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PARTE I – O PROBLEMA E OS FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

PARTE 3 INSTITUCIONALIDADE E ESPACIALIDADE DA INDÚSTRIA DE

Como vimos no capítulo anterior, a indústria de celulose no Brasil é resultado de um processo histórico responsável por dotar o território Brasileiro de grande competitividade, ao somar vantagens técnico-econômicas proporcionadas pela configuração natural e humanizada do território, bem como pela esfera institucional com atitudes, normas e leis favoráveis ao amplo crescimento da indústria. Num cenário internacional, as características apresentadas pelo espaço banal nacional tornaram-se trunfos buscados pelas empresas.

Duas questões emergem para tratamento:

a) O que mudou no cenário internacional a ponto de promover a reorganização espacial da produção de celulose, tal como visto no capítulo 1?

b) Já em solo nacional, que fatores foram responsáveis por tornar o Rio Grande do Sul um novo espaço de atuação no limiar dos anos 2000? Para responder essas questões, precisaremos recorrer a um trânsito entre escalas, baseado no movimento dos atores econômicos em escala global e em suas decisões e manifestações no cenário interno brasileiro, o que inclui o processo decisório dos investimentos no Rio Grande do Sul.

Tal empreendimento analítico é bastante complexo e exige um esforço de apreensão do quadro geral, já que os esquemas tradicionais de análise na geografia preveem o tratamento dos temas pertinentes a cada escala e sua posterior concatenação. O problema da escala de pesquisa a ser adotada emerge, portanto, como uma necessidade de esclarecimento. A complexificação dos fluxos econômicos, das articulações políticas, das organizações sociais e do surgimento de uma ambiente institucional de normas e organizações com influências espacialmente abrangentes tem levado os geógrafos a rediscutirem a questão do tratamento dado à escala. Castro (1995) aponta para o fato da escala geográfica ter sido confundida durante muito tempo com a escala da cartografia, uma crítica encontrada já no geógrafo Yves Lacoste (1988), como cita a própria autora.

Neil Smith (2000) também acusa os geógrafos de terem tratado a escala como mera questão de preferência metodológica dos pesquisadores. Essa acepção estanque traria entre outros problemas, a incapacidade de tratar de fenômenos que

atravessam as escalas, como se fosse possível entender cada nível isoladamente, através de um movimento linear da grande à pequena escala, ou vice-versa. A realidade que se descortinou nas últimas décadas com fluxos materiais e imateriais influentes sobre a totalidade, tanto da escala global para os lugares, quanto dos eventos pontuais territorialmente, mas com repercussões de ordem geral. É o chamado alargamento dos contextos (SANTOS, 2001)

De um lado, a divisão do trabalho se amplia abrangendo muitos mais espaços, e, de outro, ela se aprofunda interessando a um número muito maior de pontos, de lugares, de pessoas, e de empresas em todos os países. Na medida em que se multiplicam as interdependências e cresce o número de atores envolvidos no processo, podemos dizer que não apenas se alarga a dimensão dos contextos com aumenta sua espessura. (SANTOS, 2001, p. 254)

Para tratar dessa espessura, ou seja, da dependência dos eventos à fenômenos interescalares, observa-se tentativas de operacionalizar mudanças de escala, a partir das análises do local ao global, passando pelos níveis regional e nacional. Algumas dessas tentativas de operacionalização foram relativizadas e problematizas por Castro (1995).

Mais recentemente, vemos por parte dos geógrafos e demais pesquisadores dos fenômenos espaciais um tratamento diferenciado aos fenômenos escalares. Distanciando-se do objetivo de criar modelos, observa-se a orientação no sentido de perceber as escalas como mais uma dimensão dos processos, não apenas um nível de enquadramento da realidade. Encontramos essa orientação nas propostas de Smith (2000) e Vainer (2001). A começar por Smith (2000, p. 142) temos:

É possível conceber a escala como uma resolução geográfica dos processos sociais contraditórios de competição e cooperação. A produção e a reprodução contínuas de escala expressa tanto a disputa social quanto a geográfica para estabelecer fronteiras entre diferentes lugares, localizações e sítios de experiência.

Em direção semelhante, Vainer (2001, P. 143) entende as escalas para além de sua dimensão de continente:

O entendimento de que os processos econômicos, políticos, sociais e culturais têm dimensões escalares não pode conduzir à reificação das escalas, como se estas antecedessem e contivessem (como um receptáculo) os processos. O que temos são processos com suas dimensões escalares, quase sempre transescalares (...)

Com base no exposto e considerando nosso problema de pesquisa em específico, acreditamos que para além de um procedimento metodológico, as escalas espaciais aparecem, por si, como um resultado da análise, como mais um nível de compreensão das estratégias dos agentes e do alcance das instituições, como mais uma determinação às dinâmicas territoriais. Assim sendo nosso procedimento visa articular o plano global à realidade nacional e diferentes respostas regionais/locais à organização territorial das agroindústrias de celulose. Entretanto, as escalas não estão previamente definidas, tampouco pode-se estabelecer um fluxo unidirecional pré-definido entre realidade global – local. A cada momento, buscaremos estabelecer as conexões entre os fenômenos identificados em diferentes escalas, tendo os agentes e as instituições como produtores das dinâmicas que produzem o movimento escalar.

A dinâmica da escala global nos é dada pelos movimentos da empresa Stora Enso, a qual será utilizada como um indicador das determinações institucionais em escala global e nos cenários nacionais nos quais atua ou atuou. Tal empresa manifestou grande atividade espacial nos anos 1990-2000, mobilizando-se entre diversos territórios nacionais na Europa, América do Norte, Ásia e América Latina entrando em território nacional nesse período. A Stora Enso será portanto tomada como o agente que nos permitirá vislumbrar as conexões entre as determinações institucionais em escala global, nacional e local.

A partir da decisão da empresa por se estabelecer em território nacional, a dinâmica nessa referida escala foi avaliada a luz tanto de seu comportamento, quanto das ações das empresas Aracruz Celulose e Votorantin (VCP) o que permitiu enriquecer os detalhamentos dos processos ocorrentes nessa escala. É necessário dizer, entretanto, que suas próprias dinâmicas estão profundamente articuladas ao plano de determinações internacional que passou a influenciar o setor nas últimas décadas.

A coleta de informações sobre a Stora Enso envolveu a investigação dos relatórios semanalmente emitidos aos acionistas no período 1998 – 2008. O critério de seleção para o registro das informações foram relatos de alterações nos procedimentos técnicos, fusões, aquisições, ampliações de capacidades produtivas, bem como manifestações da empresa sobre aspectos que envolvem conflitos de ordem ambiental e trabalhista. Os registros inicialmente coletados em ordem cronológica foram posteriormente aglutinados por categoria de evento, dando origem a estrutura de tópicos que segue nas próximas páginas.

Complementando essas informações, relatórios semestrais da empresa. Esse procedimento foi adotado também para as empresas Aracruz e VCP34, as quais disponibilizam periodicamente seus relatórios que, embora direcionados ao público acionista, permanecem disponíveis nos sítios eletrônicos das mesmas.

34

Após a aquisição da Aracruz por parte da VCP e a formação da empresa Fíbria, as informações de ambas as empresas permaneceram disponíveis para consulta por tempo determinado. Posteriormente, os sites foram removidos.

CAPÍTULO 6. STORA ENSO: MOBILIDADE ESPACIAL À ESCALA