ocorrências, momentos da vida, mas também podem ser sinais ou vestígios, de onde se extrai, directamente ou por dedução lógica, ou pelas regras da experiência ou através de regras científicas, a verificação de um facto histórico. 3 Prazo meramente ordenador também, e o seu início dependerá do juízo sobre a “suficiência” da prova recolhida
por parte do Magistrado titular do processo.
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BOAS PRÁTICAS: NA ELABORAÇÃO DO DESPACHO DE ACUSAÇÃO EM PROCESSO PENAL 3. Contributos para um Código de Boas Práticas na elaboração do Despacho de Acusação em Processo Penal Como aferir então se são suficientes? E já agora, têm que ser suficientes para quê?
Para responder de forma completa a estas questões, fazemo-nos socorrer do ínsito no Ac. do TRC de 10/09/2008, no processo n.º 195/07.2GBCNT.C14, onde se lê:
“Indícios suficientes são os elementos que, relacionados e conjugados, persuadem da culpabilidade do agente, fazendo nascer a convicção de que virá a ser condenado; são vestígios, suspeitas, presunções, sinais, indicações, suficientes e bastantes para convencer de que há crime e de que alguém determinado é o responsável, de forma que, logicamente relacionados e conjugados formem um todo persuasivo da culpabilidade; enfim, os indícios suficientes consistem nos elementos de facto reunidos no inquérito (e na instrução), os quais, livremente analisados e apreciados, criam a convicção de que, mantendo-se em julgamento, terão sérias probabilidades de conduzir a uma condenação do arguido pelo crime que lhe é imputado.”
Os indícios suficientes exigem assim um juízo de se poder aferir uma possibilidade particularmente forte de futura condenação, o que alguns autores já nomearam de “teoria da probabilidade qualificada”, em que se equipara o prognóstico sobre a condenação no momento da acusação ou da pronúncia à convicção de veracidade em que se tem de fundar a condenação em julgamento.
Luís Osório, aliás, afirma que: “devem considerar-se indícios suficientes aqueles que fizerem nascer em quem os aprecia a convicção de que o réu poderá vir a ser condenado”.
Como se existisse um juízo qualificado de condenação na expressão de indícios suficientes.5
4 Disponível em:
http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/c52b33e4bbf1c451802574de00396725?OpenDo cument
5 No artigo O Conceito de Indícios Suficientes no Processo Penal Português, Jorge Silveira elencou três hipóteses
possíveis de interpretação do conceito de “indícios suficientes” acolhido no Código de Processo Penal vigente: Na primeira hipótese, bastará uma mera possibilidade, ainda que mínima, de futura condenação em julgamento, para se considerar que existem indícios suficientes. Esta tese, que se pode designar por “teoria da probabilidade mínima”, encontra no artigo 311.º, n.º 2, al. a), o seu principal ponto de apoio. Se a lei permite a rejeição da acusação manifestamente infundada, isso significa que toda a que não se possa qualificar como tal se deve considerar fundada em indícios suficientes. E assim, para pronunciar o arguido será necessário apenas que a sua submissão a julgamento não se anteveja como um acto manifestamente inútil ou infundado. Esta interpretação da lei teve pouca expressão na jurisprudência e não encontrámos mais quem a acolha.
Na segunda hipótese, será de considerar que existem indícios suficientes quando em julgamento seja maior a probabilidade de condenação do que de absolvição. Posição que encontramos também na seguinte afirmação de Germano Marques da Silva que a sintetiza: “probabilidade razoável é uma probabilidade mais positiva do que negativa”. E que encontramos também adoptada em várias decisões dos tribunais superiores (cfr. Ac. do STJ, de 21MAI2008 e no acórdão do STJ de 8OUT2008, em que considerou-se que possibilidade razoável de condenação é uma probabilidade mais forte de condenação do que de absolvição).
Por sua vez, no Ac. do TRP, de 23NOV2011 escreveu-se que o juízo de prognose sobre a condenação implica que “se conclua que predomina uma razoável possibilidade do arguido vir a ser condenado”. No entanto, no que parece ser uma aproximação à terceira corrente que adiante iremos referir, também se afirmou que o juízo indiciador em fase de instrução é “semelhante ao juízo condenatório a efectuar em fase de julgamento”. Esta equiparação ao juízo necessário para condenar em julgamento parece significar que a probabilidade de condenação tem de ser qualificada, dado que uma mera predominância de indícios de culpabilidade não é compatível com o grau de certeza necessário para a sentença condenatória, que tem de superar a existência de qualquer dúvida razoável. Esta terceira hipótese de interpretação considera que os indícios suficientes exigem então uma possibilidade particularmente forte de futura condenação. Esta “teoria da probabilidade qualificada” de alguma maneira
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BOAS PRÁTICAS: NA ELABORAÇÃO DO DESPACHO DE ACUSAÇÃO EM PROCESSO PENAL 3. Contributos para um Código de Boas Práticas na elaboração do Despacho de Acusação em Processo Penal A jurisprudência mais recente em Portugal tem vindo a aderir a este critério de juízo qualificado, realçando que devem ser recusadas preposições como “bastam indícios para acusar, mas é necessário prova para condenar” ou formular a questão “existe uma maior probabilidade de condenação do que de absolvição?”, para aferir da existência de indícios suficientes.
Mas atenção, para afastar a prolação de acusação com base no in dubio pro reo, há que atentar que só releva a dúvida insanável ou definitiva, ou seja aquela que não pode ser esclarecida, estando esgotadas todas as diligências que o poderiam fazer (questão também já analisada como “a doubt for which reasons can be given”6.
Assim, no final do inquérito há que formular questões essenciais, e os indícios serão suficientes se as respostas forem afirmativas às seguintes questões:
− Existiu algum crime? − O arguido é o seu autor?
− Em julgamento será o arguido condenado por estes factos e com estas provas?